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Entrevista | “Nos concentramos nos efeitos desse drama sobre as crianças”: Mees Peijnenburg fala sobre “Uma Família” (Mostra de SP 2026)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 1 hora
5 min de leitura
Diretor esteve na Mostra de SP para apresentar o filme, que aborda o processo de um divórcio através do ponto de vista dos filhos.


Dirigido por Mees Peijnenburg, o drama Uma Família é um dos longas a concorrerem na Mostra Perspectiva Internacional, da 50ª edição da Mostra de SP. Exibido pela primeira vez no Festival de Berlim neste ano, o filme acompanha o litigioso processo de divórcio do casal Maria (Carice Van Houten) e Jacob (Pieter Embrechts) pelo ponto de vista de seus filhos, Nina (Celeste Holsheimer) e Eli (Finn Vogels). O Oxente Pipoca já teve a oportunidade de assistir ao filme e você pode conferir a crítica aqui.


Mees Peijnenburg esteve presente durante a Mostra para apresentar o filme, e o Oxente Pipoca pôde entrevistá-lo. O diretor comentou sobre as escolhas formais para fazer o público se conectar com os irmãos, a divisão da narrativa em três partes e as principais influências cinematográficas que ele teve para Uma Família. Confira a entrevista abaixo:


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Minha primeira pergunta é sobre suas escolhas de direção para o filme. Sinto que ele passa um ar bastante claustrofóbico, com a câmera sempre perto dos personagens, os planos fechados nos rostos dos dois irmãos, e isso vai gerando um sufocamento à medida que eles enfrentam o divórcio dos pais. O que te motivou a trabalhar a câmera dessa forma? Como você esperou que isso gerasse uma conexão do público com os protagonistas?

Mees Peijnenburg: Eu trabalho com Jasper Wolf, que é o diretor de fotografia do filme. Para mim, ele é um artista visual do mais alto nível. Nós sempre chegamos ao set muito bem preparados, com uma lista de planos e uma definição de movimentação — o que chamamos de “blocagem” — que planejamos previamente; além disso, visitamos o local de filmagem diversas vezes. E, enquanto estamos no set, sempre observamos o que está acontecendo diante da câmera, a ponto de quase esquecermos o que tínhamos no papel. Então, sempre surgem ideias. 

Por exemplo, uma ideia que tivemos para este filme, e que vale a pena mencionar, era seguir uma espécie de "regra": sempre observar aquilo para o que os pais não estão olhando. Como nosso foco estava deliberadamente nas crianças, quando os pais brigavam, discutiam ou algo do tipo, nós sempre observávamos o que as crianças estavam fazendo. Nunca nos concentrávamos no drama dos pais em si, mas sim nos efeitos desse drama sobre as crianças. Buscávamos, então, nos aproximar gradualmente delas, especialmente porque o ambiente sonoro tornava-se muito sufocante, ou bastante dramático.

Há uma cena no filme, onde o pai está ao telefone, do lado de fora, enquanto ele e o filho comem algo que pediram para viagem. O pai está falando com o advogado, fica extremamente agitado, entra em desespero, está muito estressado e começa a gritar. Poderíamos ter abordado isso de forma dramática; se fosse algo mais clássico ou acadêmico, teríamos focado no drama envolvendo o pai, com um close no menino e em seus olhos. Mas durante as filmagens, decidimos nos aproximar, aos poucos, da orelha do garotinho. Isso surgiu ali mesmo, no set. Percebemos que, na verdade, o som — o som do pai, que está agressivo — é onde reside o drama. Então, de repente, passamos a focar no som; aproximamo-nos lentamente da orelha e filmamos a orelha do menino. E nos concentramos nele.


