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927 resultados encontrados para "mostra 2026"

  • Crítica | O Brutalista

    Filme é consistente em sua densidade dramática, mesmo deixando funcionalismo de lado Divulgação Em fuga da Europa do pós-guerra, o arquiteto visionário László Toth (Adrien Brody) chega à América para reconstruir sua vida, seu trabalho e o casamento com sua esposa Erzsébet (Felicity Jones), depois da separação forçada durante a guerra por mudanças de fronteiras e regimes. Sozinho em um novo país estranho, László se estabelece na Pensilvânia, onde o rico e proeminente industrial Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce) reconhece seu talento para a construção. Mas poder e legado têm um custo muito alto. O Brutalista não é um filme sutil, mesmo saudando o brutalismo e suas características enquanto arquitetura, design e forma de expressão, ele mira na grandiosidade e acaba, por vezes, sendo apenas grande. O brutalismo é uma corrente da arquitetura que surgiu na Europa por volta dos anos 50 e que tinha/tem como algumas das características principais o funcionalismo, elementos modulares, paletas de cores monocromáticas, exposição dos materiais usados e formas geométricas contundentes. Não vou querer inventar ou pensar em analogias ligando a corrente ao filme, mas, de toda forma, mesmo mantendo uma unidade visual e temática, deixa completamente o funcionalismo de escanteio. É claro quando um filme é um trabalho feito com paixão por um cineasta e quando é meramente comercial. Este é um longa que o diretor Brady Corbet aparentemente não queria que terminasse. Digo isto pelo excesso de detalhes, de closes, de objetos e até mesmo de sons que acabam inflando a experiência para além do que merecia, mas que transparece o apego zeloso que Corbet teve por aquilo que estava montando. E é esse paradoxo que faz o filme funcionar e que também faz ele se perder. É isto que aproxima e distancia cineasta, personagem e temática. Como falei, o que parece grandioso só é extenso demais, ainda assim o resultado impresso é de um filme caro, imponente e refinado, mesmo não construindo um objeto preciso e definido. Filmado em VistaVision com rigor técnico explícito, o visual sempre apresenta texturas e cores consonantes através de uma fotografia de baixa saturação e excelentes contrastes. A direção de arte é um deslumbre. Através de mobiliários, formas e materiais, o filme situa o espectador nos parâmetros da corrente brutalista numa espécie de aula de campo imersiva onde o modernismo (nem sempre o brutalismo) domina e dita as regras. A trilha sonora passivo-agressiva de Daniel Blumberg é outro destaque na ambientação densa e cínica do enredo. E é nessa densidade narrativa que o roteiro é embasado. É um filme de drama que não tenta fugir do drama e gosta de explorá-lo sem pressa e sem pudor. Divulgação Quase todos os personagens carregam um fardo negativo que interfere nos problemas mal resolvidos uns dos outros. Tem drama familiar, drama pessoal, drama político, drama histórico e até drama geográfico. O texto não economiza nesse peso e, mas senta a mão mesmo é na segunda das duas partes em que o filme se divide (sem contar com um epílogo que destoa do tom das duas partes e que parece ter sido forçado para caber como uma justificativa do que o roteiro queria ter dito e não conseguiu). Apesar do drama constante e da mesma tonalidade apreensiva, fria e em alguns momentos misteriosa, essa segunda parte parece carregar mais do que pode comportar, e desde a elaboração de diálogos até o encerramento propriamente dito, a distribuição dos pontos de inflexão parecem não harmonizar. Adrien Brody faz o papel de coitado sonso como ninguém. E todo o elenco de coadjuvantes que o cercam conseguem entregar personagens bem desenvolvidos e marcantes. No entanto, Felicity Jones esbarra no sotaque e nos maneirismos de uma personagem que é a cara da segunda parte. Arquitetado como uma cinebiografia daquelas de grandes gênios incompreendidos, O Brutalista tem muito a transmitir e evita atalhos, evita uma objetividade que tornaria o filme mais desenvolto e ágil, mas não menos diligente e eficiente. É um filme que se vende como importante e que aparenta importância, mesmo que o espectador não sinta qualquer reação àquela história. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Nickel Boys

