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Entrevista | “A morte é inegociável e definitiva”: Leo Bello e Gabriela Correa falam sobre Cartório das Almas

Gabriella Ferreira

28 de out de 2026 · 11 min de leitura

Longa-metragem de ficção científica dirigido por Leo Bello chega aos cinemas com reflexões sobre a finitude da vida, a solidão e o direito à morte

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

A morte como parte natural da vida é o ponto de partida de Cartório das Almas, ficção científica brasileira dirigida por Leo Bello e estrelada por Gabriela Correa, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (29). Ambientado em um futuro no qual a humanidade alcançou a imortalidade, o longa acompanha Laura, uma funcionária de um cartório responsável por registrar questões relacionadas à morte, em uma narrativa que questiona a eternidade e as consequências de viver sem o fim da existência.


Em entrevista ao Oxente Pipoca, Leo Bello e Gabriela Correa comentaram o processo de criação do universo do filme, as escolhas estéticas para construir um futuro atemporal com orçamento reduzido e os desafios de representar uma personagem que precisa neutralizar as próprias emoções. Os artistas também falaram sobre as reflexões filosóficas que atravessam a obra e a expectativa de que o público se permita conhecer uma produção independente realizada no Distrito Federal.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Queria começar parabenizando vocês pelo trabalho. Cartório das Almas é um filme com uma premissa instigante, que mistura ficção científica e futurismo. Quando a gente começa a assistir, não sabe muito bem para onde a história vai, e isso acaba despertando a curiosidade e envolvendo o espectador. Então, queria que vocês começassem falando sobre como surgiu essa história e como ela se transformou no filme que a gente vê hoje. E, para a Gabriela, queria saber o que mais chamou sua atenção quando você conheceu o roteiro.

Leo Bello: O filme nasceu de uma vontade de falar sobre a morte, mas eu não queria trazer o naturalismo para abordar um tema tão pesado com esse mesmo peso. Foi daí que surgiu a ideia de uma ficção científica, com uma pessoa que trabalha nesse cartório onde as pessoas vão para protocolar o sentido da morte, já que vivem a eternidade.


A partir daí, nasceu essa vontade de trazer o tema. Foi uma escrita muito subjetiva, muito aberta, baseada em alguns pensadores que já trataram dessa questão, como Schopenhauer, Nietzsche e Aristóteles. Então, foi uma pesquisa, um estudo em cima disso.


Eu também queria trazer o cenário de Brasília, com aquela arquitetura modernista de Niemeyer, que representa a ideia de um futuro que ficou no passado. Queria aproveitar esse cenário para construir a narrativa, porque você vê um conflito completamente atemporal. A história se passa em Brasília, mas você não vê carros nem outros elementos que situem aquele universo em um tempo específico. A busca maior era falar sobre o direito à morte, o respeito à morte e a possibilidade de enxergá-la como um processo natural e humano, dentro de uma filosofia cíclica.


Gabriela Correa: Quando o Leo me falou pela primeira vez sobre a personagem e a história, lembro de sentir muita curiosidade, que acho que é o que todo mundo sente quando vê um teaser ou trailer de Cartório das Almas. Ao mesmo tempo, algo me chamava para dentro daquela história, porque não é todo dia que a gente encontra projetos que debatem temas tão existenciais.


O Leo é muito existencial e tem essa perspectiva de usar a ficção científica para falar de um tema existencial, mas que também é uma questão muito presente na nossa realidade. Lembro que, na época, ele me falou sobre o Godard, que já morreu, mas queria ter o direito de decidir como partir, e ele teve essa possibilidade. Acho que foi na Suécia, Leo? Lá é legalizado, né, você optar pelo término da vida. Então, era uma questão que despertou muita curiosidade em mim, além do interesse em saber como a gente contaria essa história e a transformaria em linguagem cinematográfica.


