Entrevista | “A gente precisa tirar as ideias da cabeça e colocá-las no mundo”: Larissa Murai fala sobre atuação e roteiro

há 59 minutos
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Atriz de “Por Você” e da nova série médica da Netflix comenta os desafios de sua trajetória, a experiência como roteirista e a vontade de explorar novas possibilidades no audiovisual brasileiro.

Com uma trajetória iniciada ainda na infância, Larissa Murai vive um momento de descobertas e transformações profissionais. No elenco de Por Você, novela das sete da TV Globo, a atriz interpreta Giovana, assistente da grande vilã da trama. Já em Med, nova série médica da Netflix, dá vida a uma residente de obstetrícia, em um trabalho que descreve como um dos mais desafiadores de sua carreira.
Além da atuação, Murai vem ampliando sua experiência nos bastidores do audiovisual. A artista colaborou no roteiro de Tiros no Escuro, projeto desenvolvido em parceria com a diretora Caroline Fioratti, e trabalhou como assistente de roteiro na adaptação de Véspera. A parceria com Fioratti também resultou em um filme de terror, gênero pelo qual Larissa nutre uma paixão antiga e que considera uma ferramenta potente para provocar reflexões sociais.
Em entrevista ao Oxente Pipoca, Larissa fala sobre o amadurecimento profissional, os desafios de interpretar personagens complexas e de adaptar histórias literárias para o audiovisual. A atriz também reflete sobre a importância de experimentar, arriscar e transformar ideias em projetos concretos, além de compartilhar suas expectativas para o futuro do cinema brasileiro e indicar produções que marcaram sua trajetória como espectadora.Confira a entrevista completa abaixo:
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você começou a atuar muito jovem, e eu estava dando uma olhada nas suas produções e nos seus trabalhos, não só como atriz, mas também em outras áreas do audiovisual. Fiquei muito feliz de estar conversando com você agora. Olhando para essa trajetória e para os primeiros trabalhos que você fez, como percebe as mudanças na sua relação com a atuação e com os outros campos da sua carreira?
Larissa Murai: Nossa, muito legal a pergunta! Primeiro, estou muito feliz com o convite, Gabi. Eu penso muito sobre isso, na verdade, porque o fato de ter sido atriz mirim me atravessa muito, até hoje. Acho que é impossível não ser atravessada pelo fato de ter trabalhado desde jovem e de ter entrado em contato com o audiovisual antes mesmo de saber o que era audiovisual.
O que mais me pegou ao longo dos anos foi pensar em qual atriz eu quero ser. Quando a gente começa, não entende muito bem o tipo de projeto que está fazendo. A gente vai trabalhando no que aparece, no que dá. Acho que, nos últimos anos, passei por uma fase de me perguntar se era realmente isso que eu queria. É importante se questionar, porque eu queria atuar, mas, ao mesmo tempo, não sabia direito o que significava querer aquilo.
Vi uma entrevista com o ator que interpreta o Roman em Succession, o Kieran Culkin, em que ele falou que só descobriu que queria ser ator por volta dos 40 anos. E pensei: “Caramba, me identifiquei em algum lugar com isso!”. Acho que demorei para entender, mesmo continuando a atuar. Até o movimento de fazer faculdade de cinema teve um pouco a ver com essa dúvida: “eu gosto muito de tudo isso, mas é atuando que quero estar?” Não sei.
Acho saudável se questionar, porque são decisões tomadas muito cedo, quando você ainda não entende direito o mundo. Nos últimos anos, tenho pensado muito sobre isso: sim, quero ser atriz, mas também quero fazer outras coisas dentro do audiovisual, como comecei a fazer mais recentemente.
Ao mesmo tempo, continuo me perguntando qual é a atriz que quero ser. Também estou tentando abraçar um pouco mais essa atriz mirim que fui, porque, durante muito tempo, tive certo receio em relação a ela. Ficava pensando: “Será que é só isso que eu sei fazer?”. Acho que estou nesse momento agora, tentando entender melhor essa trajetória e acolher as diferentes partes dela.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Você está na novela das sete na TV Globo, Por Você, interpretando a Giovana, que é assistente da personagem da Aline Moraes, a grande vilã da trama. Pelo que acompanhei, ela acaba ajudando a chefe em algumas situações. Como está sendo interpretar uma personagem desse lado da história? Já entrevistei alguns atores que comentam como é gostoso explorar esse outro lado da atuação, especialmente quando envolve a vilania. Queria que você falasse um pouco sobre essa experiência.
