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- Crítica | La Chimera
A mística de uma quimera que une passado, presente e futuro Foto: Divulgação Confesso que grande parte da minha atenção voltada a La Chimera se criou graças à forma que eu conheci o trabalho da diretora Alice Rohrwacher, que me conquistou com o seu longa Feliz Como Lázaro, que se tornou um dos meus filmes favoritos daquele ano. Uma obra que carrego na mente até hoje, cujo seu realismo mágico e o vislumbre por zonas rurais são bastante marcantes, de forma que tanto Feliz Como Lázaro como La Chimera possuem um charme felliniano com seus personagens imagéticos. Se em Feliz Como Lázaro acompanhamos a ingenuidade de um personagem que não se entende em um mundo na era do consumismo, em La Chimera temos um ladrão de sepulturas que está disposto a cavar fundo em busca de algo mesmo que tenha que traçar o limite entre os vivos e os mortos. Existe um realismo mágico no filme que funciona quase como um poema audiovisual, então quando pensamos na premissa sobre uma gangue de ladrões de artefatos e objetos arqueológicos, nós temos uma abordagem mais abstrata dessa busca por algo que os personagens anseiam encontrar. Nesse sentido temos o protagonista Arthur, que possui uma espécie de habilidade sobrenatural em que ele é capaz de indicar o local exato que estão enterrados os artefatos, muitas vezes se tratando de túmulos com diversos presentes que foram deixados por entes queridos. Em meio a isso tudo, Arthur se encanta por uma mulher chamada Italia, personagem que é interpretada pela atriz brasileira Carol Duarte (A Vida Invisível), que acaba despertando nele uma forma diferente de enxergar a simplicidade das coisas. Ela questiona suas atitudes e o faz entrar em questionamento sobre a forma insensível que ele lida com o sagrado, como se ele não respeitasse o limite que separa os vivos dos mortos. De forma que a diretora Alice Rohrwacher põem a câmera de cabeça pra baixo, quebrando totalmente o eixo para ilustrar a forma que Arthur transita nesses dois mundos. Dentro dessa visão mágica desse universo que nos é guiado pela visão de Arthur, o filme traz algumas possibilidades estéticas para somar com diversos elementos, como por exemplo a técnica em que a cena tem o seu frame acelerado, trazendo um tom cômico aos personagens que parecem correr a passos curtos em cena. Além de possibilitar cenas com um tom mais voltado pra comédia, também há algumas cenas que brincam com o musical e o romance, o que acaba casando bem com o filme que transborda paixão por seus personagens que parecem estar vivendo um sonho. Foto: Divulgação A noção de tempo é nebulosa, dificultando a identificação do período em que a história se passa. Essa falta de linha temporal destaca não apenas a importância dos artefatos antigos encontrados, mas também a sensação eterna de amor e perda, além de toda uma reflexão a respeito da importância da memória. A obscuridade do tempo também destaca a conexão ou distinção entre o mundo real e a vida após a morte, o tangível e o intangível, humano e fantasmas, sonhos e realidade. A câmera de Alice Rohrwacher pinta uma tela em branco a ideia de que o tempo é uma ilusão. Embora utilizemos o tempo como referência para criar estrutura e ordem, ele é algo que não pode ser medido ou quantificado. A potência das coisas e pessoas que perdemos é igual, senão maior, do que aquelas que podemos ver e tocar fisicamente. E quanto ao desejo de viver em uma estação de trem abandonada com outras mulheres e crianças, transformando-a em um lar compartilhado, é um reflexo do encanto poético e intencional de todos os elementos visuais e temáticos presentes no filme. Por fim, La Chimera convida o espectador a embarcar nessa viagem melancólica por paisagens bucólicas, em um universo particular que talvez gaste todas as suas melhores fichas na primeira metade do filme para a partir disso proporcionar diferentes enigmas que acabam por confundir o que é proposto inicialmente, caindo em alguns clichês que solucionam a trama de maneira mais segura. E dentro dessa utopia que chamamos de “quimera” o filme propõe um dilema fascinante sobre as raízes que nos prendem ao passado. Nota: 3,5/5
- Crítica | Fallout (Temporada 1)
Uma grata surpresa que reitera o ótimo momento das adaptações de videogames Foto: Divulgação Nunca joguei Fallout e mal tinha noção da premissa dos jogos, então não posso dizer que estava ansioso para a adaptação criada por Graham Wagner e Geneva Robertson-Dworet e produzida por Jonathan Nolan e Lisa Joy, conhecidos pelo seu trabalho com Westworld. Ainda assim, creio que até os mais ávidos fãs dos jogos ficarão surpreendidos com o quão bem Fallout, a série, se sai, comprovando mais uma vez que as IPs de videogames são a nova receita de sucesso do audiovisual. Longe de ser uma adaptação, Fallout na verdade se estabelece como uma narrativa original e canônica dentro deste universo. Se passando mais de 200 anos após uma guerra nuclear que destrói os EUA, temos Lucy MacLean (Ella Purnell), residente do Vault 33 — um dos muitos refúgios subterrâneos que abrigaram vários sobreviventes da guerra —, a qual se vê forçada a ir à superfície dizimada e pós-apocalíptica para resgatar seu pai Hank (Kyle MacLachan). Nesse processo, os caminhos dela se cruzam com Maximus (Aaron Moten), membro