Entrevista | Caco Ciocler e Márcio Vito: “A gente vive num país partido, onde cada metade acha que vive na realidade e que a outra metade vive numa ilusão”
- Aianne Amado

- há 1 hora
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Diretor e protagonista de Eu Não Te Ouço, longa inspirado em um dos episódios mais absurdos do pós-eleições de 2022, refletem sobre os processos de transformar polarização política em drama tragicômico.

Tanto o audiovisual contemporâneo se consolidou como produto comercial que, às vezes, esquecemos de algo essencial: cinema também é arte — e, como toda arte, deve nos fazer refletir sobre a vida em suas diversas dimensões. Já dizia o cineasta Wim Wenders: todo cinema é político. Ele provoca, desestabiliza, confronta não apenas o mundo ao redor, mas também nossas próprias contradições.
Por isso, em um país atravessado por anos de radicalização, talvez seja impossível fazer cinema nacional sem tocar, de alguma forma, nessas feridas. Ainda assim, poucos filmes recentes me atravessaram tanto nesse sentido quanto Eu Não Te Ouço, novo longa dirigido por Caco Ciocler, ao qual assisti durante sua estreia no Festival do Rio do ano passado. Inspirado no episódio real do “patriota do caminhão”, viralizado no pós-eleições de 2022, o filme transforma esse acontecimento absurdo em uma reflexão profundamente humana sobre polarização, intolerância e a crescente incapacidade de escuta no Brasil contemporâneo.
Com apenas um ator em cena, Márcio Vito interpreta tanto o caminhoneiro quanto o manifestante agarrado ao veículo, em uma espécie de duelo de monólogos simultâneos: ambos falam incessantemente, mas nenhum consegue ouvir o outro. Uma premissa simples e brilhante, potencializada por escolhas formais igualmente ousadas — enquadramentos limitados, restrição corporal, desenho de som opressivo e um uso preciso da luz e da repetição.
Acho que foi a crítica mais rápida que já escrevi – porque escrevê-la também foi, de certa forma, um processo terapêutico. Quanto mais eu pensava sobre o filme, mais entendia sobre mim, sobre meus afetos, meus silêncios e minha própria maneira de discutir política. Como numa psicografia, os dedos corriam pelo teclado antes mesmo que eu conseguisse racionalizar completamente o que estava sentindo. “Tenho muita sorte de ser crítica”, pensei.
Pois tenho ainda mais sorte de poder conversar diretamente com os artistas responsáveis por essas obras que me atravessam. Dias antes da estreia comercial de Eu Não Te Ouço, entrevistei Ciocler e Vito — que, para minha surpresa, já haviam lido minha crítica e imediatamente se mostraram dispostos a debatê-la.
Para além de inusitado, ouvir de um ator que seu texto o deixou inquieto, ou ver um diretor discordar diretamente de uma impressão sua, talvez seja o pesadelo de muitos críticos. Felizmente, não foi o meu. Ao contrário: senti-me privilegiada por poder acessar, em primeira mão, os processos criativos e as intenções por trás da obra. Com muito humor, inteligência, senso crítico e respeito pelo meu trabalho, a conversa aconteceu de maneira descontraída, sem nunca perder a dimensão política que rodeia o próprio longa.
Apesar de manter minhas (ótimas!) 4,5 estrelas para o filme, reconheço que nossa conversa alterou algumas percepções que eu tinha sobre a obra. Talvez o puxão de orelha de Caco Ciocler tenha surtido efeito, afinal…
Leia a entrevista completa a seguir:
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Estou muito feliz que consegui essa entrevista, porque eu falei com vocês no tapete vermelho do Festival do Rio, antes de ter visto o filme e fiz perguntas genéricas. Depois que assisti pensei: “caramba, tem tanta coisa para perguntar!” Que bom que agora tenho essa oportunidade.
Márcio Vito: Você que escreveu aquela crítica do Oxente Pipoca?
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Fui eu, sim.
MV: Ah, que legal! Muito obrigado. Que bacana. Eu concordo com um monte de coisa, vi melhor um monte de coisa. Fico aqui com o impulso de defender a parte que você não gostou muito. Mas eu super entendo, e poxa, muito bacana. Super bem escrito e tal.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Mas eu adorei o filme! Dei 4,5!
MV: É, mas é esse lugar…
Caco Ciocler: Calma, Márcio Vito! Calma, essa é nossa chance! (Rindo)
MV: (Rindo) Tudo bem, desculpa.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): (Rindo) Vamos por partes, vou chegar na minha crítica. Mas a primeira pergunta é: quando surgiu o caso do Patriota do Caminhão Vermelho, qual foi a recepção inicial de vocês? Porque para mim e para a maioria das pessoas, foi algo cômico, um símbolo do absurdo que vivíamos naquele momento. É muito interessante que vocês enxergaram aquele fato como uma fonte de inspiração. Em que momento virou essa chave para vocês?
