Resultados de busca
Buscar neste site
1417 resultados encontrados com uma busca vazia
- Crítica | Flora e Filho - Música em Família
John Carney entrega mais uma obra reconfortante, embora com algumas falhas mais notáveis Foto: divulgação O cinema do irlandês John Carney parece ancorado em duas temáticas: o poder transformador e catalisador da música e as delícias e dores do amor. Do seu longa Once à sua série Modern Love, passando por Mesmo se Nada Der Certo e Sing Street, o diretor sempre consegue uma forma de entrelaçar esses temas em abordagens distintas, mas nunca perdendo de vista o calor e o conforto que suas obras são capazes de trazer. Flora e Filho segue essa mesma cartilha, nos apresentando à sua protagonista-título (Eve Hewson) primeiro numa boate, até nos fazendo pensar sobre o quão jovem é a personagem, antes de nos revelar que ela tem um filho de 14 anos, Max (Óren Kinlan). As sequências iniciais já conseguem nos mostrar que, mentalmente falando, Flora não é tão mais velha que seu filho, algo acentuado pela rudeza das suas interações. É só quando, ao achar um violão e dá-lo a Max (que o recusa), ela decide aprender a tocar o instrumento, passando a ter aulas online com o estadunidense Jeff (Joseph Gordon-Levitt). Carney emprega aqui uma abordagem mais crua e visceral em relação aos seus longas anteriores, o que chega a surpreender aqueles que esperavam uma abordagem mais leve. Ainda assim, ele não deixa de lado o interesse em explorar o melhor dos seus personagens, especialmente através da relação com a música. Flora é rude, briguenta e tão imatura quanto o filho, mas o filme nunca nos faz esquecer que ela o teve muito nova e nunca contou com o suporte necessário para criar, visto que o pai, Ian (Jack Reynor, repetindo a dobradinha com Carney de Sing Street e Modern Love), é um tremendo babaca. Ajuda que Eve Hewson consiga nos cativar tão rápido, mesmo quando exibe os piores lados da personagem. Já tinha admiração pela atriz desde que a vi em Bad Sisters (e o fato dela ser filha de Bono Vox também ajuda um pouco), mas aqui ela tem a chance de exibir todo o seu talento ao criar uma personagem que à primeira vista parece difícil de torcer, especialmente pelo quanto falha com Max, mas em quem logo investimos e por quem desejamos que cresça na vida. Suas interações com Jeff, mesmo limitadas pela distância física, desfrutam da enorme química de Hewson e Gordon-Levitt, ainda que a construção do sentimento entre ambos pareça um pouco trôpega no início. Foto: divulgação Contudo, é nítida aqui uma tensão no filme, como se ele não soubesse se quer priorizar o relacionamento de Flora e Jeff ou as questões maternais dela com Max. Este não parece sair muito do estereótipo do adolescente chato, mesmo que a sua ligação com a música ajude a melhorar e muito sua ligação com a mãe. Porém, o filme vive nessa incerteza sobre qual desses relacionamentos quer melhor explorar (a despeito do título), e acaba parecendo ter duas metades não tão bem desenvolvidas. Essa incerteza ainda se estende à forma como Ian é usado dentro da trama, apesar de Reynor ser ótimo como sempre. Essa tensão mal resolvida é expressa até na forma como a música é usada dentro do filme. Se por um lado temos ótimas sequências como aquela em que Flora é profundamente tocada por "Both Sides Now" de Joni Mitchell ou nas suas interações com Jeff, as músicas originais do filme carecem do frescor que as de outros filmes do diretor, como as de Sing Street ou “Falling Slowly”, pela qual Once ganhou o Oscar de Melhor Canção Original. Além disso, a maneira rasa com a qual o roteiro trata a tentativa de Max conquistar uma garota através de suas composições parece uma recauchutagem da trama principal de Sing Street, mas sem o mesmo ímpeto. Assim, Flora e Filho continua a exibir várias das mesmas qualidades da filmografia e John Carney e dos temas que lhe são tão caros, mas infelizmente sem a mesma força de suas obras anteriores. Contudo, é graças ao carisma e talento de Eve Hewson que o filme se encontra, trazendo uma protagonista complicada, mas ainda assim inegavelmente amável e que, como tantos de nós, tem sua vida transformada pela música e pelo amor. Nota: 3.5/5
- Crítica | Cassandro
Gael García Bernal triunfa em cinebiografia com tom sensível, mas suntuoso Foto: divulgação Cassandro é o nome performático de Saúl Armendáriz, um dos mais famosos luchadores do México nascido dos EUA. Saúl é abertamente gay desde a adolescência e vive com sua mãe, uma imigrante batalhadora que faz de tudo para sustentar seu filho. No final dos anos 80, depois de anos lutando com a tradicional máscara, ele decide assumir o papel de um lutador exótico, assumindo personagens mais maquiados, com traços femininos ou fora dos padrões dos outros luchadores mascarados, e deverá enfrentar vários desafios pessoais e profissionais para se impor no meio da luta livre mexicana. Dicotomia e dualidade são as palavras de lei tanto da história de Cassandro quanto do filme em questão. Saúl nasceu de um caso extraconjugal entre um americano casado e uma imigrante mexicana, e passou a vida tendo que conviver com o pai que só conseguia vê-lo quando deixava sua esposa e filhas. Ao se assumir gay na adolescência, Saúl perde todo o contato com o pai por esse ser alegadamente religioso demais. Mas da relação com o pai nasce sua paixão pela luta livre. A luta livre mexicana é uma performance que mistura golpes de luta com encenação. E é nesse palco/ringue que Saúl consegue exorcizar seus demônios, angústias e brilhar para quem pudesse vê-lo, inclusive seu pai. Ao assumir o papel de Cassandro, um exótico, ele resolve deixar de lado uma parte da sua vida que viveu nas sombras, às escondidas. Mas é apenas uma parte. Saúl é apaixonado