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- Crítica | Depois da Festa (Temporada 2)
Série perde um pouco do seu frescor neste novo ano, mas mantém a consistência Foto: Divulgação No papel, a premissa de Depois da Festa é boa demais para se ignorar: um whodunnit onde cada episódio segue o ponto de vista de um dos suspeitos, mas sob as lentes de um gênero/tropo cinematográfico diferente: comédia romântica, suspense, animação, ação, etc. Felizmente, a inventividade da premissa foi sustentada por um elenco carismático e o uso de um timing cômico certeiro para atravessar toda a história. Em sua segunda temporada, a série adota um formato semi-antológico, resgatando apenas alguns dos personagens da temporada anterior — o casal Aniq (Sam Richardson) e Zoë (Zoë Chao) e a detetive Danner (Tiffany Haddish) —, enquanto todo o restante do elenco é composto de recém-chegados (ainda que haja algumas deliciosas participações especiais do elenco da primeira temporada). Há um novo mistério também: desta vez, o assassinato do bilionário Edgar (Zach Woods) logo após seu casamento com Grace (Poppy Liu), irmã de Zoë. Em seu âmago, entretanto, Depois da Festa segue a mesma estrutura, dessa vez trazendo Aniq e Danner colaborando juntos para extrair os relatos dos suspeitos, que incluem os pais de Grace e Zoë (interpretados por Ken Jeong e Vivian Wu), seu aventureiro e distante tio Ulysses (John Cho), o ex-namorado de Grace, Travis (Paul Walter Hauser), a fria mãe de Edgar, Isabel (Elizbeth Perkins), sua irmã adotiva Hannah (Anna Konkle) e seu melhor amigo e padrinho Sebastian (Jack Whitehall). A leva de novos personagens, significativamente maior que a da primeira temporada, levou também a um aumento de episódios, de 8 para 10 aqui. Sinto, porém, que o maior número de episódios acabou acarretando em um ritmo um tanto mais irregular; é possível sentir uma espécie de barriga lá pelo meio da temporada, a qual felizmente é compensada pela ótima reta final. Além do mais, onde os episódios da primeira temporada se centravam nos eventos diretamente ligados ao assassinato em questão, aqui os roteiros nos levam a lugares muito mais distantes das vidas desses personagens, o que faz alguns episódios parecerem um tanto inchados com a quantidade de informações trazidas. Foto: Divulgação A série aqui também parece afrouxar suas definições de “gênero cinematográfico” para comportar uma definição mais abrangente que incluem estilos e assinaturas de cineastas em específicos. Isso é mais evidente ainda no quarto episódio, focado em Hannah, que traz uma estética e linguagem diretamente tiradas dos filmes de Wes Anderson. Isso não chega a ser um problema em si, mas dá a estranha impressão de que a série já gastou sua premissa cedo demais, sendo que há outros episódios na temporada que demonstram a sagacidade dos seus criadores em reler e subverter os tropos e gêneros cinematográficos adotados. Por exemplo, o terceiro episódio, focado em Travis, abraça as convenções do gênero noir, enquanto o penúltimo episódio, dedicado a Isabel, se fia o melodrama Technicolor dos anos 50. Ambos os episódios incorporam as possibilidades de cada um dos gêneros sem nunca, no entanto, se levar a sério demais ou se perder nos meandros deles, já que Depois da Festa é acima de tudo uma comédia, e uma comédia das boas. Assim como na primeira temporada, muito disso vem do mérito do elenco. Ainda que a gama de novos personagens não deixem uma marca tão impressiva quanto os da primeira temporada, é inegável os talentos cômicos de nomes como Walter Hauser, Perkins, Jeong e Cho. Além disso, a química do trio que retorna do ano anterior é simplesmente indefectível, tanto no aspecto romântico de Richardson e Chao quanto na parceria buddy cop de Richardson com Haddish. Mas a verdadeira arma secreta da temporada é talvez Woods, que tem a oportunidade de apresentar diferentes lados de seu Edgar a cada episódio conforme acompanhamos os diferentes relatos dos personagens. O segundo ano de Depois da Festa pode não ter o frescor e a inventividade do primeiro, mas continua a consolidar a série como uma das melhores joias do catálogo da AppleTV e uma das comédias mais subestimadas da atualidade. Com um gancho final que expande ainda mais a metalinguagem e intertextualidade da série, só posso torcer por uma terceira temporada que abrace ainda mais as possibilidades de novos gêneros cinematográficos. Nota: 3.5/5
- Crítica | One Piece (Temporada 1)
