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Entrevista | “O arquivo é protagonista da história”: Anita Leandro fala sobre “Anistia 79”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 2 horas
  • 9 min de leitura

Documentário, que estreia nesta quinta (20), reúne passado e presente ao discutir a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em 1979.


Divulgação


No final da década de 1970, diversos representantes de movimentos de esquerda brasileiros, exilados na Europa em decorrência da repressão da ditadura militar, se reuniram em Roma para a I Conferência Internacional pela Anistia no Brasil. O intuito era oferecer um contraponto à Lei de Anistia que vinha sendo elaborada no Brasil e que, como sabemos, veio a anistiar tanto militantes de esquerda quanto os próprios militares. Os arquivos dessa conferência, guardados por décadas em um porão em Paris, foram achados e trabalhados por Anita Leandro, que os apresenta na forma de seu documentário Anistia 79, confrontando passado e presente ao entrevistar vários dos personagens presentes na conferência. O filme estreia nos cinemas nesta quinta (20), e você já pode ler a crítica do filme aqui, escrita em decorrência da sua exibição no 15º Olhar de Cinema.


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Anita Leandro, que falou das semelhanças e diferenças entre Anistia 79 e seu filme anterior, Retratos de Identificação, que também se amparava nas imagens de arquivo para tratar da memória de ex-guerrilheiros e militantes. Além disso, a diretora falou da sua estratégia de confrontar passado e presente através das presenças dos(as) entrevistados(as), e do que é possível extrair a partir do retrato de uma esquerda plural no filme, diante do cenário de avanços da extrema-direita no Brasil contemporâneo. Você pode conferir a entrevista abaixo:

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Anita, a sua filmografia tem sido construída em cima de um trabalho com imagens de arquivo e textos literários. Além de Anistia 79 eu também assisti Retratos de Identificação, e é possível perceber conexões entre os filmes, pra além de discutirem a ditadura e questões em torno de memória, sobretudo dos ex-guerrilheiros e militantes de esquerda da época. O que te motivou a voltar a estes temas com Anistia 79, 12 anos após Retratos? E o que você sente que há de diferente nas abordagens entre os dois filmes?


Anita Leandro: Eu me debrucei sobre os arquivos da ditadura a partir de 2010, quando eu vim morar no Rio de Janeiro, e moro muito próximo do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, que tem a guarda dos acervos do DOPS da Guanabara, que é um dos acervos da polícia mais ricos do país. E quando eu conheci o acervo fotográfico do DOPS, fiquei muito impressionada com aquilo e mais impressionada ainda com o fato de que ninguém tinha feito um filme sobre esse acervo. O único até hoje foi o Retratos.


Respondendo à sua pergunta inicial, talvez seja esse o ponto comum entre o Retratos de Identificação e o Anistia 79: o arquivo é protagonista da história. O arquivo como matéria viva, como vestígio do passado, o arquivo como conteúdo e forma ao mesmo tempo, como testemunha da história. São arquivos, no entanto muito diferentes nos dois filmes. No Retratos são arquivos da polícia, fotografias, e foi um filme mais difícil ser feito do que o Anistia, porque não tinha material sonoro. Já o Anistia foi um material riquíssimo que eu encontrei lá em 2016, da melhor qualidade, é tudo muito bonito. Embora tenha sido filmado como um material de cobertura, naquele estilo de reportagem, planos rápidos, eles são muito bem enquadrados.


E aí eu tive a chance, a sorte de encontrar esse material no meu caminho durante uma pesquisa que eu estava fazendo desde 2015. Fazia pesquisas na Rádio Difusão Francesa e descobri que não tinha imagens de exilados. Pesquisei 14.000 títulos onde havia o nome Brasil e brasileiros durante a ditadura militar, e desses 14.000 a maioria era de Carnaval, Amazônia futebol e tal, mas sobre os exilados mesmo havia cinco reportagens que não ultrapassavam 7 minutos de duração. E isso na França, que é o país que mais acolheu exilados brasileiros.


Então quando encontrei o material de Hamilton [Lopes dos Santos, diretor das filmagens originais da conferência], foi um acontecimento. E então eu comecei o filme pela montagem, mas desde o início, desde que eu descobri esse material, eu sabia que ele estruturaria o filme. Aliás, a primeira coisa que eu falei com o Hamilton foi: "O seu filme já tá pronto. Eu posso montá-lo, eu sou montadora, eu posso montar o seu filme. Não preciso fazer outro filme". Ele falou: “Não, mas seria legal. Eu quero saber o que que as pessoas estão pensando hoje”. Era o momento ali do golpe contra Dilma Rousseff e ele estava muito interessado em saber o que estava acontecendo no Brasil.