por outro luchador que vive com uma esposa e filhos, e esse ciclo acaba por interferir no seu desempenho profissional pro bem e pro mal. Os exóticos são criados para perderem as lutas para os luchadores tradicionais mascarados, mas Saúl não quer isso para Cassandro. Sua revolução não pode ser apenas pela metade, ele anseia respeito. Foto: divulgação Tudo isso precisou ser explicado para que o âmago do roteiro, e suas já citadas dualidades, seja compreendido, e, mais do que isso, seja valorizado e exaltado. Ao mesmo tempo em que Saúl precisa ser forte para assumir ser Cassandro o exótico – que é xingado das mais variadas ofensas pelo público sem qualquer problema – ele ainda é o sensível Saúl que luta por um romance fadado ao fracasso. Ao mesmo tempo em que ele se torna uma pessoa pública que atrai olhares e holofotes, ele ainda segue vivendo uma parte de sua vida retraída como foi na infância. E o hábil diretor Roger Ross Williams sabe equilibrar bem todas essas quase que contradições com flashbacks dosados que harmonizam com o presente sem querer disputar tempo de cena. Roger varia entre uma elegante câmera estável e suave e uma mais orgânica-vérité em cenas menos românticas e mais cruas. O roteiro cria um ambiente compreensível do contexto do esporte/arte sem querer dar palestrinha. O teor machista e homofóbico, por exemplo, que é cultural e estrutural da lucha libre surge como um condutor para o texto e não como um fator à parte que se destaque dos demais eixos. Todos os detalhes e definições essenciais para a compreensão do que acontece no ringue e fora dele até o momento que se inicia a luta são apresentados de maneira natural e já aplicados no personagem título. Gael García Bernal está em mais um daqueles papéis que consegue explorar bem o escopo do seu talento. Além de passear pelo drama com pitadas de humor sarcástico, seu trabalho de corpo e execução física é bastante convincente. Mas quem rouba as cenas em que aparece é a mexicana Perla de la Rosa que interpreta Yocasta, mãe de Saúl, com dureza, afeição, sensualidade, graça e paixão. Mesmo que inserido num recorte local bem específico, a história de Cassandro é universal e reflete muitos conflitos sociais para além do México e do esporte em questão. O filme evita passar por todos os momentos da vida de Saúl – ainda bem – e também escolhe escapar de algumas conclusões de personagens secundários, mas ainda assim traz o que é necessário para saudar o protagonista e dar as flores em vida que sua luta conseguiu conquistar. Nota: 4/5
- Crítica | Nostalgia
Os perigos da romantização do passado Foto: divulgação “Nostalgia. É delicada, mas potente”, disse o personagem Don Draper em um episódio de Mad Men. A essas características o diretor italiano Mario Martone acrescenta sua própria interpretação da nostalgia: ela também pode ser enganadora e perigosa. O passado de fato existe, afinal de contas? E somos capazes de acessá-lo em sua plenitude sem cair nas armadilhas de uma memória que pode vir a romantizá-lo e aparar suas arestas? Em Nostalgia, conhecemos nosso protagonista (vivido por Pierfrancesco Favino) em seu voo para Nápoles, e então o acompanhamos pelas ruas da cidade. Pouco sabemos sobre ele e quase nada é dito nos minutos iniciais, de modo que cabe ao poder das imagens e da atuação nuançada de Favino para entendermos os sentimentos conflitantes que borbulham nesse homem, indicando que talvez faça muito tempo desde a última vez em que ele esteve na cidade. É só quando ele reencontra sua adoentada mãe Teresa (Aurora Quattrocchi) que o filme aos poucos se abre para explanar suas intenções acerca do retorno do protagonista à cidade. Logo aprendemos que ele, chamado Felisce, não voltou à Nápoles apenas para cuidar da mãe em seus últimos dias, mas para se reconectar com o passado e até prestar contas onde é devido. Através de um filtro que emula as câmeras Super 8, vemos a versão jovem do protagonista em suas aventuras impetuosas ao lado do melhor amigo Oreste. No presente, porém, Oreste (Tommaso Ragno) é um perigoso chefe local da Camorra, a máfia napolitana, cujo maior nêmesis é o padre Luigi (Francesco Di Leva), e a aproximação deste com Felisce coloca o protagonista num dilema moral. Assim, o que poderia ser o comovente drama de um filho e sua mãe aos poucos se aproxima de um thriller criminal, onde Martone evoca a todo instante a paranoia, através das figuras que constantemente olham para Felisce de suas janelas, terraços ou ruas, que nos fazem ver que ele não é desejado ali, mesmo que sinta dentro de si o desejo pela cidade que não via há tanto tempo. Porém, o diretor se distancia de outras obras que abordem o submundo do crime napolitano para filtrar tal universo através desse olhar íntimo (e ingênuo) do personagem, e a capacidade de Favino de expressar um sentimento tão difícil de ser traduzido quanto a nostalgia — e o preço que paga por ela — é a grande arma secreta do filme. Foto: divulgação Outro acerto é a performance de Di Leva, que injeta uma força e astúcia notáveis em seu personagem, conforme ele passa a usar Felisce como uma forma de derrubar Oreste, sem, no entanto, perdermos de vista a sua humanidade. Infelizmente, Ragno não dispõe do mesmo espaço que os outros dois; mesmo conferindo uma latitude dramática ao seu personagem, a forma como o filme o trabalha o faz parecer mais um conceito (como um espelho distorcido de Felisce) do que um ser humano palpável. Essa subutilização de Oreste — bem como um final que parece telegrafado à distância, mesmo que isso não nos prive de uma tensão sufocante no terceiro ato — minam um pouco da força de Nostalgia, mas não desqualificam o filme, que oferece um olhar corajoso e diferenciado não apenas para o tema e a cidade que retrata. Nas mãos de Martone e, sobretudo, na escalação de Favino e Di Leva (e também de Quattrochi, que entrega muito em tão pouco tempo), o filme eficazmente se ancora para nos deixar claro que nem sempre é benéfico se deixar seduzir pelo passado. Nota: 4/5