    Filme insere espectador em uma sensível narrativa de lembranças com formato genial Foto: Divulgação O drama conta a história de Elwood e Turner, dois adolescentes negros que se conhecem no reformatório Nickel durante a década de 60 na Flórida, EUA. Adaptado de um romance homônimo, o longa-metragem narra a poderosa amizade entre os jovens que passam juntos pelas angustiantes provações do terrível lugar onde criaram um vínculo poderoso. Que trabalho primoroso RaMell Ross – diretor e roteirista – desenvolve nesta produção. Junto com uma equipe que entrega um esforço caprichado em dar vida a uma história de forma inventiva, ele cria um milagre visual e narrativo que enfatiza a riqueza do simples, e aborda uma temática social negra dolorosa com requinte e respeito. O filme é baseado no romance de mesmo nome do autor Colson Whitehead, um dos mais premiados e venerados da literatura estadunidense contemporânea, que por sua vez é inspirado na polêmica Florida School for Boys, fechada em 2011 e conhecida por seu história de abusos e violência, dos mais diversos tipos, para com os alunos da instituição. É um filme consolidado em cima da riqueza dos detalhes e no lirismo do ordinário. Por mais que o resultado imprima uma “simplicidade” em relação a tantos malabarismos visuais pelos quais o cinema estadunidense se tornou conhecido, seu alicerce é riquíssimo em recursos habilidosos e lúdicos que compõem uma estética funcional, antes de qualquer outra coisa, para a arquitetura do roteiro. Foto: Divulgação Em tempos em que, para se considerado bom por um grupo seleto encabeçado por jovens internautas, um roteiro adaptado precisa ser um “copia e cola” ipsis litteris ao texto base para ser considerado bom, RaMell Ross e Joslyn Barnes trazem frescor ao inserir a perspectiva dos protagonistas no plano da câmera. O romance é contado em terceira pessoa, por um narrador observador, e o que o bem articulado roteiro faz é transformar esse argumento em um texto em primeira pessoa. Começando com a perspectiva de Elwood que conduz o enredo até o reformatório Nickel, e ao conhecer Turner, também passa a ter seu ponto de vista filmado, de modo que naturalmente as histórias dos rapazes vão se fundir e montar o mosaico de perspectivas com um engenharia de POV e campo e contracampo simplesmente brilhante. O rigoroso trabalho da direção de fotografia, e do desenho de som são os principais aliados na estrutura técnica para o bom desempenho do filme. O que é mostrado (e como é mostrado) em cena é sempre relevante, da mesma forma que os momentos em que uma tela escura de possíveis olhos fechados faz o desenho de som ser o guia por entre um suspense cruel e cru. Além disso, a montagem que sabe quando alternar os pontos de vista com inserções de fotografias, de vídeos e de textos que ligam os diferentes tempos do filme e fortalecem ainda mais a robustez do texto. Existe tanto sentimento e tanta verdade que cada segundo parece precioso, parece caro, parece importar mais do que anterior e menos do que o seguinte. Os atores Ethan Herisse e Brandon Wilson estão deslumbrantes em suas entregas e em suas conduções, e a atuação poderosa e convergente de Aunjanue Ellis é um espetáculo à parte. Hattie, a avó de Elwood, serve de contrapeso para as memórias afetivas do personagem em meio às desventuras e a grandiosa atriz sabe fazer bastante sem precisar de barulho, de excessos e de apelos exagerados. É uma produção complexa em sua “simplicidade” já citada. Complexo na forma e na mensagem. É um trabalho primoroso enquanto resultado cinematográfico e enquanto registro, tão realista quanto necessário numa história “quase real”, de beleza, de resistência, de hipocrisia, de insensibilidade e de dor. Nota: 5/5