A adaptação do pirata que estica surpreende, apesar do receio dos fãs Foto: Divulgação A série do famoso pirata que se estica finalmente está entre nós, e como fã de longa data do anime, fico feliz em dizer que a produção da Netflix conseguiu superar as minhas expectativas, que estavam um pouco baixas considerando o histórico que temos de péssimas adaptações de anime, estabelecendo um novo padrão nesse tipo de adaptação. Primeiramente, falando sobre o elenco, todos os cinco protagonistas mantêm a essência dos personagens originais. Iñaki Godoy traz de maneira natural aquele jeito bobão e desleixado do Luffy, mas nos momentos de seriedade consegue transmitir a raiva e tensão do personagem de forma convincente. Já Mackenyu Arata é o retrato perfeito de Zoro, e mesmo que raramente o vejamos usar o famoso santoryu (Estilo Três Espadas), quando o faz, torna-se algo tão memorável que até esquecemos quão ineficaz é usar uma espada na boca na vida real. O Sanji de Taz Skylar não fica para trás. Apesar do arco do Baratie ser um pouco reduzido na adaptação, ainda é deixado claro as motivações do personagem e o seu passado terrível. Além disso, o jeito paquerador do personagem parece mais natural no live-action. Temos também Ussop, interpretado por Jacob Gibson, que consegue ser o personagem mais fiel à obra original, tanto em seu visual quanto em sua personalidade. Por fim, Emily Rudd como Nami foi, sem dúvida, o grande destaque da temporada. Tanto pelo fato do grande conflito da série girar em torno do seu arco, como pela atuação de Emily, que entrega o charme e a perspicácia da personagem de forma brilhante. O maior problema quando se trata de adaptar animes são os seus visuais únicos, que, apesar de serem épicos nas animações, também podem gerar uma certa estranheza quando são passados para um live action. E logo que a adaptação de One Piece foi anunciada, o meu maior medo era que eles não conseguissem recriar o mundo louco e único criado por Eiichiro Oda. Porém, logo no primeiro episódio, vemos esse universo fantástico ganhar vida; a série consegue recriar o clima do anime ao mesmo tempo em que gera aquela atmosfera que vemos em filmes de piratas tradicionais. O visual da série também é algo positivo; como mencionado anteriormente, ele consegue ser uma amálgama, trazendo o colorido do anime com um toque de seriedade das produções sobre piratas. Vemos personagens como Buggy, que é um exemplo perfeito disso. Apesar de manter o figurino e a maquiagem originais, ele possui um aspecto mais assustador, lembrando um pouco os palhaços de filmes de terror. E, por outro lado, temos o Mihawk que parece ter saudado diretamente do mangá para a tela. Foto: Divulgação Outro aspecto que se destaca em One Piece é a maneira como os cenários e os efeitos especiais conseguem capturar a magia do mundo de piratas de Oda, criando um ambiente rico em detalhes e repleto de cores vibrantes. No entanto, apesar de serem realistas, a produção opta muitas vezes por deixar as cenas de luta no escuro, um recurso utilizado para disfarçar os problemas com o CGI. Embora seja comum, isso acaba cansando um pouco devido ao número de vezes que é utilizado. Para os mais saudosistas, algumas mudanças feitas pela produção podem ser um problema. Por exemplo, na série da Netflix, vemos um destaque maior para Garp e Coby, que aparecem bastante na série e têm um arco bem diferente do que conhecemos. O herói da marinha se recusa a aceitar a vida de pirataria que seu neto decidiu seguir e tenta intervir a todo custo, enquanto Coby enfrenta a corrupção da Marinha de frente e não passa pelo mesmo arco de treinamento visto no mangá. Mesmo assim, vale ressaltar que embora ocorram algumas mudanças nos acontecimentos, isso não é necessariamente um ponto negativo, pois são mídias diferentes e, além disso, a produção está limitada pelo orçamento e pelo tempo. Em resumo, a adaptação de One Piece é uma verdadeira homenagem ao material de origem. Ela respeita a visão de Eiichiro Oda, que estava diretamente envolvido na produção, e consegue transmitir a emoção e a aventura que tornaram o anime tão único. Para os fãs de longa data e para aqueles que estão embarcando nessa jornada agora, esta série é uma jornada emocionante que vale a pena conferir. Nota: 4/5
- Crítica | A Freira 2
Mais um terror com traços de fantasia cheio de regrinhas para tapar seus buracos Foto: Divulgação Dando continuidade à história do primeiro filme, o novo longa se passa na França em 1956, onde mais um padre é assassinado misteriosamente, seguindo o rastro de outras mortes de sacerdotes católicos pela Europa. A irmã Irene (Taissa Farmiga), sobrevivente do massacre cometido pelo demônio Valak no monastério da Romênia anos antes, logo é chamada para pelas autoridades da Igreja para enfrentar o que parece ser o retorno da entidade infernal. Parece uma nova tendência no cinema de terror comercial que usam bastantes elementos aventurescos da fantasia para dar aspectos mais lúdicos para “o mal”. Não basta ser uma possessão, tem que ganhar superpoderes incontroláveis que um simples amarrado na cama ou um exorcismo não resolvem, tem que ter um duelo. Não basta uma forma de demônio, ele tem que vir como bode-lobisomem, como freira, como zumbi, etc. Ano passado, mesmo o cafona O Exorcista do Papa (2022) mostra o protagonista como um tipo de caçador de criaturas do que com um líder espiritual. James Wan