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  • Crítica | Percy Jackson e os Olimpianos (1ª temporada)

    Semideuses, finalmente estamos em casa! Infelizmente não fomos tão bem recebidos assim Foto: Divulgação/ Disney+ Quando eu soube lá em 2020 que a Disney estava desenvolvendo uma série live-action de Percy Jackson e os Olimpianos e que o autor dos livros originais, Rick Riordan – Tio Rick para os íntimos – estaria diretamente envolvido na produção e, principalmente, que estaria junto à equipe responsável pelo roteiro em alguns episódios, meu primeiro pensamento foi: “Não tem como esse projeto dar errado, a chance de isso acontecer é nula, vai ser perfeito. Os fãs merecem algo bom depois daqueles filmes que são adaptações horrorosas”. E foi assim, com as expectativas nas alturas, com uma sensação de alívio achando que eu iria assistir a melhor adaptação já feita e que veríamos uma aventura tão boa quanto a dos livros, que eu quebrei a cara e me decepcionei ainda mais com a série. É muito difícil explicar para alguém que não cresceu lendo Percy Jackson a importância que esses livros têm, e quão marcante eles foram na formação de tantas crianças e pré-adolescentes. Ler não fazia parte da minha rotina e eu achava a leitura um passatempo bem chato antes de conhecer e mergulhar nesse universo repleto de Olimpianos. Se você leu esses livros quando ainda era criança conhece muito bem esse sentimento sobre o qual estou falando; aquela sensação poderosa de descobrir e se encantar com um universo totalmente diferente e fantástico pela primeira vez, grandiosamente rico e repleto de aventuras e personagens encantadores. Percy, Annabeth e Grover não era somente um trio de amigos, por muito tempo eles foram meus melhores amigos e estiveram lado a lado comigo durante meu crescimento e amadurecimento. Acho que já deu para perceber que Percy Jackson tem um lugar especial no meu coração, e por isso, muitas vezes enquanto eu lia ou relia cada livro ficava imaginando quão maravilhoso seria ver tudo aquilo em uma nova mídia, na forma de filme ou série; ver ganhar vida e ser “real” tudo aquilo que por muito tempo só existiu na minha imaginação seria um sonho. O dito sonho se realizou – ou não – pela primeira vez em 2010 com a estreia do longa “O Ladrão de Raios” nos cinemas. Lembro claramente de ter gostado de algumas coisinhas no filme e odiado muito mais, de ter ficado com aquele gosto amargo e pensado que Percy Jackson merecia mais, aquilo não fazia jus ao sentimento que os livros transmitiam; infelizmente eu não sabia o que viria pela frente. Foi em 2013 quando tentaram mais uma adaptação nas telonas, com “O Mar de Monstros”, que eu parei de esperar algo bom vindo de uma adaptação de PJO. Tenho claro na minha memória a dor física que eu senti no cinema vendo esse filme tenebroso, era deprimente e revoltante não conseguirem fazer uma boa adaptação de Percy Jackson. Resolvi acreditar mais uma vez e colocar fé na Disney porquê dessa vez a adaptação seria fantástica, afinal o autor estaria totalmente envolvido. Logo no primeiro episódio quando ouvi a frase "olha, eu não queria ser um meio-sangue" arrepiei até a alma, era isso que eu estava esperando por muito tempo. Finalmente iríamos mergulhar nesse universo e esquecer tudo ao redor, viver aventuras, vibrar, ter medo e sentir tudo isso junto com o nosso trio de protagonistas. Contudo, com o passar dos episódios essa energia e essa faísca foram sumindo, dando lugar a trechos desconexos recortados do livro, que na série se tornaram apenas fragmentos vazios da história, sem emoção, sem sabor, sem coração e sem empolgação graças, principalmente, às escolhas narrativas e o modo como tudo foi colocado na tela. Foto: Divulgação/ Disney+ Há quem diga que infantilizaram demais a série e isso a tornou ruim. O problema não foi esse, longe disso; ao meu ver esse é um argumento que não faz muito sentido, já que que os livros são feitos para o público infanto-juvenil e a série do Disney+ tentou manter essa mesma pegada para atingir esse público alvo. O modo como escolheram contar a história, esse sim foi um dos grandes culpados, pois foi o responsável por deixar tudo muito apressado, cheio de lutas anticlimáticas, e com episódios curtos que não davam tempo de desenvolver a história, que até tentavam seguir o livro à risca em vários momentos, com uma adaptação bem literal e fiel, mas que mais conseguiram atrapalhar do que funcionar nessa nova mídia – um problema já típico de escritores que querem ser roteiristas de suas próprias obras. Inúmeras decisões anticlimáticas que eram tomadas ao decorrer dos episódios me irritavam profundamente, entre elas, o maldito corte seco para uma tela preta no meio de alguma cena. Quanto mais eu assistia mais ficava evidente a falta que faz uma boa direção, pois aqui quase tudo era feito no automático, sem preocupação, sem o cuidado necessário cena a cena e com uma execução extremamente bagunçada. Desde cortes ruins, posicionamentos de câmera vergonhosos até a falta de ritmo no andamento da história; sempre parecia que se tratava do mesmo tom, inexpressivo e medíocre, independente se fosse uma cena de ação, de comédia ou de tensão, tudo transmitia a mesma coisa e acabava tirando a dinamicidade da aventura. Acredito que mesmo com todos os problemas de ritmo e direção se a série contasse com um trio de protagonistas excelente, que a carregasse nas costas, ela provavelmente receberia mais crédito e se tornaria mais cativante e menos esquecível, infelizmente não foi o que aconteceu. A dinâmica entre os três, Percy (Walker Scobbell), Annabeth (Leah Jeffries) e Grover (Aryan Simhadri) é boa e não me irritou, porém, notei os atores muitas vezes apáticos, sem vontade e sem transmitir a acidez que cada personagem dos livros exala, principalmente o Percy. Nesse quesito arrisco dizer que os filmes horríveis de 2010 e 2013, mesmo com todos os problemas, conseguiram deixar como herança três protagonistas que foram memoráveis no papel. Por fim, é muito triste ver o que eles conseguiram nos mostrar tendo um material base tão rico e tão bom, mais uma vez a adaptação de Percy Jackson deixou a desejar e não alcançou a grandiosidade da qual era capaz. Não me alegro em dizer que a cada episódio que passava eu ficava mais desanimada para assistir, e só pensava em como a direção poderia ter sido melhor usada para construir tensão nos momentos certos e desenvolver adequadamente a história, talvez com episódios mais longos. Quanto mais eu penso na série, mais sinto que quem não leu os livros não conseguirá se conectar ou mesmo entender bem os personagens e suas motivações. A primeira temporada da tão aguardada adaptação de Percy Jackson e os Olimpianos infelizmente é esquecível, tediosa e não consegue trazer à tona a essência dos livros: divertir. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Fargo (5ª temporada)

