top of page

Início > Críticas

​

Crítica | O Brutalista

Ávila Oliveira

12 de fev de 2025 · 3 min de leitura

Filme é consistente em sua densidade dramática, mesmo deixando funcionalismo de lado

Divulgação


Em fuga da Europa do pós-guerra, o arquiteto visionário László Toth (Adrien Brody) chega à América para reconstruir sua vida, seu trabalho e o casamento com sua esposa Erzsébet (Felicity Jones), depois da separação forçada durante a guerra por mudanças de fronteiras e regimes. Sozinho em um novo país estranho, László se estabelece na Pensilvânia, onde o rico e proeminente industrial Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce) reconhece seu talento para a construção. Mas poder e legado têm um custo muito alto.


O Brutalista não é um filme sutil, mesmo saudando o brutalismo e suas características enquanto arquitetura, design e forma de expressão, ele mira na grandiosidade e acaba, por vezes, sendo apenas grande. O brutalismo é uma corrente da arquitetura que surgiu na Europa por volta dos anos 50 e que tinha/tem como algumas das características principais o funcionalismo, elementos modulares, paletas de cores monocromáticas, exposição dos materiais usados e formas geométricas contundentes. Não vou querer inventar ou pensar em analogias ligando a corrente ao filme, mas, de toda forma, mesmo mantendo uma unidade visual e temática, deixa completamente o funcionalismo de escanteio.


É claro quando um filme é um trabalho feito com paixão por um cineasta e quando é meramente comercial. Este é um longa que o diretor Brady Corbet aparentemente não queria que terminasse. Digo isto pelo excesso de detalhes, de closes, de objetos e até mesmo de sons que acabam inflando a experiência para além do que merecia, mas que transparece o apego zeloso que Corbet teve por aquilo que estava montando. E é esse paradoxo que faz o filme funcionar e que também faz ele se perder. É isto que aproxima e distancia cineasta, personagem e temática. Como falei, o que parece grandioso só é extenso demais, ainda assim o resultado impresso é de um filme caro, imponente e refinado, mesmo não construindo um objeto preciso e definido.


Filmado em VistaVision com rigor técnico explícito, o visual sempre apresenta texturas e cores consonantes através de uma fotografia de baixa saturação e excelentes contrastes. A direção de arte é um deslumbre. Através de mobiliários, formas e materiais, o filme situa o espectador nos parâmetros da corrente brutalista numa espécie de aula de campo imersiva onde o modernismo (nem sempre o brutalismo) domina e dita as regras. A trilha sonora passivo-agressiva de Daniel Blumberg é outro destaque na ambientação densa e cínica do enredo.

E é nessa densidade narrativa que o roteiro é embasado. É um filme de drama que não tenta fugir do drama e gosta de explorá-lo sem pressa e sem pudor.


Divulgação


Quase todos os personagens carregam um fardo negativo que interfere nos problemas mal resolvidos uns dos outros. Tem drama familiar, drama pessoal, drama político, drama histórico e até drama geográfico. O texto não economiza nesse peso e, mas senta a mão mesmo é na segunda das duas partes em que o filme se divide (sem contar com um epílogo que destoa do tom das duas partes e que parece ter sido forçado para caber como uma justificativa do que o roteiro queria ter dito e não conseguiu). Apesar do drama constante e da mesma tonalidade apreensiva, fria e em alguns momentos misteriosa, essa segunda parte parece carregar mais do que pode comportar, e desde a elaboração de diálogos até o encerramento propriamente dito, a distribuição dos pontos de inflexão parecem não harmonizar.


Adrien Brody faz o papel de coitado sonso como ninguém. E todo o elenco de coadjuvantes que o cercam conseguem entregar personagens bem desenvolvidos e marcantes. No entanto, Felicity Jones esbarra no sotaque e nos maneirismos de uma personagem que é a cara da segunda parte.


Arquitetado como uma cinebiografia daquelas de grandes gênios incompreendidos, O Brutalista tem muito a transmitir e evita atalhos, evita uma objetividade que tornaria o filme mais desenvolto e ágil, mas não menos diligente e eficiente. É um filme que se vende como importante e que aparenta importância, mesmo que o espectador não sinta qualquer reação àquela história.


Nota: 3,5/5


LEIA TAMBÉM

CRÍTICAS

Crítica | Os Farofeiros 3

CRÍTICAS

Crítica | Godzilla Minus Zero

CRÍTICAS

Crítica | Tudo Pode Ser Visto (Mostra de SP 2026)

MAIS RECENTES

NOTÍCIAS

Bruna Linzmeyer vive sua primeira grande vilã em Virtuosas: “É um...

NOTÍCIAS

Mason Reeves não leu o roteiro de Josephine e decidirá aos 18 anos se...