Larissa Murai: Eu acho muito divertido, mesmo! A Giovana é assistente da personagem da Aline Moraes, que é a grande vilã, e ela tem uma complexidade própria. Não é simplesmente uma pessoa ruim. Ela tem ambição, culpa e medo de ficar sem emprego. Existem vários lugares de onde vem esse lado ruim dela com os quais dá para se conectar de alguma forma.
Acho que, às vezes, o desafio de interpretar uma vilã é conseguir não julgar a personagem, sabe? É fazer a personagem sem se julgar. E, para mim, a Giovana torna isso mais fácil porque, na minha visão, ela tem muitos motivos para fazer o que faz.
Ela também é muito confusa. Ao mesmo tempo que admira a chefe, é muito humilhada por ela. E, enquanto é humilhada, acaba humilhando outra pessoa. É uma bola de neve, uma confusão que é muito gostosa de explorar como atriz. É interessante poder ficar confusa também, sabe?
Às vezes, existem personagens muito lineares, e acho isso menos divertido. Gosto quando uma personagem pode ser várias coisas ao mesmo tempo, quando você consegue encontrar essas possibilidades, depois desfazê-las, pedir desculpas e mudar de ideia. Gosto de brincar com essa diversidade de sentimentos e com as atitudes que ela toma. Então, realmente, acho muito divertido interpretar uma personagem que talvez não seja tão ética ou moral.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Queria que você falasse um pouquinho sobre esse projeto Oratório, que achei muito interessante. Sou uma grande fã de filmes de terror e fico empolgadíssima quando vejo uma produção brasileira do gênero, então queria saber mais sobre ele.
Larissa Murai: Tudo começou quando conheci a diretora Caroline Fioratti durante o filme Um Ano Inesquecível: Inverno, em que ela dirigiu e eu fui uma das atrizes. A gente se conheceu e foi se aproximando durante o processo, até porque ela fez a mesma faculdade que eu. Conversávamos bastante e, no final do projeto, um dia cheguei para ela e falei: “Olha, se você tiver alguma oportunidade em roteiro, eu adoraria tentar. Estou começando a escrever umas coisas”.
Um mês depois, ela me mandou uma mensagem. Eu nem lembrava que tinha falado aquilo, porque acho que disse meio da boca para fora, sem acreditar que realmente fosse acontecer. Depois, começamos a trabalhar juntas em outros projetos, de streaming e tal, até que, um dia, ela me mandou um áudio dizendo: “Lar, tive essa ideia”. Era um áudio de uns seis minutos com a premissa do filme. Ouvi e pensei: “Nossa, muito bom!”. Aí ela perguntou: “Vamos escrever?”. E eu respondi: “Vamos!”, até porque ela também é nipo-brasileira.
Começamos a escrever juntas e foi uma experiência incrível. Até brinco com ela que não fiz pós-graduação em roteiro, mas esse trabalho foi quase uma pós para mim. Passamos mais de um ano trabalhando praticamente todos os dias, estudando muito a estrutura do roteiro para depois, se quiséssemos sair dela, podermos fazer isso com propriedade e pirar de verdade.
Conseguimos um edital público com o roteiro, o projeto aconteceu e filmamos no ano passado. Agora, o filme vai chegar aos cinemas, e estou muito animada! Sou muito fã da Caroline. Acho que o que ela me ensinou sobre roteiro foi tanto que eu devia até pagar a ela, porque foi quase uma pós-graduação mesmo.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como foi conciliar essas duas funções, tanto atuar no filme quanto trabalhar na história? Imagino que tenha sido uma experiência muito interessante.
Larissa Murai: Foi! Antes de começar a preparação, tivemos uma conversa porque algumas coisas do roteiro ainda estavam sendo ajustadas no final da pré-produção. Em determinado momento, ela me disse: “Lar, você vai ter que parar de ser roteirista agora, porque acho que isso pode te atrapalhar e começar a misturar as coisas”.
Eu não esperava por isso. Achei que continuaria exercendo as duas funções, mas depois pensei: “Não, você está certa”. Em algum lugar, o trabalho do ator também é se desprender um pouco da estrutura. Preciso não saber o que vai acontecer, sair um pouco da minha cabeça. O trabalho do roteirista às vezes é muito racional, muito centrado na estrutura, e acho que isso pode ser contraditório com o trabalho do ator.