    Nova temporada mostra que Noah Hawley ainda tem muito o que contar e sabe como fazê-lo Foto: Divulgação De início, conhecemos uma mulher que parece esconder um segredo, um marido meio abobalhado, a filha do casal e a riquíssima sogra da moça que parece não ser muito sua fã. A moça se chama Dot (Juno Temple) e dois homens estão tentando sequestrá-la. Ela luta como pode e consegue escapar, mas não quer envolver a polícia e prefere fingir que nada está acontecendo, até que as tentativas se tornam recorrentes. Se a princípio, as suspeitas poderiam cair sobre Lorraine Lyon (Jennifer Jason Leigh), sua sogra, logo se revela que o autor é Roy Tillman (Jon Hamm), um xerife de uma pequena cidade. O porquê não é imprevisível, mas a série prefere ir construindo sua trama aos poucos enquanto desenvolve os personagens e consegue fazer isso de uma maneira brilhante. Em dez episódios, semana após semana, Noah Hawley e seu time de roteiristas foram nos cativando com Dot e sua força de viver, proteger a vida e a família que ela construiu longe do abuso de Roy, que agora volta para assombrá-la. A escolha do elenco é nada menos do que perfeita. Juno Temple tem o tamanho e a doçura ideal para que seus captores a vejam como uma presa fácil, subestimando sua inteligência e agilidade, mas para nós telespectadores, ela vai se mostrando além desde o primeiro momento, com um equilíbrio irretocável entre a ferocidade e a sutileza, sem falar no sotaque maravilhoso que ela incorpora e não poderia estar mais distante de sua personagem britânica de Ted Lasso. Jon Hamm está excelente nesta sátira do cidadão de bem, homem de família temente a Deus, mas que comete as maiores atrocidades amparado pela visão misógina de que a mulher é um ser inferior e deve obedecer ao seu eterno marido, enquanto ele já está casado com outra vítima, digamos assim. A Lorraine de Jennifer Jason Leigh tem um dos meus arcos favoritos da temporada, com uma construção que começa aparentemente rasa e vai mostrando suas variadas camadas com o passar dos episódios, com um senso de humor ácido e seu admirável timing. Não posso apenas citar o trio principal e deixar de lado os ótimos coadjuvantes, que tiveram tramas conectadas com o núcleo central e uma enorme competência em representar seus personagens, como Joe Keery que é Gator, filho de Roy, ou os policiais que tentaram ajudar Dot, feitos por Richa Moorjani e Lamorne Morris. Este último, dono de um carisma inegável, mas não foi tão trabalhado durante a temporada quanto seus colegas. Também vale mencionar David Rysdahl como Wayne, o marido inocente e amoroso de Dot, Dave Foley como Danish, o advogado e braço direito de Lorraine, mas que através dele, conhecemos outras facetas dela. Por último e definitivamente não menos importante, Sam Spruell como Ole Munch, um dos capangas contratados por Roy para sequestrar Dot. Um personagem que tem muito mais a mostrar do que aparentava e foi uma das maiores surpresas da temporada. Foto: Divulgação Fargo, desde o filme, tem um tom meio exotérico que sabe passear por diversos gêneros sem perder sua identidade. A escolha de abordar um tema social tão relevante quanto a violência doméstica honestamente e sem soar apelativa, foi certeira. A decisão do roteiro e da direção do que mostrar e não mostrar é genial, porque sabemos o que está se passando, sentimos o peso daquilo, sem que seja preciso ver de fato, como por exemplo em cenas que envolvem agressões de Roy com suas mulheres. Isso não quer dizer que não haja violência, que sempre foi uma característica deste universo, ela só não é gratuita ou usada unicamente para chocar. Outro exemplo disso, é quando finalmente conhecemos a trágica história de Nadine, a moça que Dot já foi um dia, e ela é contada através de uma encenação com fantoches. Por mais pesada que seja, há ali uma quebra que a deixa mais palatável aos nossos olhos. Provas do enorme talento de Hawley, que co-escreveu o devastador ‘Linda’ – episódio em que esta sequência acontece – com April Shih, e a perspectiva feminina era essencial aqui, principalmente neste episódio. O ritmo que permeia a temporada é intenso. Não falta ação e acontecimentos marcantes, seja nas sequências engenhosas à lá Tom & Jerry, em que Dot monta diversas armadilhas pela casa enquanto tentam sequestrá-la, ou nos momentos mais sutis de pura emoção. Ali pela metade do estonteante episódio final, tudo já parecia ter sido feito e dito. O que ainda restava? Havia, de fato, uma ponta solta e foi amarrada da maneira mais bonita e surpreendente possível. A cena é orquestrada com uma tensão quase palpável, ninguém consegue prever o desfecho e tudo poderia dar errado. Quero evitar qualquer spoiler, mas é uma sequência que honra tudo o que foi construído durante a temporada e ainda a engrandece, o que parecia ser impossível porque já estava, praticamente, irretocável. A inspiradora jornada de superação de Dot, essa heroína atípica, foi contada por Noah Hawley e sua equipe da forma mais respeitosa e emocionante, e mesmo que você não tenha assistido nada de Fargo, não vai se arrepender de assistir esta perfeição que dosa perfeitamente sua alta relevância social com o entretenimento que só a televisão de qualidade nos proporciona. Nota: 5/5

  • Crítica | Sr. e Sra. Smith (1ª temporada)

