Entrevista | Rodrigo García Saiz, diretor de 'Morro': “há mais no México do que a violência”

há 5 horas
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Em meio à 50ª Mostra de São Paulo, o diretor conversou com o Oxente Pipoca sobre suas motivações para contar uma história que vai além dos carteis.

Em uma pequena cidade do interior do México, onde a violência do narcotráfico domina e o medo faz parte do cotidiano, um homem encontra na companhia de um cachorro o acolhimento que precisava.
Esse é o ponto de partida de Morro, segundo longa-metragem do cineasta mexicano Rodrigo García Sáiz, que integra a competição Novos Diretores da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Protagonizado por Gustavo Sánchez Parra, o filme acompanha um veterinário atormentado pela morte do filho que, ao cuidar do cachorro ferido de um narcotraficante local, tem ele mesmo sua vida salva pelo animal. Entre o silêncio do luto e o barulho da violência, o longa constrói uma linda história sobre reencontrar a própria humanidade em um mundo que parece tê-la perdido.
Conversamos com Rodrigo García Sáiz sobre a construção dessa narrativa, os desafios de dirigir um protagonista silencioso (e outro não adestrado) e o poder do cinema.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Eu vi que, em outra oportunidade, você descreveu este como o seu filme mais pessoal até agora. Que aspecto da sua própria experiência e das suas próprias emoções influenciou a história?
Rodrigo García Saiz: Bem, eu vim do México, que é um país que tem muita diferença social, assim como o Brasil. Eu tinha a intenção de falar um pouco sobre a violência que estamos vivendo, mas meu foco não era a violência em si, e sim as pessoas que ficam para além dela. A ideia era tentar criar uma situação emotiva entre um cachorro — que não faz julgamentos ou distinções sobre seu dono — e o homem que salva a vida dele. Queríamos mostrar, através desses dois personagens, que há alguma luz na escuridão ao enfatizar os momentos de ternura e a empatia que eles compartilham. Essa foi uma das maiores diretrizes que coloquei no roteiro no início. Depois, fiz pesquisas nos locais que enfrentam esses problemas e descobri que os animais são algo muito especial para essas pessoas, porque elas não confiam mais em humanos, mas confiam em animais. A forma como escolhi não mostrar a violência é exatamente o que eu quero ver, porque a violência está sempre lá quando você abre um jornal ou assiste ao noticiário. Mas o que acontece com a população? O que acontece com esses animais que podem te dar algum tipo de esperança? A ideia era basicamente: quem salva quem? Eu cresci com cachorros a vida toda e sinto que eles são as criaturas mais honestas do mundo, e que nos tornam seres humanos melhores em algum ponto.