nos dois primeiros Invovação do Mal esculpiu produções referência ao conseguir tratar possessões com uma, digamos, seriedade, onde os grandes exageros ficavam para o clímax do último exorcismo. Não coincidentemente A Freira 2 é dirigido por Michael Chaves, diretor de Invocação do Mal 3, o único dos filmes que trata a encarnação do mal mais como um monstro a ser derrubado na marra do que um ser sobrenatural que precisa de forma humana para se materializar. Se você também achou o primeiro uma bomba, esse é consegue aparar várias arestas e se apresenta de forma mais madura. A primeira metade faz até parecer que tudo se encaminhará para uma boa conclusão de um bom filme, mas durante a segunda metade ele joga tudo para cima e se entrega às mais inimagináveis contradições e aos mais conhecidos clichês para gerar grandes momentos. Foto: Divulgação O longa toma algumas liberdades para fazer uma confusão – que em sua mitologia parece fazer todo sentido – e mistura a história de Santa Luzia com relíquias sagradas e o demônio Calak, e o resultado soa mais como uma caça ao tesouro no estilo Dan Brown do que um filme de sustos. Mas sim, existem bons momentos de suspense e o diretor Chaves exibe algumas boas ideias para os momentos de susto, mas tal qual uma pessoa que quer fazer surpresa, mas não consegue se conter e fica soltando dicas e indiretas, ele precisa toda hora antecipar esses momentos com closes, com explosões sonoras e com mudança na iluminação, como se o prenúncio do susto fosse um alerta para quem porventura estivesse distraído. E a produção toda é sutil como um elefante. É tudo muito óbvio, muito na cara, muito explicado e muito simplório mesmo. Inclusive a resolução se dá através de uma sugestão de um personagem que aparece só pra isso, mas que expõem com detalhes o que está acontecendo e o que necessita ser feito para encerrar a celeuma. O espectador é tratado como a mais inocente das crianças que ainda não desenvolveu ao ponto de concluir que um mais um é dois. E não há qualquer uniformidade, qualquer padrão entre os filmes, entre os demônios, entre os santos, entre as relíquias e as vezes até mesmo entre a Igreja Católica. Cada acontecimento é regido por um conjunto de regras que vão tapar com pano fino os maiores buracos do roteiro. Não sou o maior entusiasta de terrores introspectivos e metafóricos que deixam lacunas para quem estiver assistindo completar com suas subjetividades, mas quando se tem completamente o oposto parece uma afronta direta à nossa inteligência e capacidade de compreensão do básico. Nota: 2/5
- Crítica | Swagger (Temporada 2)
Ainda melhor que a estreia, série retorna mais madura e centrada Foto: Divulgação É sempre um desafio, principalmente para uma série adolescente, depois de uma sólida temporada de estreia, retornar e manter a qualidade. Fico feliz em dizer que Swagger conseguiu o feito de se superar, mesmo que nem tudo seja perfeito. Retomamos alguns anos depois e Jace (Isaiah Hill) e seus amigos estão com uma vida totalmente diferente, já graças ao basquete. Eles jogam para o Mustangs de Cedar Cove, um colégio de elite. Dinheiro não é mais um problema e o que não falta são propostas de faculdades para os rapazes, que estão em seu último ano, e claro, Jace brilhando cada vez mais. No entanto, quando assuntos do passado ressurgem, tudo pode ir por água abaixo. Quando a temporada começa a desenhar essa trama, fiquei com um pé atrás, confesso. Outras séries do gênero já caíram na armadilha de querer abordar violência em suas diversas formas e falharam. Felizmente, os novos episódios conseguiram lidar com maturidade, respeitando a evolução dos personagens e tratando o assunto com a seriedade que ele merecia. Essa narrativa permeia a temporada toda, quando Jace, Phil (Solomon Irama), Drew (James Bingham), Musa (Caleel Harris) e Crystal (Quvenzhané Wallis) vêem seus futuros em jogo. Ressaltando o forte laço de amizade entre os garotos e também com o Treinador Ike (O’Shea Jackson), ainda serviu para reaproximar Jace e Crystal, que estavam afastados há um tempo. Foto: Divulgação É também com essa trama, que as limitações do elenco jovem ficam mais evidentes. Eles são bons quando estão em cenas rotineiras, mas quando alguma sequência, geralmente dramática, exige mais deles, é notório que há um esforço, porém nem todos conseguem transparecer a emoção que o momento pede. Com exceção de Caleel Harris, que segue firme e forte como o melhor deles. O que ameniza essa falta, digamos assim, é a química poderosa dos atores, com um entrosamento que funciona muito bem. Assim como a de Quvenzhané Wallis e Isaiah Hill, que ganharam um ótimo episódio focado na relação dos dois. Todavia, o episódio que merece mais destaque, que traz o que Swagger tem de melhor e onde ela pode se diferenciar mais das inúmeras séries adolescentes, é o 5º da temporada, chamado “Are We Free?”, que se passa em um centro de detenção juvenil, onde o time