    Maya Erskine e Donald Glover esbanjam talento, carisma e química em uma das melhores séries estreantes do ano. Foto: Divulgação / Prime Video Sempre que um novo reboot, revival ou remake é anunciado, a minha virada de olho é iminente, o que não aconteceu quando noticiaram uma série de Sr. & Sra. Smith. Eu adoro o filme de 2005 estrelado por Angelina Jolie e Brad Pitt, e quando soube que Donald Glover e, na época, Phoebe Waller-Bridge estariam por trás e na frente das câmeras trabalhando juntos, fiquei animado. Com a saída de Phoebe do projeto, Maya Erskine herdou o papel principal feminino, e como fã da atriz por causa da espetacular Pen15, imaginava que coisa boa viria por aí. Acertei, e nesta nova versão, John (Glover) e Jane (Erskine) ainda são dois desconhecidos, que abriram mão de suas vidas e identidades para se tornarem parceiros, na espionagem e no casamento, porque foram selecionados pela organização secreta para a qual trabalham e sabem pouquíssimo. A cena inicial da série já nos mostra que existem vários Johns e Janes, e nesta sequência eles são interpretados por Alexander Skarsgard e Eiza González. É um fato interessante que já apresenta a releitura que Glover e Francesca Sloane, co-criadora, pretendem fazer nos oito episódios que compõem esta temporada de estreia. No primeiro episódio, ainda que eu tenha gostado bastante, senti que faltou um certo dinamismo e por isso a duração de 59 minutos pesou um pouco contra, mas já no episódio seguinte, tudo estava no tom certo e minhas expectativas já estavam sendo atendidas. O formato episódico, onde cada um conta com uma missão, enquanto a relação dos personagens evolui e eles são desenvolvidos também individualmente, foi uma escolha acertadíssima do time criativo. Minha teoria é que ela foi concebida para ser exibida no modelo semanal e funcionaria ainda mais assim, até pelas passagens de tempo que existem entre um episódio e outro e como elas não são tão sentidas por quem assiste em maratona. No entanto, graças ao ótimo ritmo e a narrativa viciante, é fácil assistir um seguido do outro sem cansar. O gostinho de “quero mais” é permanente. Foto: Divulgação/ Prime Video A escalação do elenco foi outro grande acerto. Donald Glover e Maya Erskine têm talento, carisma e química de sobra para nos convencer que essas duas pessoas estranhas e solitárias, cada uma a seu modo, podem construir uma vida juntas com base em uma mentira. A cada episódio, o grau de envolvimento do casal aumenta e vamos conhecendo mais de ambos, seus pontos fortes, suas vulnerabilidades, seus medos e ambições. E claro, se apaixonando ainda mais e vendo como um se importa com o outro, mesmo com tantas diferenças nas personalidades. O timing cômico dos dois não é uma surpresa para quem já viu Community, Atlanta ou Pen15, e aqui, ainda que o drama predomine, há um belo equilíbrio para quebrar a tensão. Tudo opera tão bem nesse quesito que é fascinante assisti-los discutindo a relação de uma forma muito intensa ou falando mal de outras pessoas ferindo alguns direitos humanos, como um casal normal no cotidiano, respeitando o fato de que eles são espiões altamente treinados. Com o brilhante texto de Francesca Sloane, Stephen Glover, Donald Glover e sua equipe formidável de roteiristas, não é difícil ficar preso à tela, amparados pela direção sempre precisa e inspirada de Hiro Murai, Karena Evans, Christian Sprenger, Amy Seimetz e do próprio Glover que dirige o final da temporada. As sequências de ação são sempre empolgantes e as lutas corpo a corpo muito bem coreografadas, com agilidade e espontaneidade. A temporada inteira é um grande “Fishes” de O Urso, no que concerne às participações especiais. Todo episódio vários rostos conhecidos aparecem, indo dos já citados Skarsgard e González, até Wagner Moura, Parker Posey, John Turturro, Sharon Horgan, Billy Campbell, Michaela Coel, Ron Perlman, Sarah Paulson, Úrsula Corberó e Paul Dano. Todos com ótimos papéis e nos fazendo imaginar diversas possibilidades. Mas, com ou sem “clubismo”, preciso destacar Wagner Moura que está excelente, e o quarto episódio em que ele aparece junto com a sempre fantástica Parker Posey, é um dos melhores da temporada. Não ter expectativas para algo e ser surpreendido positivamente é muito bom, porém quando as expectativas já existem e elas são superadas, é melhor ainda. Sr. & Sra. Smith encerra sua temporada com um baita gancho e espero muito que haja logo uma confirmação de uma 2ª. No decorrer, imaginei que poderia funcionar como uma antologia e contar a história de outros Johns e Janes em eventuais anos vindouros, mas penso que a intenção é continuar com Erskine e Glover e em time que está ganhando, não se deve mexer. Já é a minha série estreante favorita de 2024 e aposto que se você der uma chance, se tornará uma das suas também. Nota: 4,5/5

  • Crítica | A Cor Púrpura

    Um espetáculo de excelência negra para uma história que merece ser recontada Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures Brasil Produzido por Oprah Winfrey, Steven Spielberg, Scott Sanders e Quincy Jones, A Cor Púrpura é uma nova e ousada versão da clássica história de amor e resiliência, adaptada do adorado romance e do premiado musical da Broadway. Separada da irmã e dos filhos, Celie (Fantasia Barrino) é uma jovem negra nos EUA no início dos anos 1900 que enfrenta muitas dificuldades em sua vida, mas encontra força na extraordinária fraternidade de três mulheres que compartilham um vínculo indissolúvel. Discutir adaptação é uma conversa para dias à fio. Em seu livro A Literatura Através do Cinema: Realismo, Magia e a Arte da Adaptação o professor e pesquisador afirma que o simples fato da mudança de um meio faz com que nenhuma adaptação seja completamente fiel à obra-base, e isso vale inclusive para traduções. E, portanto, fidelidade ao produto original não obrigatoriamente qualifica uma adaptação, isso vai dos parâmetros e das limitações de cada consumidor. Mas também não quero e nem vou transformar esse texto num artigo acadêmico com citações, referências e definições de adaptação, transmídia e derivados, mas também achei importante abrir com essa discussão para tentar construir um texto com o mínimo de comparações possível. Falo isso como alguém que leu o romance fazendo comparações entre o inglês e o português, assistiu à versão de Steven Spielberg e já viu algumas versões da peça de teatro musical. Essa é, de fato, uma adaptação que traz em sua essência as outras versões, então, acredite, é um filme que mesmo assim consegue se impor como novo, afinal, a abordagem da peça e desse filme pesam de forma diferente do que o material original. E é importante que haja um mínimo esforço para separar as adaptações, afinal o fluxo livro-filme-teatro musical-filme vem se mostrando tendência, aconteceu também em 2022 com Matilda, e 2024 com Meninas Malvadas e Wicked. Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures Brasil E na perspectiva dessa produção o enredo se torna mais leve e encorajador com a inserção de momentos imagéticos que abrandam e, porque não, enfeitam um texto que é denso por natureza. No cinema, o diretor Bob Fosse popularizou essa ferramenta de usar esse espaço exterior ao real como o lugar para os números musicais. Não há o que dizer dos quesitos técnicos que estruturam o longa. A produção é toda deslumbrante, mas nada brilha tanto quanto o elenco. Fantasia – ganhadora da terceira edição do American Idol – já viveu Celie numa das primeiras montagens da peça. E neste filme ela justifica o porquê, mesmo tendo passado duas décadas, ainda é a escolha ideal para o papel. Fantasia atua com uma verdade no olhar e canta com uma lágrima na voz de quem já teve sua cota de sofrimento na vida. Danielle Brooks, que também já interpretou sua personagem Sofia no teatro, devora os momentos em que aparece e converge a toda a atenção para ela. Da mesma forma, Taraji P. Henson também não desaparece em meio às duas já conhecidas do roteiro da peça. Os coadjuvantes masculinos Colman Domingo e Corey Hawkins também estão no tom ideal para seus personagens que, no sentido mais literal, são apenas pontos de apoio para as mulheres em cena. Existe, porém, algumas pedras no sapato da fluidez do filme que são: o excesso de cortes não só nos números musicais como também em cenas mais estáticas de diálogos simples; a mistura de tonalidades e propostas nos mais diversos momentos; e a cadência da filmagem que parece começar bem energética e compassada, e nos instantes finais precisa apressar para ter fôlego para os importantes instantes finais. E dá pra entender e quase sentir a urgência e o entusiasmo do diretor ganês Blitz Bazawule em filmar essa história. Esse é apenas o segundo longa-metragem do talentoso – que tem no currículo a codireção do musical Black is King da cantora Beyoncé – mas ele já apresenta que sabe conduzir visualmente uma narrativa antes de qualquer outra coisa (assistiam ao poético O Enterro de Kojo). Mas sinceramente a mensagem é tão poderosa que perpassa e suaviza qualquer excesso e falha do meio. Foto: Divulgação/ Warner Bros. Pictures Brasil Hollywood sabe montar um espetáculo como ninguém, doa a quem doer. E ver negros à frente das câmeras (e também por trás delas) conduzindo um espetáculo desse porte, brilhando e contando uma história poderosa, e que impressiona através do canto, da dança, de matizes, de sombras, de texturas e de várias camadas transforma A Cor Púrpura em um filme obrigatório. É daqueles onde sentimento perpassa a técnica. É coisa de pele. É coisa da cor. Nota: 4/5