O roteiro tem elementos e dispositivos muito bons, que dão margem para muita coisa. Acho que o Leo conseguiu trazer para o filme, para a linguagem cinematográfica, a visão que tem sobre esse assunto e colocar em imagens e símbolos todas essas questões complexas e densas. Acredito que o filme consegue fazer isso. Então, fiquei muito curiosa e com muita vontade de descobrir como a gente faria, e a gente fez.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Tem algo muito curioso na sua personagem, porque ela começa o filme de maneira bastante contida. A gente acompanha a rotina de trabalho dela, mas, ao longo da história, começa a perceber mais reações e a entender essa dualidade entre a morte, a imortalidade e o fardo de carregar essa condição. Queria que você falasse sobre o processo de construção dessa personagem como atriz, pensando nessa trajetória que vai de alguém cujas emoções são difíceis de decifrar até uma figura que se revela mais ao espectador.

Gabriela Correa: A gente tinha essa questão dos banhos e de como ela, de alguma maneira, não necessariamente dopada, mas, para se manter viva, precisava abdicar das emoções. Era quase como quando você toma uma medicação para neutralizar tudo: você não fica nem muito feliz, nem muito triste, não sente nada. Para não sentir as coisas de forma exagerada, ela começava a sentir tudo de maneira neutra.


Esse foi um desafio que o Leo trouxe para a gente, tanto para mim, como atriz, quanto para a Larissa Mauro, nossa preparadora de elenco. Precisávamos pensar em como trabalhar esse arco da Laura ao longo do filme, porque, no início, ela está nesse estado de letargia, apatia e contenção.


Aos poucos, ela vai se implicando, descobrindo coisas e abdicando dos banhos. Começa a tentar entender o que acontece se não seguir aquele ritual, o que acontece se atravessar o véu. Acho que o trabalho do Leo junto com a preparação de elenco foi muito importante. Sou uma defensora da preparação de elenco. Tem atores que não gostam, mas acho essencial. O Leo estava sempre presente na sala de ensaio, e esse trabalho conjunto foi fundamental para a gente conseguir afinar o que era essa personagem, o que ela estava sentindo e para onde estava indo, construindo toda essa unidade que a gente vê ao longo do filme.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Leo, queria saber como você trabalhou para construir esse futuro retratado no filme e, ao mesmo tempo, criar um universo com o qual o espectador consegue se conectar. Pelo menos para mim, essa foi uma das impressões durante a sessão. Como foi pensar nas locações e nos cenários para dar vida a esse mundo?

Leo Bello: Para criar um mundo fantástico, com regras próprias, você precisa construir um universo que seja crível. Isso começa pelo tom da atuação, pela construção dos diálogos e também pelo cenário. Se, de repente, a gente começa a ver pessoas comuns vivendo naquele espaço, pode deixar de acreditar na ideia de futuro que estamos construindo, que é, na verdade, um futuro meio atemporal.


Usamos elementos de arte de várias gerações. Temos objetos antigos, como o telefone, e vários outros elementos dentro do cartório. Ao mesmo tempo, usamos o Museu Nacional, onde acontecem os banhos. Para mim, a própria arquitetura de Niemeyer já é uma obra cênica. Você quase não precisa acrescentar elementos àquele espaço, porque o museu já oferece essa atmosfera. Tivemos a sorte de conseguir filmar lá sem a disposição habitual dos objetos.


Também usamos a Torre de TV Digital, que já tem esse aspecto futurista impresso em sua arquitetura. Aproveitamos esses elementos e cenários que conseguimos acessar, considerando que o filme tem um orçamento baixo. Fazer ficção científica com baixo orçamento é ainda mais complexo, então trabalhamos com esses espaços e com a direção de arte da Maíra Carvalho, usando uma licença poética a partir da arquitetura de Niemeyer para construir esses mundos.


Filmamos também em uma pedreira e em uma plantação de soja já colhida, além de uma casinha isolada no meio do nada, onde fica o cartório. Tudo isso fazia parte da ideia de construir esse universo. Por isso, não incluímos outros elementos da cidade que pudessem desviar a atenção ou descaracterizar esse mundo. Quando você cria um universo próprio, ele tem suas próprias regras.