de Cedar Cove vai jogar uma partida amistosa. O seriado sempre teve muito a falar sobre o racismo, e é inegável como uma coisa se conecta a outra. Jace e companhia notam que se o esporte não tivesse mudado a vida deles, eles poderiam estar ali, e que infelizmente eles parecem exceção para uma regra. O ponto chave é quando eles reencontram um ex-colega de time que está lá e a conversa dele com o Treinador Ike é de partir qualquer coração, em uma das melhores horas do ano. A direção e o roteiro do episódio citado são realmente especiais, mas a temporada toda é muito bem desenvolvida em ambos os quesitos. Os jogos de basquete continuam muito bem dirigidos. Gosto como a câmara uma hora nos faz sentir que estamos dentro da quadra e outra que estamos na arquibancada. De qualquer forma, é impossível não vibrar com as vitórias ou sofrer com as derrotas. E é sobre isso que o último episódio fala tanto. É um belíssimo encerramento, que mostra que nem toda perda é o fim do caminho. Temos algumas cenas bem clichês, mas que não encaro como problema porque são bem feitas e emocionam bastante, e a sensação que o ciclo se fecha é iminente. Não há confirmação de uma 3ª temporada ainda, mas se tem uma coisa que eu aprendi com Swagger, é que sonhar não custa nada e pode mudar nossa vida. Nota: 4/5
- Crítica | A Chamada
Se balançar a filmografia do Liam Neeson caem pelo menos uns outros sete desses Foto: Divulgação Matt Turner (Liam Neeson) é um executivo que se prepara para levar os filhos na escola. Ao ligar o carro, ele recebe uma ligação anônima informando que há uma bomba embaixo do seu assento e que eles não poderão sair do carro ou descumprir quaisquer de suas ordens senão o carro explode. Deixando um rastro de incidentes por onde passa, Matt fará tudo que está em seu alcance para sair dessa situação e salvar sua família. Antes de qualquer coisa eu tiro o chapéu para Liam Neeson que aos 71 anos ainda trabalha em filmes de ação e é um dos principais nomes do gênero, porém o gênero vem evoluindo nos últimos anos de forma a intensificar experiências, seja em desdobramentos do roteiro ou seja explorando a construção da ação no sentido mais puro da palavra. Infelizmente insistem em dar papéis para Neeson em ‘filmes de pai’, filmes com estruturas engessadas e que parecem ter parado no tempo, onde o protagonista faz de tudo para salvar sua família de um conflito inesperado. E esse é exatamente só mais um. Foto: Divulgação Nada no longa é novo. Com 15 minutos você já sabe o que está acontecendo o que vai acontecer e como vai acontecer precisamente. Não há qualquer frescor, não há qualquer inventividade e não há qualquer motivo para esta produção ser marcante ou sequer relevante. O vilão, por assim dizer, é previsível, e o final é tão previsível que juro que consegui imaginar até mesmo o enquadramento de câmera antes de acontecer. É tudo bem genérico a ponto de se tornar chato. Eu sou daqueles que concorda que a ação pela ação – às vezes – é muito melhor do que um filme que luta para entregar um pretexto ou uma mensagem profunda, que tente validar sua existência – e que não consegue. E A Chamada se esforça demais ser emotivo e meloso para trazer um envolvimento do espectador com aquela história e com aquela família, mas falta liga em todo o processo. As histórias de fundo são entediantes e não apresenta qualquer embasamento para uma boa motivação. Liam Neeson já começa com aspecto de cansado, de desinteressado e todo o restante do elenco o acompanha nesse ritmo maçante de que aquele vai ser apenas mais um filme para todos eles. E sabe o que deixa tudo ainda mais baixo astral? É saber que esse é um remake de um longa espanhol (O Desconhecido, 2015) que certamente deve ser mais orgânico do que esta nova versão. Para não ser injusto, a segunda metade apresenta uns dois ou três bons momentos de tensão para presentear o espectador que conseguir chegar até lá. São tantos furos de roteiro, tantos parênteses não fechados, tantas perguntas sem respostas e tantas respostas sem motivo que por várias vezes parece apenas que estamos assistindo a uma propaganda de uma hora e meia de tal novíssimo carro da Mercedes-Benz. Complementando a frase que falei no início, na filmografia de Liam Neeson existem vários outros filmes semelhantes a esse, a diferença é que muitos deles são bons. Nota: 1/5
- Crítica | Tempos de Barbárie - Ato I: Terapia de Vingança
