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Crítica | Fallout (Temporada 1)

Vinicius Oliveira

26 de abr de 2024 · 3 min de leitura

Uma grata surpresa que reitera o ótimo momento das adaptações de videogames

Foto: Divulgação


Nunca joguei Fallout e mal tinha noção da premissa dos jogos, então não posso dizer que estava ansioso para a adaptação criada por Graham Wagner e Geneva Robertson-Dworet e produzida por Jonathan Nolan e Lisa Joy, conhecidos pelo seu trabalho com Westworld. Ainda assim, creio que até os mais ávidos fãs dos jogos ficarão surpreendidos com o quão bem Fallout, a série, se sai, comprovando mais uma vez que as IPs de videogames são a nova receita de sucesso do audiovisual.


Longe de ser uma adaptação, Fallout na verdade se estabelece como uma narrativa original e canônica dentro deste universo. Se passando mais de 200 anos após uma guerra nuclear que destrói os EUA, temos Lucy MacLean (Ella Purnell), residente do Vault 33 — um dos muitos refúgios subterrâneos que abrigaram vários sobreviventes da guerra —, a qual se vê forçada a ir à superfície dizimada e pós-apocalíptica para resgatar seu pai Hank (Kyle MacLachan). Nesse processo, os caminhos dela se cruzam com Maximus (Aaron Moten), membro da organização militar conhecida como Irmandade de Aço, e o Ghoul (Walton Goggins), um misterioso pistoleiro que sobreviveu à radiação da superfície e cuja história remonta aos dias antes da guerra.


É perceptível uma certa luta da série para definir seu tom no início; o primeiro episódio, um dos três dirigidos por Nolan, é certamente o mais fraco e desinteressante, querendo impor um estilo próprio com câmeras lentas e um humor irregular que não convence de imediato. Contudo, já no segundo episódio, quando os caminhos de Lucy, Maximus e Ghoul se cruzam, a trama melhora nitidamente, nos conquistando mais a cada episódio. As bizarrices da série (que vão de armas que atiram dentes a robôs extratores de órgãos, criaturas híbridas e mortais, refúgios onde ocorrem experimentos misteriosos e um “beijo” entre duas cabeças decepadas) casam com seu tom satírico, que introduz até mesmo uma crítica anti-capitalista e anti-corporativista na sua segunda metade, conforme temos flashbacks que nos revelam parte dos eventos que conduziram a esse apocalipse nuclear.

Foto: Divulgação


Além disso, a retratação deste mundo devastado e pós-apocalíptico nos convence de maneira exemplar, especialmente através do arco de Lucy. Se Purnell não surpreende muito no primeiro episódio (outro problema que reputo à direção), ela não demora a conquistar nossa simpatia, equilibrando bem a ingenuidade e doçura da personagem com as transformações físicas e morais pela qual precisa passar para sobreviver nesse ambiente inóspito. Sua presença é tão contagiante e cativante que melhora até mesmo o arco de Maximus. Não que Moten esteja ruim em tela, mas é visível como ele é o elo fraco do trio principal e como a série demora a entender o que quer de seu personagem.


Mas não há dúvidas de que é Goggins quem rouba a cena cada vez que aparece. Um ator que parece não se esforçar para transparecer seu talento até em papéis mínimos, ele parece em casa aqui — era impossível não me lembrar de seu Boyd Crowder na saudosa Justified. Nada me conquista mais fácil do que um personagem durão e de moral duvidosa e que possui uma história de fundo trágica, e os gradativos flashbacks do seu passado pré-apocalipse dão uma excelente tônica à série, contrastando com a sua figura magnética e assustadora do presente. Mesmo nos seus momentos mais violentos, o ator enriquece o personagem com um carisma irresistível que o tornam o grande destaque do show.


Outro destaque vem na forma de Norm (Moises Arias), o irmão de Lucy que permanece no Vault 33 tentando investigar os mistérios que cercam o lugar. Arias entrega uma performance contida, mas pela qual é fácil torcer, e me peguei surpreso pela maneira como seu arco se torna o mais intrigante e envolvente da temporada, especialmente quando aos poucos se conecta com os demais. Aliás, diria que um dos grandes méritos de Fallout é em construir um mistério que nos prende, mas não se mostra pretensioso e alienante — exatamente o erro que Nolan e Joy cometeram em Westworld.


A série trabalha habilmente através dos seus efeitos visuais e direção de arte um misto de ambientação retrofuturista e pós-apocalíptica, inclusive no uso de canções dos anos 1950 em momentos-chave, que não apenas reforça esse futuro alternativo atompunk, mas até o caráter irônico e satírico da obra. Isso por si só já seria o suficiente para me cativar, mas é na sua trama labiríntica (que jamais se perde em si mesma, porém) e no carisma de seus personagens que ela realmente se sobressai. É o tipo de série que merece ser um grande hit, o que me faz lamentar a péssima decisão da Amazon em lançar a temporada toda de uma vez. Mas, com sua segunda temporada já confirmada, estou pronto para mais uma vez dar um joinha a este universo que se revelou uma surpresa mais do que positiva.


