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Entrevista | “A comédia é transformadora”: Jorge Furtado, Daniel de Oliveira, Luisa Arraes e Samantha Jones falam sobre 'Muito Prazer'

  • Foto do escritor: Aianne Amado
    Aianne Amado
  • há 6 horas
  • 7 min de leitura

Em entrevista exclusiva ao Oxente Pipoca, diretor e elenco do filme falam sobre comédia, brasilidade e… moteis.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, Jorge Furtado construiu uma das assinaturas mais reconhecíveis do cinema brasileiro. Do humor de Saneamento Básico e O Homem que Copiava à experimentação de Ilha das Flores, seu cinema frequentemente encontra no absurdo uma maneira de olhar para questões profundamente concretas – da burocracia à desigualdade, da política à própria linguagem cinematográfica.


Em Muito Prazer, seu novo longa-metragem como diretor e roteirista, Furtado volta à comédia para falar de um mundo em que a intimidade também se tornou conteúdo. O filme acompanha Ruben (Daniel de Oliveira), um motorista de aplicativo que herda um motel decadente, e Grace (Luisa Arraes), ex-funcionária que transformou o estabelecimento em sua casa. Ao lado de Nalva (Samantha Jones), eles encontram uma forma cada vez mais ousada – e judicialmente questionável – de tornar o negócio lucrativo, em uma escalada imprevisível. 


Em entrevista ao Oxente Pipoca, Furtado, Oliveira, Arraes e Jones conversaram sobre a tradição da comédia brasileira, a brasilidade dos motéis, a construção do filme e a relação entre tecnologia e sexualidade..


Aianne Amado (Oxente Pipoca): Em uma entrevista que Jorge deu anteriormente ao Oxente Pipoca, você disse que, desde que começou a fazer filmes, o cinema brasileiro morreu pelo menos duas vezes: a primeira com o fechamento da Embrafilme e a segunda durante o governo anterior. Hoje, felizmente, vivemos um momento de reconstrução das políticas culturais e de reconhecimento do cinema brasileiro, tanto no país quanto internacionalmente. Ainda assim, existe uma certa resistência em relação à comédia, com uma valorização maior dos chamados filmes de “prestígio”, geralmente associados ao drama. Para vocês, qual é a importância de fazer comédia no Brasil? E que lugar esse gênero ocupa na nossa tradição cinematográfica?

Daniel de Oliveira: Em algumas bolhas existe, realmente, um certo preconceito em relação à comédia. Mas acho que o brasileiro, de modo geral, gosta muito de comédia. Não é à toa que tivemos grandes sucessos de bilheteria nesse gênero, filmes que arrecadaram muito dinheiro e tiveram uma repercussão enorme no país.


E acredito muito no nosso filme, não apenas pela comédia. É um filme muito engraçado, é uma comédia, mas também tem profundidade. Ele traz outras camadas.


Jorge Furtado: A comédia é um gênero como todos os outros. Tem filme bom e filme ruim de qualquer gênero. E o brasileiro sempre gostou de comédia. Se você pegar os 20 filmes de maior bilheteria da história do cinema brasileiro, 14 são comédias. As pessoas gostam de se divertir no cinema, e eu também gosto muito.


Não sou nada contra o drama, claro. Os dramas são importantes, as tragédias também. Mas acho que a gente deve aprender a rir dos nossos problemas. Existe um ditado, ridendo castigat mores, que significa “rindo, a gente corrige os costumes”. O riso, o humor, sempre aponta para defeitos humanos, para defeitos da sociedade. A comédia é sempre crítica: ela faz uma crítica de alguma coisa.


Pega um filme como Saneamento Básico: é uma comédia, é engraçado, as pessoas riem, mas ele está falando da falta de saneamento básico, da burocracia, de muitos assuntos sérios. Muito Prazer é uma comédia, é para rir, as pessoas saem do cinema felizes, mas estamos falando de invasão de privacidade, internet, inteligência artificial, bullying, de muita coisa séria.


