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Entrevista | Lluís Miñarro fala sobre “Emergency Exit”

Vinicius Oliveira

28 de out de 2026 · 6 min de leitura

Diretor espanhol esteve na Mostra de SP para promover o filme, que conta com a performance final de Marisa Paredes

Emergency Exit, filme espanhol dirigido por Lluís Miñarro (que foi o corroteirista junto com Lu Colomina), foi uma das obras exibidas na Perspectiva Internacional, que compõe a Mostra de SP. Ambientado quase inteiramente em um ônibus cujo destino é incerto, o filme acompanha uma galeria variada de personagens – uma atriz (Marisa Paredes) e seu marido/agente (Francesc Orella), um padre (Oriol Pla), uma dupla de amigas (Arielle Dombasle e Myrian Mézieres), um diretor (Albert Pla), uma ginecologista (Emma Suárez), uma antropóloga japonesa (Naomi Kawase) e vários outros – que são confrontados por seus variados desejos, bem como a própria mortalidade.


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Miñarro, que esteve no Brasil para promover o filme durante a Mostra de SP. Na entrevista, o diretor falou sobre a relação entre desejo e mortalidade proposta no filme e o seu uso de elementos surrealistas para discutir os dois polos, bem como o trabalho com o vasto elenco e, sobretudo, a relação quase metalinguística criada com o trabalho de Marisa Paredes, uma das mais consagradas atrizes espanholas e que faleceu antes do lançamento do filme. Confira a entrevista abaixo:


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme me parece trabalhar e aproximar dois campos distintos: desejo e mortalidade. Isso foi intencional da sua parte? Se sim, como você buscou conectar esses dois polos ao longo do filme?

Lluís Miñarro: Para mim, o desejo é algo muito importante nas pessoas, porque é o motor das nossas relações, do nosso dia a dia. É uma pulsão que está sempre presente — ainda que, com o passar do tempo, a gente envelheça e, às vezes, o desejo se torne mais difícil de colocar em prática. Você pode ter um desejo, mas não ter a forma de desenvolvê-lo. Então, isso sempre me interessou, porque também faz parte do meu processo pessoal, da minha trajetória de vida. 

Em todos os meus filmes — inclusive nos anteriores — existe, de certa forma, essa pulsão do desejo ou do erotismo por trás. O erotismo também faz parte das nossas vidas e é algo que, para mim, possui muita beleza em si mesmo. Ele faz parte da maneira como nos entendemos uns com os outros; mesmo que a gente tenha muita consciência disso — ou que, de certa forma, nos autocensuremos —, ele está sempre circulando por aí, em movimento. Então, para mim, poder abordar e mostrar esse tema, por um lado, e, por outro, partir para um discurso mais profundo, como a relação entre vida e morte, ou sonho e realidade — esse foi o ponto de partida da ideia para fazer este filme. 


No Ocidente, como tivemos a influência da religião — sobretudo da Igreja Católica —, sempre encaramos a morte como algo alheio, temível e negativo. Por outro lado, tenho tido bastante contato com filosofias orientais, como o budismo, o hinduísmo, etc., e pude constatar que, no Oriente, na Ásia, a morte é percebida de outra forma: como parte de um processo que consiste em passar para outra dimensão, para um outro plano que não precisa, necessariamente, ser negativo.


Se o fato de nascer é como um milagre, então talvez o fato de morrer seja outro milagre; algo que não sabemos, assim como, antes de nascer, também não sabíamos o porquê de tudo aquilo. O que está claro é que isso implica numa outra dimensão, ou a passagem por uma outra porta que não é esta realidade sólida que temos aqui agora; mas, para mim, pelo menos no meu entender, essa é a única diferença.