Quando nós tivemos dinheiro, eu comecei a filmar as pessoas que estão presentes nas imagens. É o mesmo dispositivo do Retratos de Identificação, a confrontação de passado e presente, a confrontação de testemunhas da história com documentos de acontecimentos por elas vividas. Mas a diferença entre esses dois materiais é que o material do Retratos de Identificação é extremamente trágico, como se fossem imagens de filme de horror. Eu não fiquei brincando ali de montagem, transformando positivo em negativo, aquilo ali é o negativo, inclusive um negativo muito estragado já, ele tem uma umas manchas de ferrugem. E são imagens muito violentas, tal qual a polícia, o dispositivo de produção dessas imagens tá presente nelas.


Já o material do Anistia é atravessado pela alegria dos reencontros, pela perspectiva de retorno ao Brasil. Você tem ali um primeiro um único encontro da diáspora brasileira, onde se tem três gerações de exilados. Você tem a Velha Guarda, os primeiros combatentes ali de 64 que foram presos já no dia primeiro de abril, como o Gregório Bezerra, mas você tem toda a geração de 68, tinha três ex-presidentes da UNE. E você tem a nova geração, que são os filhos dessa geração de 68, que nasceram no exílio, as crianças apátridas, sem papel, sem documento, que a ditadura não deixava serem registradas nem aqui, porque elas não podiam vir aqui, nem lá, porque os consulados, as embaixadas não aceitavam o registro dessas crianças filhas de exilados nascidos no estrangeiro.


O grande desafio para mim era justamente mostrar essas imagens de um outro ângulo, não só esse da alegria dos encontros e do retorno ao país, mas também o outro lado da história, que é seu elemento trágico, aquilo que tá por trás dessas imagens e que levou essas pessoas até aquele encontro em Roma e a luta pela anistia: a própria história, uma história de morte, de desaparecimento, de tortura, de muita crueldade à qual os prisioneiros políticos foram submetidos. Então era preciso que a montagem trouxesse esse outro lado, e as falas das pessoas ao se depararem com essas imagens traz isso. Muitas delas evocam tudo que aconteceu depois: a manutenção do aparato repressivo, a impunidade dos torturadores, os atentados feitos pelos esquadrões da morte, depois da anistia, tudo que se seguiu ao processo de anistia.


Então isso vem da fala das pessoas, mas também de outro arquivo que nós associamos ao material da conferência de Roma, que é esse registro do Tribunal Russell II. Ele aconteceu em Bruxelas, entre 1973 e 1976, e juntou um conjunto de juristas internacionais, que julgou os crimes de guerra dos ditadores da América Latina, não só do Brasil. E entre as testemunhas cujos depoimentos foram acolhidos pelo tribunal estão vários brasileiros, entre eles Denise Crispin, cujo testemunho foi filmado por uma equipe italiana em 1974. E o testemunho dela é mudo, porque ela não consegue falar, está ali petrificada pela dor e o testemunho dela sobre o assassinato de Eduardo Leite, o marido dela, é lido por um jurista ali presente, um advogado. E a câmera se atém ao rosto dela silencioso. Então, esse testemunho muito forte, que traz ali o depoimento silencioso da Denise, nos permitiu aprofundar na montagem essa dimensão propriamente trágica da anistia.


 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Você adiantou algumas coisas da minha segunda pergunta, que é justamente sobre esse cerne do filme em contrapor imagens do passado e do presente, sobretudo com as falas dos entrevistados que estiveram na Conferência. Como foi juntá-los e apresentar os vídeos a eles, especialmente sabendo das histórias de alguns, ou daqueles vistos na Conferência que já faleceram?


Anita Leandro: Eu não faço perguntas quando eu filmo as pessoas, ou as entrevisto. O que eu busco ali quando eu vou filmá-las é compartilhamento de um certo olhar sobre esse material. “Olha, aqui tem uma foto sua que eu encontrei no dia que você foi preso. O que que aconteceu aqui? Explica para mim como é que foi tirada essa foto”, e entrego a foto. E a pessoa vai buscar na memória as lembranças que tem daquele momento dramático ali de suas vidas.


Eu acho isso muito rico em termos de dispositivo de filmagem da fala, porque primeiro ele permite à testemunha viva da história uma relação direta com os documentos da sua própria história. Diferentemente do que faz o historiador, onde ele próprio é quem junta as entrevistas da história oral, ele lê os documentos, interpreta tudo e faz um texto. No cinema você tem uma chance única, diferentemente dos historiadores, e aí que nós podemos contribuir com alguma coisa, trazer algo diferente da historiografia, que é essa possibilidade única de proceder a uma montagem desses documentos.