Gabriela Correa: Nossa, acho que esse é um dos grandes méritos do filme. A gente o reassistiu no Rio, na semana passada, durante uma exibição, e fazia um tempo que eu não o via. Fiquei pensando justamente nisso: em como você conseguiu imprimir esse mundo, que não existe, e trazer todos esses elementos para criar uma atmosfera própria, mesmo com o desafio de trabalhar com baixo orçamento e sem toda a estrutura necessária para construir um universo tão complexo.


Acho que o filme consegue fazer isso por meio do trabalho conjunto de toda a equipe, especialmente da direção de arte e de quem trabalhou com cenografia, figurino e maquiagem, com a Peroni. A fotografia do Pedro Maffei também contribui muito, porque as cores do filme nos transportam para um contexto completamente antinatural.


Então, considero um mérito muito grande conseguir fazer um filme de ficção científica, de gênero e fantasia com um orçamento baixo, dentro da realidade com a qual estamos acostumados a trabalhar no cinema independente.


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Outra coisa que eu queria saber é que o filme propõe reflexões muito interessantes sobre a solidão, o fardo de viver eternamente e várias outras questões existenciais. Durante a realização do longa ou mesmo depois, ao assistirem ao resultado final, houve algum momento, cena ou situação que mudou a maneira como vocês próprios enxergam as questões que o filme aborda?

Leo Bello: Houve uma exibição em um festival na Índia, em Calcutá, para o qual eu fui. Quando o filme terminou, um crítico perguntou se ele era budista, porque enxergava na obra uma filosofia budista, justamente por tratar a morte como um ciclo natural da vida.


Depois, fui para a coletiva de imprensa, e os jornalistas fizeram a mesma pergunta. Foi interessante perceber como o filme encontrou essa leitura no Oriente. Embora eu me aproxime do budismo e goste muito da filosofia budista, não sou budista. Ainda assim, o filme acabou despertando esse olhar, e foi uma referência muito interessante para mim, porque gosto bastante dessa filosofia.


O filme também traz algumas escolhas relacionadas à maneira como aborda a morte. Temos pouca trilha sonora, por exemplo. Existem muitos elementos que poderiam ser considerados trilha, mas que funcionam mais como um desenho de som, construído a partir de determinados elementos. A trilha propriamente dita aparece no final, durante os créditos.


Precisávamos daquele vazio da existência, daquele vazio da morte. Queríamos criar essa atmosfera. Durante a montagem, percebemos que havíamos feito muito mais trilha sonora do que o filme precisava. Sentimos que era necessário retirar parte dela e trazer esse desconforto, essa sensação do tempo passando e de que nada acontece. Isso também faz parte da experiência que queríamos proporcionar ao espectador.


Gabriela Correa: A Laura já vivia nesse lugar, e isso acabou se tornando uma característica do próprio filme. Acho que Cartório das Almas é um filme meditativo. Há algum tempo, assisti a um filme em um festival que também tinha essa característica de meditação. É claro que ele não tem necessariamente muito a ver com Cartório das Almas, mas dialoga com o filme nesse aspecto de propor uma imersão do espectador, de convidar a pessoa a abrir todos os poros para entrar naquele universo, sem que exista necessariamente um fio narrativo muito específico apresentado de imediato.


Acho que uma das coisas que as pessoas mais me dizem depois de assistir ao

filme é que existem muitas interpretações possíveis. Cada pessoa entende de uma maneira diferente o que aquela personagem está vivendo, e considero isso muito positivo.


Vejo como algo muito interessante todos esses aspectos de contemplação e meditação que o filme apresenta, essa característica de filme-instalação, com imagens que não estão necessariamente a serviço de uma narrativa tradicional. Acho que essa experiência de permitir que o espectador contemple, sinta e construa suas próprias interpretações é uma das coisas mais interessantes do filme.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme agora vai chegar ao circuito comercial, e queria saber o que vocês esperam que o público encontre nessa história e de que maneira acreditam que as pessoas podem se reconhecer nas questões que ela apresenta.

Leo Bello: Cartório das Almas é um filme de arte, então acredito que tenha um público mais específico. Não é um filme comercial popular como outros trabalhos que fiz, a exemplo de Mandioca Frita, um telefilme que estreou na Globo e tem outra proposta.