- Crítica | Resistência
Visual caprichado e tema moderninho não salvam o filme do marasmo Foto: divulgação Num futuro não tão distante onde os humanos desenvolveram a Inteligência Artificial a ponto de interação direta e física com as pessoas, uma explosão nuclear causada por IA atinge os Estados Unidos. Isso faz com que o país lidere todo o Ocidente numa guerra contra os seres cibernéticos e consequentemente contra Oriente (aqui representado por uma nação chamada Nova Ásia) que defendem o uso harmônico das tecnologias com livre arbítrio. O protagonista Joshua (John David Washington) vive na Nova Ásia como agente infiltrado dos EUA e tem como missão capturar O Criador, a pessoa por trás do constante aprimoramento de IA. O diretor Gareth Edwards tem muitas referenciais no visual e na narrativa e deixa-as bem claro logo de início (até mesmo durante o processo de produção ele chegou a citar quais filmes e diretores o inspiravam). Então tem sim Apocalypse Now, tem Star Wars, tem Blade Runner e têm muitas outras ideias que são geniais em suas particularidades, mas que fragmentadas e juntas umas com as outras ficam sem qualquer personalidade. Por mais que a produção se solidifique em cima de um roteiro original, é uma história simplista de guerra homem versus robôs (se é que ainda usam esse termo) já feita diversas outras vezes com as mais diferentes roupagens e com as mais variadas alegorias sociais por trás. E o visual não é o problema aqui, pelo contrário, é o que sustenta o filme até nos momentos mais chatos (e são muitos). Os efeitos visuais são bem resolvidos, especialmente o design de personagens, e não deixam a desejar no macro e no micro como tem acontecido bastante com outras grandes produções hollywoodianas. A representação da Nova Ásia é uma Tailândia ao mesmo tempo rural e futurística que conversa muito bem com as necessidades do texto de mostrar o inimigo dos EUA como uma nação super tecnológica a ponto de criar armas e torná-los uma ameaça iminente, mas ainda assim pastoril e limitada. Destaque também para o trabalho dos diretores de fotografia que conseguiram operar muito bem em baixa saturação e com pouca luminosidade sem limitar o alcance visual e sem comprometer formas e detalhes. Mas nem em seu melhor o longa consegue ser marcante. Nem mesmo a trilha sonora de Hans Zimmer resiste ao rolar dos créditos finais. Foto: divulgação O problema maior está no roteiro que não desenvolve em suas demoradas duas horas de duração. O enredo tenta a todo custo dar camadas de profundidade nas relações pessoais do protagonista e nas relações humanos-máquinas e acaba por desperdiçar energia demais onde não requer tanta atenção e deixa a desejar na dinamicidade e na cadência da narrativa. As maiores reviravoltas são previsíveis e não conseguem criar os grandes momentos precisos para empolgar e prender a atenção do espectador. Por mais que a pauta IA seja bem contemporânea e o futuro em que o filme se desdobra seja só daqui a 40 anos, o resultado já parece velho e repetido, e bem cansado. Nota: 2,5/5
- Crítica | Anatomia de uma Queda (TIFF 2023)
O ganhador da Palma de Ouro é um prato cheio para os fãs de dramas de corte Foto: divulgação Após a extraordinária experiência com Saint Omer, somos agora convidados a adentrar novamente nos corredores dos tribunais franceses, desta vez para testemunhar um intrigante caso de homicídio. Anatomia de uma Queda, que surpreendeu o Festival de Cannes, nos transporta para a história de Sandra, uma mulher acusada de ser a responsável pela morte de seu próprio marido. O filme apresenta diversas qualidades, com destaque para a brilhante atuação de Sandra Hüller no papel principal, uma interpretação que praticamente sustenta toda a produção. Além de proporcionar entretenimento intenso que mantém o espectador à beira de seu assento, o longa também o convida a assumir um papel ativo como membro do júri virtual. No entanto, é importante notar que, apesar de suas virtudes, o filme não inova no gênero e, em alguns momentos, se afasta do universo que construiu. Como mencionado anteriormente, se há uma razão para assistir Anatomia de uma Queda, essa é a atuação de Hüller. Ela consegue dar vida à sua personagem de forma sensível e realista, demonstrando uma capacidade de se tornar intensa quando necessário. Um exemplo notável é um monólogo que se destaca pela excepcional performance e direção, habilmente selecionando o que apresentar ao público. Esse momento não apenas realça sua atuação, mas também enriquece a narrativa do filme. Foto: divulgação Os demais membros do elenco também desempenham seus papéis com competência, porém, nenhum deles se equipara à protagonista. No entanto, uma das questões que me incomodou no filme foi o personagem de Milo Machado Graner, o filho de Sandra. Embora ele tenha realizado uma atuação notável, especialmente considerando sua idade, algumas das ações de seu personagem parecem não condizer com a faixa etária que representa. O longa possui uma montagem habilidosa que equilibra efetivamente o ritmo entre os eventos no tribunal e os aspectos pessoais da protagonista e sua família. Mas, lamentavelmente, há um ponto na trama em que os argumentos começam a se tornar um tanto exaustivos, especialmente após o impressionante monólogo de Hüller. Felizmente, ele recupera o ímpeto ao introduzir um novo clímax que conduz a história até sua conclusão de forma satisfatória. Anatomia de uma Queda é um filme incrível para todos os amantes de dramas judiciais, embora não traga inovações ao gênero. A produção conta com uma escalação de elenco perfeita, embora apresente algumas incoerências em relação ao universo da história. Nota: 4/5