CC: Assim como você, eu estava rindo, compartilhando, colocando o patriota em tudo que é lugar – em foguete, em kombi… Era realmente muito engraçado. Mas em algum momento, que eu não vou conseguir especificar, lembro que essa chave virou no sentido de eu falar: "meu Deus, isso não é só engraçado."
Acho que a gente estava rindo porque... você lembra que no último dia do governo Bolsonaro, quando ele perde e diz que não vai sair? E eu falo: "Cara, 4 anos atrás a gente também estava rindo de determinadas coisas que viraram realidade." Então, talvez a gente estivesse rindo demais de uma situação que começou a me parecer bastante trágica.
Pensei: "Cara, eu queria poder subir nesse caminhão, entrevistar esses dois personagens..." E a partir daí eu falei: "Uau, isso dá um filme." E a partir daí, várias fichas foram caindo. Eu entendi a grandiosidade da inspiração que era aquilo, porque ele era a tradução física da impossibilidade de escuta.
Aquele trechinho que a gente vê o caminhoneiro filmando sem entender o que o cara está falando – cara, isso é a tradução física do Brasil, daquele momento do Brasil. Onde a gente deixou de escutar, onde a gente projetava no outro o que ele pensa… o que ele diz não é necessariamente o que ele está tentando dizer de fato. E aí eu fui pensando: nossa, isso é um objeto artístico bastante elaborado.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E essa é a reação que muita gente tem quando falo desse filme: “como assim um filme sobre o Patriota do Caminhão?”E aí, quando começo a explicar, essas pessoas falam: "caramba, é genial!" Porque de fato havia ali uma ideia que precisava ser polida — e parabéns por ter visto essa inspiração, realmente precisávamos de bastante reflexão. Eu mesma, quando vi a sinopse pensei “como vou ficar uma hora e tanto vendo um filme sobre isso?”
CC: Você falou uma coisa muito importante. Não só aquilo era uma peça, como eu pensei que se a gente estender esses segundos – se esse filme se passar durante dias, se amanhecer, se anoitecer – a gente consegue que a extensão desse meme tire esse lugar de meme, de uma coisa que você só ri e não reflete.

Aianne Amado (Oxente Pipoca): Você coloca o longa como encerramento da sua trilogia política. Você sente que houve uma evolução na forma como observa o Brasil a partir de trabalhar nesses três filmes?
CC: Muita gente tem me perguntado isso: "qual o retrato que você fez do Brasil com essa trilogia?" É engraçado porque não foi um plano fazer uma trilogia sobre o Brasil. Eu nunca tive essa pretensão. Foram reações.
E por que três? Porque foram três momentos muito loucos daqueles quatro anos. Um momento de muita angústia quando o Bolsonaro ganhou as eleições — a gente conhecia o discurso bolsonarista, mas não sabia o que seria colocado em prática, o que daquilo era verdade, então a gente estava muito ansioso. Isso me fez querer fazer algo, que foi Partida.
Depois da pandemia, outro momento. "Gente, acabou. O que vai acontecer das nossas vidas!?" Mais muitas angústias. [Resultando no filme O Melhor Lugar do Mundo é Agora]
E o terceiro foi quando Bolsonaro perde as eleições.
Por acaso foram três momentos, poderiam ter sido mais. E eu não sei mais se é o final da trilogia política, porque 8 anos depois estamos de volta praticamente no mesmo cenário. Então, talvez essa trilogia vire uma... Como se fala quando são quatro, Márcio?
MV: Uma tetralogia, uma pentalogia, sei lá. Ou então... Eu estou apostando no Decálogo.
CC: Não faça isso, porque se tiver Decálogo é porque a situação está realmente muito… (Risos)
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Pois é, eu adoraria assistir mais filmes dentro desse escopo, mas se for porque um Bolsonaro ganhou, acho que não. (Risos)
CC: Mas a gente já tem outros planos, já tem outros filmes na cabeça, sempre mantendo essa linguagem da fricção entre realidade e ficção. Eu queria expandir um pouco mais. Acho que essa questão do patriota é claramente uma questão brasileira, mas não acho que a gente esteja falando só do Brasil. Esse filme — todos, mas esse também — já está vazando um pouco para além.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Márcio, agora você. Fiquei impressionada com a sua atuação porque ela é construída dentro de uma limitação muito específica. Você quase não usa os braços — que estão no volante, ou então apoiados no para-brisa — e a maioria das vezes é só metade do seu rosto. Como foi para você construir esses dois personagens tão distintos com tanta limitação? Eu fiquei muito feliz quando você ganhou o prêmio de melhor ator no Festival do Rio. Muito merecido.
