Entrevista | “A gente não pode esquecer o passado”: Ana Luíza Azevedo fala sobre Medley
Diretora comenta as relações familiares, os desafios de retratar a adolescência e a construção da subjetividade no longa, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (29)

A adolescência, as relações familiares e as descobertas que marcam o amadurecimento estão no centro de Medley, novo filme dirigido por Ana Luíza Azevedo, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 29 de outubro. Ambientada no interior do Rio de Janeiro, na década de 1990, a produção acompanha uma jovem que precisa lidar com ausências, silêncios e questões do passado enquanto atravessa as transformações dessa fase da vida.
Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora falou sobre os elementos que a atraíram para a história, baseada em um livro, e os desafios de construir personagens complexas, sem reduzi-las a papéis de vilãs ou mocinhas. A cineasta também comentou como a natação contribui para a trajetória da protagonista e como o trabalho com o som ajuda a traduzir sua subjetividade, seus medos e seus momentos de tranquilidade.
Ao longo da conversa, Ana Luíza refletiu sobre o potencial das histórias de amadurecimento para alcançar diferentes gerações e destacou a importância de olhar para o passado como forma de compreender o presente e evitar que determinados acontecimentos se repitam.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Assisti ao filme no Festival do Rio, há duas ou três semanas, mais ou menos, e gostei muito. Acho que, quando li a sinopse, o que me interessou foi justamente essa questão da descoberta. Eu adoro filmes desse gênero, de amadurecimento, sabe? Foi por isso que me interessei em assistir e gostei bastante. Queria te parabenizar pelo trabalho! Sou Gabriella, do Oxente Pipoca, e queria saber o que te chamou a atenção nessa história, já que o filme é baseado em um livro. O que te motivou a levar essa narrativa também para as telas do cinema?
Ana Luíza Azevedo: Oi, Gabriella, tudo bom? Que bom que tu gostaste do filme e que isso te chamou a atenção!
Os filmes sobre adolescência e amadurecimento são histórias que me interessam muito. Acho que são filmes que alcançam um público muito amplo, porque envolvem pessoas que já passaram por essa idade, quem está passando por ela e quem ainda vai passar. É uma etapa da vida dramaticamente muito interessante para nós, dramaturgos, escritores e diretores de cinema, porque a adolescência é um drama só. Tudo parece que vai acabar no dia seguinte, então tudo é dramático.
Eu odeio quando os adultos dizem: “Ah, mas isso vai passar, isso não é nada”. É, sim, muito importante naquele momento e, muitas vezes, tem consequências muito sérias. Então, a gente precisa olhar para isso com atenção.
Nessa história, havia outras camadas que me interessavam. Existe ali um silêncio, algumas ausências, elementos que são muito importantes para uma narrativa. Há também temas tabus, como a morte, que são difíceis de abordar, além das dificuldades na relação entre mãe e filha. Existe essa dificuldade de comunicação, em que uma parece sempre dizer a coisa errada na hora errada.
Isso é muito mais interessante do que aqueles personagens que são psicanalisados, que sabem tudo o que pensam e falam tudo, que dizem a coisa certa na hora certa. Isso é muito chato. Personagens erráticos são muito mais interessantes, porque são mais verdadeiros, mais humanos.
Interessa-me entender aquela mãe, compreender essa dificuldade de relacionamento entre as duas e acompanhar essa menina que também vai em busca de respostas, que precisa mergulhar nesse passado. Isso me interessa muito mais, e todos esses elementos estavam presentes nessa história.
Então, não é só um filme sobre adolescência. É uma história que tem muitas camadas. E trabalhar isso no cinema, trabalhar a ausência, o silêncio e a subjetividade dos personagens são algumas das coisas que me interessam quando faço um filme.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma das coisas que achei mais interessantes no filme é justamente isso que você trouxe sobre a relação dela com a mãe. É muito bacana perceber que não existe aquele papel de antagonismo que a gente costuma encontrar em histórias assim. Ao final do filme, você consegue compreender aquela relação, as dores e tudo aquilo que as personagens sentem.
Queria saber como foi, para você, como diretora, trabalhar a partir do texto para construir essa relação sem cair na dualidade de colocar a mãe como vilã ou algo do tipo. São temas complexos, como você comentou, e achei interessante a forma como o filme aborda isso.
Ana Luíza Azevedo: Acho que me interessa, na dramaturgia, trabalhar essas complexidades muito mais do que essa questão do bem e do mal. Não existe isso de um personagem ser do bem e outro ser do mal, de ter o vilão e o mocinho. Todo mundo tem suas razões para ser como é.
O Éder Escola sempre dizia: “Defenda os seus personagens mesmo quando eles não têm razão”. Eles têm uma razão própria para serem assim.
Essa mãe é muito humana. No início, a gente fica pensando: “Poxa, não pode dar um pouco de atenção para essa menina?”. Mas, ao mesmo tempo, ela é muito compreensível. Até o silêncio e a dificuldade que ela tem de falar sobre aquele abandono, sobre a ausência do pai, a gente compreende no final.