Surpreendente em sua trama, mas redundante em seus questionamentos Foto: Divulgação Com direção de Marcos Bernstein e tendo a brilhante Cláudia Abreu no papel principal, o thriller conta a história de Carla, uma advogada que sofre um assalto enquanto estava parada no trânsito e resulta por sua filha sendo baleada e ficando internada em estado grave. Ao ver que os caminhos legais não caminhavam na velocidade nem da forma que ela queria, Carla resolve fazer justiça com as próprias mãos e se insere numa espiral de violência que nem imagina como pode terminar ou como sair. O longa brasileiro é denso por natureza por tratar de alguns dos temas mais complexos de uma sociedade pós-moderna num país como o Brasil. A violência urbana é um assunto estrutural que – surpresa! – não vai se resolver da noite para o dia, não vai ser exterminado por um político com tendências teocráticas e nem por um pacote anticrime como foi proposto num dos mais toscos capítulos da nossa história recente. E por mais que a protagonista, tomada por uma dor compreensível, queira resolver pelo menos o seu problema causado pela violência, o filme não é reducionista e levanta várias questões pertinentes que colocam à prova o ‘olho por olho’. A Jaula (2022) foi outro thriller brasileiro que há pouco retratou os desdobramentos da violência reacionária, porém seu foco era mais na ação e pouco na reflexão e no aprofundamento das ideais. O trabalho de Bernstein, por outro lado, tem tempo de sobra pra ir e vir nas questões éticas, morais, particulares e sociais da reação imediata e impensada. Tanto tempo que não sai muito do canto nem se decide por uma resolução incisiva. E não é no sentido de deixar a conclusão ou o julgamento final daquele imbróglio nas mãos do público, faltou posicionamento no teor das decisões tomadas ao final, especificamente nos minutos finais, onde os momentos de clareza surgem repentinamente contrariando boa parte do que foi mostrado até ali. Foto: Divulgação E as temáticas complicadas não se resumem à violência cíclica, tem eutanásia no meio, tem machismo e tem corrupção. O filme tem tudo para ser travado e bruto demais para se atravessar ou mesmo para se aproveitar, mas a ação é trabalhada de maneira bem sagaz de forma que não o deixa ficar preso no marasmo e na espessura dos seus temas. O jogo de câmera ágil que pinta com os ângulos ajuda a dar dinamismo, e os cortes de cena são precisos sem deixar a edição picotada demais ou bagunçada demais. O uso de uma fotografia com alta saturação e baixa luminosidade colabora bastante com o aspecto noir que o roteiro busca alcançar. Cláudia Abreu e Júlia Lemmertz trabalham muito bem juntas e se equilibram uma na outra balanceando suas personagens que ora se completam, ora se repelem. No plano geral o enredo consegue surpreender e finalizar com um resultado positivo mais causado pelo visual e pelo ritmo do que tanto pelo refinamento do conteúdo. Nota: 3,5/5
- Crítica : Agente Stone
Filme feito para o algoritmo, falha no básico: entreter Foto: Divulgação Gal Gadot é Rachel Stone, uma hacker do MI6 que na verdade é uma agente infiltrada e trabalha para “A Carta”, uma agência global que opera nas sombras tentando garantir a paz mundial. Stone precisa impedir que outra hacker (Alia Bhatt) roube uma poderosa e valiosa arma. A premissa genérica reflete no filme, que apesar de trazer interessantes aparatos tecnológicos para os espiões brincarem e uma baita reviravolta ali pelo meio, não consegue fazer com que o longa se destaque em meio a avalanche de lançamentos semanais do streaming e ainda dura mais do que precisava. Duas horas não são muito tempo quando bem utilizadas pelo filme. Mesmo tendo cenas de lutas bem coreografadas e algumas não mais do que boas sequências de ação, a trama em si é tão vazia que não prende a atenção e a duração parece ser o dobro. A sensação constante é que alguém alguém já fez melhor em outro lugar. O texto é extremamente expositivo e recheado de frases prontas, sempre com um vilão explicando seu plano mirabolante. Como eu disse antes, há uma reviravolta que eu não consegui prever e essa cena é boa, o que poderia elevar o longa, mas nos leva a caminhos já conhecidos, sendo possível adivinhar até o que os personagens vão dizer. Foto: Divulgação Personagens esses que exalam o energia de uma porta. Longe de mim esperar que haja qualquer complexidade neles, mas eu gostaria de pelo menos torcer por algum, o que não foi o caso. Gal Gadot é linda e carismática, mas não é exatamente conhecida por seu talento. Não que o roteiro exigisse muito dela, mas a moça nunca esteve tão apática quanto aqui. Jamie Dornan segue o fluxo e está no automático. Alia Bahtt até tenta fazer algo com sua jovem Keya, mas não há muito para salvar. O resto do elenco está ali como um apoio descartável e são desperdiçados, assim como uma participação de uma grande atriz que devia estar precisando de alguma reforma em casa. Minhas expectativas eram baixas e eu queria só entretenimento. Infelizmente não achei. A direção falha em qualquer tentativa de criar uma tensão, e a criatividade e ousadia – com aquele pezinho no irreal – ficaram restritas a uma única sequência, assim como o fator surpresa existiu em apenas uma cena. O alívio cômico, que é sempre bem vindo no gênero está completamente ausente e eu não consegui esboçar um sorriso. Aliás, o único sorriso foi de alívio quando finalmente acabou. Agente Stone é um dos piores filmes do ano e aparentemente não queria ser mais do que isso. Nota: 2/5