MV: Obrigado, eu também. Ainda é uma reverberação que eu estou vivendo.
Não sei se você soube, mas esse roteiro foi construído por dois anos. Entre trabalhos do Caco, da Bel Teixeira e meus, a gente se encontrava online — durante a pandemia mesmo. É um roteiro escrito por nós três, mas a gente tem muito claro como essas funções aconteciam. A ideia original é do Caco; as mudanças de estrutura do roteiro — essa imagem do vidro que impede a comunicação, a parada no posto de gasolina, a volta do posto — tudo isso são mudanças de estrutura que o Caco já tinha.
Quando a gente foi descobrir quem são essas pessoas, a gente criou — eu, Caco e Bel — falando de referências, de tipo de isolamento. A gente pincelava a ideia de A Vida Não É Útil, do Krenak... cada um com suas cabeças, sem ficar botando o livro na mesa. A gente estava o tempo inteiro dialogando com um pensamento teórico sobre esse mundo que a gente vive desde os anos 2010 — velocidade das relações e tal. E não é coincidência que, depois dessa ideia dos amores líquidos, das relações muito superficiais, esse salto da extrema direita tenha voltado. Onde não existe espaço para escutar o outro, como diziam os mais velhos, é nos detalhes que o diabo cresce. O ovo da serpente é chocado.
Então, quando a gente partiu para criar o perfil desses personagens, tinha todas essas referências. A Bel me propunha uma improvisação direcionada pelo Caco — coisas que até não ficaram no filme, mas falava de encantamento.
A gente começou ensaiando quem é esse caminhoneiro que está sendo entrevistado antes de alguém aparecer. O filme começa como se fosse um documentário — numa conversa que não é exatamente essa que o meme traz. Quando fui filmar, tinha essa bíblia pronta. E eu tinha total segurança nas abordagens: cada uma acessava um tipo de comportamento que imprimia uma alma diferente — pela velocidade que falam, pelas condições físicas, um do lado de fora, outro do lado de dentro dirigindo.
[Além disso,] a estrutura que o Caco propôs de filmagem me ajudou sem que eu soubesse: era um tiro de um personagem, depois um tiro do outro. Não filmou tudo de cada um separado. Isso me ajudava a criar similaridades — de contracena, de lembrar para onde eu estava apontando, de assunto também.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E de onde surgiu a ideia de ter um só ator para fazer os dois contratipos?
CC: Ah, isso foi uma das fichas que me caíram. Eu tinha algumas certezas: a parada no posto, o retorno da parada no posto, que eu queria que durasse dias. E uma das coisas que amadureceram foi essa ideia de ter um ator só. Porque o jogo todo é um jogo de espelhamento. A questão de você não ouvir o outro faz com que você ouça sempre a si próprio, sempre um reflexo de si próprio. E aquele vidro é também um espelho — ele literalmente reflete. Então cada um acaba conversando com o seu próprio reflexo. Essa ideia ficou muito clara para mim desde cedo: tem que ser o mesmo ator para reforçar essa ideia do jogo de espelhos, do mundo espelhado.
E também para reforçar desde o começo que não é um filme para ser levado a sério no sentido de: a gente quebra imediatamente a quarta parede. É engraçado que algumas pessoas me dizem: "Pô, Caco, não dá para acreditar que anoiteceu tão rápido." E eu falo: "Gente, vocês estavam acreditando? É o mesmo ator!" Eu digo na lata que não tenho a pretensão de fazer você acreditar que aquilo estava acontecendo de fato. Porque tudo isso que a gente está vivendo tem um quê de performático também, e eu queria exacerbar esse quê.
E o último motivo: se eu tivesse dois atores, fatalmente um dos dois seria mais carismático, e eu corria o risco de com isso acharem que eu estava tentando dizer alguma coisa.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Na minha crítica, eu falei que senti que o filme parecia uma crônica audiovisual. Vocês concordam com essa classificação? [Após um breve silêncio] Podem me criticar também, fique à vontade!
MV: Imagina, eu sou péssimo para isso! Quando brinquei, que o Caco puxou minha orelha, foi porque eu lembro de você gostando muito do filme, falando coisas incríveis... Obrigado. Mas você teve uma questão que é uma questão para mim também ainda — um incômodo com uma certa repetição mais para o final. E essa repetição foi necessária junto com a mudança do céu e tal, para que a gente pudesse fazer a virada de que eles estão ali há 4 anos.