  • Crítica | Entre Mulheres

    Com cada uma trazendo seus pontos de vista, o longa mostra com sutileza como o luto e o trauma se formam

  • Crítica | Os Rejeitados

    Mesmo que o filme nos mostre outros personagens (o primeiro ato parece até uma espécie de Clube dos Cinco

  • Feito Pipa é inscrito no Globo de Ouro 2027 e promove Teca Pereira e Yuri Gomes em Comédia ou Musical

    candidaturas em sete categorias Divulgação Feito Pipa entrou oficialmente na disputa do Globo de Ouro 2027 Em 2025, Ainda Estou Aqui recebeu duas indicações, incluindo Melhor Filme em Língua Não Inglesa, e Fernanda Cinema para representar o Brasil na disputa por uma indicação a Melhor Filme Internacional no Oscar 2027 A cerimônia acontece em 10 de janeiro de 2027.

  • Ainda Estou Aqui, Malu e Oeste Outra Vez lideram indicações no Prêmio Grande Otelo 2025, maior premiação do cinema brasileiro

    divulgou seus indicados, celebrando as produções cinematográficas lançadas no Brasil entre 1º de maio de 2024 e 30 de abril de 2025, período de elegibilidade desta edição da premiação organizada pela Academia Brasileira indicados (grande parte tem crítica, só clicar no nome) nas principais categorias do Prêmio Grande Otelo 2025 Uma História da Mostra de São Paulo Melhor Série de Animação Astronauta Cosmo, o Cosmonauta Gildo Irmão Animação A Menina e o Pote Eu e o Boi, o Boi e Eu Eu Sou um Pastor Alemão Hoje Eu Só Volto Amanhã Menino Monstro

  • Crítica | Dahomey

    representante de Senegal às categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Documentário no Oscar 2025 Mas, embora aprecie esse bloco e como ele mostra que não há respostas fáceis sobre o assunto, não deixo

  • Cobertura Festival de Cannes 2023 - Dia 1

    Divulgação DESTAQUES DE CANNES 2023: • O diretor Hirokazu Kore-eda está na competição oficial pelo segundo