  • Crítica | Upgrade: As Cores do Amor

    Longa entrega o feijão com arroz das comédias românticas, e é tudo que precisamos Foto: Divulgação Tenho acompanhado com um sorriso nos lábios o renascimento das comédias românticas no cinema, após um período de ostracismo na década de 2010. Os streamings, inclusive, têm sido um dos principais meios de sustentabilidade do gênero, conforme apontado aqui no Oxente, Pipoca?, e por isso não é nenhuma surpresa ver um filme como Upgrade – As Cores do Amor ver a luz do dia apenas através do lançamento no Prime Vídeo. Trata-se de uma obra que faz o básico do básico no que se refere a uma comédia romântica, mas acerta as notas necessárias para nos cativar. O longa segue Ana Santos (Camila Mendes), uma trainee de uma renomada galeria de arte que sonha em ter sua própria galeria e sustento, apesar das dificuldades atuais. Quando ela consegue impressionar sua ameaçadora chefe Claire (Marisa Tomei), esta a recruta para ir com ela a trabalho para Londres, porém num voo diferente. Viajando de primeira classe graças à boa ação da atendente da companhia aérea, Ana conhece William (Archie Renaux) e acaba posando como a diretora da galeria para impressioná-lo, sem imaginar que essa pequena mentira vai escalonar como uma bola de neve, afetando tanto sua vida pessoal quanto profissional. Na superfície, é perceptível como Upgrade – As Cores do Amor toma emprestado diversos elementos de outros filmes consagrados, dentro ou fora do gênero das comédias românticas. A dinâmica de Ana e Claire nos remete imediatamente a O Diabo Veste Prada, enquanto a construção do casal formado pela mocinha estadunidense e o mocinho inglês me fez logo lembrar das obras estreladas por Hugh Grant, como Quatro Casamentos e um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill e Letra e Música. Até mesmo o fato da protagonista assumir uma mentira que interfere na vida do seu par romântica tem ecos em Enquanto Você Dormia, de Sandra Bullock. Foto: Divulgação Mas sinceramente, do que importa? A comédia romântica não é exatamente conhecida por sua reinvenção, logo o que importa é como cada filme se apropria dos elementos básicos do gênero para trazer sua própria identidade. Em um mundo de produções em larga escala cada vez mais saturadas, é refrescante uma obra que se ampara tão bem no star quality de seu elenco, e nesse sentido Camila Mendes mostra que tem um caminho promissor no gênero, trazendo uma personagem carismática e por quem é fácil torcer, mesmo em suas burradas e trapalhadas. A química que ela e Renaux exalam é fácil e gostosa de comprar, mas surpreendentemente, são suas interações com Tomei (um tanto afetada, mas nada que comprometa) e Lena Olin (que vive a excêntrica mãe de William) que acabam se sobressaindo. Upgrade – As Cores do Amor não reinventa a roda das comédias românticas, mas isso pouco importa quando pega os lugares-comuns do gênero e os executa da maneira correta. É uma obra básica e com muitos elementos vistos em outros filmes melhores e mais memoráveis, mas nos encanta pela simpatia, charme, humor e química do casal principal. Afinal de contas, para que ser disruptivo se tudo que queremos é um bom romance em tela? Nota: 3,5/5

  • I CINEDEIA, mostra dedicada exclusivamente à Diversidade, Inclusão e Acessibilidade, está com inscrições abertas

    Evento se realizará do dia 16 a 25 de fevereiro, no Ceará Até o próximo dia 05 de fevereiro estão abertas as inscrições para a I CINEDEIA - Mostra Cearense Internacional de Cinema de Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade. O evento é a primeira mostra cinematográfica do Brasil voltada exclusivamente para incentivar projetos culturais essencialmente inclusivos por natureza. Serão selecionadas produções audiovisuais cearenses, com foco prioritário em grupos de audiência e de realizadores no audiovisual que ainda representam baixa porcentagem de força profissional empregada nessa indústria, assim como os temas das produções: periféricos, quilombolas, pretos, indígenas, pessoas com deficiência (PCD), mulheres, LGBTQIAPN+, idosos e pessoas com variadas crenças religiosas. A 1ª edição da Mostra Cearense Internacional de Cinema de Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade acontece de 16 a 25 de fevereiro nas cidades cearenses de Fortaleza, Limoeiro do Norte e Icó, e terá uma programação totalmente gratuita, com a exibição de longas, curtas-metragens com libras e audiodescrição O projeto é idealizado pelo cearense Lucas Paz, premiado como melhor diretor no festival de cinema Toronto LGBTQ+ em 2023 com o curta Apaga-me/Erase me e acontece de 16 a 25 de fevereiro nas cidades cearenses de Fortaleza, Limoeiro do Norte e Icó. A mostra terá uma programação totalmente gratuita, com a exibição de longas, curtas-metragens com libras e audiodescrição, previamente selecionados e convidados, além de palestras e oficinas profissionalizantes acessibilizadas. Inscrições para o I CINEDEIA - Mostra Cearense Internacional de Cinema de Diversidade, Equidade, Inclusão e Acessibilidade – somente até 5 de fevereiro Inscrições gratuitas no link: https://forms.gle/2JdLDzikLLwHLeku6

  • Crítica | Bob Marley: One Love

    História inspiradora e músicas famosas sozinhas não fazem um bom filme Foto: Divulgação A cinebiografia que tem Kingsley Ben-Adir no papel principal mostra pedaços de um dos cantores mais distintos que já se viu e procura explicar como ele se tornou o nome de referência para o reggae e para a cultura jamaicana, influenciando até mesmo na conturbada história política do país. Confesso que vai ser ainda mais difícil de enxergar uma cinebiografia com os mesmos olhos depois do brilhante Segredos de um Escândalo. Mas ainda assim fui de cheio de boas intenções assistir ao filme que tenta estar a de uma das figuras mais emblemáticas da história da música. E me deparei com um longa também cheio de boas intenções, mas que cedo entrega que não vai muito além das expectativas. São muitos os problemas que fazem de Bob Marley: One Love uma produção fraca, tanto de texto quanto de visual. O filme abre com uma cena do cantor ainda criança que dura poucos segundos, e é seguida de um letreiro apresentando o cantor e tentando contextualizar de onde o enredo de fato irá começar, e essa é uma das primeiras provas de que a direção parece não saber o que fazer com a narrativa, nem mesmo como introduzir. O diretor Reinaldo Marcus Green é o responsável por outra recente cinebiografia pra lá de açucarada, King Richard - Criando Campeãs (2021), e aqui mais uma vez provou que prefere se manter na zona de conforto do artificial do que ousar em propostas diferentes. Foto: Divulgação Com 15 minutos de cena já temos umas 3 músicas cantadas ou citadas sem adicionarem qualquer camada ou informação ao texto. E entre músicas, flashbacks da infância e contexto político o roteiro tenta abraçar o mundo com as pernas e esquece de criar introspecção e desenvolver a intimidade do personagem, e quando resolve fazer é nos minutos finais. O ator Kingsley Ben-Adir faz caras, bocas e gestos que tentam bastante se assemelhar a Marley, mas infelizmente poucas vezes consegue, na maior parte do tempo não tem como não pensar que é um cover ou uma paródia ruim. Ele convenceu com muito mais facilidade e menos esforço no papel de Malcolm X em Uma Noite em Miami (2020). O melhor do roteiro é sem dúvidas a relação entre Bob Marley e Rita Marley, interpretada pela brilhante Lashana Lynch. Rita é amiga de infância, confidente, esposa e mãe de alguns dos filhos do cantor, backing vocal, e é também a pessoa de confiança, quase como uma voz externa de sua consciência. A dinâmica do “casal” é o que se tem mais orgânico, a constante busca dele por um sucesso que deve se limitar a mensagem e a arte e esbarra nos luxos e excessos faz com que ele sempre recorra a Rita para ser sua âncora da realidade. Infelizmente o filme desperdiça a oportunidade de abordar um dos maiores representantes da cultura rastafári com audácia e resolve não ousar em qualquer aspecto estético, tudo é muito “no lugar” e nada parece natural e sim claramente encenado ou montado para funcionar naquele momento apenas. Fica uma recomendação, assistam ao documentário Marley (2012), de Kevin Macdonald, para uma experiência audiovisual que faça mais jus ao grandioso artista. Nota: 2,5/5

