Entrevista | “É um filme que confia e acredita no espectador”: Pedro Maia de Brito fala sobre “Os Vivos Caminham a Terra”

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Diretor pernambucano falou ao Oxente Pipoca sobre o trabalho visual e sonoro do filme, bem como as gravações em diversas localidades pelo Nordeste.

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Longa de estreia do diretor Pedro Maia de Brito na ficção, Os Vivos Caminham a Terra teve sua primeira exibição no Festival de Brasília, realizado entre 11 e 19 de setembro neste ano. Protagonizado por Nivaldo Nascimento, o filme parte de uma narrativa mítica sobre transformação para construir uma experiência de caráter visual, plástico e sonoro, em que os diálogos dão lugar à imagem, ao gesto e à atmosfera.
Em entrevista ao Oxente Pipoca, Pedro Maia de Brito falou sobre a ênfase na imagem e na atmosfera em lugar dos diálogos e do texto “clássico” do cinema, bem como o rico trabalho sonoro do filme – que conta com trilha musical assinada pela compositora húngara Petra Szászi e desenho de som e mixagem por Nicolau Domingues – e as gravações, que passaram por diversas localidades do Nordeste, como o Vale do Catimbau, em Pernambuco, o Castelo de Zé dos Montes, no Rio Grande do Norte, e a Pedra da Boca, na Paraíba. Confira a entrevista abaixo:
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Parece óbvio dizer que o cinema é uma arte audiovisual, mas para a maioria das pessoas o texto, o roteiro, ainda é algo importante ao se ver o filme. “Os Vivos Caminham a Terra” desafia essa noção, pedindo que o espectador confie no poder das imagens a que está assistindo. Houve um interesse da sua parte em confrontar o espectador mais acostumado ao “feijão com arroz” básico do cinema narrativo? Nesse sentido, quais seriam as principais influências que você teve para construir o filme?
Pedro Maia de Brito: Eu acho que Os Vivos... é um filme que acredita radicalmente na sala de cinema e na linguagem do cinema. Fico um pouco triste, desapontado, com o momento do cinema em que a gente tem uma necessidade gigantesca, não como espectador, mas enquanto mercado, de entregar uma historinha extremamente familiar, mastigada, em que você já sabe, já intui absolutamente tudo que que acontecerá ali, e onde há pouco espaço para surpresa. Eu acho que isso talvez seja justamente o contrário do que deveria ser o cinema. Ele é feito para sala, para uma experiência que é coletiva, que a cada momento vai acontecer de uma forma, e que se dá especialmente após a sessão, quando as pessoas que estavam dentro da sala, vendo aquele filme, vão compartilhar as diferentes impressões que aquilo dá.
Acho que a arte deve confrontar as noções de mundo que a gente tem e não simplesmente reconfortar a nossa visão. Não é um espaço de didatismo, de pedagogia, de conforto, de afirmação. Acho que ela é livre, portanto, pode ser absolutamente qualquer coisa, deve ser qualquer coisa. Mas o que a gente não pode ser é refém de um processo de monocultura dessa produção, que é o que fazem as big techs – que, no fim das contas, não passam de quatro ou cinco empresas que controlam hoje essa produção e monopólios cada vez mais radicais. E aí a gente vai se docilizando, naturalizando a o que é absolutamente arbitrário. Acho que isso não pode acontecer.
De alguma forma, por mais que eu tenha feito filmes anteriormente que são documentários e se relacionam diretamente com lutas populares e políticas de ação direta no Brasil contemporâneo, eu acho que Os Vivos... talvez seja o mais político dos meus filmes, justamente porque talvez ele seja o que mais confronta algo que não diz respeito somente à realidade brasileira, mas a uma tentativa de controle da sensibilidade. Talvez não seja o filme que mais confronte o espectador. Acho que na verdade é um filme que confia e acredita no espectador.
Eu acho que Os Vivos... tenta justamente transformar sua proposta mitológica na sua linguagem e numa construção narrativa que é cíclica e que constrói as texturas a partir desse algo. Eu percebi uma coisa com a recepção crítica, e que eu não discordo objetivamente, mas ele acaba sendo muito facilmente colocado no lugar do experimental; e não acho que ele seja um filme experimental, até do ponto de vista histórico. Eu acho que ele joga com elementos de ficção, elementos de experimental, mas que não é só isso. Então, qualquer coisa que de alguma forma não faça parte do dessa tendência monocultural contemporânea já vai para alguma caixinha distante, o que faz com que o espectador talvez se distancie ainda mais.