  • Crítica | Zona de Interesse

    O cotidiano dos vilões, visto de longe Foto: Divulgação Um filme tem um tempo limitado, usualmente não mais que 150 minutos, para nos contar (ou mostrar) toda uma história, do começo ao fim, passando pelo clímax e apresentando seus diversos personagens e cenários. É muita coisa para pouco tempo. Para otimizar cada segundo, o cinema se apropriou de um recurso conhecido da literatura: a alusão, isto é, a referência a algo externo ao filme. Ora, não se pode perder preciosos frames explicando algo que assume-se que o espectador já saiba. Imagina se todo filme natalino precisasse explicar o motivo cristão para a celebração do aniversário de Jesus. Não dá, né? Põe logo uma árvore iluminada no meio da sala e já entendemos do que se trata. É isso que pensou Jonathan Glazer, diretor e roteirista de Zona de Interesse. Só que ao invés de natal, é o holocausto, e no lugar da árvore, uniformes com suásticas e gritos de desespero. Sua intenção não é mostrar o sofrimento imensurável dos judeus, tampouco as atitudes perversas e covardes de Hitler e seus apoiadores. Ele sabe que já ouvimos e vimos essa história antes. Seu interesse é por algo que sequer passou pela nossa cabeça quando pensamos nesse período: o ordinário, o dia a dia de uma aparentemente comum família alemã. A maior parte do filme se passa na casa dos Höss. Em momento nenhum somos informados que atrás daqueles muros estão os campos de concentração de Auschwitz, mas sua presença é sentida – não importa o quando Hedwig (Sandra Hüller), esposa do comandante Rudolf (Christian Friedel), tente cuidar de sua casa e seu jardim para fazê-los aconchegante. Em uma passagem, ela chega a mencionar que está deixando crescer as plantas para que tapem as chaminés e suas fumaças, mas entendemos ser mais por uma questão estética que moral. Essa é a vida que o casal sempre sonhou. Rudolf tem um bom posto no exército, Hedwig conquistou o lar dos sonhos para criar seus cinco filhos. Dispõem de babás e empregadas domésticas, piscina, cavalo e até um barco novo. Nas folga, vão todos ao lago mais próximo. Uma vida bucólica, nem tão feliz nem tão triste. Perfeitamente normal. Foto: Divulgação É na quebra dessa trivialidade que está o mérito do filme. Enquanto a esposa toma chá e fofoca com as amigas, o marido conversa no cômodo seguinte sobre a forma mais eficiente de queimar centenas de milhares de seres humanos. Numa brincadeira entre irmãos, o mais velho aprisiona o mais novo na estufa de plantas e faz barulho de gás. Hedwig entra em seu quarto com um novíssimo casaco de pele… que por algum motivo tinha em seu bolso um batom usado. Não há culpa ou remorso. É o que é. Quando, ao caminho da escola, as crianças passam por fábricas de extermínio, é porque chegou-se num nível de cegueira moral difícil de compreender. Nos recusamos a aceitar que alguém pudesse banalizar o terror porque temos medo que possa acontecer com a gente. É nessa ferida que Zona de Interesse mexe, e continuará mexendo por muito tempo após os créditos rolarem. Quando optou por adaptar para as telonas uma das várias perspectivas trazidas no livro homônimo de Martin Amis, Glazer quis inovar não apenas na abordagem do tema: buscando se aproximar de uma estética do que chamam de “filme de arte”, toma decisões pouco convencionais na linguagem fílmica. A montagem é propositalmente lenta, passando exatamente a sensação de cotidiano que se pretende. As longas sequências são construídas por longas cenas de longos takes, quase sempre em planos médios ou gerais, meio como imagens de câmeras de segurança. Chuto que essa escolha se dá para evitar uma eventual identificação entre público e personagem, algo que estamos tão acostumados a fazer que talvez acontecesse instintivamente. Faz sentido na teoria, mas não tanto na prática. A todo tempo tinha a impressão de que, míope que sou, tinha ido ao cinema sem óculos, sem poder ver a riqueza de detalhes na construção do cenário que buscou reproduzir a casa da verdadeira família Höss, e menos ainda as nuances das atuações (que, portanto, não consigo qualificar adequadamente). Sequer sou capaz de dizer a cor dos olhos de um dos protagonistas. O mal estar visual agrava-se com a edição de cores lavadas na fotografia de Lukasz Zal. O design de som, por outro lado, é um primor. Contradiz tudo que nossos olhos nos informam, embalando a banalidade com um terror sonoro inquietante, por vezes interrompido por gritos de personagens desconhecidos. Nem barulhento demais a ponto de nos tirar a atenção, nem simples demais a ponto de nos deixarmos acostumados com o incômodo (como os moradores de Auschwitz), a união da trilha sonora de Mica Levi e da edição de som de Maximilian Behrens é um trabalho sofisticado, daqueles que se deve levar para as aulas de cinema. Pode ser o desagrado visual falando, mas a verdade é que, depois de um primeiro momento em que entendi, me surpreendi e amei a originalidade da abordagem do filme, fiquei esperando um grande evento que justificasse os meus próximos 100 preciosos minutos naquela poltrona vermelha. Não veio. Me lembrei de quando vi Boyhood (Olha! Também sei fazer alusão!) e questionei por que assistir a uma vida corriqueira se, ordinária por ordinária, já vivo a minha. Claro, não é como se o cotidiano dos Höss tivesse qualquer semelhança com o meu. Só que a intenção do diretor foi justamente criar essa banalidade ao horror logo no início do filme, e, para bem ou para mal, o faz perfeitamente, deixando os demais atos um tanto quanto monótonos – adjetivo que jamais deveria ser usado num filme sobre o tema. Nota: 3/5

