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Entrevista | Parasita do Coração: “Não é tão futurista de repente”

Foto do escritor: Aianne Amado
Aianne Amado
há 4 horas
8 min de leitura
Em entrevista exclusiva ao OP, Miriam Louise e Mitchell Arens e a atriz Amber Gray discutem solidão, luto e os paradoxos da tecnologia em ficção científica exibida no Festival do Rio.

Nunca estivemos tão conectados. E, paradoxalmente, talvez nunca a humanidade tenha sentido tanta solidão. Entre telas, algoritmos e realidades virtuais, a tecnologia que promete encurtar distâncias, tem deixado de ser ponte entre mundos e se tornado refúgio contra estes. 


É a partir dessa inquietação que Parasita do Coração (Heartworm), ficção científica dirigida por Miriam Louise Arens e Mitchell Arens, constrói uma história sobre luto, solidão e os limites da conexão humana. Na trama, Avena (Amber Gray) tenta lidar com uma perda devastadora em um futuro no qual a realidade virtual oferece a possibilidade de escapar de uma existência que se tornou insuportável.


Concebido há sete anos – antes da popularização dos chatbots e da inteligência artificial generativa – o filme chega às telas em um momento no qual seu futuro imaginado parece muito mais próximo. Exibido no Festival do Rio, o longa aposta na ambiguidade entre realidade, memória e simulação para conduzir o espectador por uma experiência tão desorientadora quanto emocional. 


Em entrevista exclusiva ao Oxente Pipoca, os diretores Miriam Louise e Mitchell Arens e a protagonista Amber Gray conversaram sobre os desafios de produzir uma ficção científica independente, a influência do isolamento provocado pela pandemia, as transformações tecnológicas que aproximaram o mundo de uma distopia e a importância de preservar espaços de conexão genuinamente humana (inclusive nas salas de cinema).


Leia a conversa na íntegra:


Aianne Amado (Oxente Pipoca): Primeiro de tudo, achei bastante interessante que o filme  é sobre pessoas que vivenciam uma solidão profunda, mas foi criado por duas pessoas. Como o fato de dirigirem juntos ajudou a moldar a história que é justamente sobre falta de conexão?


Mitchell Arens: Muito boa pergunta. Acho que a natureza da nossa colaboração é que tentamos chegar a um consenso, o que se torna uma espécie de terceira ideia. Assim, ambos temos a sensação de descoberta criativa. Cada um de nós traz suas próprias coisas, mas realmente passamos muito tempo tentando gerar uma nova ideia nesse processo. O efeito disso é que temos uma espécie de público integrado. Eu sou o público da Miriam e ela é o meu público. Então, com sorte, isso cria algo mais significativo. 


E acho que grande parte do aspecto da solidão... a gênese disso veio do nosso sentimento de isolamento enquanto observávamos a humanidade transitar para um mundo mais tecnológico. Sentimos um luto profundo com isso de repente. Nossas conexões de humano para humano pareciam mais distantes, mesmo com pessoas que estavam bem ali. Ambos sentíamos isso. Então, pudemos mergulhar realmente fundo nisso e explorar em uma zona segura, porque tínhamos um ao outro para ir muito fundo em como seria a sensação à medida que se avançasse mais e mais.


Aianne Amado (Oxente Pipoca): Amber, [sua personagem] Avena passa grande parte do filme em um estado de profundo luto e agonia emocional. Como ator, como você sustenta esse nível de intensidade emocional ao longo das cenas , ao mesmo tempo em que encontra maneiras de fazer com que o desespero do personagem se intensifique?


Amber Gray: Felizmente, está tudo no texto. Não preciso ficar descobrindo qual tom de luto é – está bem ali na página. E acho que existem muitos tons e fases de luto, o que inclui tristeza profunda, raiva e momentos de alegria.