- Crítica | Um Eterno Primeiro Encontro
Thriller utiliza conceito de terror social para contar história sobre abuso Foto: Divulgação Lançado na última semana no Star+, o longa Um Eterno Primeiro Encontro não fez tanto barulho nas redes sociais e teve uma estreia discreta no streaming. O thriller LGBTQIAPN+ é roteirizado por Allyson Morgan e dirigido por Kelley Kali e conta a história da jovem Billie (Maisie Richardson-Sellers) que é atormentada por apagões e visões estranhas que a levam a descobrir que está presa em uma série de loops temporais, relacionados à sua nova namorada misteriosa (Shannon Woodward). Usando da ficção científica para entregar uma história sobre abuso e relacionamentos abusivos, Um Eterno Primeiro Encontro causa uma forte reflexão sobre temáticas extremamente pesadas e sensíveis. Durante o decorrer das cenas, é notável como o nosso desconforto vai crescendo junto com a protagonista, e mesmo com a inserção de elementos sobrenaturais, o filme é um retrato bem fiel da dissociação mental que um relacionamento abusivo pode causar para justificar as ações do abusador para si mesmo e para o mundo. Foto: Divulgação Um ponto positivo, sem dúvidas, é a sua ambientação. O longa se passa na comunidade afro-caribenha Little Haiti, em Miami, dando um contexto ainda mais interessante na relação entre as duas protagonistas. Fazendo ainda mais sentido para a história, o uso da ancestralidade como justificativa para o lado sobrenatural do filme também traz uma inovação e provoca uma originalidade pouco vista em thrillers. Porém, Um Eterno Primeiro Encontro peca pela rapidez em algumas temáticas que poderiam ser mais exploradas caso o longa fosse um pouco maior. Com 1h28, as narrativas no longa parecem muito corridas e sem o aprofundamento necessário para o desenrolar da história. Mas, ainda sim, é um filme que surpreende. Lembrando um pouco Tic Tac - A Maternidade do Mal, outro longa lançado na Star+ neste ano, o filme Um Eterno Primeiro Encontro utiliza bem esse conceito de ‘terror social’ para transpor para as telas as nuances de viver em um relacionamento abusivo. Nota: 3/5
- Análise | Vale a pena ver uma série teen de 20 anos atrás (ou mais)?
Uma ode aos fenômenos adolescentes que marcaram a TV, mas que hoje podem ser vistos com outros olhos Foto: O.C.: Um Estranho no Paraíso/FOX Eu sou fã confesso do gênero, mas não lembro exatamente qual foi a primeira delas que vi. Provavelmente Malhação, que eu lembro de acompanhar. Porém, das norte-americanas, sei que O.C.: Um Estranho no Paraíso foi uma das, em uma manhã de domingo junto com One Tree Hill (Lances da Vida) ou Veronica Mars. No dia 5 de agosto, a série dos jovens ricos de Orange County completa 20 anos de sua estreia na FOX dos Estados Unidos, e na terça-feira, a HBO Max finalmente disponibilizou as 4 temporadas do seriado na íntegra. No entanto, com tantas opções, será que ainda vale a pena dedicar seu tempo a 4 temporadas, com 3 delas passando dos 24 episódios? Será que não envelheceu mal? São questionamentos comuns e pertinentes. É óbvio que uma série contemporânea é fruto da época em que se passa, seja na moda, tecnologia ou costumes e não à toa marcam gerações. A série adolescente mais antiga que eu vi foi The Wonder Years (Anos Incríveis). Estreou na rede ABC em 1988 e durante seis temporadas, abordava a vida de Kevin Arnold (Matthew Broderick), um garoto de 12 anos, sua família e seus amigos. Situada no final da década de 1960, e apesar da Guerra do Vietnã ser um tema recorrente, exalava inocência, pelo menos até as duas últimas temporadas onde Kevin já é um adolescente no colegial e começa a ter pensamentos mais avançados, digamos assim. É uma das melhores do gênero e sua importância é inegável, abordando temáticas importantes concernentes à idade de uma maneira sensível, embora peque pela falta de diversidade, um problema comum por muito mais tempo do que deveria. Em 1990, a FOX estreou Beverly Hills, 90210, popularmente conhecida como Barrados no Baile por aqui, virou uma febre que durou dez temporadas e sua influência é sentida até hoje. Muitos dos clichês que permeiam essas tramas, como os triângulos amorosos – como esquecer Brenda (Shannen Doherty), Dylan (Luke Perry) e Kelly (Jennie Garth)? –, o conflito de classes, paixões proibidas, problemas com álcool e drogas, virgindade e tantos outros que passaram do cinema para a televisão, com mais espaço para o desenvolvimento. Com 293 episódios, não faltaram tópicos trazidos à tona, mas de novo, refletem a época que foram ao ar, e é vendo ou revendo hoje que podemos analisar com um olhar mais crítico. Como por exemplo, em um determinado episódio, Kelly sofre uma tentativa de estupro em uma festa de Halloween e seus amigos a culpam pela fantasia sexy que usava. Com o olhar de hoje, sabemos que a culpa jamais será da roupa ou da vítima, mas o episódio deixa a impressão que a mensagem