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Entrevista | “Precisávamos que tivesse sentimento de família o tempo todo no filme”: Maurício Manfrini e Paulo Fontenelle falam sobre ‘Marido de Aluguel”

Foto do escritor: Giulia Meneses
Giulia Meneses
há 2 horas
12 min de leitura

Em entrevista ao Oxente Pipoca, ator e diretor falam sobre a dinâmica familiar no set e as brasilidades cômicas como influência. 


Divulgação


Nesta quinta-feira, 24 de setembro, estreia nos cinemas brasileiros Marido de Aluguel, novo filme do diretor Paulo Fontenelle, responsáveis por comédias como Divã a Dois e Se Puder…Dirija! No novo longa, o diretor repete a parceria de O Porteiro, e traz Maurício Manfrini como um protagonista heroico e acolhedor. O elenco também é composto por nomes como Mariana Xavier, Alexandre Lino, Alexandra Richter, Heitor Martinez, Letícia Isnard, Letícia Braga, Theo Fontenelle, Danilo Moura e Raphael Vianna. 


Na trama, Alice (Mariana Xavier), uma mulher falida e endividada, precisa de soluções para manter sua casa em pé, até encontrar Vadeco (Maurício Manfrini), um desenrolado marido de aluguel que tem sempre uma solução na manga. No entanto, tudo muda quando o ex-marido de Alice, um fora da lei, foge da prisão determinado a virar de cabeça para baixo a dinâmica da família. 


Em entrevista ao Oxente Pipoca, o ator Maurício Manfrini e o diretor Paulo Fontenelle, falaram um pouco sobre a construção de uma comédia envolta em um ritmo de ação, as referências de animações e dos grandes personagens das comédias brasileiras, além de destacar a dinâmica familiar construída pelos atores no set. 



Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Paulo. O Marido de Aluguel mistura comédia com elementos de ação e suspense, já que o ex-marido se foge da prisão no meio da trama. Como foi equilibrar esse tom cômico com esse fiozinho de tensão que atravessa a história?


Paulo Fontenelle: Na verdade, assim, a gente foi muito na linguagem do desenho animado, né? Onde o vilão, ele é mau, mas ele nunca é 100% mau. Então, a ideia pra gente poder ter o cara que fugiu da cadeia, que ameaça com uma arma e tal as pessoas, foi isso. Foi a gente focar muito no desenho animado, nos desenhos mais antigos, Hanna Barbera, Peach Paul, essas coisas, e fazer um vilão que ele é exagerado em todos os sentidos.  Então, o filme tem muito isso, é toda parte de comédia física. Onde as pessoas, se a gente estivesse obedecendo a física do mundo, as pessoas se machucaram e tal. 


A ideia foi transformar no grande desenho animado. Então, você pode dar uma panelada na

cabeça das pessoas, você pode dar choque nas pessoas. E aí, mesmo quando você aponta uma arma, que já é uma coisa um pouco mais real, como a linguagem já está toda de desenho animado, é uma coisa que não choca, né? Não é uma coisa violenta. Você sabe desde o início que esse cara, no fundo, ele não é tão mau assim, ele não vai dar um tiro em ninguém. Ele está ali no desespero de querer levar a filha pra Europa com ele, e aí, no desespero, ele é um cara que puxa uma arma para as pessoas. Mas é isso, o Roger é um vilão muito de desenho animado.


Na verdade, o filme é todo nessa pegada de desenho animado, das comédias mais antigas, dos grupos mais antigos. Trapalhões, Três Patetas, O Gordo e o Magro, Oscarito e Grande Otelo. Uma coisa mais nessa pegada onde você não tem maldade, apesar de ter coisas que poderiam ser levadas para o lado um pouco mais violento em si. O filme é uma grande diversão, um grande desenho animado, uma grande comédia para fazer as pessoas rirem sem nenhum tipo de preocupação com violência ou qualquer coisa, porque na verdade ela não existe, é como se fosse um grande desenho animado.


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Você falou dessa parte mais de desenho animado, e apesar de ser uma comédia bem clássica, ela traz umas quebras de expectativa de vez em quando. Você espera que vai ser aquilo um pouco mais do mesmo em alguns momentos, algumas reações mais do mesmo, e aí não. A gente tem aquela quebra e fica meio que, opa, não era isso que eu pensava que ia acontecer. Então, como foi misturar esses gêneros na hora de assumir a direção do projeto?