  • Análise | As comédias românticas de estúdio voltaram, mas por que ficamos tanto tempo sem elas?

    As comédias românticas estão de volta e se tornam a melhor pedida para um público que anseia por escapismo em tempos tão conturbados da sociedade atual Foto: Todos Menos Você (Sony Pictures Brasil) Um gênero que foi bastante impulsionado por Hollywood na década de 90, e logo após entrou em recessão no final dos anos 2000. Mas parece estar tendo um revival por diferentes motivos. Mesmo sendo filmes relativamente baratos do ponto de vista da produção, por muitas vezes o gênero tentou atrair o público através de atores estreantes, junto a ideia de criar novas estrelas de hollywood, e desde o início as comédias românticas ficaram conhecidas por direcionar o holofote para grandes atores. Em seu auge, Harry e Sally: Feitos um para o Outro (1989) foi seguido por sucessos dos anos 1990, como Uma Linda Mulher (1990) e Sintonia de Amor (1993). E foram importantes para firmar junto ao público o poder das estrelas das comédias românticas com atrizes como Meg Ryan e Julia Roberts, e atores como Hugh Grant e Richard Gere. Foto: Harry e Sally: Feitos Um para o Outro (1989)/ Columbia Pictures Relacionamento em crise No começo dos anos 2000, rolou um grande rebuliço no gênero. A fórmula já manjada das comédias românticas deixou de causar o mesmo impacto de antes. Ao menos no Brasil, ainda houve uma certa resistência graças ao filme Se Eu Fosse Você (2006), onde levou cerca de 3 milhões de espectadores para o cinema, sendo o filme brasileiro com maior bilheteria daquele ano, e com sua sequência Se Eu Fosse Você 2 (2009) o filme se tornou uma das maiores bilheterias da retomada. Mas em Hollywood os estúdios resolveram mudar o foco. Mesmo com mais de uma década de sucesso, moldando a trajetória de vários ícones das telonas, uma enxurrada de filmes do tipo chegou, mas não conseguiu prender a atenção do público o suficiente para se manter firme nos cinemas. Foto: Amor a Toda Prova (2011)/ Warner Bros. Pictures Com toda a inovação técnica acontecendo no cinema, especialmente após o lançamento de Avatar em 2009, tornou-se desafiador manter o interesse em um gênero cinematográfico que oferecia pouco além de tramas clichês e abordagens irreais do amor. Mesmo para aqueles que tinham uma afinidade pelo gênero nos anos 90, não havia muito entusiasmo em torno de lançamentos peculiares estrelados por veteranos como Meg Ryan ou Hugh Grant. Não há dúvida de que os filmes de orçamento médio deram uma diminuída na virada da década. Existem várias explicações para este fenômeno: a qualidade da TV a cabo, que oferece uma experiência de entretenimento doméstico semelhante, mas mais conveniente; a proliferação de serviços de streaming de vídeo, que se tornou uma medida para evitar pagar caro por ingressos de cinema; Como também as inúmeras outras opções de entretenimento digital que disputam nossa atenção. No fim dos anos 2000, as comédias românticas não convenciam mais e não tinha mais o mesmo gás de antes e parecia estar preso nas próprias convenções do gênero sem muita inovação. Tava todo mundo nesse embalo de filmes de orçamento colossais com super-heróis ostentando $300 milhões ou os independentes mais humildes, na casa dos $10 milhões, que tinham a chance de levar um Oscar de Melhor Filme. Um fenômeno um tanto parecido com o que vivemos na última década. Além do fator dinheiro, outro fator que contribuiu para o desinteresse de Hollywood pelo gênero foi: o interesse pelo público masculino, tanto como espectador quanto atrás das câmeras. Hollywood decidiu apostar prioritariamente no público masculino, e filmes com homens tanto à frente como atrás das câmeras. Eles passaram a adotar uma visão mais machista de que as comédias românticas era um gênero muito restrito e abraçaram de vez o estereótipo raso e superficial do dito “filme para meninas”. Além de tudo, comédias românticas possuem mais chances de fazer sucesso quando são possui um elenco que cative o público, principalmente as atrizes, então o que acontece quando jovens atrizes preferem atuar em filmes de drama do que comédias românticas? Portanto, romcoms sofreram desvalorização nesse quesito, e jovens estrelas femininas da última década podem ter se acabaram tendo um pé atrás quando lidavam com a ideia de ter que se envolver com produções do gênero. Por um longo período, esse gênero era capaz de criar estrelas de sucesso que eram adoradas pelos fãs do gênero, mas atualmente, as atrizes mais jovens parecem optar por outros caminhos antes de estrelar uma comédia romântica. E ao pensarmos no sucesso das comédias românticas da década de 90, acabamos indo de encontro com uma questão central: Será que algumas das características das comédias românticas são problemáticas ou datadas e que na década seguinte a geração de espectadores mudou e passou a se incomodar com algumas problemáticas do gênero? Foto: O Amor é Cego (2001)/ Fox Filmes As comédias românticas americanas do passado eram predominantemente homogeneizadas em sua abordagem, tendo sempre casais brancos e heterossexuais vivendo tramas previsíveis e relacionamentos tóxicos. Apesar de sua popularidade, os romcoms, como gênero, realizaram poucas mudanças nas concepções sobre quem poderia se apaixonar, como deveria ser sua vida ou a quem deveriam amar. Além disso, ao adotar essa perspectiva limitada, quando personagens LGBTQ eram incorporados às narrativas, eram quase sempre retratados como homens gays, frequentemente estereotipados como o amigo sarcástico do protagonista, servindo apenas para oferecer pequenas doses de romance e conselhos de moda. Evidentemente, essa abordagem revelou-se insustentável ao longo do tempo. Essa nova onda de filmes românticos pode ter conquistado um certo público, mas não transmitiam a mesma perspectiva sobre o amor que as comédias românticas ofereciam. O gênero sempre foi uma boa pedida em tempos difíceis como um modo de escapismo para algo reconfortante e de fácil digestão. Contudo, conforme a segunda metade da década de 2010 se desenrolava, algo peculiar começou a acontecer: a comédia romântica parecia estar voltando à boa forma. O ‘makeover’ É um tanto difícil definir qual foi o ponto de virada que trouxe essa ideia do retorno das comédias românticas, mas podemos chegar em alguns nomes, especificamente um streaming e um filme desse mesmo