Cartório das Almas é um filme que exige um espectador com um olhar mais artístico, que já esteja acostumado com o cinema de arte, o arthouse. Acredito que vá dialogar bastante com esse público. Às vezes, um filme acaba tocando poucas pessoas, uma pessoa ou outra, mas acredito que é uma obra que exige mais do espectador para que ele consiga entrar na história.


Gabriela Correa: Concordo que é um filme que exige mais do público, mas acho isso interessante. Tivemos algumas pessoas convidadas para as sessões no Rio, mas também houve espectadores que foram espontaneamente. Sempre fico muito interessada em saber por que as pessoas decidiram assistir ao filme.


Acho que a curiosidade pode ser um bom motivo para levar alguém ao cinema. É uma ficção científica, um filme de gênero, um arthouse feito no Centro-Oeste, com baixo orçamento e uma estrutura muito mais reduzida do que a de grandes produções que chegam ao circuito comercial.


Torço para que as pessoas deem uma chance ao cinema que fazemos no Distrito Federal, que olhem para o filme e pensem: “Que diabo é isso? Vou assistir”. Acho que essa curiosidade pode ser justamente o ponto de partida para que elas conheçam o nosso trabalho.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Se vocês pudessem deixar uma mensagem para o público que vai assistir ao filme, qual seria? O que gostariam que as pessoas levassem consigo depois dessa experiência?

Leo Bello: Acho que existe até um diálogo no filme, dito pela criança, que é a única criança da história, que diz: “Assim como se nasce, se morre”. Acho que é um pouco disso que queremos trazer.


Quando apresentamos a Laura, uma pessoa que trabalha em um lugar burocrático, um cartório onde as coisas são protocoladas, existe essa intenção de tratar a morte como algo cotidiano, natural, que faz parte da vida.


Existe uma reflexão filosófica, de um pensador cujo nome não me lembro agora, que diz que você só está completamente nascido depois que morre, porque é quando completa o ciclo. Então, acho que a mensagem passa por essa dimensão filosófica e existencial: compreender que a morte faz parte da vida.


Gabriela Correa: Eu estava pesquisando aqui para lembrar o nome de um livro sobre o qual a gente sempre conversava na época do filme: A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, da Ana Claudia Quintana Arantes. Ela é médica geriatra e acompanha muitos pacientes, especialmente em cuidados paliativos, nesse momento de transição, buscando oferecer qualidade de vida quando os tratamentos já não são tão eficazes e a morte se aproxima.


Acho que o filme, de alguma maneira, convida todo mundo a refletir sobre a finitude da vida e sobre como vamos passar por esse processo. Como nós vamos atravessá-lo? Como as pessoas que estão perto da gente vão lidar com essa ruptura?


A morte é inegociável e definitiva. É uma certeza que todos nós temos. Então, acredito que Cartório das Almas fala justamente sobre essa travessia, sobre como vamos lidar com um processo que, em algum momento, vai chegar para todo mundo.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, tem uma pergunta que eu gosto de fazer a todo mundo que entrevisto: se vocês pudessem indicar um filme, uma série ou qualquer outra produção brasileira para o público, sem ser Cartório das Almas, qual seria? Pode ser uma obra favorita ou algo que tenha ressoado durante o processo de produção do filme. É uma recomendação para deixar para quem está nos acompanhando.

Leo Bello: Gosto muito de Vidas Secas, do Nelson Pereira dos Santos, e também de Pixote, que acho incrível.


Gabriela Correa: Sabe um filme que reassisti outro dia, por acaso, completamente aleatoriamente, e fiquei abismada com o quanto é maravilhoso? O Pagador de Promessas, do Anselmo Duarte. Posso estar errada, mas acho que foi o único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro. Fazia muito tempo que eu não assistia. Tinha visto quando estava estudando para o vestibular e, quando revi recentemente, fiquei impressionada com o quanto é fantástico.


Fiquei pensando novamente em como se faz cinema no Brasil, com todas as limitações de orçamento e as dificuldades que enfrentamos, mas como, ainda assim, um discurso tão potente consegue sobressair. Vou indicar esse porque assisti recentemente e fiquei muito impactada.