Por isso, fizemos essas escolhas: queríamos adotar uma abordagem sensorial para observar aquilo para onde os pais não estão olhando. É aí — na forma como as mãos tocam, em todas essas sensações — que percebemos que residia o drama. Então, talvez seja esse o sufocamento, ou o que você chama de sufocamento, ou talvez sejam as sensações emocionais que estávamos vivenciando na pele e também no que diz respeito à audição.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca):  Outra coisa que me chama a atenção é a divisão do filme em três capítulos, os dois primeiros centrados em cada um dos irmãos. Temos até algumas cenas que se repetem em ambos os capítulos, mas do ponto de vista de cada um. O que te levou a querer estruturar a narrativa do filme dessa forma, ao invés de uma estrutura mais linear? 

Mees Peijnenburg: Adoro essa pergunta. Sempre me interessei muito por perspectivas: como podemos passar pelos mesmos eventos, mas vivenciá-los de formas tão distintas. Isso acontece por conta da nossa bagagem, do que veio logo antes e do que virá logo depois na vivência daquele momento específico. Queríamos colocar uma lupa sobre esses eventos recorrentes.


Então, a questão central do filme é: será que eles vão encontrar o que buscam no final? O terceiro capítulo vai nos revelar isso. Mas, nestes dois primeiros capítulos, acompanhamos a jornada dela e a dele — ambos travando a mesma luta, porém de formas completamente diferentes. No primeiro capítulo, nós o vemos e pensamos: "Nossa, que garoto irritante! Sai logo da tela, por favor! Meu Deus, que moleque...". Já no segundo capítulo, o foco está nele, e a gente pensa: "Meu Deus, coitadinho do menino". Nós não fazíamos ideia. Mal sabíamos nós. E acho que isso acontece justamente porque, no primeiro capítulo, estamos com ela, e no segundo, estamos com ele. 


Foi exatamente isso que quisemos criar: a sensação de que você não sabe até saber, não vê até ver. Na verdade, é literalmente o que acontece com esses dois jovens: cada um está imerso em sua própria realidade. É exatamente esse o estado em que se encontram seus sentimentos. E, no terceiro capítulo, eles começam, aos poucos, a perceber o que o outro, de fato, está vendo. Então, isso foi intencional. Desde o início, queríamos abordar diferentes perspectivas.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Há grandes filmes sobre dramas familiares de diversas partes do mundo. Você diria que houve algum que te influenciou mais diretamente? Se sim, quais seriam as suas principais influências para "Uma Família"?

Mees Peijnenburg: Ah, são tantos. Sou influenciado pelo mundo e por muitos filmes. Acho muito divertido o fato de que, junto com a equipe, assistimos a muitos tipos diferentes de filmes. Por exemplo, em Yi Yi, de Edward Yang — um drama familiar que se desenrola ao longo de um ano —, os diferentes membros da família são retratados de forma muito particular. Há também o trabalho de Lucrecia Martel, ou o filme Elefante, de Gus Van Sant: obras que apresentam perspectivas bem literais e um estilo bastante distinto. Podemos citar ainda Lynne Ramsay e, também, o japonês Kore-eda.


Por exemplo, acho que o Kore-eda faz um trabalho belíssimo na forma como conecta os personagens. No nosso filme, assim como Kore-eda faz nos seus, usamos planos individuais do menino e da menina. E, no último capítulo, nós os aproximamos gradualmente. Nós os conectamos: fazemos um movimento de câmera (uma panorâmica) de um para o outro, de modo que, bem aos poucos, acabamos reunindo os dois no mesmo plano. Esse é um aspecto em que, na minha opinião, o Kore-eda é um verdadeiro mestre. A forma como ele faz a transição de um personagem para outro — e, logo em seguida, você já sente falta daquele que acabou de deixar, despertando o desejo de voltar — mostra como todo esse amplo espectro de cineastas exerceu, de alguma forma, uma influência no resultado final. 


É claro que acabo esquecendo de mencionar muitos nomes, já que tudo isso está guardado na minha mente, na do Jasper, na do produtor ou na de alguém mais. Então, são muitos, muitos, muitos filmes lindos.


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