A ideia inicial para este filme surgiu durante meu filme anterior, de 2019. Depois veio a pandemia, que foi, de certa forma, uma exemplificação justamente disso: o fato de estar confinado em um lugar sem poder sair, e assim por diante; além de muitas pessoas estarem voltadas para a morte — seja por causa da questão das vacinas ou por qualquer outro motivo. Enfim, tudo isso convergiu para o filme. Ou seja, as coisas se apresentaram dessa maneira; o mundo, naquele momento, era assim, um pouco como no filme que eu queria realizar.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos grandes méritos do filme é que ele consegue dar espaço a cada um dos membros do seu vasto elenco. Como foi trabalhar com um elenco deste tamanho, num filme que é praticamente todo ambientado em um único espaço?

Lluís Miñarro: Muitos dos atores já tinham trabalhado comigo em outras produções antes, e outros são amigos, como a Naomi Kawase, com quem fiz uma coprodução no passado e de quem me tornei amigo. Então a convidei; ela não é atriz, mas a chamei para participar do filme, ela veio e se saiu muito bem. Gosto de criar uma espécie de "mini filme japonês" dentro do meu próprio filme.

Então, Marisa Paredes não poderia ser outra, pois era a atriz com maior representatividade no cinema espanhol e já estava no final de sua carreira — na verdade, ela faleceu pouco depois. Portanto, era uma escolha quase inevitável na hora de selecionar uma atriz. Quanto ao padre, por exemplo, ele [Oriol Pla] era um ator com quem eu não tinha trabalhado antes, mas que eu já tinha visto no teatro, e percebi que o seu físico me interessava; quero dizer, eu também escolho muito os atores pelo físico. Depois, tem a Arielle Dombasle e Myriam Mezières: a Arielle Dombasle era a musa de Éric Rohmer, e a Myriam Mezières é a musa de Alain Tanner.


Bom, eu sou muito cinéfilo; mais do que produtor e diretor, sou cinéfilo, assisto a muito cinema clássico, sobretudo. Então, eles eram como meus pequenos mitos, meus pequenos personagens, meus pequenos brinquedos, de certa forma. E, como tudo é feito a partir da sinceridade e da liberdade — sem imposições de nenhum tipo —, podemos todos brincar juntos e fazer um filme livre, no qual cada um, de certa maneira, representa a si mesmo. Então temos um elenco importante, que eu consegui gerenciar, por um lado, devido à amizade, e, por outro, por questões de estrutura de filmagem, para poder agrupá-los; eles não estão todos presentes o tempo todo, mas sim em grupos: ora quatro, ora cinco, ora três.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme ganha uma dimensão metalinguística muito forte tendo a presença da Marisa Paredes em seu último papel. Inclusive temos aquela cena em que a vemos com fotos de várias celebridades que conheceu, como se a personagem dela fosse a própria Marisa. Como foi tê-la no filme e enxergar essa carga metalinguística, especialmente considerando o fim que a personagem tem no filme?

Lluís Miñarro: Preciso dizer que é uma questão que vai além da razão ou da lógica. É como uma questão de sincronicidade: naquele momento, tinha que acontecer de eu fazer um filme, da Marisa Paredes estar nele e de ser, pelo que parece, o seu último filme. Nada disso foi planejado antes de começarem as filmagens.


Eu escolhi a Marisa Paredes pelo que te disse sobre a representação dela no cinema espanhol e porque ela já era uma mulher madura, com uma carreira que estava chegando ao fim. Agora, por exemplo, as fotografias: ela tinha centenas de fotografias e escolheu estas. Ou seja, eu deixei com ela um conjunto de fotografias — que são de um colega, um fotógrafo — e ela escolheu [Manoel de] Oliveira, [Gabriel] García Márquez, Catherine Deneuve; ela escolheu essas. Não sei bem o porquê, mas é mais um mistério.


Então, em um determinado momento — o que, claro, acaba sendo um spoiler para um possível espectador, mas, como não está passando no cinema, dá para contar —, ela me disse: "Eu não quero estar morta no final junto com os outros, porque quero ficar sozinha". Eu respondi: "Bom, então vou inventar alguma coisa para você". E é por isso que ela sai do ônibus antes dos outros. É como se ela escapasse, ou discutisse com o companheiro, e caísse, ou voasse, ou simplesmente saísse do ônibus antes dos demais. E, no fim das contas, ela é a única que morreu, mas está aqui. Entende o que quero dizer?