- Crítica | Jogos Mortais X
Franquia luta para se provar relevante repetindo erros e acertos Foto: divulgação Com uma história que se passa entre os dois primeiros longas, Jogos Mortais X mostra um John Kramer / Jigsaw preocupado com sua saúde. Quando havia perdido suas esperanças um colega da terapia de grupo sugere um tratamento alternativo ele entra em contato e se inscreve no programa. Ao perceber que nada era o que aparentava ser, Kramer resolve usar mais uma vez usar seus artifícios e fazer justiça com as próprias mãos. Uma franquia que chega ao seu décimo produto se confia em pelo menos dois fatores para continuar existindo: fórmula e público. E Jogos Mortais tem os dois muito bem definidos. Desde o sucesso do primeiro filme de James Wan em 2004 que a série de longas-metragens se tornou bastante cultuada no mundo todo pelos fãs do gênero que amam ver sangue jorrando das formas mais criativas possível. E depois de dar rosto, motivação, início e fim à lúdica mente por trás das absurdas motivações, o décimo longa chega como um flashback para fazer o que sabe de melhor, requentar sua fórmula e agradar seus fiéis espectadores. O primeiro ato é onde a produção se distingue das anteriores. Mais sóbria, focada em diálogos e sem apelos visuais carniceiros, ele busca carga emocional que conduza as ações dos atos seguintes e que justifique os roteiros do segundo filme em diante. Mas até mesmo essa parte inicial é carregada de vícios em sua execução, vícios esses que, honestamente, até ajudam a construir a ambientação temporal da história; ele se assemelha bem às produções hollywoodianas do início dos anos 2000 – inclusive videoclipes musicais – com o uso de filtros azulados para momentos mais introspectivos, filtros amarelados para cenas no México e filtros vermelhos nos pontos de tensão atenuada. Foto: divulgação Daí pra frente é exatamente o que se espera de uma gama de filmes que chegou sua décima edição – dadas a suas devidas proporções. Aqui no caso, é muito sangue, muita tortura, muita câmera frenética e algumas reviravoltas que deveriam chocar, mas que a essa altura do campeonato onde já se viu de um tudo não têm tanto impacto (ainda mais quando se sabe o exato futuro das tramas dos personagens já conhecidos). Quanto aos novos personagens, vamos ser sinceros, quem se importa? Uma vez que se sabe que eles vão morrer aqui ou alhures eventualmente, o que atrai a atenção (infelizmente) é ver como isso vai acontecer. Depois de um spin-off – Espiral: O Legado de Jogos Mortais (2021) – interessante e até inventivo em se tratando dos moldes já citados, esse traz de volta todo o espalhafato que a audiência estava acostumada e, mais uma vez, vai agradar a quem já gosta e ser indiferente para quem já superou. Nota: 3/5
- Crítica | Na Mira do Júri (1ª temporada)
Experimento coloca à prova os limites de subgêneros da comédia Foto: divulgação A série mostra um grupo de júri num julgamento dos EUA onde tudo é falso e encenado, apenas uma pessoa não sabe disso, o protagonista Ronald Gladden. Juiz, júri, policiais, acusação, defesa e todo o restante das pessoas que aparecem em frente às câmeras são atores. Ronald se inscreveu num site que buscava pessoas dispostas a participar como júri popular num caso que seria documentado para mostrar o dia-a-dia e o processo de um júri popular, além disso esse seria o último julgamento do juiz Alan Rosen (Alan Barinholtz). O programa desenvolvido pelos produtores de The Office – série que popularizou o gênero mockmentary (documentário falso) – tem muitos eixos ao seu favor, começando pelo protagonista até então anônimo. Ronald é carisma puro e duvido bastante que o resultado positivo da série teria se mantido se outra pessoa tomasse seu lugar. Ele é paciente, bom ouvinte, dialoga, ajuda a dar andamento ao roteiro e desenvolve muito bem em cena. O segundo ponto positivo é a estrutura do texto que pensou em quase todas as possibilidades que pudesse comprometer as decorrências. ] O roteiro, apesar de pré-elaborado e ensaiado, teve que se moldar à Ronald e as vezes fazer com que ele se curvasse ao o que havia sido escrito, o que leva ao outro trunfo, o afiado elenco. Formado por nomes até então desconhecidos para as principais lentes de Hollywood e para o público – e precisava ser assim para que o anônimo protagonista não reconhecesse quem quer que fosse. O único nome que ganhou destaque era o do ator James Marsden, que interpreta uma versão exagerada, exibida e as vezes caricata demais de si mesmo. Foto: divulgação Mas como todo experimento, nem tudo são acertos, e existem também um grupo de fatores que impediram a produção de brilhar ainda mais. O primeiro é a curta duração dos episódios e/ou pouca quantidade deles. No último episódio toda a verdade é revelada a Ronald e ele vê junto com o elenco os bastidores da produção, onde também mostram algumas cenas inéditas que ficaram de fora do corte final. São dias de material gravado e por vezes o foco no júri é necessário (por mais que fique repetitivo algumas vezes), mas a quantidade de personagens e subtramas fica com a continuidade truncada em certos momentos. É uma série de comédia, então algumas situações fogem propositalmente do plano real das ideias, mas quando se tem um elemento alheio à tudo alguns limites precisam ser desenhados, e mesmo com esses limites Ronald chegou a questionar a execução de algumas escolhas. Mas, retomando a sagacidade do roteiro, o contexto justificando o confinamento, as câmeras, os microfones e os depoimentos ajudavam a dispersar, ou pelo menos aplacar, parte das desconfianças. Deixando de lado os trâmites e burocracias jurídicas que realmente não são da minha alçada, mas que claramente recebe algumas alfinetadas dos roteiristas, a maior vitória de Na Mira do Júri é brincar com as linguagens e testar suas estruturas e fronteiras narrativas. A manipulação de um conteúdo em detrimento da existência de outro fazem do produto um dos exemplos de originalidade estruturados a partir de propostas conhecidas que ao mesmo tempo que se impõe como referência torna difícil uma continuação e derivação, pelo menos para minha limitada mente criativa. Entre erros e acertos o saldo consegue surpreender e empolgar. Nota: 4/5