da organização militar conhecida como Irmandade de Aço, e o Ghoul (Walton Goggins), um misterioso pistoleiro que sobreviveu à radiação da superfície e cuja história remonta aos dias antes da guerra. É perceptível uma certa luta da série para definir seu tom no início; o primeiro episódio, um dos três dirigidos por Nolan, é certamente o mais fraco e desinteressante, querendo impor um estilo próprio com câmeras lentas e um humor irregular que não convence de imediato. Contudo, já no segundo episódio, quando os caminhos de Lucy, Maximus e Ghoul se cruzam, a trama melhora nitidamente, nos conquistando mais a cada episódio. As bizarrices da série (que vão de armas que atiram dentes a robôs extratores de órgãos, criaturas híbridas e mortais, refúgios onde ocorrem experimentos misteriosos e um “beijo” entre duas cabeças decepadas) casam com seu tom satírico, que introduz até mesmo uma crítica anti-capitalista e anti-corporativista na sua segunda metade, conforme temos flashbacks que nos revelam parte dos eventos que conduziram a esse apocalipse nuclear. Foto: Divulgação Além disso, a retratação deste mundo devastado e pós-apocalíptico nos convence de maneira exemplar, especialmente através do arco de Lucy. Se Purnell não surpreende muito no primeiro episódio (outro problema que reputo à direção), ela não demora a conquistar nossa simpatia, equilibrando bem a ingenuidade e doçura da personagem com as transformações físicas e morais pela qual precisa passar para sobreviver nesse ambiente inóspito. Sua presença é tão contagiante e cativante que melhora até mesmo o arco de Maximus. Não que Moten esteja ruim em tela, mas é visível como ele é o elo fraco do trio principal e como a série demora a entender o que quer de seu personagem. Mas não há dúvidas de que é Goggins quem rouba a cena cada vez que aparece. Um ator que parece não se esforçar para transparecer seu talento até em papéis mínimos, ele parece em casa aqui — era impossível não me lembrar de seu Boyd Crowder na saudosa Justified. Nada me conquista mais fácil do que um personagem durão e de moral duvidosa e que possui uma história de fundo trágica, e os gradativos flashbacks do seu passado pré-apocalipse dão uma excelente tônica à série, contrastando com a sua figura magnética e assustadora do presente. Mesmo nos seus momentos mais violentos, o ator enriquece o personagem com um carisma irresistível que o tornam o grande destaque do show. Outro destaque vem na forma de Norm (Moises Arias), o irmão de Lucy que permanece no Vault 33 tentando investigar os mistérios que cercam o lugar. Arias entrega uma performance contida, mas pela qual é fácil torcer, e me peguei surpreso pela maneira como seu arco se torna o mais intrigante e envolvente da temporada, especialmente quando aos poucos se conecta com os demais. Aliás, diria que um dos grandes méritos de Fallout é em construir um mistério que nos prende, mas não se mostra pretensioso e alienante — exatamente o erro que Nolan e Joy cometeram em Westworld. A série trabalha habilmente através dos seus efeitos visuais e direção de arte um misto de ambientação retrofuturista e pós-apocalíptica, inclusive no uso de canções dos anos 1950 em momentos-chave, que não apenas reforça esse futuro alternativo atompunk, mas até o caráter irônico e satírico da obra. Isso por si só já seria o suficiente para me cativar, mas é na sua trama labiríntica (que jamais se perde em si mesma, porém) e no carisma de seus personagens que ela realmente se sobressai. É o tipo de série que merece ser um grande hit, o que me faz lamentar a péssima decisão da Amazon em lançar a temporada toda de uma vez. Mas, com sua segunda temporada já confirmada, estou pronto para mais uma vez dar um joinha a este universo que se revelou uma surpresa mais do que positiva. Nota: 4/5
- Crítica | Contra o Mundo
Farofa pop estilo anos 2000 que se exibe sem qualquer vergonha Foto: Divulgação Bill Skarsgård estrela como “Garoto” que jura vingança depois que sua família é assassinada por Hilda Van Der Koy (Janssen), a matriarca perturbada de uma dinastia pós-apocalíptica corrupta que deixou o menino órfão, surdo e sem voz. Impulsionado por sua voz interior, que ele cooptou de seu videogame favorito de infância, Boy treina com um misterioso xamã (Ruhian) para se tornar um instrumento de morte e é solto na véspera do Abate anual de dissidentes. A confusão começa quando o Garoto inicia um sangrento caos de artes marciais, incitando a ira da carnificina e o derramamento de sangue. Enquanto tenta se orientar neste reino delirante, o Garoto logo se junta a um desesperado grupo de resistência, ao mesmo tempo em que briga com o aparente fantasma de sua irmã mais nova rebelde. O longa de estreia do diretor alemão Moritz Mohr é eufórico. Claramente ele traz inspirações de filmes de artes marciais asiáticos, do furor da ação hollywoodiana e especialmente dos videogames. Com apenas 10 minutos iniciais o cineasta faz uma pequena mostra do que a produção apresentará: ironia, sangue e lutas muito bem coreografas. O que o espectador não imagina é que dali para a frente isso só vai se intensificar e em qualquer momento tentará se passar por algo diferente. O filme não tem escrúpulos (visualmente e narrativamente), não é polido e nem faz qualquer cerimônia para escrachar no seu humor duvidoso e na sua