  • Crítica | Better Man - A História de Robbie Williams

    Irreverente e autoconsciente (até certo ponto), biografia de Robbie Williams se distingue em meio à mesmice atual do gênero. Divulgação Talvez seja difícil para nós, brasileiros, mensurar o tamanho da popularidade de Robbie Williams no Reino Unido (embora você provavelmente conheça uma ou outra música dele, como Angels ou Sexed Up). Mas basta dizer que ele emplacou sete singles no topo das paradas britânicas, 13 dos seus 14 álbuns estrearam em 1º por lá, seis desses álbuns estão entre os mais vendidos da história do país e ao longo de sua carreira foram 18 prêmios Brit Awards. Considerando o impacto de sua trajetória e seus altos e baixos — com direito a problemas conjugais, familiares e com drogas —, a vida e carreira de Williams é a receita certa para o atual (e já saturado) modelo de cinebiografias que superabundam a cada temporada de premiações. Que curioso, portanto, que Better Man seja, sob certos aspectos, uma cinebiografia nada convencional. O primeiro e mais óbvio motivo é aquele que já estampa qualquer foto ou pôster de divulgação do filme: ao invés de aparecer como um ser humano, Robbie Williams é transformado em um chimpanzé de CGI antropomorfizado, dublado sobretudo por ele próprio (que também atua como narrador) e Jonno Davies (que também fornece a captura de movimentos). A decisão incomum pode causar certo estranhamento de início, mas não demora a nos habituarmos a essa figura símia a. Além do mais, transformar Williams em um chimpanzé acaba fazendo sentido justamente pelas vezes em que vemos o artista ser comparado a um animal, seja pela família, pelos colegas, imprensa e tantos mais, apelando à ideia de desumanização com a qual muitos popstar são tratados. Mais do que essa curiosa decisão, porém, o que realmente distingue Better Man da seara de cinebiografias “oscarizáveis” é a irreverência com a qual Williams trata sua própria história. Ao menos em sua primeira hora, o filme se comporta como uma sátira musical, abordando com autoconsciência e um pé no exagero, na fantasia e no lúdico a trajetória de ascensão do artista, como evidenciado na performance de Rock DJ, talvez a mais memorável dentre as sequências musicais do filme. Mesmo nunca deixando de seguir de perto a cartilha do gênero — com direito aos problemas paternos, ao empresário malvadão e à descoberta do prazer no luxo e na luxúria —, o filme consegue remodelar essa cartilha à sua própria imagem, entregando algo próprio. Outro ponto importante é justamente o cuidado da obra em não relativizar ou “passar pano” para as ações erráticas de Williams. Sim, a ausência paterna é apontada como uma grande catalisadora para seu comportamento problemático e de bad boy, mas o filme trata o personagem como o responsável pelos seus próprios erros, longe de se configurar uma biografia chapa branca como tantas que temos visto por aí (alô, Bohemian Rhapsody). Nesse sentido, posiciono o longa como uma espécie de irmão mais novo de Rocketman, onde mesmo com a presença de figuras antagônicas óbvias, nunca havia dúvidas sobre a (ir)responsabilidade de Elton John pelos próprios atos. Aqui, aliás, há um nítido — ainda que óbvio — trabalho de apontar para o senso de autoimagem de Williams, que está constantemente em conflito consigo mesmo, sua necessidade de ser amado e adorado e a incapacidade dessa adoração preencher seu vazio interior. Divulgação Infelizmente, quanto mais se aproxima do auge do estrelato do artista e da sua eventual queda, mais Better Man acaba caindo nas armadilhas básicas do gênero. A irreverência e o tom satírico da primeira metade logo dão espaço a uma abordagem mais séria e dramática que, embora não sem seu peso (a montagem da ascensão do personagem e a sequência de Angels são as minhas favoritas do filme, aliás), acabam tirando muito do brilho que o filme tinha a oferecer justamente por não se contentar com um lugar comum. A própria relação dele com o pai, Peter (Steve Pemberton), reflete essa transformação tonal do filme: o final redentor de ambos, regado a lágrimas e à perdão, pode até ter acontecido na vida real, mas não condiz com o próprio tratamento que o longa dá a Peter e aos efeitos da ausência deste sobre Williams, caindo numa abordagem piegas e excessivamente sentimental que faz parecer que estamos vendo uma outra obra daquela das últimas 2h. Ainda que no fim das contas se transforme exatamente no tipo de filme que tentou não ser, Better Man ainda oferece elementos o suficiente para se distinguir em meio à mesmice de cinebiografias medíocres e previsíveis feitas para ganhar prêmios. É a prova de que um clichê pode ser contado mil vezes e não há problema nisso: é a forma pela qual se conta esse clichê que importa. Nem que essa forma seja ver um chimpanzé de CGI antropomorfizado cumprindo toda a tabela do roteiro de ascensão, queda e ressurgimento de um popstar. Nota: 3.5/5