- Crítica | Fundação (2ª temporada)
O épico de ficção científica do AppleTV+ finalmente encontra seu tom e sua grandeza Foto: divulgação Por décadas, a saga literária Fundação, de Isaac Asimov, foi considerada infilmável. Não era para menos: a vastidão do seu escopo, abrangendo milhares de anos e um sem-número de personagens e planetas, desafiava as possibilidades de uma adaptação. Mas eis que a AppleTV abraçou o desafio e transformou a saga numa série de TV capitaneada por nomes de peso como Jared Harris e Lee Pace e que dispunha de um orçamento astronômico. Infelizmente, apesar de vários méritos em sua primeira temporada, Fundação acabou comprovando o ponto dos livros serem considerados infilmáveis, com seus problemas de ritmo e falta de desenvolvimento adequado aos personagens — numa espécie de ironia, visto que a obra original nunca teve como proposta desenvolvê-los diante do escopo que assumia. Fui para a segunda temporada com expectativas baixas, mas surpreendentemente o que encontrei foi uma série que pareceu ter aprendido com seus erros e que, mesmo estando longe de ser perfeita, cresceu muito de um ano para o outro. Se passando quase 140 anos após os eventos da primeira temporada, aqui temos uma Fundação mais desenvolvida no planeta Terminus, ao ponto de haver um culto a Hari Seldon (Jared Harris) liderado pelo Clárigo Poly Verisof (Kulvinder Ghir) e sua pupila, Brother Constant (Isabella Laughland). Enquanto isso, o Império Galáctico segue cada vez mais decadente, agora sob a tutela do degenerado e tirânico Cleon XIII/Brother Day (Lee Pace), que deseja se casar com a rainha Sareth (Ella Rae-Smith) e extinguir a Dinastia Genética, para desgosto dos seus irmãos/clones, Brother Dawn (Cassian Bilton) e Brother Dusk (Terrence Mann) e da sua guardiã, a robô Demerzel (Laura Birn). Em meio a isso, ainda há Gaal Dornick (Lou Lloubell) e sua filha Salvor Hardin (Leah Harvey), que após os últimos 140 anos em estado suspenso, se juntam a uma versão misteriosamente ressuscitada de Hari em uma jornada que os leva a um planeta suspeito onde podem criar uma nova Fundação. Parece muita coisa — e é —, mas um dos grandes méritos dessa temporada é em como ela consegue sustentar bem esses arcos principais e suas ramificações sem se perder ou evidenciar uma discrepância de qualidade entre eles, como acontecia na primeira temporada (onde o arco da Dinastia Genética era superior em todos os aspectos ao de Terminus, sendo uma criação original da série!). É bem verdade que o núcleo de Gaal, Salvor e Hari nunca empolga tanto quanto os outros e parece totalmente deslocado, soando mais uma transição para os eventos vindouros da série, mas já é uma melhora substancial em relação a tudo que vimos destes personagens (especialmente Gaal e Salvor) na primeira temporada. Além do mais, a forma como a série nos traz Hari de volta não só é curiosa, mas também satisfatória, nos permitindo apreciar mais dos talentos de Jared Harris, que tem a oportunidade de compor várias versões e nuances do personagem. Foto: divulgação Se o salto temporal considerável pode nos deixar perdidos, a série corajosamente evita um maior didatismo para além do necessário, mesmo que nos proporcione sequências de flashbacks, como as origens de Hari, Demerzel e até da Dinastia Genética. Mas um dos maiores acertos da temporada é em como ela organicamente integra os personagens que restaram do ano anterior aos recém-chegados, muitos dos quais são tão interessantes que é até triste saber que não veremos mais de parte deles na próxima temporada, visto que há um novo salto temporal ao final dessa (e isso não é um spoiler, já que se trata de algo herdado do escopo dos livros). Destaco aqui o carismático e malandro Hober Mallow (Dimitri Leonidas), o general Bel Riose (Ben Daniels entregando talvez minha performance favorita da temporada) e seu marido Glawen (Dino Fletscher), além da já referida Constant. Já outras performances, como a de Ella Era-Smith ou a de Rachel House como Tellen Bond, me incomodaram um tanto pelos maneirismos (no caso da primeira) e tratamento dado pela direção (no caso da segunda), mas são críticas menores diante da força do elenco num geral. E, se foco muito nos personagens da série, é porque se trata de uma escolha deliberada dela enquanto adaptação, distanciando-a ainda mais dos livros. Muitos leitores criticaram as mudanças feitas pela série já em sua primeira temporada em relação ao material original, mas a meu ver era inviável buscar fidelidade numa obra tão abrangente e vasta. Elementos retirados da fonte estão aqui — os Mentálicos, a Segunda Fundação, os prenúncios da Mula, etc. —, mas Fundação é melhor apreciada quando se entende que um a adaptação não precisa ser fiel para ser boa. É bem verdade que esse foco maior nos personagens acaba subjugando um tanto do ritmo da temporada, especialmente em seu miolo. Mas a forma como o roteiro costura as diferentes tramas para culminar num final apoteótico e agridoce é magistral, e prova disso é o aterrador clímax trazido no penúltimo episódio, que me fez rememorar os bons anos de Game of Thrones e seus nonos episódios memoráveis. A segunda temporada de Fundação ainda não soluciona todos os problemas da série, mas é um tremendo salto de qualidade em relação à primeira. Conjugando a escala épica dessa narrativa — evidenciada pelos altos valores de produção, a belíssima fotografia e o CGI superior a 99% dos blockbusters atuais — e um olhar íntimo aos seus personagens e a forma como eles podem alterar a (psico)história, a temporada garante que a série não apenas encontre seu tom, mas também a grandeza devida a uma obra desse escopo e ambição, e me deixa particularmente ansioso para os eventos futuros. Que venha o próximo estágio da Fundação! Nota: 4/5