violência pra lá de gráfica. E falando nisso o cineasta conseguiu se sair muito bem algumas de suas exageradas escolhas (haja visto que é seu primeiro trabalho numa produção dessa escala), especialmente na frenética câmera nos combates, mas em outras que demandavam muitos efeitos especiais digitais e filtros o resultado figurou um constrangedor amadorismo. Foto: Divulgação O roteiro faz o arroz com feijão e não se preocupa em dar mais detalhes do que o minimamente necessário para motivar a pancadaria. Um pouco de contexto voltado para a ambientação do público àquele universo novo não faria mal nenhum, mas essa ausência não chega a comprometer a estrutura narrativa que, tal qual um jogo de fliperama clássico, tem seus vilão e suas razões bem demarcados logo no princípio. Skarsgård sustenta com graça seu papel que, dada a situação do enredo, pode-se considerar complexo. Sem falar uma palavra e com um trabalho de corpo incrível, o ator sueco prova que mais uma vez que parece não haver limites para sua versatilidade. Os demais nomes do elenco também preenchem os requisitos necessários para moldar a desenvoltura de seus personagens que, sejamos honestos, não são tantos assim. Contra o Mundo faz parte de um estilo de filmes que não se vê mais e fez muito sucesso na primeira década dos anos 2000, onde diretores estreantes arriscavam suas carreiras promissoras e experimentavam bastante em adaptações de jogos, animes e quadrinhos tentando emplacar o próximo grande blockbuster. Tem quem não goste de farofas, para mim, elas sabendo de suas limitações e aproveitando o máximo disso, são sempre bem-vindas. Nota: 3/5
- Crítica | Sem Coração
Coming of age que é o retrato do Brasil Foto: Divulgação 1996, litoral do interior de Alagoas. É dentro desse cenário visual quase paradisíaco e praiano que mergulhamos no longa Sem Coração, lançado no dia 18 de abril em alguns cinemas do Brasil. Destaque no Festival de Veneza, o filme nos apresenta a Tamara, uma jovem que está aproveitando suas últimas semanas na vila pesqueira onde mora, antes de partir para estudar em Brasília. Um dia, ela ouve falar de uma adolescente apelidada de "Sem Coração" por causa de uma cicatriz que tem no peito e, ao longo do verão, Tamara sente uma atração crescente por essa menina misteriosa. Compartilhando seus dias com um grupo grande de amigos, se dividindo entre longos banhos de mar, festas na casa de sua família e visitas às casas vazias e locais abandonados da região, acompanhamos a descoberta e o desabrochar de jovens com vidas, caminhos e perspectivas muitos diferentes. Enquanto uma está prestes a se mudar para Brasília para focar nos estudos, outra precisa trabalhar para ajudar no sustento da família com a pesca, já outro acaba de sair de um centro de detenção para menores e lida com a rejeição e a violência dos seus parentes mais próximos. Dirigido por Nara Normande e Tião, Sem Coração se ambienta bem na década de 1990, misturando um sentimento de nostalgia e amargura que a época passa, fundamental para o desenvolvimento da história. A partir de uma premissa emotiva do coming of age que permeia a trama, há também uma fotografia que se complementa com a narrativa contada, seja por meio da utilização dos mais diversos tons de azul e verde, seja também na inserção de elementos cinematográficos mais fantasiosos que a obra insere nesse universo de tranquilidade praiano, abraçando o realismo e o misturando com a fantasia de modo magistral com um roteiro riquíssimo a tiracolo. Foto: Divulgação Se a quebra dessa tranquilidade, de certo modo, acontece quando uma baleia encalha na praia (quase) deserta, ela também acontece quando Tamara e Sem Coração começam a interagir e de quando a inocência da adolescência começa a ser perdida de diversos modos. Mérito de um elenco adulto forte e de um elenco jovem muito consciente do que está colocando em cena. As atrizes protagonistas Maya de Vicq e Eduarda Samara exalam juntas uma química que potencializa todos os momentos de interação da dupla, especialmente através da simplicidade dos olhares e do toque. Kaique Brito e Alaylson Emanuel se destacam nas cenas mais dramáticas e densas do filme, em atuações contidas mas que muito dizem sobre suas histórias e sobre os temas que o longa aborda sem precisar escancarar na cara do telespectador. Ao mesmo tempo em que parece fácil descrever Sem Coração, parece difícil na mesma medida. Acho que o filme funcionou pra mim como uma brisa onde os cheiros nos trazem memórias de uma época que ficou para trás, mas, que também te recordam de momentos como sentir o primeiro amor e a primeira perda na adolescência. É uma troca de experiências, de dores, de alegrias, de descobertas e também de ser ver e de se entender em tela. Com apenas 1h31 de projeção, quando os créditos sobem, você sente aquele aperto no coração que não sabe se é algo bom ou ruim ou talvez os dois ao mesmo tempo. O título pode enganar, mas, é um dos filmes com mais coração (perdoe-me pelo trocadilho) que eu já vi. O coração é imenso, pulsa e nos abraça com todos os sentimentos que a juventude pode ter. "- e tu vai viver com medo?" "- ja vivo." Nota: 5/5
- Crítica | My Memory is Full of Ghosts