Aianne Amado (Oxente Pipoca): Você já mencionou esse aspecto na resposta, mas se puder, gostaria que aprofundasse. A presença do crime organizado molda quase toda a história, mas a violência permanece fora da tela. Por que essa foi a sua escolha? Por que retratar a violência de forma subjetiva?
Rodrigo García Saiz: Porque há mais no México do que a violência. Essa é uma das razões. Eu também não queria falar sobre a violência especificamente. A violência está lá, como você pode perceber pelo som e por diferentes situações; a tensão está lá, mas o que está acontecendo com as pessoas que vivem nesses lugares? Meu foco foi exatamente não mostrá-la intencionalmente porque já sabemos que ela existe. Todo mundo sabe disso, mas o que podemos fazer como humanos para gerar uma pequena mudança? É ser mais empático, mais terno, demonstrar amor por um animal, sabendo que ele vai te devolver amor e esperança para continuar caminhando nesta vida.
Nós chegamos a filmar muitas cenas violentas, mas, na sala de edição, decidi cortar tudo. Eu não queria ver sangue ou coisas do tipo que pudessem desviar da ideia principal do filme.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E, se me permite, acho que foi uma escolha muito acertada – porque não é sobre os caras maus ou a polícia. É sobre os outros.
Rodrigo García Saiz: Exatamente. No outro dia eu estava pensando que minha intenção, desde o início, era mostrar não a história clássica sobre o cartel, mas focar mais no personagem. No final do filme, o que eu adoraria que as pessoas levassem consigo é: quem é Mateo como ser humano? Quem é Morro, o que ele dá a Mateo como humano? Esse tipo de coisa, que não é fácil colocar em palavras, mas que você consegue ver através das imagens que mostramos. Essa é a magia que o cinema te dá como criador: poder mostrar muitas coisas acontecendo na tela sem precisar ser óbvio ou exibi-las especificamente.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Uma das contradições mais interessantes para mim é que Mateo cuida dos animais, mas não cuida de si mesmo. Essa contradição sempre foi sua ideia ou simplesmente surgiu?
Rodrigo García Saiz: Foi totalmente intencional. Ele está muito triste, está quebrado. Essa é a razão pela qual escolhemos Gustavo Sánchez-Parra como o personagem principal: ele é um grande ator e, fisicamente, é magro. Ele tem uma certa tristeza nos olhos. A ideia era mostrar alguém que, lutando contra esses grandes problemas o tempo todo, consegue se conectar melhor com os animais do que com os humanos. Como ele consegue dar seu coração a uma vaca que está quase morrendo – que vemos pela a forma como a toca – mas não consegue tocar nenhum ser humano? É porque ele tem medo do mundo que está fora do seu próprio mundo; o mundo dele são os animais. Essa foi uma das intenções com esse personagem que quase não fala. É uma atuação muito seca, onde apenas o contato visual com o animal ou com o que está acontecendo ao redor transmite muito do que eles vivem nesses lugares.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Mas dirigir um filme com tanto silêncio deve ser difícil, tanto para o ator quanto para o diretor, certo?
Rodrigo García Saiz: Sim, foi difícil, realmente. Nós trabalhamos muito, fizemos pesquisas e trocamos muitos livros e filmes — não especificamente sobre o mesmo tipo de história, mas conversando sobre a vida. O ator ama cachorros, o que foi excelente desde o início, e ele entendeu o personagem muito bem. Ele adicionou coisas brilhantes, sem overacting ou reações exageradas com o animal. Por outro lado, o animal tinha que ser um animal. Eu não queria escolher um cachorro treinado; era apenas um cachorro comum e colocamos as cenas de forma intencional. Se o cachorro quisesse tirar uma soneca, tudo bem, porque ele é um cachorro. Quem tem cachorro entende essa forma de estarem juntos. Sentimos que ter menos diálogos tornaria o filme mais poderoso. Criamos muito design de som para que, se você assistir no cinema, sinta que está naquele lugar, ouvindo pequenos detalhes que te inserem na situação sem precisar explicar nada.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E já que você escolheu não ter um cachorro treinado, quanto do que aconteceu no set foi improvisado ou planejado?
Rodrigo García Saiz: Eu sempre deixo a porta aberta para o que vai acontecer no set, porque é impossível controlar tudo. Mas a maioria das cenas que estão no roteiro são originais, fizemos apenas alguns ajustes na forma de filmar. Para ser honesto, foi fácil trabalhar com o Morro. Toda a equipe sabia que estávamos trabalhando com um animal, então todos ficavam em silêncio. Filmamos em película, o que traz outra camada de problemas porque não podíamos deixar a câmera rodando por muito tempo, mas ele era um animal muito inteligente na forma como se conectava com o ator. Na verdade, o ator levou o cachorro para sua casa por cerca de 15 dias para estabelecer uma relação. No final, foi mais fácil para o ator lidar com ele do que para o próprio treinador real. Formamos uma equipe muito boa, e foi uma filmagem realmente mágica.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E uma última pergunta, você considera esse mais um filme político ou uma história de amor?
Rodrigo García Saiz: Eu acho que o cinema é sempre político, porque é uma forma de ver o mundo. Mas acho que esta é uma história terna, e não discordo que tenha ambos os lados, porque estamos falando de um problema muito importante, mas damos alguma esperança de que não é o fim do mundo.



















