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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Fundação (2ª temporada)

Atualizado: 13 de out. de 2023

O épico de ficção científica do AppleTV+ finalmente encontra seu tom e sua grandeza

Foto: divulgação


Por décadas, a saga literária Fundação, de Isaac Asimov, foi considerada infilmável. Não era para menos: a vastidão do seu escopo, abrangendo milhares de anos e um sem-número de personagens e planetas, desafiava as possibilidades de uma adaptação. Mas eis que a AppleTV abraçou o desafio e transformou a saga numa série de TV capitaneada por nomes de peso como Jared Harris e Lee Pace e que dispunha de um orçamento astronômico.


Infelizmente, apesar de vários méritos em sua primeira temporada, Fundação acabou comprovando o ponto dos livros serem considerados infilmáveis, com seus problemas de ritmo e falta de desenvolvimento adequado aos personagens — numa espécie de ironia, visto que a obra original nunca teve como proposta desenvolvê-los diante do escopo que assumia. Fui para a segunda temporada com expectativas baixas, mas surpreendentemente o que encontrei foi uma série que pareceu ter aprendido com seus erros e que, mesmo estando longe de ser perfeita, cresceu muito de um ano para o outro.


Se passando quase 140 anos após os eventos da primeira temporada, aqui temos uma Fundação mais desenvolvida no planeta Terminus, ao ponto de haver um culto a Hari Seldon (Jared Harris) liderado pelo Clárigo Poly Verisof (Kulvinder Ghir) e sua pupila, Brother Constant (Isabella Laughland). Enquanto isso, o Império Galáctico segue cada vez mais decadente, agora sob a tutela do degenerado e tirânico Cleon XIII/Brother Day (Lee Pace), que deseja se casar com a rainha Sareth (Ella Rae-Smith) e extinguir a Dinastia Genética, para desgosto dos seus irmãos/clones, Brother Dawn (Cassian Bilton) e Brother Dusk (Terrence Mann) e da sua guardiã, a robô Demerzel (Laura Birn). Em meio a isso, ainda há Gaal Dornick (Lou Lloubell) e sua filha Salvor Hardin (Leah Harvey), que após os últimos 140 anos em estado suspenso, se juntam a uma versão misteriosamente ressuscitada de Hari em uma jornada que os leva a um planeta suspeito onde podem criar uma nova Fundação.


Parece muita coisa — e é —, mas um dos grandes méritos dessa temporada é em como ela consegue sustentar bem esses arcos principais e suas ramificações sem se perder ou evidenciar uma discrepância de qualidade entre eles, como acontecia na primeira temporada (onde o arco da Dinastia Genética era superior em todos os aspectos ao de Terminus, sendo uma criação original da série!). É bem verdade que o núcleo de Gaal, Salvor e Hari nunca empolga tanto quanto os outros e parece totalmente deslocado, soando mais uma transição para os eventos vindouros da série, mas já é uma melhora substancial em relação a tudo que vimos destes personagens (especialmente Gaal e Salvor) na primeira temporada. Além do mais, a forma como a série nos traz Hari de volta não só é curiosa, mas também satisfatória, nos permitindo apreciar mais dos talentos de Jared Harris, que tem a oportunidade de compor várias versões e nuances do personagem.


Foto: divulgação


Se o salto temporal considerável pode nos deixar perdidos, a série corajosamente evita um maior didatismo para além do necessário, mesmo que nos proporcione sequências de flashbacks, como as origens de Hari, Demerzel e até da Dinastia Genética. Mas um dos maiores acertos da temporada é em como ela organicamente integra os personagens que restaram do ano anterior aos recém-chegados, muitos dos quais são tão interessantes que é até triste saber que não veremos mais de parte deles na próxima temporada, visto que há um novo salto temporal ao final dessa (e isso não é um spoiler, já que se trata de algo herdado do escopo dos livros).


Destaco aqui o carismático e malandro Hober Mallow (Dimitri Leonidas), o general Bel Riose (Ben Daniels entregando talvez minha performance favorita da temporada) e seu marido Glawen (Dino Fletscher), além da já referida Constant. Já outras performances, como a de Ella Era-Smith ou a de Rachel House como Tellen Bond, me incomodaram um tanto pelos maneirismos (no caso da primeira) e tratamento dado pela direção (no caso da segunda), mas são críticas menores diante da força do elenco num geral.


E, se foco muito nos personagens da série, é porque se trata de uma escolha deliberada dela enquanto adaptação, distanciando-a ainda mais dos livros. Muitos leitores criticaram as mudanças feitas pela série já em sua primeira temporada em relação ao material original, mas a meu ver era inviável buscar fidelidade numa obra tão abrangente e vasta. Elementos retirados da fonte estão aqui — os Mentálicos, a Segunda Fundação, os prenúncios da Mula, etc. —, mas Fundação é melhor apreciada quando se entende que um a adaptação não precisa ser fiel para ser boa.


É bem verdade que esse foco maior nos personagens acaba subjugando um tanto do ritmo da temporada, especialmente em seu miolo. Mas a forma como o roteiro costura as diferentes tramas para culminar num final apoteótico e agridoce é magistral, e prova disso é o aterrador clímax trazido no penúltimo episódio, que me fez rememorar os bons anos de Game of Thrones e seus nonos episódios memoráveis.


A segunda temporada de Fundação ainda não soluciona todos os problemas da série, mas é um tremendo salto de qualidade em relação à primeira. Conjugando a escala épica dessa narrativa — evidenciada pelos altos valores de produção, a belíssima fotografia e o CGI superior a 99% dos blockbusters atuais — e um olhar íntimo aos seus personagens e a forma como eles podem alterar a (psico)história, a temporada garante que a série não apenas encontre seu tom, mas também a grandeza devida a uma obra desse escopo e ambição, e me deixa particularmente ansioso para os eventos futuros. Que venha o próximo estágio da Fundação!


Nota: 4/5

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