Resultado é pungente e bem apresentado apesar de distanciamento não intencional Foto: Divulgação Como uma elegia visual, My Memory Is Full of Ghosts explora uma realidade presa entre passado, presente e futuro em Homs, na Síria. Por trás do autorretrato de uma população exsanguinada em busca da normalidade emergem memórias da cidade, assombrada pela destruição, desfiguração e perda. Um filme profundamente comovente, um eco doloroso do absurdo da guerra e da força do ser humano. O documentário do diretor Anas Zawahri funciona como um diário coletivo de vozes que parecem ecoar pelas estruturas de Homs. Semelhante também a um álbum de fotografias, as imagens capturadas com uma câmera estabilizada e contemplativa vão ilustrando e compondo um quebra-cabeças que já não se pode completar. Essa contemplação é executada com rigor quase científico desse organismo que segue vivo apesar de todo aniquilamento da guerra. E o diretor não só não apenas olha, mas percebe a cidade, seus sons (naturais e mecânicos), suas construções, suas ruínas, a identidade que também é sua. Zawahri expõe que Homs ainda resiste, e que o apego de seus habitantes segue o mesmo que os vínculos de qualquer habitante bairrista de outras cidades mundo à fora, apesar dos sentimentos conflitantes e da vontade de fazer acontecer uma vida harmoniosa num “pós”-guerra incerto. No entanto a câmera sempre parada acaba as vezes por apresentar um distanciamento não intencional. Apesar dos depoimentos intimistas parece haver uma falta de envolvimento, de sensação de pertencimento que não consegue integrar imagens e vozes em um panorama geral. Ambos os artifícios funcionam bem como trechos, mas no coletivo elaborou-se um patchwork que hora trabalha positivamente, hora destoa. O passeio dos 5 minutos finais sim opera bem e liga os pontos apresentados durante todo o filme, além de conseguir dimensionar o rastro da destruição. A produção obtém um resultado incisivo que, não fosse pelo motivos já citados, merece destaque só por não querer chocar com violência e pavor alheios explícitos. Nota: 3/5
- Crítica | O Regime (Minissérie)
Produção da HBO mira em sátira política, mas é apenas uma bagunça pretensiosa Foto: Divulgação Ambientada em uma pequena nação fictícia da Europa, o foco está na personagem de Kate Winslet, Elena Vernham, uma chanceler autocrática, que apesar dos vários conselheiros, faz o que bem entende com o povo que governa, em meio a polêmicas e crises. Esta é a tentativa de sátira política, que mira em críticas ao imperialismo estadunidense, ao governo chinês e acaba não sendo eficaz em nenhuma delas. E o que mais esta série limitada faz é tentar mesmo. Ninguém pode culpá-la por isso, somente por não conseguir alcançar o que quer, mesmo com o elenco competente e o rico design de produção do hotel em que Elena transforma em seu palácio quando ascende ao poder, o que não é suficiente para ser interessante. São seis episódios de quase uma hora de duração cada. Seis horas enfadonhas, que em poucos momentos despertaram algum sentimento. Criada por Will Tracy, um dos roteiristas da badalada Succession, ele parece não saber muito bem a história que queria contar e não soube para onde levá-la. Há uma possível revolta anunciada do povo contra Elena, porém não existe qualquer tensão em torno disso. Lembro de exatamente duas cenas que me fizeram esboçar um sorriso. A primeira acontece no episódio um e a segunda no episódio cinco. Ambas se devem muito mais ao talento de Winslet, que exprime o que pode do texto perdido de Tracy e sua equipe. Elena é amoral, egoísta, tem um marido palerma, um filho com quem passa um tempo contado, e é criado pela sua ajudante Agnes, interpretada pela sempre ótima Andrea Riseborough. A governante ainda vive um tórrido, se assim pode ser chamado, romance com um militar perturbado, feito com intensidade por Matthias Schoenaerts. É algo muito mais sexual, na verdade, que se fosse bem trabalhado poderia oferecer algum grau de nuance, mas não é, mesmo sendo o ponto de partida da história, quando Herbert, seu personagem, é selecionado pela equipe para que “cuide” da germofobia da chanceler, sendo uma espécie de escudo humano. Foto: Divulgação Em certas cenas, até Winslet se perde no exagero na interpretação, porém segura muito bem na maior parte do tempo. Vencedora do Oscar e vencedora dupla do Emmy, não é à toa. O esperado era que sua terceira estatueta viesse agora, mas depois de assistir tudo, acho que não será o caso, não só por ela, que é a melhor coisa da produção, mas pelo conjunto da obra. Se em Elena ainda há algum traço de complexidade, os outros personagens são todos de uma nota só, em um elenco competente, porém desperdiçado. Inclusive nas participações de nomes como Hugh Grant e Martha Plimpton. A direção, metade de Stephen Phears, metade de Jessica Hobbs, parece não saber conversar com o roteiro. As vezes o tom é sério demais, para uma tentativa de humor, o que deixa a cena completamente fora do tom. Não falta talento nos diretores e roteiristas, mas aqui faltou harmonia. A minissérie tenta ser estranha só pelo prazer de ser, e é mais fácil sentir vergonha alheia, do que achar “cool”. Tenta ser importante ao satirizar regimes autoritários. Tenta, tenta, tenta. E morre na praia. Ao final do sexto episódio, é notório que não existe um propósito aqui, porque ela não é divertida, não emociona, não traz nenhuma reflexão que alguém já não tenha feito antes e de uma maneira melhor. E não