Lembro-me de um conto de Cortázar [Continuidade dos Parques] em que um

personagem está em um trem e abre o jornal; ele vê um recorte que diz que morreu no dia anterior, mas está lendo isso depois. Essa ideia de deslocar o tempo e o espaço é o que me interessa e, de certa forma, está presente em quase todos os filmes que dirigi. A relatividade no espaço e no tempo, e entre o sonho e a realidade — ou aquilo que chamamos de realidade.


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O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Miñarro, que esteve no Brasil para promover o filme durante a Mostra de SP. Na entrevista, o diretor falou sobre a relação entre desejo e mortalidade proposta no filme e o seu uso de elementos surrealistas para discutir os dois polos, bem como o trabalho com o vasto elenco e, sobretudo, a relação quase metalinguística criada com o trabalho de Marisa Paredes, uma das mais consagradas atrizes espanholas e que faleceu antes do lançamento do filme. Confira a entrevista abaixo:


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme me parece trabalhar e aproximar dois campos distintos: desejo e mortalidade. Isso foi intencional da sua parte? Se sim, como você buscou conectar esses dois polos ao longo do filme?

Lluís Miñarro: Para mim, o desejo é algo muito importante nas pessoas, porque é o motor das nossas relações, do nosso dia a dia. É uma pulsão que está sempre presente — ainda que, com o passar do tempo, a gente envelheça e, às vezes, o desejo se torne mais difícil de colocar em prática. Você pode ter um desejo, mas não ter a forma de desenvolvê-lo. Então, isso sempre me interessou, porque também faz parte do meu processo pessoal, da minha trajetória de vida. 

Em todos os meus filmes — inclusive nos anteriores — existe, de certa forma, essa pulsão do desejo ou do erotismo por trás. O erotismo também faz parte das nossas vidas e é algo que, para mim, possui muita beleza em si mesmo. Ele faz parte da maneira como nos entendemos uns com os outros; mesmo que a gente tenha muita consciência disso — ou que, de certa forma, nos autocensuremos —, ele está sempre circulando por aí, em movimento. Então, para mim, poder abordar e mostrar esse tema, por um lado, e, por outro, partir para um discurso mais profundo, como a relação entre vida e morte, ou sonho e realidade — esse foi o ponto de partida da ideia para fazer este filme. 


No Ocidente, como tivemos a influência da religião — sobretudo da Igreja Católica —, sempre encaramos a morte como algo alheio, temível e negativo. Por outro lado, tenho tido bastante contato com filosofias orientais, como o budismo, o hinduísmo, etc., e pude constatar que, no Oriente, na Ásia, a morte é percebida de outra forma: como parte de um processo que consiste em passar para outra dimensão, para um outro plano que não precisa, necessariamente, ser negativo.


Se o fato de nascer é como um milagre, então talvez o fato de morrer seja outro milagre; algo que não sabemos, assim como, antes de nascer, também não sabíamos o porquê de tudo aquilo. O que está claro é que isso implica numa outra dimensão, ou a passagem por uma outra porta que não é esta realidade sólida que temos aqui agora; mas, para mim, pelo menos no meu entender, essa é a única diferença.


A ideia inicial para este filme surgiu durante meu filme anterior, de 2019. Depois veio a pandemia, que foi, de certa forma, uma exemplificação justamente disso: o fato de estar confinado em um lugar sem poder sair, e assim por diante; além de muitas pessoas estarem voltadas para a morte — seja por causa da questão das vacinas ou por qualquer outro motivo. Enfim, tudo isso convergiu para o filme. Ou seja, as coisas se apresentaram dessa maneira; o mundo, naquele momento, era assim, um pouco como no filme que eu queria realizar.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos grandes méritos do filme é que ele consegue dar espaço a cada um dos membros do seu vasto elenco. Como foi trabalhar com um elenco deste tamanho, num filme que é praticamente todo ambientado em um único espaço?