Lembro de uma frase do Voltaire sobre uma ópera de Beaumarchais, O Casamento de Fígaro, que satirizava a nobreza, falava mal dos nobres. Voltaire disse que aquilo já era a revolução em marcha. Quando começa a sacanear o poder, acho que talvez esteja faltando isso no Brasil. A gente tem que debochar dos políticos, não apenas denunciá-los. Todo dia a gente liga a televisão e tem roubo, denúncia, sempre tudo muito grave, sempre muito sério. Tem que sacanear, tem que debochar para que a gente mude, para que a gente transforme.


A comédia é transformadora.


Aianne Amado: O motel é uma instituição muito brasileira. Em outros países, ele costuma ser associado a hospedagens de baixo custo ou a hotéis de estrada, enquanto no Brasil, ganhou uma finalidade muito específica. Ao trazer o motel para o centro da narrativa, vocês acreditam que também estão falando de brasilidade?

Jorge Furtado: Acho que sim. Nos outros lugares, o motel é um lugar na estrada, um hotel rápido onde você pára por uma noite. No Brasil, virou uma instituição onde as pessoas vão para transar, para namorar.


E ele mudou. Na minha adolescência, o motel era um lugar onde a gente ia porque não podia transar em casa, porque os pais não deixavam. Hoje isso mudou muito. Atualmente, a frequência dos motéis é muito concentrada entre as 11 da manhã e as 2 da tarde: aquele almoço em que a pessoa finge que saiu para almoçar e vai namorar.


E tem também as fantasias dos cenários, as suítes: Suíte Grécia, Suíte Roma, Veneza. São lugares imaginários que hoje viraram quase um negócio para o Instagram. Acho que as pessoas também vão lá para tirar foto daqueles cenários malucos.


No Rio Grande do Sul, as suítes têm até churrasqueira para fazer churrasco. Eu vi coisas incríveis, motéis absurdos durante a pesquisa. É um cenário engraçado, que dá muita matéria para o humor.


Aianne Amado: E a construção desse cenário contribui muito para a brasilidade do filme. O motel de Muito Prazer é um espaço extremamente brasileiro. Como esse ambiente influenciou a construção dos personagens e das relações entre vocês?

Daniel de Oliveira: O motel é um personagem do filme. A gente usou realmente uma locação que era um motel e que estava muito envelhecida. E a primeira coisa que foi feita nesse cenário foi a suíte da Grace, que ela transformou na casa dela. Tinha um jardinzinho, as coisinhas dela, e ela estava meio Vênus, naquela concha maravilhosa.


E o impacto que tive como personagem, o Ruben chegando naquele lugar e falando “uau”, foi o mesmo impacto que tive como pessoa quando cheguei ali e vi aquele visual. Porque era lindo.


Luisa Arraes: É bonito porque é um motel caindo aos pedaços, mas você percebe que, muitas vezes, a vida básica é a gente que faz. A Grace pega aquele lugar que, para todo mundo, é abandonado, não serve para nada, e diz: “Não, esse aqui vai ser o melhor lugar”. Como a Drica diz, “esse aqui é o melhor lugar do mundo”. Acho que isso também faz parte do filme: esses três personagens pegam uma ruína e transformam aquele lugar no melhor lugar do mundo.


Samantha Jones: Eu nunca tinha entrado em um motel antes.


Daniel de Oliveira: Ah, Samantha! [risos]


Luisa Arraes: Nem eu! [risos]


Daniel de Oliveira : Uma “amiga”, uma “amiga” dela foi.


Samantha Jones: Pornografia, sim; motel, não! [risos] Foi muito... É impressionante. A direção de arte é impressionante, embora o mofo seja real. Acho que a gente fez um laboratório junto com o filme, foi entendendo como reagir àquilo. Eu juro que nunca tinha entrado em um motel.