- Crítica | O Conde
Sátira sobre Pinochet se fortalece, se diverte e também se perde em sua própria diegese Foto: divulgação Na comédia cheia de ironia, o ditador Augusto Pinochet é, na verdade, um vampiro com mais de 200 anos que se refugiou no Chile com a intenção de estabelecer seu próprio império. No entanto, o sanguinário líder parece estar cansado e sem propósito, e finalmente quer dar um fim a sua vida cheia de glórias e também de derrotas. Ele resolve reunir sua família uma última vez para revelar alguns segredos e apontar direcionamentos para o futuro de seus descendentes. Pablo Larraín é, para mim, um dos diretores mais refinados – no sentido de elegância mesmo – da atualidade. Sua câmera firme, seus planos bem desenhados e seus enquadramentos bem compostos sempre constroem resultados com uma linguagem visual que imprime requinte e bom gosto. E em O Conde os usos do preto e branco, aplicado de maneira brilhante pelo primoroso Edward Lachman e aliado a uma direção de arte bem detalhada e cheia de texturas, dão um aspecto frio, rígido, tenso, mas não menos apurado. Mas toda essa sofisticação fica apenas na plasticidade porque o roteiro é um escracho. No melhor e no pior sentido. A alegoria de um ditador sanguessuga não é tão difícil de entender, sejamos honestos, mas o roteiro faz questão de toda hora ficar lembrando que aquilo é uma metáfora com exemplos políticos generalistas e piadocas já conhecidas. É uma sátira, tudo isso está autorizado, mas o problema vem quando o texto tenta ser mais esperto do que realmente é e começa a ser redundante e óbvio. Sem spoilers, mas existe uma narradora que só aparece ao final e que é talvez uma das maiores e melhores piadas, mas sua participação é tão desnecessária comparada ao que fora construído no primeiro e no segundo ato que ela se torna deslocada. A esposa e os filhos de Pinochet são o que de fato funcionou sem exageros e sem firulas. A gananciosa esposa almeja se tornar vampira e os gananciosos filhos almejam a herança do pai que nunca morre; a sede deles por poder (e por sangue) a qualquer custo é o viés que valida todas as ironias do filme. Foto: divulgação Larraín é criativo no filmar vidas de personalidades, e esse se pode ver que é um dos projetos mais apaixonados e caprichosos do diretor, e não digo isso num sentido romântico, mas num sentido visceral mesmo. Ele alfineta da hipocrisia religiosa que anda de mãos dadas com os 7 pecados capitais até o imperialismo do “primeiro mundo” com um rancor (e uma vontade) de anos, que foi maturando e ganhando forma até culminar na representação vampiresca de uma das figuras mais abjetas da história da América Latina. Deixando de lado as ideias um tanto reducionistas dos causos da política, ou mesmo não tendo qualquer conhecimento do contexto histórico daqueles personagens, ainda assim é um produto bem construído, bem desenvolvido e com todos os demais traços necessários para se tornar um clássico eventualmente. Nota: 4/5
- Crítica | Gran Turismo - De Jogador a Corredor
Com belas cenas de corrida, o filme começa devagar, mas quando engata, não para mais Foto: divulgação Faz um bom tempo que não jogo Gran Turismo, mas fiquei curioso pelo filme logo de início porque não sabia o que esperar dele. Então, manter as expectativas baixas foi a chave para me surpreender positivamente com o longa. Eu diria que, pelo menos, a primeira meia hora dele é um tanto arrastada porque na construção da base temos uma sucessão de clichês que não empolgam em nada. É tudo tão previsível que foi impossível não revirar o olho em determinadas cenas. No entanto, depois de um dado momento, o longa toma forma e consegue justificar sua existência. Nem de longe é uma revolução pro gênero, mas consegue ter alma e personalidade. Baseado na história real de Jann Mardenborough, aqui interpretado por Archie Madekwe, a trama mostra como ele era um hábil jogador de Gran Turismo e conseguiu se tornar um corredor profissional através de uma competição idealizada por Danny Moore (Orlando Bloom), executivo de marketing da Nissan. Moore contrata o engenheiro e ex-corredor Jack Salter (David Harbour) para dar forma ao projeto e treinar os jogadores. Salter e Jann têm uma relação conturbada a princípio, mas pasmem, ele torna-se seu mentor depois. Madekwe foi uma escalação certeira do elenco, porque ele tem a jovialidade e a ingenuidade que o personagem pede. Aquele fascínio genuíno pelas vitórias é o que faz também a gente torcer por ele. Harbour segue a linha do “treinador durão de bom coração” e mostra que sabe ir além do clichê, dando um grau de complexidade maior ao seu Jack Salter e nos faz pensar que tem um ser humano ali. Assim como Djimon Hounsou, que faz o pai de Jann, e mesmo com uma participação não tão grande, consegue se destacar e emocionar, e Geri Halliwell, aqui como a mãe do protagonista, também não fica atrás. No entanto, quem está uns dois tons acima do que deveria é Orlando Bloom, em uma performance extremamente caricata. Produzido pela própria PlayStation, é óbvio que é quase uma carta de amor à