  • Crítica | O Último Episódio

    Memórias que só o cinema revela Foto: Divulgação/Filmes de Plástico O dicionário da Universidade de Cambridge dá a definição para o termo coming of age: “o período em que alguém começa a amadurecer emocionalmente”. Na ficção, não faltam histórias que relatam esse momento da vida e recentemente, no cinema brasileiro, longas como Sem Coração e Kasa Branca trouxeram esse momento para as telas em lugares distintos no nosso país. De uma praia paradisíaca no interior de Alagoas, as ruas da periferia do Rio, embarcamos agora para Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, para conhecer Erik, Cassinho e Cristão. Antes de tudo, vamos contextualizar: em 9 de outubro, o filme O Último Episódio chega aos cinemas de todo o Brasil. Dirigido por Maurílio Martins, da Filmes de Plástico, a trama gira em torno de um garoto de 13 anos chamado Erik que quer impressionar a menina por quem nutre uma paixão platônica, a garota nova da escola Sheila. Para se aproximar dela, ele jura que possui uma fita em casa com o episódio final do lendário desenho Caverna do Dragão. Depois de se meter nessa enrascada, ele corre contra o tempo para poder arranjar uma solução para essa pequena mentira com a ajuda de seus melhores amigos e com a câmera velha do pai que ele mal conheceu a tiracolo. É nos permeios de uma trama que à primeira vista parece simples que somos teletransportados para uma década repleta de nostalgia. E meu primeiro elogio para o filme é essa habilidade ímpar de te colocar exatamente em 1991. Parece que eu sentia a alegria dos personagens ao sentar na frente da TV e esperar um episódio inédito da minha série favorita ou sentia a emoção em abrir um vinil novinho, no dia do meu aniversário, da minha banda do coração. Está tudo ali, nos pequenos e nos grandes detalhes, com um carinho e um cuidado raro de quem viveu aquela época. Foto: Divulgação/Filmes de Plástico Muito disso também passa por um elenco muito talentoso e dos veteranos aos mais novos, é um deleite acompanhá-los. Outro ponto de destaque é como a direção de Maurílio Martins não se contenta apenas em evocar a nostalgia: ela a transforma em linguagem cinematográfica. A câmera passeia com liberdade pelos espaços, muitas vezes se aproximando dos rostos como quem quer captar pensamentos não ditos, e ao mesmo tempo resgata um Brasil em transformação no início dos anos 1990. Não é apenas sobre infância, é também sobre contexto: a televisão como janela para o mundo, o consumo cultural moldando sonhos, e a ausência de figuras paternas ou maternas ecoando nas escolhas dos personagens. O Último Episódio é, portanto, muito mais do que uma história sobre uma fita perdida ou sobre o desfecho de um desenho animado cultuado. É um filme sobre afetos, descobertas e cicatrizes que acompanham o processo de crescimento. Maurílio Martins e a Filmes de Plástico reafirmam, com delicadeza e potência, que o cinema brasileiro tem muito a dizer quando olha para as nossas próprias memórias coletivas. Ao final da sessão, fica a sensação de que todos nós já fomos um pouco Erik, tentando, à nossa maneira, inventar finais que nos ajudem a atravessar a vida. Não me julgue por evocar Taylor Swift agora, mas, em uma de suas canções ela diz “Nostalgia é uma ilusão da mente. Se eu estivesse lá, odiaria”. Essa frase ressoou em mim com força depois de assistir a O Último Episódio. Porque, no fim das contas, o filme não nos convida a voltar a um passado idealizado, mas a revisitar as contradições que moldaram nossa infância e adolescência. É um lembrete de que a memória nunca é exata: ela seleciona, inventa, mascara. E é justamente nesse espaço entre o que lembramos e o que gostaríamos de lembrar que o cinema de Maurílio Martins encontra sua beleza. E eu não odiaria nem um pouco voltar pra ela. Nota: 4.5/5