Aconteceram umas coisas engraçadinhas também. No Dia dos Namorados, a gente estava gravando e passou uma moto ali. Tentou entrar no motel, eu não sei se...


Daniel de Oliveira : É, a gente atrapalhou a vida de duas pessoas.


Samantha Jones: Atrapalhou.


Daniel de Oliveira: Mas a gente podia ter ganhado um dinheiro, né?


Samantha Jones: 90 por três horas. [risos]

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Aianne Amado: Conta um pouco da pesquisa sobre os motéis.

Jorge Furtado: Eu pesquisei muitos motéis. Encontrei um motel, por exemplo, com a suíte “Operação Lava-Jato”, em Curitiba, que tinha o Moro e o Lula presos em uma gaiola, com as notícias da prisão do Lula. O que tem de erótico nisso, gente? Transar na Operação Lava-Jato.


Tinha suíte com balcão de embarque de aeroporto, aparelho de raio-X de mala e balança para pesar a bagagem. Quem acha isso erótico? É aquele lugar de onde normalmente a gente quer sair correndo o mais rápido possível.


Tinha suíte atômica, abrigo nuclear, muitas coisas divertidas. E promoções de todo tipo: ganha um vinho, vem almoçar no motel. É um ambiente engraçado.


Mas acho que essa é a beleza da sexualidade: não existe uma receita de bolo. O filme fala sobre isso. A paixão não tem algoritmo. As pessoas se apaixonam dos jeitos mais esquisitos, estranhos e humanos. A inteligência artificial não entende isso porque a paixão é uma coisa totalmente humana, assim como a sexualidade. Existem milhares de sexualidades diferentes. Cada um tem a sua. A sexualidade é muito pessoal.


Aianne Amado: Quando olhamos para a sua filmografia  (Saneamento Básico, Lisbela e o Prisioneiro, O Sanduíche, Ilha das Flores), percebemos uma recorrência da metalinguagem, de uma reflexão sobre o próprio fazer cinematográfico. Fui pesquisar sobre isso e encontrei, inclusive, uma tese de doutorado dedicada à metalinguagem e ao dialogismo na sua obra. Você já sabia disso? E você se reconhece nesse padrão?

Jorge Furtado: Acho que sim. Eu gosto disso.


Eu acho que a gente deve falar sobre aquilo que nos interessa e que a gente conhece, e eu trabalho com isso há 44 anos, penso nisso todos os dias. Como é que filma? Como representa a realidade? Como a gente apreende a realidade? É possível fazer isso?


Tem outro filme chamado Esta Não É a Sua Vida, que é um documentário sobre uma mulher e eu questionei justamente isso: será que eu consigo representar a vida de uma pessoa com um filme?


Essa preocupação, para mim, é constante. Quando vou escrever, penso muito em representação.


Além disso, quando você faz uma representação dentro de outra, acaba impregnando o filme de um certo realismo, porque os personagens parecem existir de verdade por estarem fazendo um filme dentro do filme. Fica mais real. Eu gosto de falar disso.


Aianne Amado: E, além dessa característica, você acredita que existe outra assinatura recorrente nos seus filmes? Eu tenho a sensação de que, mesmo sem saber que um roteiro ou uma direção são seus, conseguiria reconhecer com facilidade. Por que você acha que isso acontece?

Jorge Furtado: Talvez por causa do humor, do jeito como trato os diálogos. É um estilo de escrita.


Como eu faço o roteiro, não saberia dirigir um filme escrito por outra pessoa. Nunca nem tentei. Já fiz muitos roteiros para outras pessoas dirigirem, mas dirigir o texto de outros roteiristas eu não saberia fazer.


Então acho que, no texto escrito, o estilo fica meio impossível de evitar. É um jeito de escrever o diálogo, a conversa, que acaba ficando reconhecível.


Acho que é isso que você reconhece: o estilo do texto, talvez mais do que o da direção.


Muito Prazer está em cartaz nos cinemas brasileiros.


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