empresa, mas com a direção do sul-africano Neill Blomkamp (Distrito 9), o longa consegue ir um pouco além. Gosto muito de como usa a tecnologia a seu favor, mesmo que seja um tanto redundante, em cenas como as que Jann ainda está jogando no seu quarto, onde o seu controle em forma de volante, vai se transformando em um carro, por exemplo. Porém, o destaque maior fica para como Blomkamp dirige as impressionantes sequências de corrida, com uma visualização rápida e aérea que desperta sensações intensas com a câmera sempre em movimento. Mas não mais intensa como a fantástica cena do acidente de Jann, que é realmente incrível de se assistir. Fonte: divulgação Mesmo que demore um pouco a engatar, quando coloca o pé no acelerador, não para mais. Há filmes que têm como foco a corrida, que são, de fato, melhores, como Rush de Ron Howard ou Ford vs. Ferrari de James Mangold, que possuem narrativas mais complexas, mas como entretenimento “pipocão”, Gran Turismo não fica tão atrás deles. A jornada de superação do herói, que se consagra na famosa corrida de 24 horas de Le Mans é a cereja do bolo, e a cada ultrapassagem, eu vibrava um pouco na cadeira do cinema, confesso. Propositalmente não procurei saber da história real de Mardenborough para que prevalecesse o fator surpresa, então não sei se o filme se atém aos fatos. Não importaria se eu soubesse, porque segue uma linha bem previsível, mas isso não tira seu mérito e de como é possível aproveitar o longa, principalmente para fãs do gênero esportivo, como este que vos fala. Nota: 3/5
- Crítica | Cangaço Novo (1ª temporada)
Quando o sertão e o faroeste se unem Foto: divulgação Sob muitos aspectos, Cangaço Novo remonta a um subgênero muito particular do audiovisual brasileiro: o nordestern, ou “faroeste nordestino”, que une os tropos deste gênero tão estadunidense com os aspectos identitários do sertão do Nordeste. Saem os caubóis, xerifes e barões do petróleo, entram os cangaceiros, delegados e coronéis, além da inclusão de outros elementos particulares, como o messianismo, a vida no semiárido, a música “regional” e etc. A série nos apresenta a Ubaldo (Allan Souza Lima), que cresceu em São Paulo com seu pai adotivo e tem quase nenhuma lembrança de sua infância. Diante do quadro crítico de saúde do pai e sem nenhuma perspectiva de futuro após perder o emprego, Ubaldo descobre possuir uma herança misteriosa no interior do Ceará e para lá viaja. É quando ele descobre não apenas que é filho biológico de um lendário bandido da região, Amaro Vaqueiro (também interpretado por Allan Souza Lima), mas que possui duas irmãs: Dinorah (Alice Carvalho), que sucedeu ao pai em seu bando nos assaltos pela região, e Dilvânia (Thainá Duarte), que junto à tia Zeza (Marcélia Cartaxo) lidera um culto religioso a Amaro. O arco de Ubaldo não foge à chamada “jornada do herói” vista em tantas obras, especialmente na fantasia e na ficção científica. Sua gradual atração para o legado e herança de Amaro remonta ao que vemos acontecer com Michael Corleone na trilogia do O Poderoso Chefão, enquanto os aspectos mais mí(s)ticos parecem emprestados da trajetória de Luke Skywalker em Star Wars. Ainda que o roteiro tome certos atalhos e abuse de algumas conveniências para fazer o protagonista atender a esse chamado de ser o “escolhido” para suceder o pai, a força da atuação de Allan nos vende acertadamente esse arco, conforme vemos os diversos conflitos e a ambiguidade moral que cerca o personagem. Essa ambiguidade moral, aliás, cai bem numa série que se propõe a “atualizar” o mito do cangaço. Em nenhum lugar isso é tão bem apresentado quanto na performance de Alice Carvalho como Dinorah. A atriz rouba a cena cada vez que aparece; se de início a personagem parece a típica “muié macho sim senhor” de uma nota só que integra o bando apenas por ser uma mulher masculinizada, a cada episódio vemos novas nuances que só existem graças ao talento de Alice. Fonte: divulgação Da mesma forma, a série inicialmente se apresenta como uma obra de ação, calcada em sequências violentas e tensas de roubos a bancos (magistralmente filmadas pelos diretores Fábio Mendonça e Aly Muritiba). Contudo, não demora para ela desenhar um cenário mais complexo, atravessado pelas disputas políticas e de sangue entre os Vaqueiro e seus rivais, os Maleiros, os quais são personificados na figura do prefeito Gastão (Bruno Bellarmino, que parece um Milhem Cortaz mais jovem) e seu pai, o ex-senador Diocleciano (Luiz Carlos Vasconcelos). A inserção desse núcleo político cai um pouco de paraquedas na história (bem como a introdução de Hermila Guedes como Leinneane Leite, uma velha aliada dos Vaqueiro), mas não tarda a se integrar organicamente à narrativa, inclusive através dos estonteantes flashbacks fotografados em preto-e-branco. É nítida a crescente de qualidade a partir da segunda metade da temporada, que adota um jogo de causas e consequências cada vez mais trágico para todos os envolvidos, enquanto os elementos temáticos do nordestern — a corrupção (especialmente moral), os jogos políticos, a violência nua e crua, a geografia do sertão e tanto mais — são postos em cena. Pelo bem ou pelo mal, Cangaço Novo ainda remonta a esse Nordeste histórico alimentado através de tantas fontes (em especial o cinema) e, mesmo situando sua trama nos dias atuais, não perde de vista os tropos, clichês e estereótipos alimentados a respeito da região. Certamente ganhará pontos pelo esforço e atenção às representatividades (o elenco majoritariamente nordestino, as gravações in loco, a culinária e especificidades locais e regionais), mas pouco esforço faz para reverter a impressão desse Nordeste preso no tempo (apesar das mudanças tecnológicas e culturais) e brutalizado. Nesse Nordeste, seus