E essa montagem começa lá no momento das filmagens, porque quando eu boto na mão da pessoa uma fotografia e um texto, ela já tem ali que processar, fazer uma ligação. Ou então quando eu as coloco diante de uma imagem, como é imagem em movimento do Anistia 79. As pessoas assistem aquilo ali e não é só um encontro de passado e presente. Lá na hora da filmagem acontece essa interseção de tempos, ela é muito mais complexa e rica do que um mero encontro do presente com o passado. A pessoa se transporta pro passado, a imagem chega até ela. Há uma espécie de compartilhamento, uma experimentação do passado de um ponto de vista interno dentro da imagem, como se aquilo tivesse acontecendo ainda. Então, tem uma presentificação do passado que é muito interessante, e tem um retorno também desse presente ao passado graças a essa mediação do arquivo.


E aí nós procuramos na montagem tornar isso ainda mais complexo, multiplicando não só as possibilidades de configuração de apuração do tempo histórico, mas também dos espaços, com as múltiplas telas. Essas múltiplas telas não foram um recurso puramente econômico, por causa do tamanho que o filme tinha de ter, mas elas permitem essa síntese e simultaneidade dos espaços, elas mostram esse fenômeno da intercessão dos tempos que aconteceu ali no momento da filmagem.


Eu fui montando aos poucos, na medida em que a filmagem ia acontecendo, porque eu já tinha essa espécie de “baixo contínuo”, como se chama no jazz: aquela nota que te permite devagar ir para tudo quanto é direção que você quiser ir, depois você pode voltar que ela está ali te esperando para te dar o tom. O material do arquivo foi isso, ele dá o tom. Eu acho que a montagem é essa coisa misteriosa. Nós temos que descobrir no próprio material o caminho. A imagem te diz onde que ela quer ser cortada, o ponto de corte já tá dado ali, como se o filme já tivesse ali dentro, só tem que achar. Acho que nós temos que silenciar o nosso discurso diante das coisas, e receber delas um discurso que lhes é inerente, no caso do material de arquivo.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Um dos grandes méritos do filme é mostrar uma pluralidade da esquerda brasileira ali reunida em Roma naquela Conferência, com diversos interesses e representações. Pensando nas deficiências que tivemos com o nosso processo de anistia e como essas deficiências ainda reverberam no Brasil de hoje, que lições você acha que o filme oferece a respeito da pluralidade da esquerda brasileira, em meio a tantas ameaças de retrocesso por causa da extrema-direita?


Anita Leandro: Muito interessante e importante isso que você diz, porque a luta pela anistia reuniu todos os setores da sociedade brasileira. Todas as tendências da esquerda no exílio estão representadas ali na conferência de Roma, assim como todas as tendências da esquerda no Brasil que escapou da prisão. 1979 é um momento muito rico, é o momento do surgimento do MST, do MNU [Movimento Negro Unificado], do PT, de um retorno do movimento estudantil, mesmo que aos poucos. E eu acho que o material do Hamilton reflete essa diversidade.


E é uma diversidade que existe hoje, mas que, na verdade, existe como um bloco de resistência a um avanço da extrema-direita no Brasil nos últimos anos, que se beneficiou da impunidade que veio de 1979, de uma Lei de Anistia outorgada pelos militares, os quais anistiaram a si mesmos e aos torturadores. Então, embora a tortura seja um crime imprescritível, essa lei ainda não foi revisada.


Então, o Brasil vive em cima dessa panela de pressão, porque ele não teve uma justiça de transição, como aconteceu na Argentina. Mesmo com todos os problemas que estão tendo lá, os militares voltaram para a caserna e estão lá calados. Mas aqui no Brasil toda hora tem ameaça de golpe militar. Então, eu espero que o debate sobre a anistia reabra um debate mais profundo sobre as condições de possibilidade para uma democracia sólida, já que o que temos é uma democracia frágil. Então temos um longo caminho pela frente, e como já ouvi dizerem por aí, as eleições deste ano são as eleições das nossas vidas.

 

Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados e entrevistadas que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deva assistir. Quais são as suas indicações?


Anita Leandro: É uma escolha de Sofia [risos]. Difícil demais você indicar um filme quando tem tantos bons filmes a serem vistos, mas, pedindo de antemão desculpa a todos os outros filmes maravilhosos brasileiros que eu vi nos últimos anos, eu indicaria o filme do Affonso Uchôa, Sete Anos em Maio. Eu acho esse filme uma grande é uma reflexão muito profunda e importante justamente sobre essas sequelas da ditadura e dessa democracia negociada que se seguiu com as oligarquias brasileiras. É um filme que diz muito, no modo ficcional, sobre a manutenção do aparelho repressivo da ditadura no Brasil de hoje. Todo o trabalho do Affonso me toca muito, mas esse filme em particular, eu me sinto muito próxima dele.


Tem os filmes do Adirley Queirós também, todos muito bons. Era Uma Vez em Brasília, eu acho um filme fabuloso. E tem um curta-metragem recente, para não ficar só nos filmes mais anteriores e trazer um mais contemporâneo, que é o Entrevista com Fantasmas, do Lincoln Péricles, que eu gosto muito também, o filme é muito bom.

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