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Longa-metragem de ficção científica dirigido por Leo Bello chega aos cinemas com reflexões sobre a finitude da vida, a solidão e o direito à morte

Imagem: Divulgação
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A morte como parte natural da vida é o ponto de partida de Cartório das Almas, ficção científica brasileira dirigida por Leo Bello e estrelada por Gabriela Correa, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (29). Ambientado em um futuro no qual a humanidade alcançou a imortalidade, o longa acompanha Laura, uma funcionária de um cartório responsável por registrar questões relacionadas à morte, em uma narrativa que questiona a eternidade e as consequências de viver sem o fim da existência.


Em entrevista ao Oxente Pipoca, Leo Bello e Gabriela Correa comentaram o processo de criação do universo do filme, as escolhas estéticas para construir um futuro atemporal com orçamento reduzido e os desafios de representar uma personagem que precisa neutralizar as próprias emoções. Os artistas também falaram sobre as reflexões filosóficas que atravessam a obra e a expectativa de que o público se permita conhecer uma produção independente realizada no Distrito Federal.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Queria começar parabenizando vocês pelo trabalho. Cartório das Almas é um filme com uma premissa instigante, que mistura ficção científica e futurismo. Quando a gente começa a assistir, não sabe muito bem para onde a história vai, e isso acaba despertando a curiosidade e envolvendo o espectador. Então, queria que vocês começassem falando sobre como surgiu essa história e como ela se transformou no filme que a gente vê hoje. E, para a Gabriela, queria saber o que mais chamou sua atenção quando você conheceu o roteiro.

Leo Bello: O filme nasceu de uma vontade de falar sobre a morte, mas eu não queria trazer o naturalismo para abordar um tema tão pesado com esse mesmo peso. Foi daí que surgiu a ideia de uma ficção científica, com uma pessoa que trabalha nesse cartório onde as pessoas vão para protocolar o sentido da morte, já que vivem a eternidade.


A partir daí, nasceu essa vontade de trazer o tema. Foi uma escrita muito subjetiva, muito aberta, baseada em alguns pensadores que já trataram dessa questão, como Schopenhauer, Nietzsche e Aristóteles. Então, foi uma pesquisa, um estudo em cima disso.


Eu também queria trazer o cenário de Brasília, com aquela arquitetura modernista de Niemeyer, que representa a ideia de um futuro que ficou no passado. Queria aproveitar esse cenário para construir a narrativa, porque você vê um conflito completamente atemporal. A história se passa em Brasília, mas você não vê carros nem outros elementos que situem aquele universo em um tempo específico. A busca maior era falar sobre o direito à morte, o respeito à morte e a possibilidade de enxergá-la como um processo natural e humano, dentro de uma filosofia cíclica.


Gabriela Correa: Quando o Leo me falou pela primeira vez sobre a personagem e a história, lembro de sentir muita curiosidade, que acho que é o que todo mundo sente quando vê um teaser ou trailer de Cartório das Almas. Ao mesmo tempo, algo me chamava para dentro daquela história, porque não é todo dia que a gente encontra projetos que debatem temas tão existenciais.


O Leo é muito existencial e tem essa perspectiva de usar a ficção científica para falar de um tema existencial, mas que também é uma questão muito presente na nossa realidade. Lembro que, na época, ele me falou sobre o Godard, que já morreu, mas queria ter o direito de decidir como partir, e ele teve essa possibilidade. Acho que foi na Suécia, Leo? Lá é legalizado, né, você optar pelo término da vida. Então, era uma questão que despertou muita curiosidade em mim, além do interesse em saber como a gente contaria essa história e a transformaria em linguagem cinematográfica.