Nota: 4/5



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Foto: Divulgação


Nunca joguei Fallout e mal tinha noção da premissa dos jogos, então não posso dizer que estava ansioso para a adaptação criada por Graham Wagner e Geneva Robertson-Dworet e produzida por Jonathan Nolan e Lisa Joy, conhecidos pelo seu trabalho com Westworld. Ainda assim, creio que até os mais ávidos fãs dos jogos ficarão surpreendidos com o quão bem Fallout, a série, se sai, comprovando mais uma vez que as IPs de videogames são a nova receita de sucesso do audiovisual.


Longe de ser uma adaptação, Fallout na verdade se estabelece como uma narrativa original e canônica dentro deste universo. Se passando mais de 200 anos após uma guerra nuclear que destrói os EUA, temos Lucy MacLean (Ella Purnell), residente do Vault 33 — um dos muitos refúgios subterrâneos que abrigaram vários sobreviventes da guerra —, a qual se vê forçada a ir à superfície dizimada e pós-apocalíptica para resgatar seu pai Hank (Kyle MacLachan). Nesse processo, os caminhos dela se cruzam com Maximus (Aaron Moten), membro da organização militar conhecida como Irmandade de Aço, e o Ghoul (Walton Goggins), um misterioso pistoleiro que sobreviveu à radiação da superfície e cuja história remonta aos dias antes da guerra.


É perceptível uma certa luta da série para definir seu tom no início; o primeiro episódio, um dos três dirigidos por Nolan, é certamente o mais fraco e desinteressante, querendo impor um estilo próprio com câmeras lentas e um humor irregular que não convence de imediato. Contudo, já no segundo episódio, quando os caminhos de Lucy, Maximus e Ghoul se cruzam, a trama melhora nitidamente, nos conquistando mais a cada episódio. As bizarrices da série (que vão de armas que atiram dentes a robôs extratores de órgãos, criaturas híbridas e mortais, refúgios onde ocorrem experimentos misteriosos e um “beijo” entre duas cabeças decepadas) casam com seu tom satírico, que introduz até mesmo uma crítica anti-capitalista e anti-corporativista na sua segunda metade, conforme temos flashbacks que nos revelam parte dos eventos que conduziram a esse apocalipse nuclear.

Foto: Divulgação


Além disso, a retratação deste mundo devastado e pós-apocalíptico nos convence de maneira exemplar, especialmente através do arco de Lucy. Se Purnell não surpreende muito no primeiro episódio (outro problema que reputo à direção), ela não demora a conquistar nossa simpatia, equilibrando bem a ingenuidade e doçura da personagem com as transformações físicas e morais pela qual precisa passar para sobreviver nesse ambiente inóspito. Sua presença é tão contagiante e cativante que melhora até mesmo o arco de Maximus. Não que Moten esteja ruim em tela, mas é visível como ele é o elo fraco do trio principal e como a série demora a entender o que quer de seu personagem.


Mas não há dúvidas de que é Goggins quem rouba a cena cada vez que aparece. Um ator que parece não se esforçar para transparecer seu talento até em papéis mínimos, ele parece em casa aqui — era impossível não me lembrar de seu Boyd Crowder na saudosa Justified. Nada me conquista mais fácil do que um personagem durão e de moral duvidosa e que possui uma história de fundo trágica, e os gradativos flashbacks do seu passado pré-apocalipse dão uma excelente tônica à série, contrastando com a sua figura magnética e assustadora do presente. Mesmo nos seus momentos mais violentos, o ator enriquece o personagem com um carisma irresistível que o tornam o grande destaque do show.


Outro destaque vem na forma de Norm (Moises Arias), o irmão de Lucy que permanece no Vault 33 tentando investigar os mistérios que cercam o lugar. Arias entrega uma performance contida, mas pela qual é fácil torcer, e me peguei surpreso pela maneira como seu arco se torna o mais intrigante e envolvente da temporada, especialmente quando aos poucos se conecta com os demais. Aliás, diria que um dos grandes méritos de Fallout é em construir um mistério que nos prende, mas não se mostra pretensioso e alienante — exatamente o erro que Nolan e Joy cometeram em Westworld.


A série trabalha habilmente através dos seus efeitos visuais e direção de arte um misto de ambientação retrofuturista e pós-apocalíptica, inclusive no uso de canções dos anos 1950 em momentos-chave, que não apenas reforça esse futuro alternativo atompunk, mas até o caráter irônico e satírico da obra. Isso por si só já seria o suficiente para me cativar, mas é na sua trama labiríntica (que jamais se perde em si mesma, porém) e no carisma de seus personagens que ela realmente se sobressai. É o tipo de série que merece ser um grande hit, o que me faz lamentar a péssima decisão da Amazon em lançar a temporada toda de uma vez. Mas, com sua segunda temporada já confirmada, estou pronto para mais uma vez dar um joinha a este universo que se revelou uma surpresa mais do que positiva.


Nota: 4/5



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