Só que eu também... A gente olha e... Eu estou o tempo inteiro falando disso, pensando nisso, sofrendo com isso — com uma coisa que já está pronta. Porque eu acho que essa impressão poderia ter sido causada por outros caminhos que não fossem exatamente a repetição. Tem material para caramba — você não imagina. E aí a minha tristeza é que às vezes parece que faltou material ou faltou assunto.
Mas essa revelação… às vezes a pessoa está longe do incômodo, se incomoda, fica incomodada, e aí quando revela, ela não entende que essa revelação tem a ver com ela; que o incômodo era um pouco a preparação da revelação. Enfim, não sei bem.
CC: Eu discordo veementemente do Márcio Vito.
MV: Ai, que bom!
CC: Esse filme era difícil. E desde o começo eu dizia isso para Márcio Vito, para a montadora. Eu não queria assunto no filme, não queria que nenhuma ideia se completasse. Nunca foi um filme sobre ideias, sobre oposição de ideias. Sempre foi um filme sobre retalhos de discurso, retalhos de argumento — que é o que a gente vive hoje. A gente não coloca um representante da extrema direita e um da extrema esquerda para promover um embate de ideias. Até porque esse caminhoneiro nem de longe representa a esquerda. É um filme sobre embate de “não ideias”, sobre pedaços de ideias. Eu não queria que nenhum assunto se concluísse, não queria que nenhum assunto viesse à tona.
E a repetição é uma repetição que a gente vive. A gente está 8 anos depois passando pela mesma situação, vai enfrentar uma eleição praticamente igual à de 8 anos atrás. A gente repete o mesmo assunto incansavelmente — e é disso que se trata também. Quando é que a gente vai avançar? Quando é que a gente vai falar de outra coisa? Enquanto isso o caminhão está andando.
Na minha opinião, a repetição de assunto — principalmente sobre democracia — é o assunto do filme. Tanto a esquerda quanto a direita acham que estão defendendo a democracia e que o outro campo está tentando destruí-la. Houve um sequestro de linguagem. Hoje a extrema direita fala de revolução, de liberdade, de democracia! Então a repetição sobre o que é democracia é assunto, não é um problema do filme.
Aianne Amado (Oxente Pipoca): E inclusive essa repetição torna o final mais potente. Porque quando eles escolhem voltar, ficamos [pensando]: “como assim?! A gente já entendeu e vocês ainda estão insistindo?!”
CC: Perfeito! Perfeito! Porque senão eles voltariam para falar de mais assuntos, mas eles não voltam pelo assunto, voltam porque estão [estagnados]. Exatamente! Obrigado, da próxima vez você cinco em vez de quatro (risos)
Aianne Amado (Oxente Pipoca): Estamos num período eleitoral e o filme vai ser lançado poucos meses antes da eleição. Vocês ainda acreditam na capacidade do cinema de gerar debate? Acham que o filme vai ter um papel nesse cenário?
CC: Eu torço para que sim. Estou respondendo a inúmeras entrevistas onde as pessoas falam: "Mas você não acha que vai ter uma reação da extrema direita, que você está tirando sarro?" E eu falo: "Gente, eu não fiz esse filme para tirar sarro." O sarro foi o meme. A virada para fazer esse filme foi justamente quando eu deixei de achar aquilo um meme só engraçado. Claro que a gente ri no filme — a gente precisa fazer o resgate da graça. Mas é um filme que, como diz a minha amada esposa, não existe para dar respostas. Ele existe para inaugurar perguntas.
Então eu espero que esse filme inaugure perguntas lindas. Porque ele é também sobre a esquerda: sobre um caminho que determinados setores da esquerda, na minha opinião, vêm tomando, que também é da negação. "Eu não te ouço por eu não te ouço" – a esquerda está caindo nesse jogo também. Claro que para as pessoas que promovem as coisas mais absurdas, não temos obrigação de ouvir. Mas estou falando dos trabalhadores, da massa que foi envolvida em dois discursos muito malucos.
E a gente vive num momento — e essa frase também não é minha — onde a questão não é mais discutir sobre a realidade. A gente vive num país partido, onde cada metade acha que vive na realidade e que a outra metade vive numa ilusão e quer destruir o país que ela acredita. Enquanto a gente não quebrar esse vidro... E aí a responsabilidade é da esquerda e da direita também. Se a gente continuar rindo — "esse cara está do lado de fora, eu rio dele”... Esse filme não foi feito para isso.
Então eu espero que ele inaugure perguntas essenciais. Senão, a gente não estaria voltando 8 anos depois para a mesma eleição.
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