O roteiro tem elementos e dispositivos muito bons, que dão margem para muita coisa. Acho que o Leo conseguiu trazer para o filme, para a linguagem cinematográfica, a visão que tem sobre esse assunto e colocar em imagens e símbolos todas essas questões complexas e densas. Acredito que o filme consegue fazer isso. Então, fiquei muito curiosa e com muita vontade de descobrir como a gente faria, e a gente fez.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Tem algo muito curioso na sua personagem, porque ela começa o filme de maneira bastante contida. A gente acompanha a rotina de trabalho dela, mas, ao longo da história, começa a perceber mais reações e a entender essa dualidade entre a morte, a imortalidade e o fardo de carregar essa condição. Queria que você falasse sobre o processo de construção dessa personagem como atriz, pensando nessa trajetória que vai de alguém cujas emoções são difíceis de decifrar até uma figura que se revela mais ao espectador.

Gabriela Correa: A gente tinha essa questão dos banhos e de como ela, de alguma maneira, não necessariamente dopada, mas, para se manter viva, precisava abdicar das emoções. Era quase como quando você toma uma medicação para neutralizar tudo: você não fica nem muito feliz, nem muito triste, não sente nada. Para não sentir as coisas de forma exagerada, ela começava a sentir tudo de maneira neutra.


Esse foi um desafio que o Leo trouxe para a gente, tanto para mim, como atriz, quanto para a Larissa Mauro, nossa preparadora de elenco. Precisávamos pensar em como trabalhar esse arco da Laura ao longo do filme, porque, no início, ela está nesse estado de letargia, apatia e contenção.


Aos poucos, ela vai se implicando, descobrindo coisas e abdicando dos banhos. Começa a tentar entender o que acontece se não seguir aquele ritual, o que acontece se atravessar o véu. Acho que o trabalho do Leo junto com a preparação de elenco foi muito importante. Sou uma defensora da preparação de elenco. Tem atores que não gostam, mas acho essencial. O Leo estava sempre presente na sala de ensaio, e esse trabalho conjunto foi fundamental para a gente conseguir afinar o que era essa personagem, o que ela estava sentindo e para onde estava indo, construindo toda essa unidade que a gente vê ao longo do filme.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Leo, queria saber como você trabalhou para construir esse futuro retratado no filme e, ao mesmo tempo, criar um universo com o qual o espectador consegue se conectar. Pelo menos para mim, essa foi uma das impressões durante a sessão. Como foi pensar nas locações e nos cenários para dar vida a esse mundo?

Leo Bello: Para criar um mundo fantástico, com regras próprias, você precisa construir um universo que seja crível. Isso começa pelo tom da atuação, pela construção dos diálogos e também pelo cenário. Se, de repente, a gente começa a ver pessoas comuns vivendo naquele espaço, pode deixar de acreditar na ideia de futuro que estamos construindo, que é, na verdade, um futuro meio atemporal.


Usamos elementos de arte de várias gerações. Temos objetos antigos, como o telefone, e vários outros elementos dentro do cartório. Ao mesmo tempo, usamos o Museu Nacional, onde acontecem os banhos. Para mim, a própria arquitetura de Niemeyer já é uma obra cênica. Você quase não precisa acrescentar elementos àquele espaço, porque o museu já oferece essa atmosfera. Tivemos a sorte de conseguir filmar lá sem a disposição habitual dos objetos.


Também usamos a Torre de TV Digital, que já tem esse aspecto futurista impresso em sua arquitetura. Aproveitamos esses elementos e cenários que conseguimos acessar, considerando que o filme tem um orçamento baixo. Fazer ficção científica com baixo orçamento é ainda mais complexo, então trabalhamos com esses espaços e com a direção de arte da Maíra Carvalho, usando uma licença poética a partir da arquitetura de Niemeyer para construir esses mundos.


Filmamos também em uma pedreira e em uma plantação de soja já colhida, além de uma casinha isolada no meio do nada, onde fica o cartório. Tudo isso fazia parte da ideia de construir esse universo. Por isso, não incluímos outros elementos da cidade que pudessem desviar a atenção ou descaracterizar esse mundo. Quando você cria um universo próprio, ele tem suas próprias regras.


Gabriela Correa: Nossa, acho que esse é um dos grandes méritos do filme. A gente o reassistiu no Rio, na semana passada, durante uma exibição, e fazia um tempo que eu não o via. Fiquei pensando justamente nisso: em como você conseguiu imprimir esse mundo, que não existe, e trazer todos esses elementos para criar uma atmosfera própria, mesmo com o desafio de trabalhar com baixo orçamento e sem toda a estrutura necessária para construir um universo tão complexo.