streaming: Netflix e A Barraca do Beijo (2018). Pouco tempo depois a Netflix lança Para Todos os Garotos que Já Amei (2018) que também fez bastante sucesso no streaming. Segundo a Variety, a Netflix encontrou a mina de ouro naquele ano, pois mais de 80 milhões de assinantes assistiram comédias românticas originais no streaming, e consequentemente isso motivou a Netflix a produzir ainda mais romcoms originais. Esse modelo acabou sendo seguido por outros streamings como Amazon Prime e Hulu, que também tiveram suas produções de sucesso, umas com mais e outras com menos, mas que não deixou de ser um grande vitrine pro gênero que até então não estava mais tendo tanta a atenção dos grandes estúdios de cinema. Além disso, ter a possibilidade de assistir comédias românticas direto do streaming é um boa pedida para os fãs do gênero, pois possibilita que o espectador assista ao mesmo filme diversas vezes, o que é uma atividade bem comum para os fãs dos romcoms. Por muitas vezes os lançamentos de comédias românticas no cinema eram feitos de maneira bastante protocolar e se resumiam à janela de dia dos namorados ou até mesmo de natal. Mas devido à natureza cíclica do cinema e a experimentação dos streamings, os grandes estúdios resolveram voltar a sua atenção para o gênero, quando a Warner Bros. lançou ainda em 2018 o sucesso Podres de Ricos (2018), que apresenta uma perspectiva fascinante da cultura asiática, contando com um elenco abrangente composto por artistas orientais e seus descendentes, e destacando na tela a representação de inúmeros imigrantes e suas gerações no Ocidente. Um fato curioso é que o autor do livro que foi adaptado pro cinema recusou uma oferta bastante lucrativa da Netflix, pois ele junto dos produtores optaram por produzir o filme junto à Warner Bros. para que o filme fosse lançado nas salas de cinema. E hoje sabemos o quanto o filme foi um sucesso e acabou provando que as comédias românticas ainda fazem sucesso na grande tela. Foto: Podres de Ricos (2018)/ Warner Bros. Pictures A nova fase das comédias românticas está aprendendo com as falhas do passado desse gênero: a diversidade está assumindo um papel cada vez mais significativo nessas produções. Embora ainda não tenham atingido a representação ideal na tela em relação aos personagens e aos desafios que enfrentam, as comédias românticas mais recentes estão, pelo menos, fazendo um esforço para promover mudanças. Essa tendência provavelmente persistirá à medida que o tempo avança, e os últimos dois anos sozinhos já contribuíram mais para essa transformação do que toda a década de 90. O reencontro A atual tendência de comédias românticas tem a chance de ampliar os enredos aos quais estamos habituados nos filmes mais populares. Quando projetamos o futuro, torna-se desafiador prever a direção que o gênero tomará a seguir, dado sua natureza altamente diversificada. Um dos caminhos que a nova fase das comédias românticas terá que superar é o de retratar de forma fiel como as pessoas estão descobrindo o amor ou os diversos tipos de relacionamentos nos tempos atuais, como as pessoas estão lidando com encontros no pós-quarentena, filmes que exploram diferentes estruturas de relacionamento como por exemplo o relacionamento aberto, como também a utilização de aplicativos de namoro. O streaming de fato tem um grande importância nessa virada de chave responsável pelo retorno do gênero. Mas ainda mais importante é o fato de que Hollywood está entusiasmada em lançar novas comédias românticas de estúdio. E grandes comédias românticas de estúdio nos levaram a cenários incríveis e memoráveis, que por muitas vezes não parece ser tão marcante em filmes de streaming, talvez por parecer esteticamente mais polido que os de estúdio. E o filme de estúdio da vez que melhor ilustra essa questão é o Todos Menos Você (2023), estrelando Glen Powell e Sydney Sweeney, e já ultrapassou a marca de $100 milhões nas bilheterias mundiais, se tornando a comédia romântica de maior bilheteria desde O Bebê de Bridget Jones (2016). O filme estreia hoje (25) no Brasil. Certamente outros filmes de estúdios conseguiram converter um bom público para os cinemas nos últimos anos, como Cidade Perdida (2022), com Sandra Bullock e Channing Tatum. Ingresso para o Paraíso (2022), com George Clooney e Julia Roberts. E o divertidíssimo Que Horas Eu Te Pego? (2023), com Jennifer Lawrence. Foto: Todos Menos Você (2023) / Sony Pictures Brasil À medida que o interesse do público na Marvel diminui, surge a oportunidade ideal para as comédias românticas de estúdios reconquistarem a cena. E ao que parece diversos fatores estão envolvidos para que o público tenha se interessado por Todos Menos Você (2023), mas um fator é crucial: a internet. Na primeira metade do ano de 2023, surgiram nas redes sociais fotos dos bastidores do filme que acabou gerando rumores sobre um possível romance entre Glen Powell e Sydney Sweeney durante as filmagens e levou muitos a pensar que não teria problema algum, não fosse o fato de que se trataria de uma traição já que ambos os atores são comprometidos. O rumor ganhou força nas redes sociais e acabou viralizando fazendo com que o público queira ver o filme por causa de tal polêmica. Outro fator envolvendo a internet que impulsionou o sucesso do filme foi o modo que a Sony utilizou o TikTok para impulsionar o marketing do filme. Um TikTok deles sussurrando um para o outro teve mais visualizações do que o próprio trailer oficial do filme, sendo 18 milhões contra 10 milhões de visualizações. Utilizando a química no set entre as duas estrelas em ascensão que foi tema de jornais de fofoca. Com a intenção de criar um viral, a Sony incentivou os espectadores a publicar em seu TikTok a própria recriação da sequência de créditos. Sweeney, que conta com milhões de seguidores, também compartilhou várias das recriações. Talvez seja a comédia romântica dos últimos anos que melhor soube se comunicar com o público mais jovem e que melhor abraçou a influência da internet. Agora o que nos resta é torcer para que outros estúdios sejam influenciados por esses últimos sucessos para que mais comédias românticas cheguem de forma ainda mais expressiva ao cinema. Todo esse cenário parece ainda estar tomando forma, mas, pelo menos por enquanto, o que antes era considerado um gênero adormecido está provando que ainda possui o seu charme.