estou dizendo que a arte ou qualquer produção visual tenha que ter uma “mensagem”, não é o ponto. Mas qual é o ponto aqui? Nem quem escreveu parece saber. O mínimo que eu esperava, era entretenimento, e só recebi, como disse, em duas míseras cenas. Mesmo com o excelente elenco, não há nada que justifique o investimento de seis horas do tempo de alguém aqui. O ritmo é lento, o que não é problema quando há outras qualidades, mas os diálogos são enfadonhos e querem parecer muito inteligentes, só não têm a menor graça, já que nada aparenta ter importância e o sentimento maior é de apatia. Uma pena, mas O Regime é a grande decepção do ano, até então. Se com três gols dá pra pedir música no Fantástico, teremos que esperar a próxima jogada da parceria HBO + Winlest, uma vez que esta passou longe de Mildred Pierce (2011) e Mare of Easttown (2020). Nota: 2/5
- Crítica | Guerra Civil
Imagina querer fazer um filme de guerra neutro? Foto: Divulgação Guerra Civil é uma jornada através de um futuro distópico nos Estados Unidos, acompanhando uma equipe de jornalistas militares enquanto eles correm contra o tempo para chegar a Washington DC e conseguir exclusiva com o presidente antes que facções rebeldes cheguem à Casa Branca. Esse é sem sombra de dúvidas um dos filmes mais em cima do muro que já vi. Em parte – e essa é a parte até compreensível – isso se dá pelos protagonistas serem fotojornalistas que passam por cima de suas morais, crenças e éticas para conseguirem os melhores cliques. É uma tentativa de querer pregar o utópico “jornalismo imparcial” e sem consequências, e acredite quem quiser. Quando o roteiro tenta (e infelizmente consegue) ser neutro em relação à política é que a coisa desanda. Em momento nenhum do argumento fica claro precisamente o quê está acontecendo nos EUA, o que se sabe é que o país está em conflito interno por visões políticas e sociais diferente e que um desses grupos está querendo chegar na Casa Branca para matar o presidente. O texto de Garland evita a qualquer custo tomar uma posição sobre o evento. É uma guerra-analogia para uma nação dividida que não consegue se justificar (e vamos combinar que sutilezas e analogias não são o forte do diretor/roteirista). E o pior de tudo a falta de vontade de se justificar, é querer dizer que toda guerra é ruim e ponto, o espectador que lide com essa máxima e com o vago campo de interpretações e suposições que isso implica. Já pensou se existissem guerra de verdade no mundo (ainda mais com os EUA envolvidos) para ter que ensinar o quão prejudicial essas batalhas são? Não que eu esteja pedindo um documentário estilo Cidade Alerta como 20 Dias em Mariupol, era apenas um embasamento entre seus longos minutos de duração para tornar tudo mais palpável e menos vitrine. Foto: Divulgação O esforçado elenco tenta a todo custo dar alguma alma, alguma verdade ao enredo, mas está além da capacidade de Kirsten Dunst, Wagner Moura e companhia tornar todo o barulho e quebradeira importante. Os personagens também não apresentam estímulos ou objetivos, as falas e até mesmo os flashbacks se encontram numa zona cinzenta de emoções limitadas que não define nenhum traço marcante para eles. Na ação pela ação o filme se sal muito bem. As sequências de combate são de grande escala e muito bem coordenadas. O design de som é refinadíssimo e impulsiona tanto as cenas mais intensas quanto as mais introspectivas. Visualmente Garland sempre se resolve muito bem e mais uma vez ele monta belas imagens com a ajuda da fotografia limpa de Rob Hardy. Apesar dos bons momentos de tensão o longa não consegue impressionar com a narrativa neutra. Talvez Garland quisesse passar a impressão do vazio que se instaurou no país no cenário pintado por ele, vazio nas pessoas, nos lugares, nas atitudes. Talvez quisesse fazer um alerta para os estadunidenses sobre os perigos de um futuro iminente. Talvez quisesse mesmo só focar nos jornalistas e na sua missão questionável de cobrir a morte alheia. Talvez. Muitos talvez. Nenhuma certeza, e pior, nenhuma questão também. Só vazio. Um vazio covarde e apolítico. Nota: 2,5/5
- Cannes 2024 – Seleção Oficial
Maior festival de cinema da França apresenta sua seleção oficial com filme cearense Foto: Motel Destino - Karin Aïnouz Foi divulgada na manhã dessa quinta-feira (11) a seleção oficial de Cannes 2024. 19 filmes disputam a Palma de Ouro na competição principal, entre eles o cearense Motel Destino, do diretor Karim Aïnouz. O diretor natural de Fortaleza compete pelo prêmio pelo segundo ano consecutivo, no ano passado ele esteve no festival com Firebrand, filme britânico ainda inédito no Brasil. A presença de Francis Ford Coppola com seu aguardado filme Megalopolis é um dos maiores destaques da lista. O épico do premiado diretor é seu primeiro longa-metragem em 13 anos e vem sendo desenvolvido por mais de três décadas. Outros nomes bastante conhecidos do público – e do festival – como o grego Yorgos Lanthimos e seu inédito Kinds of Kindness, o canadense David Cronenberg com The Shrouds, e o italiano Paolo Sorrentino com Parthenope, também aparecerão no tapete vermelho do litoral francês. A diretora francesa Agathe Riedinger disputa a Palma com Wild Diamond, seu primeiro longa-metragem. Também entre as diretoras está a indiana Payla Kapadia, com o longa All We Imagine As Light. Kapadia