Mas também foi muito fácil com esses dois (Mitchell e Miriam). É algo que me peguei dizendo muito nos últimos dias e compartilhando novamente ao lembrar da minha experiência na produção do filme. Tínhamos acabado de sair de quase um ano e meio de pandemia, de ter realmente vivenciado o isolamento pessoal. E eu estava com meus dois filhos pequenos, então houve um certo descontrole, dias de perder a cabeça e definitivamente dias de raiva. Foi quando aprendi a meditar, porque eu estava simplesmente com raiva. Eu não lembrava como abraçar outro ser humano novamente que não fosse da minha família, como ter contato visual com outro ser humano que não fosse da minha família imediata. Essa tinha sido a minha experiência no último ano e meio. Então não foi muito difícil de acessar. Se você me pedisse para fazer o filme agora, eu provavelmente me borraria toda.


Aianne Amado (Oxente Pipoca): A ficção científica pode ser um gênero muito desafiador, especialmente ao criar um futuro verossímil. Quais foram as maiores vantagens e desafios de fazer isso num filme independente?


Mitchell Arens: Ns sempre chamamos o filme de "Matrix de pia de cozinha" (kitchen sink matrix). Porque estávamos continuamente expandindo os limites da nossa imaginação, mas o quanto podemos mostrar em um close-up? O quanto podemos nos apoiar no “efeito especial" que sabemos que temos, que são atores incríveis? E esse foi realmente um dos nossos principais objetivos criativos, sabendo que seria independente, mas sabendo que realmente queríamos explorar essa ideia com um orçamento pequeno, mas torná-la uma grande ideia e algo que esperamos que possa ressoar com o público de uma forma maior. Mas sabendo que, sim, o principal efeito especial que tínhamos eram os atores e suas performances incríveis, e o quanto isso pode ser transmitido.


Amber Gray: Eu só assisti ao filme duas vezes, uma há cerca de um ano e meio e ontem à noite com um público pela primeira vez, e com meus filhos. Meu filho de 10 anos ficou realmente assustado. Tipo, sim, é ficção científica, mas por ser de baixo orçamento e você não mostrar de forma óbvia quando está no mundo virtual e quando está na realidade, acho que é bem profundo. Funciona da melhor forma e se mistura com todos esses outros gêneros, quase como suspense e terror. Meu filho ficava se preparando para sustos repentinos (jump scares) que nunca vieram. E eu adorei isso, na verdade, e isso é porque fomos forçados a usar a imaginação e a criatividade em vez de todos os truques, sabe? Eu adoro isso no filme como espectadora, como testemunha dele.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Aianne Amado (Oxente Pipoca): Eu tenho uma pergunta sobre isso. Porque o filme confunde as linhas entre o presente e o passado, a realidade e a vida real o tempo todo. Como foi navegar entre essas realidades? 


Mitchell Arens: Para os personagens no mundo do filme, não há realmente muita distinção entre o espaço virtual de IA e o espaço real. E por causa do luto profundo, até as memórias começam a parecer tempo presente. E por isso, para a jornada do personagem, não é super importante que eles saibam exatamente onde estão. E nós realmente queríamos que o público se sentisse alinhado com eles e sentisse isso, ficando um pouco desorientado. E conforme o filme avança e a protagonista realmente começa a se situar e a estar presente onde está, sendo capaz de ver os diferentes reinos, então começamos a ver, "ah, certo, não, aquele é aquele lugar, este é este lugar". Assim, você realmente sente a jornada através dessas coisas o máximo possível.


Miriam Louise Arens: Sim, permitindo que eles se confundam até que fiquem claros para a personagem, até que as escolhas sejam feitas e ela esteja tomando a decisão – escolhendo onde quer estar versus onde o mundo está dizendo que ela tem que estar. Então, quando ela começa a assumir a propriedade, é quando esperamos que o público também esteja entendendo isso e acompanhando, à medida que tudo floresce junto.


Aianne Amado (Oxente Pipoca): Tenho certeza de que vocês notaram que com a tecnologia, especialmente o público jovem, tende a assistir a filmes com o celular nas mãos – e não dá para fazer isso com este filme. Se você perder a primeira frase, perderá o filme inteiro. Vocês pensaram nisso ao fazer o filme?