Acho que o filme consegue fazer isso por meio do trabalho conjunto de toda a equipe, especialmente da direção de arte e de quem trabalhou com cenografia, figurino e maquiagem, com a Peroni. A fotografia do Pedro Maffei também contribui muito, porque as cores do filme nos transportam para um contexto completamente antinatural.


Então, considero um mérito muito grande conseguir fazer um filme de ficção científica, de gênero e fantasia com um orçamento baixo, dentro da realidade com a qual estamos acostumados a trabalhar no cinema independente.


Imagem: Divulgação
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Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Outra coisa que eu queria saber é que o filme propõe reflexões muito interessantes sobre a solidão, o fardo de viver eternamente e várias outras questões existenciais. Durante a realização do longa ou mesmo depois, ao assistirem ao resultado final, houve algum momento, cena ou situação que mudou a maneira como vocês próprios enxergam as questões que o filme aborda?

Leo Bello: Houve uma exibição em um festival na Índia, em Calcutá, para o qual eu fui. Quando o filme terminou, um crítico perguntou se ele era budista, porque enxergava na obra uma filosofia budista, justamente por tratar a morte como um ciclo natural da vida.


Depois, fui para a coletiva de imprensa, e os jornalistas fizeram a mesma pergunta. Foi interessante perceber como o filme encontrou essa leitura no Oriente. Embora eu me aproxime do budismo e goste muito da filosofia budista, não sou budista. Ainda assim, o filme acabou despertando esse olhar, e foi uma referência muito interessante para mim, porque gosto bastante dessa filosofia.


O filme também traz algumas escolhas relacionadas à maneira como aborda a morte. Temos pouca trilha sonora, por exemplo. Existem muitos elementos que poderiam ser considerados trilha, mas que funcionam mais como um desenho de som, construído a partir de determinados elementos. A trilha propriamente dita aparece no final, durante os créditos.


Precisávamos daquele vazio da existência, daquele vazio da morte. Queríamos criar essa atmosfera. Durante a montagem, percebemos que havíamos feito muito mais trilha sonora do que o filme precisava. Sentimos que era necessário retirar parte dela e trazer esse desconforto, essa sensação do tempo passando e de que nada acontece. Isso também faz parte da experiência que queríamos proporcionar ao espectador.


Gabriela Correa: A Laura já vivia nesse lugar, e isso acabou se tornando uma característica do próprio filme. Acho que Cartório das Almas é um filme meditativo. Há algum tempo, assisti a um filme em um festival que também tinha essa característica de meditação. É claro que ele não tem necessariamente muito a ver com Cartório das Almas, mas dialoga com o filme nesse aspecto de propor uma imersão do espectador, de convidar a pessoa a abrir todos os poros para entrar naquele universo, sem que exista necessariamente um fio narrativo muito específico apresentado de imediato.


Acho que uma das coisas que as pessoas mais me dizem depois de assistir ao

filme é que existem muitas interpretações possíveis. Cada pessoa entende de uma maneira diferente o que aquela personagem está vivendo, e considero isso muito positivo.


Vejo como algo muito interessante todos esses aspectos de contemplação e meditação que o filme apresenta, essa característica de filme-instalação, com imagens que não estão necessariamente a serviço de uma narrativa tradicional. Acho que essa experiência de permitir que o espectador contemple, sinta e construa suas próprias interpretações é uma das coisas mais interessantes do filme.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): O filme agora vai chegar ao circuito comercial, e queria saber o que vocês esperam que o público encontre nessa história e de que maneira acreditam que as pessoas podem se reconhecer nas questões que ela apresenta.

Leo Bello: Cartório das Almas é um filme de arte, então acredito que tenha um público mais específico. Não é um filme comercial popular como outros trabalhos que fiz, a exemplo de Mandioca Frita, um telefilme que estreou na Globo e tem outra proposta.