Paulo Fontenelle: Tem uma coisa que é super legal, que a gente não vai conseguir esconder do espectador, mas que quando a gente mostrou o filme para pessoas que não tinham visto, que não sabiam nada, às vezes a gente mostra para amigos, para pessoas para darem uma olhada, e aí tinha gente que não tinha ideia de que o Roger era pai da Maria, de que o Heitor Martinez era pai do personagem da Letícia Braga. E aí na hora que você descobre, que ele pega o telefone, que ele está em frente de casa, é muito legal isso, para quem não sabe. Óbvio que as pessoas já vão ver o filme meio que sabendo, mas quem não souber vai se surpreender. 


Mas assim, isso é muito pensado desde o início. Tem uma coisa que eu não gosto muito em filmes, que me incomoda muito, principalmente nos roteiros, é quando você vê alguma coisa e você, como espectador, fala assim “Ah, não, isso é muito forçado, isso não aconteceria”. Se o Roger não fosse pai da Maria, o próprio Vadeco, o próprio Manfrini, estaria naquela praça ali, na hora que a Alice está ali. E aí ela precisa de um marido de aluguel, e aí ela chama ele para ir para a casa dela. Seria uma coisa meio forçada. Então, na verdade, tudo é pensado desde o início.


O encontro do Heitor com o Manfrini, o encontro do Vadeco com o Roger. É uma coincidência da vida, os dois estão ali no posto de gasolina e o Manfrini perde o ônibus e acaba se encontrando com o Roger. Mas a partir dali, todo o caminho que é feito a partir desse encontro de coincidência, ele só existe por causa desse primeiro encontro. Porque assim, o Roger deixa o Vadeco na praça, porque ele vai espionar a casa da Alice, que é a ex-mulher dele. Então a praça é perto da casa. Por isso o Vadeco acaba conhecendo a Alice, por isso o Vadeco acaba indo parar lá, e aí o Roger quando vai sequestrar não consegue, sequestra Sheila porque é vizinha.


Então nada no filme, tudo no filme tem uma lógica. E o que eu acho legal é isso, é que assim, a partir do momento que você cria uma estrutura que funciona, você pode brincar com tudo. Você pode dar choque, você pode dar panelada, você pode arremessar metros e aí acorda e aí não acorda, caí da, escada, ratoeira. Então você pode brincar, que na verdade é isso, é uma grande brincadeira. Na verdade, o filme é uma grande brincadeira, é isso. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Você falou do Vadeco e puxando o (Maurício) Manfrini um pouquinho mais para essa conversa. Ele é descrito como alguém de um jeito estabanado, um herói bem improvável. Como foi esse processo, você como diretor, de moldar esse arco do personagem do cômico ao heroico? 


Paulo Fontenelle:  Cara, eu acho que trabalhar com Manfrini é fácil. Acho que é uma coisa que na verdade... A gente agora fez uma comédia romântica. Que é uma coisa que sai um pouquinho até do Manfrini é um cara que é um gênio de concepção de personagem. O Paulinho Gogó já é uma coisa fora do comum e por isso é tão longevo e com tanto sucesso. O Lima também é uma coisa mais para o caricato. O Vadeco também tem... Na verdade, eu acho que a gente se apropria dessa genialidade do Manfrini para criar personagens.


E aí, muito legal assim, porque a gente fez um filme, eu e o Manfrini agora, que a gente lançou no ano que vem, que é uma comédia romântica que sai um pouco do espectro que a gente está acostumado a ver o Manfrini. E aí, eu acho que o legal é isso, assim. Caramba, o Manfrini arrebentando também numa coisa que sai um pouco do que a gente está acostumado a ver. Mas eu acho que o Vadeco é nota 10 para o Manfrini. É uma coisa que ele já domina como ninguém. E o processo criativo foi muito fácil. Na verdade, eu falei para o Manfrini, ele é um mineiro do interior, e o Manfrini me trouxe o Vadeco. 


Maurício Manfrini: Apesar de eu ser carioca, convivo com muitos amigos mineiros, e isso me facilitou bastante. O próprio Nerso da Capitinga, que é o Pedro Bismarck, o Saulo Laranjeiras, entre outros humoristas mineiros. Então, como convivo com eles, eu tenho uma facilidade muito grande de assimilar sotaques, principalmente o sotaque mineiro. Então, isso me facilitou bastante. E eu gosto muito dessa composição de personagens. O Paulinho Gogó já é uma coisa que já caminha sozinho, porque eu já faço há muitos anos, já fiz bastante, faço bastante. O Lima dos Farofeiros foi uma coisa carioca também, que eu só dei uma segurada mais. Mas ele tem um pouquinho do Gogó ainda, aquela malandragem carioca. O Vadeco, ele nem é um malandro, ele é um camarada muito prestativo, mas com uma pureza muito grande, aquela pureza peculiar do mineiro, que eu pude compor com uma certa rapidez. 