No primeiro dia de preparação, eu já estava pensando: “Então é isso!”. Quando comecei a ver as mudanças no roteiro, ficava chocada, pensando: “Gente!”. Mas foi bom para mim. Eu achava que daria conta de conciliar tudo, mas, quando o trabalho começou de verdade, percebi que não seria tão simples. E o terror também não é um gênero tranquilo de fazer.
Gravávamos à noite, praticamente todas as cenas eram noturnas, no interior de São Paulo. Era uma demanda energética muito grande, e acho que essa é a palavra mesmo: energia. Não daria para me dividir entre as duas funções naquele caso.
Fiquei me perguntando se isso seria assim para sempre, se aconteceria em todos os projetos ou se era algo específico daquela personagem, daquele gênero e do fato de ser meu primeiro filme como roteirista. Mas achei que foi uma boa decisão da Caroline como diretora.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Acho interessante como o terror vem encontrando diferentes caminhos para discutir questões sociais, raciais e tantas outras. Queria saber como você acredita que o filme pode contribuir para ampliar esse imaginário, especialmente em relação à cultura nipo-brasileira.
Larissa Murai: Gosto de dizer que sou fã de filmes de terror a vida inteira. Para esse filme, inclusive, fizemos uma pesquisa muito grande sobre o terror japonês, tanto na dramaturgia quanto na literatura. Fomos desde as primeiras histórias da mitologia do período Edo, com os yūrei e yōkai, que são essas lendas sobre espíritos e outras criaturas, contadas há muito tempo.
Mesmo naquela época, essas histórias e esses contos tinham um fator ideológico, relacionado ao que estava acontecendo naquele período, às dores e às crenças das pessoas. Gosto de pensar o cinema dessa forma, embora não ache que tudo precise ser assim.
Também adoro assistir a um filme de ação em que um carro explode, não é esse o ponto.
O que quero dizer é que acho muito interessante quando o terror funciona como uma ferramenta para ampliar uma história que tem uma mensagem, especialmente quando faz isso de uma maneira que permite ao público refletir, sem que uma ideia seja simplesmente enfiada goela abaixo. É mais como dizer: “Nossa, gente, olha só, vamos pensar sobre isso”.
Acho que o terror e os filmes de gênero em geral têm esse poder porque não fazem isso necessariamente por meio do diálogo. A gente não precisa ficar dizendo: “Olha, é isso ou aquilo”. A discussão acontece pela experiência, pelo nojo, pelo medo, pela dor.
Li em algum livro sobre gêneros cinematográficos que o terror foi um dos primeiros gêneros do cinema justamente porque o medo da morte é algo universal. Todo mundo tem medo de alguma coisa. Isso unia as pessoas para assistir a esses filmes e sentir algo que todos ali, de alguma forma, compartilhavam.
Por isso, acho o terror muito poderoso. Não sou tão fã de filmes que dependem apenas de jump scares, daqueles sustos repentinos, sem muita construção. Para mim, quando existe só esse recurso, a experiência acaba fazendo pouco sentido. Prefiro até um filme de ação em que o carro gira, mesmo que a história também não tenha tanto sentido, a ficar tomando sustos gratuitos.
Não que esses sustos não possam funcionar como diversão e entretenimento. Mas gosto especialmente do terror como ferramenta social, como uma forma de provocar reflexões por meio da experiência cinematográfica.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Vi também que você participou como assistente de roteiro da adaptação de Véspera. Adoro o livro e queria saber quais foram os principais desafios de transformar uma obra tão querida, que já conta com leitores que criaram suas próprias expectativas em relação à história. Imagino que tenha sido uma experiência bem diferente para você como roteirista.
Larissa Murai: Foi! Acho que é um livro que trabalha tantas camadas, tantos assuntos... Eu acabei lendo o livro inteiro em um dia. Na verdade, fui chamada para o projeto e era uma situação em que precisava ler rapidamente, mas acho que, mesmo se não tivesse essa necessidade, talvez tivesse lido em um dia, porque é uma história que te puxa muito para dentro.
Parece que você está ali com aqueles personagens, vivendo aquilo e sentindo as angústias deles. É quase como se você quisesse falar com alguém dentro do livro: “Não faz isso, faz aquilo, sai daí!”. Acho que o roteiro traduziu muito bem essa experiência, as relações, os não ditos e os desconfortos.