CRÍTICAS

Crítica | Os Farofeiros 3

CATEGORIAS

Notícias
Críticas
Análises
Awards Season
Crias do Brasil
Listas
Entrevistas
Festivais

NEWSLETTER

image.png

Cinema brasileiro, festivais e temporada de premiações direto no seu e-mail

MAIS LIDAS NO MÊS

01

NOTÍCIAS

Lázaro Ramos diz que Feito Pipa propõe uma "pedagogia do afeto" ao...

02

NOTÍCIAS

Uma adaptação de Os Imortais, de Paulliny Tort, está em...

03

CRÍTICAS

Crítica | Godzilla Minus Zero

Crítica | O Brutalista

12 de fev. de 2025
3 min de leitura

Atualizado: 8 de out.

Filme é consistente em sua densidade dramática, mesmo deixando funcionalismo de lado

Divulgação


Em fuga da Europa do pós-guerra, o arquiteto visionário László Toth (Adrien Brody) chega à América para reconstruir sua vida, seu trabalho e o casamento com sua esposa Erzsébet (Felicity Jones), depois da separação forçada durante a guerra por mudanças de fronteiras e regimes. Sozinho em um novo país estranho, László se estabelece na Pensilvânia, onde o rico e proeminente industrial Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce) reconhece seu talento para a construção. Mas poder e legado têm um custo muito alto.


O Brutalista não é um filme sutil, mesmo saudando o brutalismo e suas características enquanto arquitetura, design e forma de expressão, ele mira na grandiosidade e acaba, por vezes, sendo apenas grande. O brutalismo é uma corrente da arquitetura que surgiu na Europa por volta dos anos 50 e que tinha/tem como algumas das características principais o funcionalismo, elementos modulares, paletas de cores monocromáticas, exposição dos materiais usados e formas geométricas contundentes. Não vou querer inventar ou pensar em analogias ligando a corrente ao filme, mas, de toda forma, mesmo mantendo uma unidade visual e temática, deixa completamente o funcionalismo de escanteio.


É claro quando um filme é um trabalho feito com paixão por um cineasta e quando é meramente comercial. Este é um longa que o diretor Brady Corbet aparentemente não queria que terminasse. Digo isto pelo excesso de detalhes, de closes, de objetos e até mesmo de sons que acabam inflando a experiência para além do que merecia, mas que transparece o apego zeloso que Corbet teve por aquilo que estava montando. E é esse paradoxo que faz o filme funcionar e que também faz ele se perder. É isto que aproxima e distancia cineasta, personagem e temática. Como falei, o que parece grandioso só é extenso demais, ainda assim o resultado impresso é de um filme caro, imponente e refinado, mesmo não construindo um objeto preciso e definido.


Filmado em VistaVision com rigor técnico explícito, o visual sempre apresenta texturas e cores consonantes através de uma fotografia de baixa saturação e excelentes contrastes. A direção de arte é um deslumbre. Através de mobiliários, formas e materiais, o filme situa o espectador nos parâmetros da corrente brutalista numa espécie de aula de campo imersiva onde o modernismo (nem sempre o brutalismo) domina e dita as regras. A trilha sonora passivo-agressiva de Daniel Blumberg é outro destaque na ambientação densa e cínica do enredo.

E é nessa densidade narrativa que o roteiro é embasado. É um filme de drama que não tenta fugir do drama e gosta de explorá-lo sem pressa e sem pudor.


Divulgação


Quase todos os personagens carregam um fardo negativo que interfere nos problemas mal resolvidos uns dos outros. Tem drama familiar, drama pessoal, drama político, drama histórico e até drama geográfico. O texto não economiza nesse peso e, mas senta a mão mesmo é na segunda das duas partes em que o filme se divide (sem contar com um epílogo que destoa do tom das duas partes e que parece ter sido forçado para caber como uma justificativa do que o roteiro queria ter dito e não conseguiu). Apesar do drama constante e da mesma tonalidade apreensiva, fria e em alguns momentos misteriosa, essa segunda parte parece carregar mais do que pode comportar, e desde a elaboração de diálogos até o encerramento propriamente dito, a distribuição dos pontos de inflexão parecem não harmonizar.


Adrien Brody faz o papel de coitado sonso como ninguém. E todo o elenco de coadjuvantes que o cercam conseguem entregar personagens bem desenvolvidos e marcantes. No entanto, Felicity Jones esbarra no sotaque e nos maneirismos de uma personagem que é a cara da segunda parte.


Arquitetado como uma cinebiografia daquelas de grandes gênios incompreendidos, O Brutalista tem muito a transmitir e evita atalhos, evita uma objetividade que tornaria o filme mais desenvolto e ágil, mas não menos diligente e eficiente. É um filme que se vende como importante e que aparenta importância, mesmo que o espectador não sinta qualquer reação àquela história.


Nota: 3,5/5


LEIA MAIS SOBRE

CONTINUE LENDO

CRÍTICAS

Crítica | NAZA

CRÍTICAS

Crítica | O Bosque Selvagem

CRÍTICAS

Crítica | Quero Ser Como Você (Mostra de SP 2026)

bottom of page