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Entrevista | “É um gesto impuro, mas o filme se arrisca a fazer isso”: Davi Pretto e Zé Maria Pescador falam sobre “Futuro Futuro”

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

Diretor e ator falaram sobre as temáticas sociais do filme, o uso de IA e a jornada existencialista do protagonista.

Divulgação


Estreia na próxima quinta-feira (23) nos cinemas brasileiros o longa Futuro Futuro, dirigido por Davi Pretto. O diretor gaúcho, que já trabalhou com gêneros como o faroeste (em Rifle) e terror (em Continente) agora volta seus olhos para a ficção científica, usando-a para discutir questões sociais e de classe, bem como o impacto das IAs em nossas vidas.


Ambientado em uma metrópole brasileira explicitamente dividida de acordo com suas classes, Futuro Futuro segue um homem sem nome (Zé Maria Pescador), que acorda sem memória na parte pobre da cidade. Acolhido por um homem mais velho (João Carlos Castanha) que trabalha como clickworker, ele é renomeado K em decorrência de uma estranha cicatriz no ombro, e enquanto tenta resgatar suas memórias é assolado por sonhos e visões que o fazem crer que veio da parte rica da cidade, levando-o a uma jornada em busca da sua própria identidade. Você pode conferir a crítica do filme aqui.


Em entrevista para o Oxente Pipoca, Davi Pretto comentou que buscou suas maiores referências para o filme na literatura de ficção científica, citando obras como Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin, além de autores como William Gibson, Octavia Butler, Philip K. Dick, dentre outros. Segundo Pretto, esses autores costumavam pensar a ficção científica como um espaço de reflexão de questões políticas sociais dos seus tempos, de uma maneira que o naturalismo não conseguiria dar conta. Assim, pensar o gênero estaria diretamente ligado a pensar a desigualdade social e as crises urbana, tecnológica e climática.


Pretto também comentou sobre o uso da IA não só na narrativa, mas também na forma de Futuro Futuro, já que as visões e sonhos que assombram K durante todo o filme são compostas de imagens geradas por IAs. Para o diretor, é preciso sair de um lugar de certezas e abraçar a “dúvida” no tocante não só às IAs, mas vários outros debates que circulam na internet, e ainda que se assuma uma posição crítica em relação ao assunto é preciso compreendê-lo e investigá-lo mais a fundo. Já para Zé Maria, havia a necessidade de mostrar o caos em que o mundo se encontrava dentro da narrativa do filme, e o uso da inteligência artificial se adequou a isso. Embora ele ainda considere que não está habituado à presença da IA dentro do cinema, o filme precisava desse olhar crítico e desse impacto visual através da presença dessas imagens.


“Se a gente só negar essas estruturas de trilhões de dólares, vai ter um efeito muito pequeno”, disse Pretto, que continuou: “O gesto de ter mexido com IA foi um gesto crítico, para trazer isso a debate. E eu encontrei certas regras para conseguir navegar dentro desse espaço, que é um espaço muito nocivo. Acho que a gente precisa qualificar o debate sobre essa questão antes que a gente seja patrolado por isso, porque a gente já tá sendo. Então, acho que o filme convida o espectador a pensar sobre essas coisas. É um gesto impuro? É claro que é impuro. Não existe mais gesto puro no mundo. Mas eu acho que o filme se arrisca a fazer isso”.



É inegável que a estranheza provocada por essas imagens corrobora para o próprio ar de estranheza provocado pela jornada vivenciada por K no filme, que assume tons um tanto surrealistas e até mesmo kafkanianos – afinal de contas o nome do personagem evoca Josef K, o protagonista do clássico romance O Processo, de Franz Kafka, e da sua adaptação dirigida por Orson Welles em 1962. Segundo Pretto, não se tratou de uma coincidência.


“Eu acho que isso tem muito a ver com a provocação que o filme faz, que é de pensar o quanto nós temos agência do nosso destino. E uma coisa que me pergunto sempre é se não foi essa ilusão de que a gente tem agência da nossa vida que nos levou para nossa tragédia. Talvez a gente deveria olhar para essa passividade que temos tanto individualmente quanto coletivamente, essa irrelevância que a gente tem perante as grandes crises que estamos enfrentando, e talvez entender e aceitar essa irrelevância e passividade, assim como o K descobre ao longo do filme. Talvez encarando isso a gente consegue encontrar algo novo”, afirmou ele.


Portanto, o que se vê em Futuro Futuro é um personagem em contínuo deslocamento, algo evidenciado até mesmo no sotaque do potiguar Zé Maria, que se destaca em meio a um elenco majoritariamente sulista e sudestino. “O K é um estrangeiro, não sabe de onde veio nem quem é ele. E, como eu disse recentemente em outra entrevista, até hoje não consigo entender o K. Mesmo já tendo assistido o filme, quero descobrir”, disse o ator, que também comentou um pouco a respeito do seu processo de preparação para trazer o personagem à vida.


“Eu tive que me olhar no espelho e diante do espelho, entre mim e a minha imagem no espelho, colocar uma ‘cortina’. E eu fiquei olhando para aquela cortina e não me via, não como eu me via no espelho, só que daí por trás daquela cortina tinha uma imagem. E a busca pelo K era isso. E essa transição daquela região pobre para a região rica é como atravessar essa cortina. Antes da cortina eu via o Zé Maria, só que o K não existe, não se vê. Então pensei ‘eu vou botar uma cortina aqui, porque daí de repente posso trabalhar através dessa imagem apagada’.”


Indagado sobre como a jornada de K pode refletir as nossas próprias buscas enquanto seres humanos – especialmente com o advento do conservadorismo e das big techs –, Zé Maria pontuou justamente a divisão de classes vista no decorrer de Futuro Futuro, e como ela espelha a desigualdade social vista e vivenciada na nossa realidade. “Quando K acorda, ele vai em busca de se reconhecer, e quando ‘atravessa essa cortina’ e vai para a zona mais rica, dá de cara com uma outra realidade, que é muito mais louca. Naqueles prédios só tem gente louca, com menos juízo do que ele [risos]. Essas pessoas quem serão as principais afetadas pela própria loucura, pela própria riqueza”, afirmou.


Por fim, Davi Pretto e Zé Maria Pescador ofereceram para o público do Oxente Pipoca suas indicações de filmes brasileiros que de alguma forma se relacionam com Futuro Futuro, seja pelo campo da ficção científica ou pela discussão das desigualdades sociais. Pretto indicou Luz dos Trópicos, de Paula Gaitán; Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós; e Quem é Beta?, de Nelson Pereira dos Santos. Já Zé Maria indicou Açúcar, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro; e O Clube dos Canibais, de Guto Parente.

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