Para mim, o grande desafio era fazer com que não só a personagem perdoasse a mãe, mas que nós, como público, também conseguíssemos perdoá-la, compreendê-la.
A Mariana Lima é uma grande atriz e acho que ela trabalhou essa personagem muito bem, trazendo muitas nuances. Existe amor, mas também um jeito meio desajeitado de dizer as coisas, de falar e de cuidar. Ao mesmo tempo, ela está preocupada com os próprios problemas, como corrigir aquelas provas. Parece uma questão tão mundana, mas é o trabalho com que ela sustenta a filha.
Acho que consegui trabalhar isso muito bem junto com as atrizes, tanto a Mel quanto a Mariana, para dar profundidade às personagens. Mesmo que elas tenham poucas cenas, são momentos fundamentais para que a gente consiga compreendê-las.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Outra coisa de que gostei bastante foi a ambientação do filme, que se passa no interior do Rio de Janeiro, na década de 1990. Queria saber como foi trabalhar essa ambientação e como você acredita que essa atmosfera contribui para a história.
Ana Luíza Azevedo: Primeiro, a gente precisava encontrar um lugar que fosse fora do Rio dentro do próprio Rio, porque não tínhamos orçamento para filmar em outro lugar. Isso também é delicioso, porque são as pequenas mentiras do cinema. É pensar: “Bom, como é que vou construir essa cidade de Salto Bonito?”.
Foi muito bom porque conheci um Rio de Janeiro que não conhecia. Sou gaúcha, de Porto Alegre, e sempre fui muito ao Rio, mas, quando você está trabalhando, conhece a cidade de outra maneira, tanto pelas pessoas que estão trabalhando com você quanto pelos lugares que frequenta. É diferente de quando você vai como turista, então foi muito gostoso.
Essa história se passar no interior também tem a ver comigo, de alguma forma, porque cresci no interior. Não passei tanto tempo lá, porque, quando já era adolescente, estava em Porto Alegre, mas passava todas as minhas férias em uma cidade muito, muito pequena.
Essa ideia do interior em que todo mundo se conhece, todo mundo sabe quem você é, é muito própria de uma cidade pequena. Isso pode ser bom e ruim ao mesmo tempo. Você pode fazer compras e deixar anotado em um caderninho, mas, por outro lado, qualquer coisa que você faça, todo mundo sabe quem você é, conhece seu sobrenome, sabe de quem você é filha ou sobrinha.
Também existe essa coisa da turma, de todos os adolescentes se conhecerem e de os espaços públicos serem acessíveis. Estar em uma praça pública, em uma rodinha de violão, é algo possível. Trabalhar com essas ideias e retratar essa juventude criada no interior foi muito gostoso, porque eram situações bastante familiares para mim.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Tem outra coisa muito bacana no filme, que é a dinâmica da Lola com a natação. Existe tanto essa ruptura com a modalidade, por conta do bloqueio que ela enfrenta, quanto a relação que ela constrói com os colegas ao longo da história. No início, ela é mais retraída e solitária, mas, aos poucos, vemos essas amizades surgirem e o grupo se formar.
Queria que você falasse um pouco sobre como foi inserir a natação na história. Imagino que também tenha sido divertido gravar essas cenas, por ser algo diferente do que a gente costuma ver no cinema.
Ana Luíza Azevedo: A gente filmou em um verão muito quente. Era novembro de 2024, e estava muito calor no Rio. Então, só de estar perto da piscina já era muito gostoso. Para as atrizes também, que precisavam passar tanto tempo dentro da água. No último dia de filmagem na piscina, elas me jogaram na água! Foi ótimo, porque entrei de roupa e tudo. Foi muito bom.
A água, a piscina e a natação servem muito à história. Isso já estava no roteiro quando conheci o projeto. E a natação tem justamente essa característica que você mencionou: ao mesmo tempo que exige uma dimensão coletiva, de fazer parte de um grupo, também é uma atividade muito solitária.
Para a Lola, que vive tão sozinha naquele momento, fazer parte desse grupo é fundamental. Ela vai se conectando com a cidade, com as pessoas e construindo essas relações. Mas, ao mesmo tempo, a natação também é muito solitária.
Eu nado, embora não seja nadadora nem nunca tenha competido, e adoro a água. Quando você mergulha, já se isola do mundo real, porque tudo o que chega até você é distorcido. A imagem é distorcida, o som é distorcido. Isso já te coloca em outro universo.
Também quis trazer um pouco da subjetividade do atleta, os sons que ele vivencia naquele momento e não apenas aquilo que escuta, mas aquilo que privilegia ouvir. A Lili Soares, nossa diretora de fotografia, foi corredora e competia de verdade. Ela me contou que, durante uma competição, mesmo com plateia e torcida ao redor, o que escutava eram os próprios passos, a respiração e a pulsação. O som da plateia ficava distante.
Na natação, é ainda mais fácil trabalhar essa sensação, porque ela é real. É muito gostoso explorar isso no cinema.