Às vezes, quando estamos lendo, determinadas coisas parecem muito óbvias, mas, na hora de levar para o audiovisual, é diferente. Como você vai traduzir aquilo para a tela? Achei que o roteiro respeitou muito esses desconfortos, esses silêncios e esses olhares.
Fiquei muito feliz por poder trabalhar com uma adaptação, porque nunca tinha feito isso antes. Eu morria de medo! Pensava: “Nossa, gente!”. É quase como se você estivesse mexendo no filho de alguém, sabe? Acho que é um processo muito delicado.
Mas as roteiristas e a diretora fizeram um trabalho incrível. Fiquei muito feliz por poder acompanhar de perto e ver como é possível adaptar um livro de uma maneira tão íntegra, transformando-o em outra obra.

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Vi também que você está em Med, nova série médica da Netflix, na qual interpreta uma residente de obstetrícia, e que colaborou como roteirista em uma série do Prime Video. Como está sendo transitar entre universos narrativos tão diferentes? O que você pode adiantar sobre esses projetos, que devem estrear no próximo ano?
Larissa Murai: Nossa, Med foi, acho, o projeto mais transformador da minha vida. Nunca tinha feito uma coisa tão diferente e desafiadora como atriz. Inclusive, sinto que mudei muito depois de participar da série. Foi um projeto que me forçou a amadurecer meio a jato, sabe? Estou muito ansiosa para ver o resultado, porque, quando estávamos filmando, já dava para entender a magnitude daquilo e o quanto era desafiador.
Tudo era grande, difícil, desafiador e muito ousado, desde os procedimentos até as outras demandas da produção. É uma linguagem pela qual sou apaixonada e acho que a fotografia vai ficar incrível. Sou muito fã dos diretores e foi muito bom trabalhar com eles. É um dos projetos que mais estou animada para assistir.
Acho que foi meu papel mais, entre aspas, sério. E isso foi muito importante para mim porque, voltando ao que estávamos falando sobre ter sido atriz mirim, foi como dizer: “Tá, agora sou adulta!”. Senti que houve uma transformação. E, modéstia à parte, acho que me saí muito bem. Bati no peito e falei: “Vamos embora!”. Talvez, se eu tivesse que passar por esse processo sozinha, demorasse alguns anos, então foi bom ter encontrado um projeto que me permitiu viver isso em cinco meses.
Já Tiros no Escuro é um projeto em que trabalho há anos, também com a Caroline Fioratti, que dirigiu o filme de terror sobre o qual conversamos. Muitas vezes, trabalhávamos nos dois projetos praticamente ao mesmo tempo.
Os dois me deram muita experiência, tanto para entender o que funciona e o que não funciona quanto para aprender o que precisamos plantar para depois colher. Foi muito aprendizado sobre roteiro, especialmente porque a Carol é uma roteirista incrível.
Tiros no Escuro foi muito especial por ter sido a primeira coisa que ajudei a escrever e que vi realmente acontecendo, dentro de uma plataforma de streaming. Era tudo muito surpreendente. Eu pensava: “Gente, sério? Sério que aquilo que a gente estava fazendo vai acontecer desse jeito?”.
Foi muito legal perceber que aquilo em que acreditamos lá atrás, às vezes a partir de um simples áudio ou de uma ideia, pode se concretizar. Se você trabalha, escreve, bate na porta, recebe um não e tenta de novo, pode acontecer. Fiquei animada com essa possibilidade de ver pequenas ideias ganhando vida. Devo muito disso à Carol, que é uma guerreira e vai atrás do que acredita.
Acho que esses dois projetos me ensinaram que a gente precisa ir, mesmo sem saber exatamente como. Pensar: “Não sei como, mas vai dar certo. Não sei como, mas vai ficar bom”.
Como fiz faculdade de cinema, sinto que às vezes ficamos muito presos à nossa própria cabeça. Pensamos: “Será que vai ficar bom? O que fulano vai achar?”. E isso pode acabar paralisando a gente intelectualmente. Você assiste a muitos filmes, vê Godard, Tarkovski e pensa: “Nunca vou fazer nada parecido com isso”. Talvez não faça mesmo, mas pelo menos fez alguma coisa!