  • Crítica | Meu Amigo Robô

    Animação sensível analisa a solidão com leveza e musicalidade Foto: Divulgação O Cachorro mora em Manhattan e está cansado de viver sozinho. Um dia ele decide comprar e construir para si um robô, um amigo. A amizade deles floresce, até se tornarem inseparáveis, ao ritmo dos anos 80 de Nova Iorque. Numa noite de verão, o Cachorro, com muita tristeza, é forçado a abandonar o Robô na praia sem saber se um dia eles se verão novamente. Esse não é a primeira obra a abordar a solidão humana (nesse caso humanoide) amparada pela tecnologia. Mas o que diferencia o graphic novel de Sara Varon e também a adaptação do diretor espanhol Pablo Berger das outras, até então, é principalmente a ausência de falas e antropomorfização. E esses elementos conduzem muito bem o longa metragem dando a ele forma e ritmo. A animação não é um filme mudo, ele apenas é um filme sem falas. A trilha e os efeitos sonoros são importantíssimos para a cadência da narrativa. O cinema mudo não contava com efeitos sonoros, a trilha era adicionada posteriormente para ajudar a criar os momentos críticos do roteiro, mas não interagia diretamente com os personagens, por exemplo. Mas Meu Amigo Robô conta com uma trilha sonora bastante sagaz que marca pontos chave do filme e conta ainda com efeitos sonoros muitas vezes musicados que se misturam com a trilha, além de músicas já existentes como a dançante September do grupo Earth, Wind & Fire que opera como um ciclo no roteiro. Foto: Divulgação A antropomorfização é um recurso comum nas animações e sempre são boas saídas para atalhar a apresentação de personagens cuja forma física imprimem as primeiras impressões de suas personalidades. Bojack Horseman usou muito bem essa função na televisão e Zootopia no cinema, mais recentemente. O uso do tom fantástico ajuda na compreensão dos sentimentos e motivações dos personagens na ausência das falas. Não que um cachorro com traços humanos cuidando de um robô tenha algum pé na realidade, mas dentro do universo do filme muito do que se desenvolve acontece no plano da imaginação ou dos sonhos. Como uma fábula clássica, a maio lição de moral fica para os segundos finais. Com boas alusões e um traço que mantém a característica cartunesca do material original, o longa sustenta um caráter educativo motivacional que funciona de modo constante para o público adulto e para o público infantil por todo o filme, sem precisar de momentos de distinção. Nota: 4/5

  • Crítica | Um Pesadelo Americano

    História surpreendente é fio condutor para críticas contra a misoginia sistemática Foto: Divulgação Atenção: Essa crítica contém spoilers! Na última semana, a Netflix lançou mais uma minissérie documental de crimes reais em seu catálogo. Um Pesadelo Americano é dirigida por Bernadette Higgins e Felicity Morris, duas veteranas no gênero, e conta a história de um casal acusado de forjar uma invasão à própria residência e um sequestro após o reaparecimento repentino da vítima poucos dias depois. Geralmente eu prefiro escrever críticas sem comentar os enredos principais da trama, mas, é impossível não ir no cerne da temática da minissérie durante esse texto. Portanto, caso você ainda pretenda assistir Um Pesadelo Americano e quer ser surpreendido com inúmeras reviravoltas dignas de qualquer novela global, pare esse texto, abra a Netflix e retorne aqui para entender o meu ponto depois. Mas, caso você não se incomode em saber a storyline principal de Pesadelo Americano fique a vontade para prosseguir a leitura. Dividida em três episódios intitulados “O Namorado”, “Garota Exemplar” e “Os Outros”, embarcamos na vida de Aaron Quinn e Denise Huskins, um casal de namorados que são atacados durante a noite em uma cidade suburbana da Califórnia. Quando a polícia é acionada e Denise Huskins é dada como desaparecida, as suspeitas recaem sobre Aaron. Mas, o que poderia parecer simples para a polícia (e também para os telespectadores) se torna uma trama surpreendente quando Denise reaparece, aparentemente bem, e os policiais começam a desconfiar que tudo foi o plano bem elaborado nos moldes do filme Garota Exemplar de David Fincher. Foto: Divulgação Assistir Um Pesadelo Americano, devo confessar, é um pesadelo (perdão pelo péssimo trocadilho). Não pela minissérie ser ruim, muito longe disso, mas, por perceber como as mulheres estão sujeitas sempre a um julgamento repleto de desconfiança e misoginia, principalmente vindo das forças policiais, aqueles que seriam os responsáveis por proteger a sociedade. A história do que aconteceu com Denise é tão surreal que parece enredo fictício e é desesperador acompanhar o seu sofrimento e a sua luta para simplesmente ser levada a sério. Os policiais, que provavelmente devem ter muito tempo livre para assistir os lançamentos do ano, se inspiraram no que viram em “Garota Exemplar”, deturparam a história criada Gillian Flynn e usaram o seu enredo para acusar uma mulher inocente. Além disso, a mídia americana também comprou a história e apresentava Denise como uma “Amy da vida real”. O circo midiático repleto de erros só não foi pior por conta de uma outra mulher, uma policial, que percebeu similaridades com casos na sua cidade no modus operandi de como Denise foi levada de casa. Um Pesadelo Americano é uma minissérie surpreendente, muito bem feita, montada e dirigida que mostra como é ser mulher e ser uma vítima dentro de uma sociedade que prefere acreditar em um enredo de filme do que em um sequestro planejado e orquestrado contra uma mulher. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Pobres Criaturas