esteve no festival em 2021 onde venceu o prêmio Golden Eye de Melhor Documentário por Uma Noite Sem Saber Nada. No dia 15 de abril, a mostra paralela Semana da Crítica anunciou que o brasileiro Baby integra a competição oficial de sua 63ª edição. No filme do mineiro Marcelo Caetano, Wellington, que após ser libertado de um centro de internação juvenil, se vê sozinho e à deriva nas ruas de São Paulo, sem contato dos pais e sem recursos para reconstruir sua vida. Durante uma visita a um cinema pornô, ele conhece Ronaldo, um homem maduro, que lhe ensina novas formas de sobreviver. Aos poucos, o relacionamento deles se transforma em uma paixão conflitante, oscilando entre a exploração e a proteção, o ciúme e a cumplicidade. Com direção de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, o documentário brasileiro A Queda do Céu foi selecionado para Quinzena dos Realizadores 2024, mostra paralela focada na descoberta de novos cineastas. O filme acompanha o importante ritual fúnebre, Reahu, que mobiliza a comunidade de Watorikɨ num esforço coletivo para segurar o céu. A 77ª edição do Festival de Cannes acontece entre os dias 14 e 25 de maio. Confira abaixo a lista completa da Competição e das demais mostras do festival: Competição Oficial 2024: Foto: Megalopolis - Francis Ford Coppola • Motel Destino (Karim Aïnouz) • Megalopolis (Francis Ford Coppola) • Anora (Sean Baker) • Emilia Perez (Jacques Audiard) • The Shrouds (David Cronenberg) • Bird (Andrea Arnold) • The Apprentice (Ali Abbasi) • Grand Tour (Miguel Gomes) • Kinds of Kindness (Yorgos Lanthimos) • All We Imagine As Light (Payla Kapadia) • Wild Diamond (Agathe Riedinger) • Beating Hearts (Gilles Lellouche) • Parthenope (Paolo Sorrentino) • Caught By The Tides (Jia Zhang Ke) • The Girl with The Needle (Magnus von Horn) • Liminov: The Ballad of Eddie (Kirill Serebrennikov) • Oh, Canada (Paul Schrader) • Marcello Mio (Christophe Honoré) • The Substance (Coralie Fargeat) Mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar): Foto: Boku No Ohisama - Hiroshi Okuyama • Norah (Tawfik Alzaidi) • The Shameless (Konstantin Bojanov) • Le Royaume (Julien Colonna) • Vingt Dieux ! (Louise Courvoisier) • Who Let the Dog Bite? (Laetitia Dosch) • Black Dog (Guan Hu) • The Village Next to Paradise (Mo Harawe) • September Says (Ariane Labed) • L’Histoire de Souleymane (Boris Lojkine) • The Damned (Roberto Minervini) • On Becoming a Guinea Fowl (Rungano Nyoni) • Boku No Ohisama (Hiroshi Okuyama) • Santosh (Sandhya Suri) • Viet and Nam (Truong Minh Quý) • Armand (Halfdan Ullmann Tøndel) Fora de Competição: Foto: Furiosa: Uma Saga Mad Max - George Miller • Furiosa: A Mad Max Saga (George Miller) • Horizon: An American Saga - Chapter 1 (Kevin Costner) • Rumors (Evan Johnson, Galen Johnson e Guy Maddin) • She's Got No Name (Peter Ho-Sun Chan) Midnight Screenings de Cannes 2024: Foto: Twilight of the Warrior: Walled In - Soi Cheang • The Balconettes (Noémie Merlant) • I, the Executioner (Seung Wan Ryoo) • The Surfer (Lorcan Finnegan) • Twilight of the Warrior: Walled In (Soi Cheang) Cannes Premiere 2024: Foto: Everybody Loves Touda - Nabil Ayouch • C'est Pas Moi (Leos Carax) • Everybody Loves Touda (Nabil Ayouch) • Le Roman de Jim (Arnaud Larrieu, Jean-Marie Larrieu) • The Matching Bang (Emmanuel Courcol) • Miséricorde (Alain Guiraudie) • Rendez-Vous Avec Pol Pot (Rithy Panh) Mostra Semaine de la Critique (Semana da Crítica): Foto: Baby - Marcelo Caetano Sessão de Longas • Baby (Marcelo Caetano) • Blue Sun Palace (Constance Tsang) • The Brink of Dreams (Nada Riyadh e Ayman El Amir) • Julie Keeps Quiet (Leonardo Van Dijl) • Locust (KEFF) • Block Pass (Antoine Chevrollier) • Simon of the Mountain (Federico Luis) • Ghost Trail (Jonathan Millet) - Filme de Abertura • Queens of Drama, (Alexis Langlois) • Across the Sea (Saïd Hamich Benlarbi) • Animale (Emma Benestan) - Filme de Encerramento Sessão de Curtas • Alazar (Beza Hailu Lemma) • A Menina e o Pote (Valentina Homem) • As Minhas Sensações São Tudo o Que Tenho Para Oferecer (Isadora Neves Marques) • What We Ask of a Statue Is That It Doesn’t Move (Daphné Hérétakis) • Ella se Queda (Marinthia Gutiérrez Velazco) • Montsouris Park (Guil Sela) • Absent (Cem Demirer) • Radikals (Arvin Belarmino) • Supersilly (Veronica Martiradonna) • Dancing in the Corner (Jan Bujnowski) Mostra Quinzaine des Cinéastes (Quinzena dos Realizadores): Foto: Baby - Marcelo Caetano Sessão de Longas • A Queda do Céu (Eryk Rocha & Gabriela Carneiro da Cunha) • This Life of Mine (Sophie Fillières) • In His Own Image (Thierry de Peretti) • Christmas Eve in Miller's Point (Tyler Taormina) • Desert of Namibia (Yôko Yamanaka) • Sharq 12 (Hala Elkoussy) • Eat the Night (Caroline Poggi & Jonathan Vinel) • Eephus (Carson Lund) • Gazer (Ryan J. Sloan) • Ghost Cat Anzu (Yôko Kuno & Nobuhiro Yamashita) • Good One (India Donaldson) • Mongrel (Chiang Wei Liang & You Qiao Yin) • Visiting Hours (Patricia Mazuy) • A Savana e a Montanha (Paulo Carneiro) • Sister Midnight (Karan Kandhari) • Algo Viejo, Algo Novo, Algo Prestado (Hernán Rosselli) • Los Hiperbóreos (Cristóbal León & Joaquín Cociña) • Volveréis (Jonás Trueba) • To a Land Unknown (Mahdi Fleifel) • Universal Language (Matthew Rankin) • Plastic Guns (Jean-Christophe Meurisse) Sessão de Curtas • After the Sun (Rayane Mcirdi) • Extremely Short (Kōji Yamamura) • Immaculata (Kim Lêa Sakkal) • Antoine, Élise and Léandre (Jules Follet) • Mulberry Fields (Nguyễn Trung Nghĩa) • Nuestra sombra (Agustina Sánchez Gavier) • O jardim em movimento (Inês Lima) • Very Gentle Work (Nate Lavey) • Quando a terra foge (Frederico Lobo) *Matéria em construção sujeita a alterações mediante anúncios