Lluís Miñarro: Muitos dos atores já tinham trabalhado comigo em outras produções antes, e outros são amigos, como a Naomi Kawase, com quem fiz uma coprodução no passado e de quem me tornei amigo. Então a convidei; ela não é atriz, mas a chamei para participar do filme, ela veio e se saiu muito bem. Gosto de criar uma espécie de "mini filme japonês" dentro do meu próprio filme.

Então, Marisa Paredes não poderia ser outra, pois era a atriz com maior representatividade no cinema espanhol e já estava no final de sua carreira — na verdade, ela faleceu pouco depois. Portanto, era uma escolha quase inevitável na hora de selecionar uma atriz. Quanto ao padre, por exemplo, ele [Oriol Pla] era um ator com quem eu não tinha trabalhado antes, mas que eu já tinha visto no teatro, e percebi que o seu físico me interessava; quero dizer, eu também escolho muito os atores pelo físico. Depois, tem a Arielle Dombasle e Myriam Mezières: a Arielle Dombasle era a musa de Éric Rohmer, e a Myriam Mezières é a musa de Alain Tanner.


Bom, eu sou muito cinéfilo; mais do que produtor e diretor, sou cinéfilo, assisto a muito cinema clássico, sobretudo. Então, eles eram como meus pequenos mitos, meus pequenos personagens, meus pequenos brinquedos, de certa forma. E, como tudo é feito a partir da sinceridade e da liberdade — sem imposições de nenhum tipo —, podemos todos brincar juntos e fazer um filme livre, no qual cada um, de certa maneira, representa a si mesmo. Então temos um elenco importante, que eu consegui gerenciar, por um lado, devido à amizade, e, por outro, por questões de estrutura de filmagem, para poder agrupá-los; eles não estão todos presentes o tempo todo, mas sim em grupos: ora quatro, ora cinco, ora três.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme ganha uma dimensão metalinguística muito forte tendo a presença da Marisa Paredes em seu último papel. Inclusive temos aquela cena em que a vemos com fotos de várias celebridades que conheceu, como se a personagem dela fosse a própria Marisa. Como foi tê-la no filme e enxergar essa carga metalinguística, especialmente considerando o fim que a personagem tem no filme?

Lluís Miñarro: Preciso dizer que é uma questão que vai além da razão ou da lógica. É como uma questão de sincronicidade: naquele momento, tinha que acontecer de eu fazer um filme, da Marisa Paredes estar nele e de ser, pelo que parece, o seu último filme. Nada disso foi planejado antes de começarem as filmagens.


Eu escolhi a Marisa Paredes pelo que te disse sobre a representação dela no cinema espanhol e porque ela já era uma mulher madura, com uma carreira que estava chegando ao fim. Agora, por exemplo, as fotografias: ela tinha centenas de fotografias e escolheu estas. Ou seja, eu deixei com ela um conjunto de fotografias — que são de um colega, um fotógrafo — e ela escolheu [Manoel de] Oliveira, [Gabriel] García Márquez, Catherine Deneuve; ela escolheu essas. Não sei bem o porquê, mas é mais um mistério.


Então, em um determinado momento — o que, claro, acaba sendo um spoiler para um possível espectador, mas, como não está passando no cinema, dá para contar —, ela me disse: "Eu não quero estar morta no final junto com os outros, porque quero ficar sozinha". Eu respondi: "Bom, então vou inventar alguma coisa para você". E é por isso que ela sai do ônibus antes dos outros. É como se ela escapasse, ou discutisse com o companheiro, e caísse, ou voasse, ou simplesmente saísse do ônibus antes dos demais. E, no fim das contas, ela é a única que morreu, mas está aqui. Entende o que quero dizer?


Lembro-me de um conto de Cortázar [Continuidade dos Parques] em que um

personagem está em um trem e abre o jornal; ele vê um recorte que diz que morreu no dia anterior, mas está lendo isso depois. Essa ideia de deslocar o tempo e o espaço é o que me interessa e, de certa forma, está presente em quase todos os filmes que dirigi. A relatividade no espaço e no tempo, e entre o sonho e a realidade — ou aquilo que chamamos de realidade.


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