Trabalhei toda a composição sonora do filme com o Bernardo Taraciuk, e tivemos muita liberdade nesse processo. O som revela toda a subjetividade da Lola. Se a imagem tem um tratamento mais realista, o som não segue necessariamente esse caminho. Nele, a gente se permite explorar e revelar o que ela sente.
Quando ela está com medo, por exemplo, os sons da floresta e o barulho do besouro ficam enormes. Eles se tornam muito mais expressivos do que seriam em uma abordagem realista. Em outros momentos, quando ela está tranquila, o som realista da cena também ajuda a revelar esse estado emocional.
Esse era um elemento de linguagem que me interessava explorar no filme. A Lola é muito introspectiva e solitária, marcada pela ausência do pai e por tantos silêncios. Então, eu queria encontrar uma maneira de traduzir tudo isso para a linguagem audiovisual. Trabalhei muito com o Bernardo e com o Leo Enki, que fez a trilha sonora, para trazer essa subjetividade também por meio do som.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma questão específica que queria te perguntar é que acho que o cinema, de modo geral, mas também o cinema brasileiro, vem explorando diferentes perspectivas para contar histórias sobre a adolescência, embora nem sempre essas histórias estejam no centro da narrativa. Queria saber quais possibilidades você enxerga nesse tipo de filme, tanto para dialogar com o público mais jovem quanto com o público adulto.
Ana Luíza Azevedo: Acho que esses filmes têm um público muito amplo. O grande desafio é, na divulgação, tentar mostrar às pessoas: “Vão ver! É um filme jovem, mas os adultos também vão se identificar”.
Temos visto isso nos festivais por onde o filme passa, que costumam ter plateias mais adultas. As pessoas saem emocionadas do filme. Como eu disse antes, são histórias que tocam e emocionam quem está naquela idade, quem já passou por essa experiência ou quem está louco para ser adolescente. Acho que o filme consegue se comunicar muito bem com um público que vai da pré-adolescência até a idade adulta.
A história da menina com a mãe também toca muita gente, seja porque a pessoa é filha, seja porque é mãe. A maternidade é muito difícil. Você nunca sabe se disse a coisa certa na hora certa. Às vezes, fala alguma coisa e, depois, acha que não deveria ter dito aquilo. Está sempre tateando, tentando descobrir como agir.
Então, acho que o filme também toca e emociona as mães, inclusive as mães solo. Essa questão faz parte da história, porque essa mulher precisa sustentar a filha e dar conta de tudo. Ela é uma guerreira no trabalho, mas, às vezes, acaba sendo negligente como mãe, deixando lacunas e ausências que a filha sente.
Acho que essa complexidade também permite que muitas pessoas se identifiquem com a história.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme chega aos cinemas nesta quinta-feira, e queria saber o que você espera que permaneça com o público depois que a sessão acabar. Qual é o seu maior desejo, como diretora, em relação ao que as pessoas vão levar consigo depois de assistir ao filme?
Ana Luíza Azevedo: Acho que existe um aspecto dessa história que considero muito bonito, que é a necessidade de mergulhar no passado para entender o presente. E acho que isso vai além das histórias pessoais.
Estamos vivendo um momento no Brasil em que precisamos estar sempre pensando que não podemos esquecer o passado. Temos que compreendê-lo, tanto os acontecimentos recentes quanto aqueles mais distantes, para evitar que certas coisas se repitam. Acho que esse é um dos aspectos abordados pelo filme e, se pensarmos em mensagens, é uma das mais contundentes e importantes da história.
Ao mesmo tempo, acho fundamental que as pessoas assistam a Medley no cinema, a partir desta quinta-feira, dia 29. É muito bacana assistir ao filme na tela grande porque o cinema oferece aquelas informações de que estávamos falando, especialmente em relação ao som e às imagens da água. Os mergulhos no mar e nas piscinas não têm o mesmo efeito quando assistimos ao filme em uma telinha pequena. Eu adoraria que as pessoas tivessem essa experiência no cinema.
Mas existe algo muito bonito no cinema: os filmes continuam existindo. Eles precisam encontrar seu público, e cada pessoa vai assisti-los na tela que quiser. Não temos como obrigar ninguém a ir ao cinema, mas os filmes permanecem.
Fiz outro filme sobre adolescência, Antes que o Mundo Acabe, que continua sendo exibido até hoje. Ontem mesmo, dia 26, houve uma sessão para estudantes na Cinemateca Capitólio, em uma tela enorme e linda. Então, o filme continua acontecendo, sempre.
Essa é uma das grandes vantagens de trabalhar com cinema e com as artes em geral: a permanência. Quando um filme é bom, quando uma história é boa, ela continua existindo e encontrando novas pessoas. Com o tempo, também passa a ser um testemunho de uma época. É um registro do período que retrata, mas também do momento em que foi realizado. Assim, ganha novas camadas de significado.
Acho que essas múltiplas camadas são um dos grandes prazeres e desafios de fazer cinema.