- Crítica | Rising Up At Night
Filme congolês retrata problema social com intensidade, mas não apresenta conclusão Foto: Divulgação O documentário de Nelson Makengo mostra o dia-a-dia de moradores de Kinshasa, capital e maior cidade da República Democrática do Congo, que fica dias sem energia elétrica – além de sofrer com inundações – enquanto se planeja construir a maior central elétrica no país. O diretor conta através de personagens reais como diferentes pessoas lidam com as mesmas questões: insegurança e escuridão. Kudi mobiliza a população do seu bairro para comprar o cabo roubado para que a eletricidade possa ser restaurada a tempo para as festas de final de ano. No Natal, Kudi se transforma em Papai Noel e flashes de luzes e esperança iluminam as ruas de Kinshasa. No Monte Mangengenge, um local sagrado, o Pastor Gédéon prega a luz de Cristo como caminho para a fé e a luz. Enquanto isso, o jovem Davido procura abrigo depois que sua casa foi inundada pelo rio Congo. Ele passa o tempo malhando e esperando o rio baixar em sua vizinhança. Entre a esperança e a fé religiosa. Foto: Divulgação As mais variadas interpretações para a escuridão são vistas pela perspectiva de Makengo e dos moradores apresentados ao público. O cineasta faz questão de filmar a maioria do tempo durante a noite e finais de tarde para enfatizar o escuro como maior obstáculo, e ao mesmo tempo que consegue expressar as situações conflitantes por meio de uma quase experiência imersiva, por vezes fica difícil acompanhar o desdobramento de algumas cenas. Nos poucos momentos que a câmera foca em luzes artificiais de lanternas e velas elas parecem mais incomodar e endossar aquele contexto desesperador do que serem uma solução. A fé quase desesperadora e as emoções levados ao limite são o norte do filme, porém a falta de protagonismo dentre os habitantes postos em evidência impede a narrativa de se desenvolver e parece não sair do mesmo lugar de onde partiu, imprimindo uma repetitividade que compromete a frágil e fragmentada sensibilidade que luta para ser consolidada. Nota: 3/5
- Crítica | Abigail
Suspense brinca com gêneros e diverte até onde possível Foto: Divulgação Um grupo de criminosos profissionais sequestra uma jovem bailarina, Abigail (Alisha Weir), filha de um figurão do submundo do crime e a levam para uma mansão distante, onde ela deverá aguardar por uma grande recompensa para ser liberada. Tudo segue nos conformes até que coisas assustadoras passam a acontecer no lugar e os sequestradores terão que lidar com a menina, com o terror desconhecido e com a dúvida sobre seus parceiros. A dupla de diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett tem, até o presente momento, mostrado uma filmografia voltada exclusivamente para o terror. Usando sempre de muito sangue e reviravoltas como identidade das suas produções eles tem exibido constância especialmente no primeiro ato: sabem aproveitar o tempo inicial para construir boas introduções, apresentação de personagens bem elaborada, cadência regular na montagem. Em resumo, uma excelente preparação para o desbunde dos atos seguintes. E não falo isso por irregularidade, é porque realmente o enredo muda de direção para um cenário extremamente caótico, o que funciona precisamente como contraponto ao início mais equilibrado. E eis a beleza de chegar a um filme completamente ignorante sobre a narrativa: as reviravoltas realmente funcionam. Mas o longa tentou se preparar também para aqueles que são bombardeados pelo material promocional porque acredite, tem muitas reviravoltas mais uma vez, porém mais do que precisava. O roteiro tem prazer em surpreender o espectador, mas aqui chega a um ponto de não passar confiança no material que estava sendo exposto, como se precisasse a todo momento, do segundo ato em diante, estar impactando para sustentar o ritmo e segurar a atenção de quem está assistindo. Foto: divulgação O elenco guiado pela brilhante Melissa Barrera se entrega á experiência sem pudor e dança conforme a música, e toca de tudo aqui, tem comédia, tem terror gore, tem ação e até um pouco de drama meloso. Todos os coadjuvantes têm momentos marcantes, até mesmo o magnético Giancarlo Esposito que sempre está em ótimos papeis porque no fundo é o mesmo personagem em produções diferentes. Destaque para o carismático o memorável Angus Cloud em seu último trabalho e para a estrela do filme: Alisha Weir. A jovem atriz irlandesa deu um espetáculo em Matilda: O Musical (2022) e mostra de novo que tem potencial para ir mais longe do que eu imaginava. Num mundo onde já tivemos Sexta-Feira 13 (1980), Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio (1981) passando por O Segredo da Cabana (2011) até chegar em Casamento Sangrento (dos mesmos diretores) o suspense que repete a fórmula “personalidades diferentes confinadas num ambiente hostil tentando sobreviver a um mal desconhecido” não é lá nenhuma novidade, o que vai validar é a abordagem, e Abigail apesar de divertir bastante, não tem tanto impacto nem nos (inúmeros) efeitos surpresa. Nota: 3/5