    Excêntrico, feio, sujo e irresistivelmente encantador Foto: Divulgação O diretor grego Yorgos Lanthimos já havia marcado o cenário do audiovisual com sua estranheza há algum tempo. Filmes como O Lagosta e O Sacrifício do Cervo Sagrado estão sempre sendo lembrados e aclamados por quem já os viu. Em 2018, seu trabalho finalmente ganhou aclamação no Oscar, recebendo 10 indicações por A Favorita, onde trabalhou pela primeira vez com Emma Stone, e em 2023, reprisando a parceria entre os dois, fomos agraciados com a existência do tão aguardado Pobres Criaturas, que chega aos cinemas brasileiros no início do próximo mês. Com 11 indicações à 96ª edição do maior prêmio do cinema, a adaptação da obra de Alasdair Gray se torna um espetáculo nas mãos de Lanthimos, e seu trabalho em tela é nada menos que um primor. O enredo nos mostra Bella Baxter, que é trazida à vida pelas mãos de Godwyn Baxter, que toma a responsabilidade de criá-la e cuidá-la, enquanto ela se desenvolve como uma pessoa. Quando alcança certo ponto de pensamentos, ela decide se aventurar pelo mundo para conhecê-lo, e assim passa por diversas situações que culminam para seu amadurecimento e crescimento pessoal, fazendo da garota ingênua uma mulher livre e decidida. Há tantos pontos ótimos nessa produção e tanta vida na história, que inicialmente me senti perdido sobre por onde começar a escrever, e nenhum texto que eu faça vai fazer jus ao quão magnífico o filme é, nem conseguirei expor em palavras tudo que ele me fez sentir. Então vou trazer tudo pro terreno mais seguro e humano e iniciar falando pelo que há de maior: Emma Stone. Quando as premiações iniciaram e Stone recebeu prêmios pelo papel, levantou-se a questão de que é complicado julgar se foi merecido ou não quando ainda não tivemos chance de vê-la, e após testemunhar toda sua grandiosidade como Bella Baxter posso afirmar sem nenhum medo: ela mereceu! Sua protagonista é como um oceano onde todos os outros personagens deságuam. Foto: Divulgação Bella Baxter é, dentre todas as características possíveis, encantadora, e logo nos seus primeiros segundos de aparição você já enxerga a razão da aclamação de Emma, e percebe que não consegue, nem se houver muito esforço, ver outra pessoa para estar ali. É como se a Bella tivesse sido moldada para que a atriz lhe coubesse, ao mesmo tempo, o desempenho de Stone também molda a personagem, fazendo dela uma das protagonistas mais marcantes do cinema com muita facilidade. Toda a evolução de Baxter vista em tela só é possível graças à entrega visceral de sua intérprete, a forma como ela explora aquele mundo e aquela vida é nada menos que fenomenal. Ainda no campo de atuações, mesmo com a recente indicação de Mark Ruffalo ao Oscar, e de ele estar bem no papel, o coadjuvante que mais brilha durante o longa é Willem Dafoe. Seu Godwyn Baxter é uma criatura interessantíssima, em todos os sentidos possíveis, o que é mostrado e o que fica nas entrelinhas. Dafoe traz toda a sua experiência excêntrica para um personagem à sua altura, onde se vai descobrindo detalhes no decorrer do tempo e cativando mesmo sem qualquer beleza física ou metafórica. Só que aqui ele é um deus, então por que se preocupar com coisas tão mundanas assim? Ramy Youssef, Jerrod Carmichael, Kathryn Hunter e Suzy Bemba são os outros nomes que dão vida a personagens que circulam em volta de Bella Baxter. Mesmo que em um papel pequeno, fiquei feliz em ver Margaret Qualley nas telas do cinema, e torço para que seja cada vez mais possível ela mostrar seu talento. Temos um roteiro assinado por Tony McNamara em conjunto com a direção de Yorgos Lanthimos fazem desse longa uma obra de arte bem orquestrada. O texto de McNamara é bem amarrado e ganha ainda mais força pelo excelente trabalho de Lanthimos, que põe em tela toda a estranheza e sujeira necessárias para tornar esse filme o que ele é. O diretor tem uma postura clara em relação ao que quer que seja visto, e ele consegue dar vida à feiúra de uma história que também é tão bela. Temos ainda uma ótima fotografia e uma edição que une tudo de maneira impecável. A direção de arte é fantástica e viaja com a história e a protagonista, levando o espectador a um delírio visual maravilhoso. A trilha sonora crescente e viva que acompanha o crescimento e a evolução da protagonista, dando um tom por vezes sinistro é quase um espetáculo à parte. Tiro um momento para citar o uso de interlúdios tão bonitos que parecem quadros vivos retirados das décadas passadas. Por fim, valeu muito a espera para assisti-lo. É uma obra que marca quem a assiste. É arte em todos os níveis possíveis, uma tela pintada ao vivo diante dos nossos olhos, e é gratificante poder ter a oportunidade de ver uma produção tão sublime. Nota: 5/5

  • Crítica | Vidas Passadas

    Um romance pós-moderno que examina o quão assombroso pode ser um “e se...?” Foto: Divulgação Uma das minhas teorias favoritas do campo científico é o Efeito Borboleta, aquela segundo a qual o bater de asas de uma borboleta poderia provocar um tufão do outro lado do mundo. Claro que estou sendo bem reducionista, mas o que gosto nesta teoria é em como ela me faz pensar que qualquer alteração mínima em ações que realizamos pode gerar um sem-número de realidades diferentes das que vivemos. E se eu tivesse demorado mais alguns segundos para atravessar a rua? E se eu não tivesse dito aquelas palavras a alguém que gosto? E se eu não tivesse me mudado da minha cidade natal e vivido uma vida ao lado do meu amor de infância ao invés da pessoa com quem vivo agora em um outro país? É esse último “e se..?” que parece assombrar Nora (Greta Lee), a protagonista de Vidas Passadas. Aos 12 anos, ela deixa Seul e o garoto de quem gosta, Hae Sung (Seung Min Yin) para se mudar com a família para Toronto e depois Nova York. Aos 24, ela reencontra Hae Sung (agora vivido por Teo Yoo) pelas redes sociais e os dois reestabelecem o contato e (talvez) o relacionamento, mas as distâncias físicas e as circunstâncias particulares de suas vidas impedem que possam avançar. Aos 36, ele viaja a Nova York para que possam se ver presencialmente pela primeira vez em décadas, ainda que agora ela seja casada com Arthur (John Magaro). Em sua estreia, a diretora coreana-estadunidense Celine Song usa muito de sua própria vida para construir um longa repleto de detalhes e longos silêncios que dizem muito por si mesmos. Sua câmera ora aposta em planos-detalhes que nos imergem na aproximação de Nora e Hae Sung (como aquele no metrô de suas mãos quase se tocando) ora se afasta deles, como se receasse invadir um espaço tão íntimo, memórias e sentimentos tão poderosos. A delicadeza com a qual Song filma esses personagens (até mesmo quando estão fisicamente separados, como no bloco de 2011/2012) revela um estudo primoroso de suas ações e emoções, como quando progressivamente desloca um dos personagens do plano até isolá-lo por completo, representando o próprio deslocamento que ele sente frente a situação que está vivenciando. Essa delicadeza se reflete na sensível e discreta trilha sonora de Christopher Bear e Daniel Rossen, que virou uma das minhas favoritas do ano passado. Foto: Divulgação Essa posição é reforçada pela qualidade impressionante do trio principal. Lee constrói uma personagem que parece irredutível em suas ações, como se cresse que não há “e se..?” e o destino e a vida fossem algo linear – até que vemos aquela última sequência devastadora e entendemos o quanto a personagem carregou ao longo dos anos, mudando tantas vezes a rota de sua vida. Mas são os protagonistas masculinos quem talvez brilhem mais: Teo Yoo entrega uma das atuações mais marcantes de 2023 justamente na postura contida que muitas vezes assume, ou na expressividade (e na dor) de seus olhos. E John Magaro se revela uma grata surpresa, entregado um personagem com o qual facilmente nos identificamos, mesmo que compremos a história e os sentimentos de Nora e Hae Sung. Há uma raiva e melancolia contidas em seus gestos que, no entanto, jamais o colocam na posição de antagonista; afinal de contas, como agir diferente diante da situação que vive junto à mulher que ama e o outro homem que a ama? Diante das sutilezas que o filme oferece em sua abordagem, é até um pecado que ele se deixe levar em alguns momentos por sua autoconsciência pós-moderna quanto à história que está contando. São instantes em que essa sutileza é deixada de lado para que ele nos ofereça uma espécie de piscadela espertinha, como a cena in medias res que o abre ou o início da longa conversa entre Arthur e Nora onde este reconhece que poderia ser lido como o marido branco vilão da história. A própria decisão de por o casal como um par de escritores e dramaturgos vai nessa linha autoconsciente que acaba minando um pouco do impacto que o filme entrega em seus momentos menores e mais delicados. Apesar dessas (poucas) decisões equivocadas, Vidas Passadas é uma estreia impressionantemente segura que põe Celine Song no radar como uma nova voz autoral a ser acompanhada. É uma história com a qual é impossível não se conectar, acredite você na inevitabilidade do destino ou no In Yun que nos permite contemplar os rumos diferentes que nossas vidas podem tomar a partir das mínimas decisões. Nota: 4/5

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