Cartório das Almas é um filme que exige um espectador com um olhar mais artístico, que já esteja acostumado com o cinema de arte, o arthouse. Acredito que vá dialogar bastante com esse público. Às vezes, um filme acaba tocando poucas pessoas, uma pessoa ou outra, mas acredito que é uma obra que exige mais do espectador para que ele consiga entrar na história.


Gabriela Correa: Concordo que é um filme que exige mais do público, mas acho isso interessante. Tivemos algumas pessoas convidadas para as sessões no Rio, mas também houve espectadores que foram espontaneamente. Sempre fico muito interessada em saber por que as pessoas decidiram assistir ao filme.


Acho que a curiosidade pode ser um bom motivo para levar alguém ao cinema. É uma ficção científica, um filme de gênero, um arthouse feito no Centro-Oeste, com baixo orçamento e uma estrutura muito mais reduzida do que a de grandes produções que chegam ao circuito comercial.


Torço para que as pessoas deem uma chance ao cinema que fazemos no Distrito Federal, que olhem para o filme e pensem: “Que diabo é isso? Vou assistir”. Acho que essa curiosidade pode ser justamente o ponto de partida para que elas conheçam o nosso trabalho.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Se vocês pudessem deixar uma mensagem para o público que vai assistir ao filme, qual seria? O que gostariam que as pessoas levassem consigo depois dessa experiência?

Leo Bello: Acho que existe até um diálogo no filme, dito pela criança, que é a única criança da história, que diz: “Assim como se nasce, se morre”. Acho que é um pouco disso que queremos trazer.


Quando apresentamos a Laura, uma pessoa que trabalha em um lugar burocrático, um cartório onde as coisas são protocoladas, existe essa intenção de tratar a morte como algo cotidiano, natural, que faz parte da vida.


Existe uma reflexão filosófica, de um pensador cujo nome não me lembro agora, que diz que você só está completamente nascido depois que morre, porque é quando completa o ciclo. Então, acho que a mensagem passa por essa dimensão filosófica e existencial: compreender que a morte faz parte da vida.


Gabriela Correa: Eu estava pesquisando aqui para lembrar o nome de um livro sobre o qual a gente sempre conversava na época do filme: A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, da Ana Claudia Quintana Arantes. Ela é médica geriatra e acompanha muitos pacientes, especialmente em cuidados paliativos, nesse momento de transição, buscando oferecer qualidade de vida quando os tratamentos já não são tão eficazes e a morte se aproxima.


Acho que o filme, de alguma maneira, convida todo mundo a refletir sobre a finitude da vida e sobre como vamos passar por esse processo. Como nós vamos atravessá-lo? Como as pessoas que estão perto da gente vão lidar com essa ruptura?


A morte é inegociável e definitiva. É uma certeza que todos nós temos. Então, acredito que Cartório das Almas fala justamente sobre essa travessia, sobre como vamos lidar com um processo que, em algum momento, vai chegar para todo mundo.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, tem uma pergunta que eu gosto de fazer a todo mundo que entrevisto: se vocês pudessem indicar um filme, uma série ou qualquer outra produção brasileira para o público, sem ser Cartório das Almas, qual seria? Pode ser uma obra favorita ou algo que tenha ressoado durante o processo de produção do filme. É uma recomendação para deixar para quem está nos acompanhando.

Leo Bello: Gosto muito de Vidas Secas, do Nelson Pereira dos Santos, e também de Pixote, que acho incrível.


Gabriela Correa: Sabe um filme que reassisti outro dia, por acaso, completamente aleatoriamente, e fiquei abismada com o quanto é maravilhoso? O Pagador de Promessas, do Anselmo Duarte. Posso estar errada, mas acho que foi o único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro. Fazia muito tempo que eu não assistia. Tinha visto quando estava estudando para o vestibular e, quando revi recentemente, fiquei impressionada com o quanto é fantástico.


Fiquei pensando novamente em como se faz cinema no Brasil, com todas as limitações de orçamento e as dificuldades que enfrentamos, mas como, ainda assim, um discurso tão potente consegue sobressair. Vou indicar esse porque assisti recentemente e fiquei muito impactada.


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