A gente conversou, vamos fazer o mineiro, ele é de Santo Antônio do Rio Abaixo. Eu conversei com algumas pessoas e fui absorvendo isso e consegui passar para o personagem em conversa com o Paulinho. “Paulinho vai me dirigindo aqui, porque aqui eu não sei se estou falando no tom certo”. A gente conversava bastante, a gente conversa muito, vai tomando conta de mim para saber se eu não estou passando do ponto, se eu não estou oferecendo de menos, não oferecendo demais. E a gente conseguiu achar um tom ideal ali para o filme. Mas eu gosto dessa composição de personagem.


O Mentira Tem Perna Curta, que vai ser lançado ano que vem, já é uma coisa bem naturalista, é um personagem que, lógico, eu tive que compor, mas não pesei tanto a mão, não acentuei muito na tinta, com a Roseane Muholland, que fez a minha par romântica. Então é uma coisa que fugiu um pouco, um pouco não, fugiu bastante da onde eu costumo trabalhar, na minha linha de interpretação. O humor, naturalmente, é um tom mais acima. E o Mentira Tem Perna Curta, alguns momentos que a gente saiu do tom, mas basicamente a gente ficou mais ali, naquela área que eu não estava acostumado a interpretar.


E foi, assim, na minha concepção, foi um negócio muito legal, vai ficar muito legal, está ficando muito bacana, a gente viu algumas passagens aí. Mas o Vadeco em si, é uma descoberta minha. Eu nem sabia que sabia fazer. E a gente quer que o Vadeco vire o novo Gogó, né? Se Deus quiser, vai ter Vadeco 1 e Vadeco 2. Em uma outra entrevista me perguntaram, e eu joguei para o universo, falei, com certeza vai ter o Vadeco 2. Eu acho que tem uma coisa do grupo, que é principalmente com o trio, com o Vadeco, o Jorge e o Agenor, que é o Manfrini, o Agenor é o Alexandre Lino e o Jorge é o Danilo Moura. Eles são tão diferentes entre si, como personagens e tal, e como as personalidades deles, o jeito que eles são, acabou criando um equilíbrio muito legal. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Manfrini, o maior desafio, eu acredito, de interpretar o Vadeco, é justamente essa virada cômica para esse herói improvável, na segunda parte da trama. Como é que você trabalhou essa transição sem perder o lado cômico do personagem? 


Maurício Manfrini: Foi muito normal, foi muito em conversa com o Paulinho (Fontenelle), dando o tom da cena. Então, foi uma coisa bem suave, sem nenhum sofrimento. O meu sofrimento maior, o nosso sofrimento maior foi o calor. A gente filmou em janeiro do ano passado, foi um negócio absurdo, com muitas cenas externas. Então, isso foi a pior parte. Agora, o resto foi muito tranquilo, muito normal, muito suave.


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Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Enfim, o Paulo falou um pouco sobre esse trio, mas todo elenco é composto por grandes nomes da comédia. Assim como a Mariana Xavier, a Alexandra Richter também, que são figurinhas carimbadas dos filmes do Paulo Gustavo, por exemplo. Como foi construir essa relação com esse elenco tão grande e um elenco jovem também? Uma coisa que eu achei muito legal é que tem um elenco jovem como apoio. Como foi construir essa relação, você já tão consagrado ali no meio da galera? 


Maurício Manfrini: Foi rápido, assim. Todo mundo na mesma energia. A Mariana, eu não conhecia pessoalmente. A Richter também não conhecia pessoalmente. Mas a gente se admirava profissionalmente. O Alexandre Lino eu já conhecia. Foi rápido demais. O Theo (Fontenelle) que fez brilhantemente com a Letícia (Braga). O Heitor Martinez. Enfim, o Danilo (Moura) eu já conheci ali no set de filmagem. Mas acho que todo mundo estava sempre muito bem intencionado, com uma vontade muito grande de fazer bem feito. 


Acho que quando as pessoas levam para o set somente a vontade de fazer, sem levar outros problemas, sem levar outras maneiras de pensamento, que não seja fazer o trabalho, isso facilita bastante. Foi o que aconteceu. Eu não tive nenhuma dificuldade, nenhuma falta de entrosamento. Todas as cenas, com todo mundo do elenco, sempre fluía muito, muito tranquilo, muito fácil de fazer. Entendeu? Então, eu acho que, em se tratando de humor, quando todo mundo está com vontade, quando todo mundo está bem humorado, quando todo mundo está fazendo com coração, com a alma, sai bem feito. 


