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Entrevista | Ticiana Augusto Lima, Noá Bonoba e Guto Parente falam sobre o ritual coletivo do cinema independente em “Morte e Vida Madalena”

Foto do escritor: Ávila Oliveira
Ávila Oliveira
há 53 minutos
3 min de leitura

Em conversa com o Oxente Pipoca, Ticiana Augusto Lima, Noá Bonoba e Guto Parente abordam as rimas entre vida e ficção, a desconstrução da figura do diretor e a exaltação do papel da produção executiva.


Divulgação


Estreia no próximo dia 17 de setembro o premiado longa-metragem Morte e Vida Madalena, dirigido por Guto Parente. Em entrevista exclusiva ao Oxente Pipoca o diretor, a protagonista Noá Bonoba e a produtora Ticiana Augusto Lima falaram sobre o processo de criação do filme, as rimas entre vida e ficção e as nuances do fazer audiovisual no cinema independente nordestino.


Vida, Ficção e Rimas Oníricas: As Inspirações de Ticiana Augusto Lima


Co-fundadora da produtora Tardo Filmes ao lado de Guto Parente, Ticiana Augusto Lima explicou que a concepção da protagonista Madalena surgiu do acompanhamento direto de suas vivências na produção executiva, além de releituras de episódios tragicômicos e pesadelos ocorridos nos sets de filmagem de amigos. Para a produtora, "como fazer cinema é sempre um ritual, cada projeto é um ritual específico".


A idealizadora destacou que a produção do longa esteve cercada de coincidências e "rimas" entre a realidade e a ficção. Logo após a conclusão da etapa de produção do filme, Ticiana descobriu que estava grávida, o que definiu como "uma rima ao contrário" com a própria trajetória narrada na obra. Além disso, a inclusão de sua filha, Pocan, interpretando a personagem Feline, ocorreu de forma não planejada durante a montagem e pós-produção, exemplificando a abertura necessária aos imprevistos da criação artística. Como resumiu a produtora, o filme se estrutura em uma construção "baseada em fatos reais, abstratos e oníricos", brincando de forma livre com as alegorias e o cotidiano do trabalho de uma produtora executiva.


Atuação e Realismo: Noá Bonoba e a Construção da Protagonista


Responsável por dar vida à protagonista Madalena, a atriz, diretora e preparadora de elenco Noá Bonoba comentou sobre a reação do público diante de sua atuação. Noá revelou achar curioso o fato de alguns espectadores afirmarem que a personagem seria idêntica a ela na vida real. "Eu acho isso muito estranho porque eu não me reconheço nem um pouco na Madalena", revelou a atriz, acrescentando que, quando atua na produção executiva, costuma ser "muito calma, muito sorridente, muito simpática", em contraste com a postura objetiva e pressionada de Madalena.


Apesar dessa diferença de personalidade, Noá explicou que a "compreensão do que é a complexidade do fazer cinematográfico independente" foi o fator determinante para compor a personagem. A atriz pontuou ter trabalhado estritamente na "chave do realismo", o que gerou na audiência a impressão de um registro documental de si mesma. Ela reforçou ainda que o distanciamento temporal das gravações tornou a disparidade entre sua própria personalidade e a da personagem cada vez mais evidente.



Do Set de Atuação à Cadeira de Direção: O Aprendizado em 'Iguaraguá'


A experiência em Morte e Vida Madalena funcionou como um treinamento direto para que Noá Bonoba assumisse a direção de seu primeiro longa-metragem, Iguaraguá. Segundo a cineasta, "o Iguaraguá foi o Morte e Vida Madalena 2", brincou a atriz afirmando que toda a equipe que participou de sua estreia na direção identificou paralelos imediatos com o universo e as dificuldades vividas no set anterior.


Noá relatou que lidar com as exigências da produção independente, como filmar cenas na praia e em alto-mar, forneceu a base técnica para orientar sua própria equipe de produção. A diretora defendeu ainda uma postura de integração e escuta no ambiente de trabalho: "Eu sou uma atriz que não fico só na minha profissão [...] eu observo todo mundo, eu falo com todo mundo, eu odeio esse tipo de ator de método que fica ali 'ninguém pode falar comigo'. Eu tô ali como qualquer outra pessoa". Para ela, estar atenta ao trabalho coletivo no set é o maior aprendizado para a realização audiovisual.


Descentralizar a Direção e Exaltar a Produção: As Reflexões de Guto Parente


O diretor e roteirista Guto Parente abordou a decisão de retratar a figura do criador audiovisual em crise, explicando que o filme busca tensionar a centralidade atribuída ao diretor no cinema autoral. Guto observou que a obra procura "apontar para um lugar de que, na verdade, talvez em alguns projetos o diretor seja até dispensável, que às vezes em alguns projetos o diretor até atrapalha o filme".


O cineasta enfatizou que existe no set "um organismo vivo, uma coletividade" que muitas vezes é ofuscada pela figura da direção. Por isso, o objetivo central do longa foi "tirar um pouco as atenções desse lugar da direção" e deslocar os holofotes para "o papel fundante que uma produtora num filme tem de segurar a onda mesmo", reconhecendo uma função cujo valor raramente é compreendido em sua plenitude pelo grande público.


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