Você não ficou em casa falando mal dos filmes dos outros e dizendo que faria melhor sem nunca ter feito. Às vezes, a gente precisa simplesmente fazer. Senão, outra pessoa vai lá e faz, e você acaba criticando o trabalho dela sem ter tido coragem de tentar o seu.
Acho que esses dois projetos serviram como combustível para mim, para não ficar presa na minha cabeça nem nessas ideias meio narcisistas de que existe algo maravilhoso que um dia vou fazer. Talvez aquilo que estamos fazendo agora já seja maravilhoso. Acho que estou nesse momento de entender que precisamos tirar as ideias da cabeça e colocá-las no mundo.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Para encerrar, queria saber que tipo de história você ainda deseja contar no futuro e o que espera do audiovisual brasileiro nos próximos anos, tanto em relação à sua trajetória quanto ao cenário como um todo.
Larissa Murai: Tenho muita vontade de mergulhar ainda mais no terror. Acho que é uma linguagem com muitas possibilidades interessantes e quero experimentar bastante dentro desse gênero.
Rodei um curta no começo deste ano, bem independente mesmo, praticamente na guerrilha. Foi um processo sofrido em alguns aspectos, principalmente em termos de produção, mas estávamos conversando sobre como existe um frescor que, às vezes, produções muito grandes, com muito dinheiro e planejamento, acabam perdendo.
Adoro, por exemplo, filmes de diretores estreantes. Acho que existe um frescor ali, uma espécie de aposta, sabe? Tenho muito interesse nesse tipo de cinema, que se arrisca e vai em frente mesmo sem saber exatamente como as coisas vão acontecer.
Acho que as duas perguntas acabam tendo a mesma resposta: quero fazer e assistir a um cinema que se arrisca, que não seja tão previsível. Um cinema fresco, feito por diretores estreantes e por pessoas que estão experimentando pela primeira vez.
Quero ver produções que não tenham tanto medo de errar, porque, quando ficamos presos demais a esses receios, acabamos fazendo algo mais quadradinho. Então, é isso que desejo para mim e para o audiovisual brasileiro: mais experimentação, mais coragem e mais espaço para quem está começando.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Sempre peço uma indicação de filme ou série para deixar para os nossos seguidores. Pode ser algo que você considera seu favorito ou simplesmente a primeira coisa que vier à cabeça, mas que acredita que vale a pena conhecer. Qual seria sua dica?
Larissa Murai: Nossa, eu adoro! Estou até com a blusa de The Sopranos, olha só! Gabi, acho que The Sopranos é a minha série. Nem sou muito de assistir a séries, e talvez por isso ela seja tão especial para mim.
Acho que é a melhor série já feita na história do mundo! É muito interessante acompanhar o desenvolvimento de um personagem dessa maneira. Foram muitos anos, e era um momento em que a televisão talvez não fosse tão orientada por números. Posso estar falando besteira, mas sinto que as coisas tinham mais calma, mais aposta e mais espaço para o desenvolvimento dos personagens.
Acompanhamos Tony Soprano desde os 37 anos, aproximadamente, até quase os 50, na sexta temporada. A trajetória dele não é óbvia, é cheia de altos e baixos. A série acompanha um mafioso de Nova Jersey que começa a fazer psicanálise e usa o universo da máfia para provocar reflexões. Não fica impondo ao público o que ele deve pensar, mas apresenta questões para que a gente reflita sobre elas.
A série constrói um universo em que tudo é horrível, as relações são horríveis, as pessoas brigam, matam e fazem coisas terríveis. Ainda assim, consegue provocar um pensamento crítico sobre as relações pessoais e sobre a nossa própria psique. Você consegue reconhecer familiares, pessoas próximas e até gente que pensa de maneira muito diferente de você nos personagens. Então, minha indicação é The Sopranos.
Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E, se pudesse indicar um filme brasileiro, qual seria?
Larissa Murai: Acho que escolheria um filme, então! Pixote, a Lei do Mais Fraco é o meu filme brasileiro favorito. Não tem como! Acho tudo muito perfeito, desde o trabalho de Fernando Ramos da Silva até o de Marília Pêra. Para mim, tudo funciona muito bem no filme.
Também sou muito fã de O Auto da Compadecida. Assistia toda semana quando era criança, mas acho que vou ficar com Pixote como indicação.



