- Crítica | Apple Cider Vinegar
O ciclo da vida contado como uma fábula contemporânea sobre rochas Foto: Divulgação O que têm em comum uma pedra nos rins, um vulcão em Cabo Verde e um geólogo inglês? Este é o enigma colocado pela cineasta Sofie Benoot neste brilhante meandro entre o minúsculo e o infinito. Mesclando um documentário sobre a natureza e uma fábula filosófica, este é um quebra-cabeça que convida a examinar a ligação entre o corpo humano e o planeta. A diretora Sofie Benoot mistura roteiro ficcional com não-ficcional e apresenta com uma roupagem elegante um filme interessante sobre a relação do homem com o seu entorno. Conduzido por uma personagem que se apresenta como uma narradora aposentada de programas de natureza dominicais (à la BBC), a cineasta veste este alter ego que mistura suas ideias e sentimentos com os da narradora-personagem. Dublado pela suave e inconfundível voz da lendária atriz Siân Phillips, a persona mostra um vouyerismo naturalista – herdado da profissão – de admirar paisagens através de câmeras de observação esperando aparições e flagra do reino animal como um hobby. E entre contemplações e questionamentos, o fio condutor da narrativa é uma pedra dos rins que extraída da pessoa por trás do documentário (a diretora? a personagem?) e as questões que esse mineral trouxe sobre pedras, sobre como estes itens pouco apreciados por nós seres humanos medianos apresenta beleza e, muito além disso, importância para a biosfera. O inusitado ponto de partida, no entanto, só ganha força pela subjetividade da voz e sua vontade de entender a casualidade e a espontaneidade de uma natureza viva que independe das vontades humanas para se expressar. É interessante ver como o argumento cria paralelos entre a estabilidade e a permeabilidade das rochas com sensações e emoções humanas. Mas apesar da abordagem bastante simpática e muito bem conduzida não se engane: é um documentário antológico de natureza no seu interior, mesmo sendo cheio de poesia no exterior. A produção não apresenta as belas e grandiosas imagens dos famosos programas de canais à cabo, prefere a introspecção dos universos particulares que apesar das dimensões e distâncias são mais comuns do que parecem. Nota: 3,5/5
- Crítica | Rivais
Um show de tensão e sensualidade Foto: Divulgação O diretor italiano Luca Guadagnino se tornou mundialmente conhecido após lançar, em 2017, o filme Me Chame Pelo Seu Nome, baseado na obra homônima escrita por André Aciman e vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado no Oscar de 2018. De lá Para cá, seu nome retornou às telas com Suspiria, em 2018, e Até os Ossos, em 2022. Esse ano ele nos traz Rivais, com Zendaya, Josh O’Connor e Mike Faist compondo o elenco principal. Sabe aqueles momentos “já olhou para alguém e pensou: o que passa na cabeça dela?”? É assim que nos sentimos ao assistir as cenas daquele fatídico jogo. Com os três personagens ligados, e as trocas de olhares constantes entre eles, a tensão se torna palpável instantaneamente. Só no decorrer de tudo é que finalmente vamos descobrindo o que se passa na cabeça deles, mas, até chegar lá, o filme nos entrega vários minutos deliciosos de um entretenimento de qualidade amparado por sensualidade, erotismo e um texto fluido escrito por Justin Kuritzkes. Um dos componentes principais deste filme é o entrosamento que há entre o trio escolhido. Sozinhos, cada um já tem uma presença em tela magnífica, quando se juntam em dupla tudo se eleva, mas quando estão os três juntos, a coisa alcança um nível magistral absurdo. Tem tanto impacto em tela que não tem como não ficar vidrado vendo aquelas performances. Não consigo destacar nenhum, pois, achei os três tão bem encaixados que é como se fossem partes de um corpo maior em harmonia para entregar um resultado excelente, e, a meu ver, conseguiram. É essa química que faz o restante dar certo. Foto: Divulgação Guadagnino explora esse detalhe durante todo o filme, não apenas a presença abstrata de suas atuações, mas também todo o potencial corporal dos três. Eles evocam a sensualidade no menor dos movimentos, é possível sentir a tensão e o desejo. Não apenas o erotismo é bem trabalhado, como quase se torna uma dança coreografada a passos milimetricamente ensaiados, e, como se fosse um desafio, a trilha sonora vibrante pega tudo isso e joga vários patamares acima. Ela faz com que você sinta toda a pulsação e deixa uma sensação hipnótica, onde a única coisa que é possível fazer é apreciar e esperar pelo próximo passo. Para além das atuações, temos um enredo que vai se moldando em volta de um único jogo. Assim como os movimentos de uma bola de tênis, a história vai e volta no tempo até chegar ao seu fim. Sem pressa alguma, vemos se desenrolar todos os percalços dos três personagens que fizeram aquele momento acontecer. A cada nova informação aquele jogo vai ficando cada vez mais excitante, até chegar ao glorioso ápice do match point. Não apenas do jogo, mas na finalização da trama do trio. Rivais empolga, encanta, hipnotiza e te faz vibrar a cada cena. É charmoso, caótico e absurdamente sensual. Um dos filmes recentes mais gostosos de assistir e uma experiência cinematográfica que vale muito a pena. Nota: 4,5/5