Paulo Fontenelle: A gente precisava, na verdade, que tivesse muito sentimento de família o tempo todo no filme. Porque o público precisa comprar isso como uma grande família. Ele precisa olhar e falar cara, é uma grande família e torcer por essa família. Não só porque a Alice é a mãe da Maria, a Mariana é a mãe da Letícia, mas esse sentimento de família que os grandes grupos de comédia mais antigos tinham. Os Trapalhões não são irmãos, mas é como se fossem. Você já entra com um pouco desse pensamento. E, na verdade, a gente, tinha muita gente que não tinha ainda trabalhado junto, mas tinha focos de grandes trupes que a gente já tinha trabalhado. 


Então, eu já tive uma relação muito pessoal com o Lino, que começou no O Porteiro. E o Danilo Moura, já é o quarto ou quinto trabalho dele comigo. O Theo, meu filho, o Manfrini já conhecia o Theo por ser meu filho. O Lino conhece o Theo desde que a gente começou a fazer o Porteiro há dez anos atrás. E o Lino preparou o Theo para um outro filme que a gente fez num drama chamado Mariana que a gente lança no ano que vem. E aí, o Raphael Viana já tinha feito dois filmes comigo. O Rafa já tinha feito o Multishow com o Manfrini. 


Então, assim, eu acho que aí vem a Mariana (Xavier), que a gente não conhecia direito, mas aí vem a Alexandra também, a Letícia Isnard. Aí elas já se integram direto. O Heitor (Martinez) fez O Porteiro com a gente, já era um cara que também a gente já tinha trabalhado. Então, é uma trupe, né? Era uma grande família no set. 


A gente teve um primeiro dia, na verdade, no posto de gasolina, que estava 45º na sombra. Foi um pesadelo, mas que ficou ótimo. E que aí foi só com o Manfrini e com o Heitor, né? Mas quando a gente chega para a primeira filmagem na casa, já era uma galera que já se conhecia. Então, assim, eu acho que o legal, quando o elenco é coeso, ele funciona, porque essa relação de família que a gente precisava para o filme, ela meio que já vinha das relações pessoais também, que existiam. Então, quando você junta um time que é talentoso para caramba, só de gente legal, só de gente foda, entendeu? Só de profissionais que te põe lá em cima. Eu acho que você consegue fazer isso, fazer um time que vai te entregar o que você precisa que seja entregue. Foi muito legal fazer o filme. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Manfrini, tem algo do Valdeco que você reconhece em você mesmo ou foi uma construção totalmente distante da sua forma de ser? Tem alguma abordagem diferente do que você está acostumado em projetos de comédia? 


Maurício Manfrini: Não, eu acho que são temperadas. A não ser a tranquilidade. O Valdeco é um personagem tranquilo. Mesmo nas confusões ali, às vezes ele se mantinha com uma tranquilidade maior. Acho que é a única semelhança entre eu e ele. De resto, não. É completamente diferente. E sobre a abordagem, o sotaque mineiro foi, assim, o principal obstáculo no início. Depois começou a fluir normalmente. Eu fui até me arriscando nos improvisos, umas coisas aqui, outras ali. Mas não fugi muito do texto, porque já estava tudo praticamente já mastigado para mim ali. Eu só fui adicionando mesmo o sotaque. O jeito de olhar, o jeito de falar, a intensidade, a rapidez. Ou botar ele mais lento, mais centrado ali. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Para finalizar, nós do Oxente de Pipoca temos uma tradição de pedir aos nossos entrevistados que indiquem três produções brasileiras para o pessoal nos acompanha. 


Maurício Manfrini: Farofeiros 3, vindo dia 5 de novembro. Minha melhor amiga, que está bombando nos cinemas. E vindo aí com força total também, dia 24 de setembro, Marido de Aluguel. Sem querer puxar a sardinha para o nosso lado, mas é um filme para você levar a sua família, levar seus amigos, levar sua esposa, seu namorado e se entregar. Só se entregar, chegar no cinema com aquela pipoca, com aquela vontade de se divertir e com certeza não vai sair decepcionado. 


Paulo Fontenelle: Eu vou tentar fugir dos três, na verdade. O Porteiro foi um prazerzão fazer, assim. Foi quando eu conheci esse cara aí que, pô... Amigo para toda a vida e está no Prime Video. O Sala Escura é um filme de terror diferente que eu sempre que eu posso, eu divulgo porque a gente passou meio batido pelo cinema porque é um filme gore brasileiro. É um filme que tem sangue, tortura. E aí é difícil você chegar... O público brasileiro ainda está se formando para aceitar o terror no Brasil. E estamos chegando agora, Marido de Aluguel, dia 24 de novembro, para fazer todo mundo rir nesse momento que eu acho que o que a gente precisa, rir para relaxar, sabe? Para esquecer um pouco dos problemas da gente. 


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