Mitchell Arens: Sim. Eu definitivamente nunca mais quero fazer um filme onde você tenha que ler frases no início para entender tudo. Mas o filme é melhor em um cinema porque… parece haver literalmente apenas um lugar em nossa cultura e sociedade onde o celular não é permitido, e esse lugar é, de alguma forma, o cinema. Tenho certeza de que você pode pegar o telefone até na igreja e está tudo bem. Quero dizer, acho que muito de estar no cinema é estar conectado uns aos outros. Então, realmente queremos promover isso com o filme, e parece que precisamos ter cada vez mais momentos em que deixamos o telefone de lado e apenas nos envolvemos com algo, permitindo que nossos cérebros apenas divaguem pela coisa que estamos experimentando. Acho que muito do nosso instinto atualmente, inclusive o meu, é apenas tipo, "ah, meu cérebro está divagando, posso olhar para o meu celular agora", sabe? E precisamos ser capaze nos lembrar de como sentar naquele lugar desconfortável – tipo, "não! estou aqui, neste momento,  vivendo isso". E o filme faz isso. Definitivamente não é um filme de segunda tela. Então, sim, apenas esperamos que as pessoas possam ir ao cinema e experimentá-lo e assisti-lo dessa forma.


Aianne Amado (Oxente Pipoca): O quão avançada estava as ferramentas de IA quando vocês conceberam o filme?


Miriam Louise Arens: É interessante porque escrevemos o filme há sete anos. Isso foi antes de todos os chatbots. Então, para o momento atual, está funcionando muito bem porque o público entende. Eu acho estranho que, de muitas maneiras, estamos vivendo nisso. Não é tão futurista de repente. Quero dizer, existem ferramentas de terapia de IA e as pessoas estão realmente confiando nessas coisas. Quando estávamos pensando nisso ao fazer o filme, não podíamos obter uma experiência prática. E agora, se fizéssemos o filme hoje, seria tão diferente porque essas são coisas fundamentais. É algo assustador de pensar.


Aianne Amado (Oxente Pipoca): Amber, para você, ver o filme com um público muda sua relação com a personagem?


Amber Gray: Eu acho útil para processar algo. Primeiro de tudo, tenho uma relação complicada com assistir a mim mesma. Sou principalmente uma atriz de teatro, então não me assisto com muita frequência, raramente preciso. [Fazer] isso é um inferno pessoal. Levei um tempo, uma boa hora para parar de entender que aquela era eu. E então, na última hora, eu legitimamente assisti como uma história e ver apenas a história, e então entrei na jornada emocional. Não era sobre ficar me olhando ou olhando para o meu rosto ou o que quer que seja, sabe? Mas isso levou algum tempo. O que foi útil em assistir com o público foi apenas ouvir os pequenos "mm" ou os pequenos ruídos ou as palavras que saíam de suas bocas – a maioria das quais era em português, mas de vez em quando eram em inglês e eu ficava tipo, "ah, fascinante!", apenas para ouvir como as coisas estavam sendo digeridas. Não significa necessariamente que eu concorde com isso ou que esteja influenciando minha opinião sobre como estou recebendo, mas acho tudo isso muito… informativo.


Aianne Amado (Oxente Pipoca): Como foi apresentado nos EUA aqui e depois para diferentes públicos em contraste? Vocês tiveram reações muito diferentes?


Mitchell Arens: Tem sido incrível. Quero dizer, nós percebemos o quão universais são os temas e as ideias ao compartilhá-lo aqui. Sabe, é tipo, "ah, sim, isso está ressoando não apenas nos Estados Unidos, mas em todos os lugares". Estamos todos lidando com isso. Na verdade, é como um evento global que está acontecendo. E isso tem sido muito interessante. Acho que diferentes partes do filme falam com diferentes culturas, mas é meio... é emocionante ver a universalidade disso. E, obviamente, estar no Rio é muito, muito divertido e as pessoas são tão maravilhosas e abertas, é realmente incrível.


Miriam Louise Arens: Porque sinto que é um filme que te abre, e parece que aqui as pessoas estão gostando dessa parte dele.


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