habitantes locais são quase uma espécie de “bons selvagens” que precisam do homem civilizado, em particular o de São Paulo (Ubaldo), para lhes ensinar o necessário, ainda que esse homem civilizado reencontre a brutalidade dentro de si por ser da região. A própria ideia desses homens e mulheres cangaceiros é pouco perceptível do âmbito formal, sendo necessário recorrer a um discurso mais mastigado e didático (como na sequência de alucinação de Dinorah com Lampião e Maria Bonita no sexto episódio). Onde a série verdadeiramente se destaca é nos seus excepcionais valores de produção, que tornam esse mundo tão vivo e palpável para nós — e sei que para muitos amigos nordestinos, especialmente os que cresceram nos sertões e interiores da região, há uma sensação de proximidade ainda maior. A trilha sonora, que traz nomes como Maria Bethânia, Milton Nascimento, Erasmo Carlos, Fagner, Jards Macalé, BaianaSystem e mais, é outro grande acerto, intensificando o teor emocional de diversas cenas, como os finais do quinto e oitavo episódios (a meu ver os dois pontos altos da série). E as sequências de ação — sejam os assaltos aos bancos, tiroteios e combates corporais — não deixam nada a desejar às produções estrangeiras, impactando-nos pela crueza e visceralidade, sem apelar a excessos, o que casa perfeitamente com o tom adotado pela obra. É compreensível e justificada a aclamação que Cangaço Novo vem recebendo, levando em conta a invisibilidade que nossas séries nacionais possuem em relação às estrangeiras que consumimos. A série não é isenta de suas falhas — e como um pesquisador interessado em discussões acerca das representações do Nordeste, tenho meus incômodos com a perpetuação de certos estereótipos, ainda que a origem destes seja extrafílmica. Mas a potência dessa série é algo para ser reconhecido e valorizado, mostrando como possuímos obras tão valorosas em nosso cenário audiovisual e como o nordestern não é apenas algo totalmente nosso (numa verdadeira lição de antropofagia), como está mais vivo do que nunca. Nota: 4/5
- Crítica | Nosso Sonho
Cinebiografia cativa e emociona com atuações marcantes e direção justa Foto: divulgação A produção dirigida por Eduardo Albergaria narra a história da famosa dupla de cantores brasileiros Claudinho e Buchecha (interpretados por Lucas Penteado e Juan Paiva respectivamente), sob a perspectiva de Buchecha. Desde a amizade na infância, passando pelo reencontro na juventude, a ideia de virarem músicos e até a trágica morte de Claudinho, o filme passeia pelos melhores e piores momentos da vida de Buchecha mostrando como de uma direta ou indiretamente seu destino estava ligado ao de Claudinho. Eduardo Albergaria conseguiu ao mesmo filmar uma história cativante e com uma boa cadência, mesmo que não arriscando muito. O longa se equilibra muito bem entra a corda bamba que desestrutura muitas cinebiografias: de um lado, contar uma história higienista demais sem qualquer mácula ou deslize, e do outro explorar situações desagradáveis para intensificar o drama. A direção cria momentos de leveza sem tirar o pé da realidade e momentos mais densos sem apelar pra conteúdos muito gráficos verbal ou visualmente. O par de atores principais brilha muito em cena, na atuação, no canto, na dança e no carisma. Lucas Penteado e Juan Paiva são responsáveis por sustentarem o ritmo do filme mesmo quando o texto não é tão favorável a eles. Não tenho como deixar de falar sempre que eu puder da força da natureza que é o talento da atriz Tatiana Tibúrcio, mesmo com pouco tempo em cena ela consegue atrair a atenção e o sentimento do espectador com voracidade. Foto: divulgação É compreensível o anseio (e talvez a angústia) dos roteiristas de uma cinebiografia em querer contemplar a maior gama de tópicos possível e contextualizar tudo que puder e talvez essa seja a maior questão aqui: a falta de um direcionamento diferencial no roteiro, uma perspectiva centrada num ponto específico que não faça com que o texto pincele vários assuntos e não se aprofunda em nenhum deles, o que acontece aqui. Em Spencer (2021), por exemplo, o roteiro de Steven Knight conta muito da vida da princesa Diana mesmo se passando num final de semana; e em Elvis (2022), tivemos a história do famoso cantor contada sob um ponto de vista vilanesco do produtor Coronel Tom Parker. O foco de Nosso Sonho é a amizade da dupla? Inicialmente sim. Depois se torna as questões familiares, depois muda para a carreira musical. É exatamente o que se espera (o que não necessariamente é um ponto fraco), mas deixa passar a oportunidade de criar um enredo com um viés único e distinto do que já existe e já se sabe. A falta de riscos, tanto no roteiro quanto na direção, evita erros, mas faz com que o resultado não vá mais longe do que ele mira. Nosso Sonho é um filme de amadurecimento, não só das crianças que se tornaram os famosos Claudinho e Buchecha, mas do funk com um gênero reconhecido e admirado no Brasil e no mundo. A história da dupla está intrinsecamente ligada às histórias dos bailes funk dos anos 90 no Rio de Janeiro, onde o ritmo se encorpou e se fortaleceu para começar a ganhar espaço além de seu território original, tocando em rádios, programas de televisão de alcance nacional, e o longa não deixa de dar os devidos créditos. Se não por tudo o que foi dito, o longa é válido por ser uma oportunidade para apresentar para uma nova geração que conhece a ascensão de artistas e semi-artistas como o resultado meteórico de postagens pagas nos mais diversos canais da internet, como influentes nomes do passado que abriram portas para a popularização de todo um movimento cultural batalharam, se esforçaram e prosperaram num contexto social bem diferente do que se tem hoje. Nota: 4/5