  • Crítica | TÁR

    A música e o silêncio como metáforas da glória e ruína de um modelo de humanidade Divulgação: Universal Studios Quando os créditos avisaram o final do filme, tive a impressão de que Todd Field, o diretor do longa, também lera Desonra, livro do autor sulafricano J.M. Coetzee — que escreveu Boyhood, e não, não é o filme do Linklater, mas achei que você deveria saber — em algum momento da vida. Lydia Tár, uma personagem puramente fictícia, ainda que pareça real -e o é, em certo modo, é uma maestro renomada por sua paixão, inovação e ousadia mas esconde segredos que, se revelados, mudariam o curso da própria vida. O longa e o livro encontram-se neste lugar: demonstram a decadência de um modelo de humanidade, e longe de fazê-lo sem críticas. A direção e ambientação do filme provocam estímulos tais como o andamento de uma sinfonia. Todd Field, metalinguisticamente, exerce o papel de maestro, quando escolhe de que modo demonstrar uma cena ou posicionar uma câmera, o que prefere captar, onde deseja que seu olhar se demore ou não, como esconder um tesouro à vista. Cate Blanchett é a instrumentista que compreende a linguagem visual e executa com liberdade, fôlego, intensidade e sabedoria uma personagem que está no limiar da biografia/ficção sem ser caricata, ou apelativa demais. Não à toa o filme tem sido notado no circuito de premiações e, recentemente, carimbou 6 indicações ao Oscar, incluindo melhor direção e atriz. Divulgação: Universal Studios É extremamente interessante essa percepção como representação: a música e o silêncio como metáfora. A música, quando a personagem principal encontra-se com sua própria falibilidade e decadência, e o silêncio como harmonia, movimento, trajetória. É no silêncio que as contradições de Lydia são expostas, e é na música que elas se escondem à vista, demonstrando uma destreza muito singular na forma de contar a história. O filme é uma viagem e tanto, e desde o início assistimos uma casa de ferreiro cujas estruturas são de madeira - o dito popular nunca foi tão certeiro. As ruínas morais, dos princípios e valores da personagem estão entranhadas em sua paixão - a música. E se (neste caso é quando) isto decair por completo, o que restará? Esta crítica é proposital e provocativamente curta porque quero utilizar a imortalidade da internet como aliada. Sempre que alguém ler esta crítica, sinta-se compelido a ir imediatamente assistir ao filme e trilhar, em primeira mão, o caminho proposto pela narrativa ao contemplar a imagem humana, que em seu crepúsculo, se despede, ainda que lenta e tardiamente. Nota: 5/5

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