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Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Acredito que o aspecto que mais se sobressaiu para mim ao assistir ao filme foi o trabalho sonoro, seja na trilha musical ou no design de som que parece reforçar essa abordagem “cósmica” e espiritual que o filme apresenta. Como foi seu trabalho junto à Petra Szászi e o Nicolau Domingues para criar um trabalho tão único e impactante?
Pedro Maia de Brito: A gente começou o som em outubro do ano passado e veio a acabar poucas semanas. Petra é uma compositora húngara que eu conheci no Berlinale Talent, no Festival de Berlim, e a gente trocou bastante ideia sobre o cinema e sobre os trabalhos, teve uma afinidade e ela topou fazer a música. Foi à distância, o que não é uma coisa que que ajuda tanto, mas deu muito certo, eu acho que a gente teve um diálogo muito bom, os dois muito abertos a essas trocas e o que a gente foi trazendo.
Com relação a Nicolaus, somos bastante amigos, eu não sei quantos filmes a gente já fez juntos, pelo menos uns cinco. E tem algo que a gente começou em outro filme, Conte Isso Àqueles Que Dizem Que Fomos Derrotados, que foi reunir todo o som desse material de arquivo, tirar as imagens e tratar esse som como um dos elementos possíveis para ilustrar aquele mundo, distribuir às vezes diferentes camadas sonoras de vídeos e momentos diferentes através de um espaço; enfim, tentando expandir literalmente a área daquela imagem. Em outro curta, Tudo O Que Vi Era o Sol, eu trabalhei com o Lucas Caminha e fizemos um som absolutamente do zero. Gravamos o som direto, mas usamos ele como guia, trazendo um elemento metafísico, tentando expandir um pouco o espaço, mas sempre gerando movimento.
A gente tentou fazer o mesmo no Vivos... com sons elementares. Muito fogo, vento, água, tentando criar uma espécie de som da terra também. Todo o som do Vivos... não diz respeito à música, mas a outra parte da banda sonora que está dentro dessa expansão do espaço, tornando aquele mundo o mais material possível, trazendo movimento da matéria que vai estar sempre passando e transformando como a imagem, a própria narrativa do filme propõe.
No caso da música com Petra, a gente teve muita conversa, as impressões dela a respeito do filme, alguns desejos que eu tinha, músicas de referência que vão sempre se encaminhando para um outro lugar, e em algum momento essa música chegou inclusive a ser muito maior. A gente foi entendendo ao longo da mixagem como ela poderia se encaixar de uma forma bastante orgânica dentro do filme e tentando não se sobrepor ao som. Ela soa menos talvez como uma música e mais como parte do espaço. Foi um longo processo de quase um ano, mas sempre tendo em vista a sensorialidade, a imersividade, a materialidade como o guia. Acho que o movimento sonoro é fundamental, especialmente para um filme como esse: tentar trazer um controle, uma modulação do tempo através desses elementos sonoros que vão surgindo e sumindo de uma forma articulada, orgânica. Eu acho que é por aí o que a gente pensou sonoramente para o filme.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme foi gravado em diversas localidades pelo interior nordestino, seja em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. O que o levou a escolher essas locações – como o Castelo de Zé dos Montes, que assume uma presença cênica impressionante no filme – e como você acha que elas conversam com a obra num geral?
Pedro Maia de Brito: Acho que, como documentarista, eu vou sempre privilegiar o espaço como fundamental para que uma história seja contada ou como a encenação de determinada cena deverá transcorrer. O movimento de câmera, qualquer que seja, vai estar sempre pautado pelo espaço, mas o próprio roteiro deve estar pautado por esse espaço. Eu não consigo conceber essa lógica de estúdio onde você escreve algo quase vazio, só ação e nada mais, e depois vai construir um espaço para que nele caiba as coisas. Eu acho que as coisas têm que caber no mundo e, a partir da recriação de mundo, elas vão se dar não porque eu estou construindo exatamente algo de concreto em um estúdio, mas sim porque eu consigo através da linguagem construir o mundo. Acho que isso é uma brincadeira mais interessante para o cinema.
A pesquisa começou ainda durante a escrita do roteiro e foi afetando isso. Então existia uma ideia inicial, que se transforma a partir do momento que o castelo é “descoberto” por nós, chega ao nosso conhecimento, e aquilo afeta todo o roteiro, da mesma maneira que o [Vale do] Catimbau depois vai também modificar a segunda parte do filme. Enfim, em termos de intenção e de arco, no fim das contas, não muda tanto. Mas a dinâmica dessas coisas vai ser criada em função desses espaços.
Acho que o único espaço “incerto” era a pedra com rosto de caveira, eu não tinha ideia se isso seria possível ou não, mas ela estava no roteiro. E aí a gente a achou numa pedra no Parque da Pedra da Boca, na Paraíba. Foi uma surpresa grande por existir, de fato, uma pedra da caveira no lugar.
A gente fez muita trilha. Os lugares que filmamos no Catimbau não eram turísticos, eram todos muito para dentro do vale, então são caminhadas muito longas. E quando a gente filmava, boa parte dessas cenas noturnas no Catimbau, tínhamos que passar por duas horas de trilha, de madrugada, são trilhas difíceis, muito acidentadas, e com catinga no meio, sem estar aberta. E foi uma época de muita chuva, então a vegetação tinha crescido bastante. Então é um filme muito físico nesse sentido material da coisa.
Tem uma coisa que o [Júlio] Bressane falou na época em que lançou A Erva do Rato, em 2008, que ele não identificava nos filmes então contemporâneos uma dificuldade na imagem. Ele sentia tudo com muita facilidade, produções super tranquilas, é tudo muito grande, muito confortável. E eu acho importante ter esse grau de esforço mediante a coisa. Isso vai fazer com que a coisa também imprima um grau de verossimilhança, de textura e de tatilidade que noutro caso não vai ter da mesma forma num filme que é filmado quase em um take por cena. Então tem muito ensaio, tem uma certa coreografização da coisa, e muita gente se esforçando muito ali. É um filme que foi feito realmente de forma extremamente física.
Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais seriam suas indicações?
Pedro Maia de Brito: Devido a esse momento de eleição, vou indicar dois curtas: Blá Blá Blá, de Andrea Tonacci, e Bom Dia, Carlos, de Gurcius Gewdner. Acho que esses dois dialogam com os dias de hoje e o os eventos que estão acontecendo. Espero que a gente olhe para eles e sempre lembre da família Bolsonaro como esse excremento.



