é “meninas, não usem uma roupa muito curta, veja só o que pode acontecer”. É fácil problematizar a série, mas prefiro analisar com a ótica corrente e só constatar que os personagens estavam errados. Esse é só um exemplo em meio a tantos. Há também séries que foram vítimas de seu tempo por serem à frente demais dele, como My So-Called Life, de 1994 e Freaks & Geeks, de 1999. Aclamadas pela crítica especializada, mas amargando baixa audiência, ambas foram canceladas em suas primeiras temporadas. MSCL era mais tradicional, mas tratava os assuntos de uma forma mais madura e com uma maior profundidade, além de trazer um personagem negro e gay com destaque, na pele de Rickie (Wilson Cruz). Já Freaks & Geeks trazia um humor mais crítico e um texto sarcástico sobre os questões da adolescência, com personagens cheios de carisma. Mesmo com uma vida curta, logo seus protagonistas viraram estrelas, Claire Danes, Jared Leto, Linda Cardellini, James Franco, Seth Rogen, Busy Philips e Jason Segel e as séries são cultuadas até hoje, por uma parcela do público, pelo menos. Em 1997 apareceu Buffy, A Caça Vampiros, baseada em um filme de pouco sucesso de 1992, brincava com o estereótipo da adolescente loira líder de torcida, que geralmente era a primeira a morrer em filmes de terror. Estudante de dia e caçadora de vampiros à noite, a personagem de Sarah Michelle Geller não hesitava quando o assunto era derrotar os seres do mal, porém na parte adolescente a história era outra. E é nesse equilíbrio entre os gêneros que o sucesso foi certeiro e sua influência se expandiu. Os efeitos especiais são datados, todavia o incômodo é somente no início. A trama vai se tornando cada vez mais envolvente e não é gratuito afirmar que Buffy, A Caça Vampiros é referência. Seja na parte do terror, como na dramática, os temas são universais. Cito como exemplo “The Body”, um episódio sobre o luto que é o melhor da televisão sobre o assunto. Os efeitos especiais aqui são o de menos. No ano seguinte, 1998, surge Dawson’s Creek, sem o elemento sobrenatural (com exceção de alguns especiais), focando em adolescentes questionadores e suas rotinas em uma cidadezinha. Famosa por seus textos longos e que possivelmente não seriam ditos por jovens, de início, tem uma boa 1ª temporada, mas deixa sua marca quando aborda a homossexualidade de Jack (Kerr Smith) e a bipolaridade de Andie (Meredith Monroe) no ano seguinte, temas até então pouco trabalhados no gênero. Foi a primeira série a exibir um beijo entre dois homens na televisão americana e não dá para ser lembrada só pelo triângulo amoroso de Dawson (James Van der Beek, Joey (Katie Holmes) e Pacey (Joshua Jackson). Como dizem os jovens, quebrou tabus. Claro, se vista hoje, há problematizações em certas vertentes, mas há de se louvar quem abriu algumas portas. Finalmente chegamos aos anos 2000, e há 20 anos estreava O.C.: Um Estranho No Paraíso. Dosando muito bem o humor e o drama, com um texto esperto e cheio de referências à cultura pop, mergulhávamos na vida de uma restrita comunidade riquíssima. Ryan (Ben Mackenzie), um pobre forasteiro adotado por uma família de lá, era nossos olhos e o estranho no paraíso (como dizia o título dado pelo SBT). Apesar do tom leve, questões mais pesadas tinham relevância como o abuso de álcool na juventude ou o problemático irmão de Ryan. Ousada para a época, hoje poderia ser vista como datada, mas não por este que vos fala. Ainda em 2003, pouco mais de um mês depois, estreava One Tree Hill (Lances da Vida). Comparada à Dawson’s Creek por se passar em uma pequena cidade, a série focava na relação conturbada dos meio-irmãos Nathan (James Lafferty) e Lucas (Chad Michael Murray) e na paixão dos dois pelo basquete. A problemática maior era como os bastidores refletiam na trama, principalmente no tratamento fetichista das personagens femininas dado pelo criador do programa, que anos depois foi denunciado por assédio pelas atrizes do elenco. Temos como exemplo Brooke (Sophia Bush), que sempre foi uma das mais queridas, mas de início era a típica vilã de uma nota só, que só falava em sexo, festas e bebidas. Conforme o tempo passa, ela ganha mais nuance e cai nas graças do público. É uma das minhas séries favoritas, e é sempre um prazer revê-la, mas é importante notar essas questões sabendo do que ocorria por trás das câmeras. Em 2004 chegava Veronica Mars, que mesclava o teen com uma investigação mais sombria. Também se passando em uma comunidade rica praiana, Veronica (Kristen Bell) é excluída quando algo acontece (sem spoilers) e agora investiga o assassinato de sua melhor amiga. Sarcástica e com diálogos ágeis, a série coloca mais uma protagonista forte e decidida, que, assim como Buffy, A Caça Vampiros, poderia ser lida como frágil por ser mais uma “loirinha”. O equilíbrio entre os gêneros funcionou perfeitamente, e mesmo com os típicos clichês, conseguiu surpreender em boa parte de suas três temporadas (com uma 4ª em 2018). Trazendo o futebol americano quase como um personagem, em 2006 estreava Friday Night Lights (Tudo Pela Vitória). Com um foco maior nos personagens masculinos, membros do time, colocou o racismo em discussão com Smash (Gaius Charles) e o fez de uma forma jamais apelativa, muito bem escrita e atuada, mesmo com um elenco majoritariamente branco. Em suas cinco temporadas retratou outras diversas temáticas importantes, e sempre muito bem, na maioria dos casos. Assim como os roteiristas, a gente finge que a 2ª temporada nunca existiu e aquela trama do assassinato, muito menos. Em 2007, baseada em uma série literária e co-adaptada pelo criador de The O.C., surgia Gossip Girl, mas dessa vez a vida dos jovens ricos era apresentada no Upper East Side, em Nova York, e narrada por uma fofoqueira anônima. Não falta o que problematizar na série, dos relacionamentos tóxicos, ao constante bullying proporcionado por Blair (Leighton Meester), Chuck (Ed Westick) e cia, mas não significa que são comportamentos a serem replicados. As intrigas que aconteciam o tempo todo e o texto cheio de acidez norteavam os episódios. É uma fuga da realidade, quase como uma fantasia, e esse é um dos motivos para que ela tenha ido parar no TOP 10 da Netflix assim que voltou para o catálogo. Todas as séries supracitadas sofriam com a falta de representatividade, seja de pessoas de cor ou pessoas LGBTQIAPN+ e as abordagens eram rasas, com algumas raras exceções que eu já mencionei acima. Por não gostar de musical, Glee nunca me apeteceu, mesmo eu tendo tentado até a metade de sua 1ª temporada. Porém, sua relevância no ponto de dar voz (com o perdão do trocadilho) à personagens que geralmente ficavam à margem, é inegável. Isso quer dizer que essas outras séries antigas não devem ser mais assistidas? De maneira alguma. O gênero está em constante mutação e adaptação e por isso eu fui trazendo exemplos desde 1988, porque uma influencia a outra, e assim como nossos pensamentos, elas também vão mudando. Por exemplo, em 2009 estreia The Vampire Diaries, que mesmo sendo baseada em livros, bebe muito da fonte de Buffy, A Caça Vampiros, assim como Teen Wolf também bebe de ambas. Há ótimas séries teens no ar, algumas mais aclamadas como Reservation Dogs, Sex Education, Heartstopper, Eu Nunca… ou até outros sucessos como Euphoria, Outer Banks e Elite, e foram influenciadas pelas que eu citei, seja em maior ou menor grau, mas estas atuais têm uma diversidade muito maior e que não estão lá apenas para cumprir tabela. Dito isto, não é preciso soltar o velho para abraçar o novo, porque a arte não tem idade e todos podem andar de mãos dadas, tendo ciência que alguns pensamentos não são aceitáveis hoje em dia, mas algumas situações que adolescentes passam são as mesmas, quer seja em 1988 ou 2023, e com isso é impossível não se identificar. Então assista, por nostalgia, por escapismo, ou até pela manifestação mais legítima de todas: a vontade.
- Crítica | Heartstopper (2ª temporada)
A nova temporada da comédia romântica da Netflix continua apaixonando os telespectadores Foto: Divulgação É visível que a Netflix migrou da criadora de séries como House of Cards e Orange is the New Black para a criadora de Stranger Things e Eu Nunca. A empresa, cada vez mais, acaba soltando produções com o público alvo adolescente que acabam ficando perdidas no seu vasto catálogo. Felizmente este não é o caso de Heartstopper, série britânica, que teve sua segunda temporada lançada no streaming neste mês de agosto. A nova leva de episódios continua apresentando a dinâmica de um grupo de amigos que estão nos seus últimos anos do ensino médio, agora focando no início do relacionamento entre os protagonistas Charlie e Nick. Sem sombra de dúvidas, o maior acerto da série são seus personagens que, mais uma vez, não foca somente nos principais, mas vemos o desenvolvimento dos secundários (coadjuvantes), abordando diferentes tipos de casais em fases distintas de suas relações, facilitando com que o espectador se conecte com o que está sendo mostrado. A série continua sendo escrita pela criadora dos quadrinhos homônimos, Alice Oseman, e dirigida por Euros Lyn, diretor de séries como Black Mirror, Doctor Who e Sherlock. Os dois se encontram ainda mais confortáveis em seus papéis e, com o visível aumento em seus orçamentos, conseguem proporcionar ao consumidor experiências mais completas que os transportam diretamente aos desenhos do material-base. Foto: Divulgação Apesar de Heartstopper criar alguns elementos visuais novos, tem alguns momentos que deixam a desejar. Ao continuar apostando em ser simples, a temporada chega em momentos em que os espectadores clamam por novas construções visuais e tão incríveis como os mostrados na primeira temporada, mas que já não impressionam ao serem reutilizados. Em minha opinião o grande erro da série foi não seguir o formato da primeira temporada, onde optaram em adaptar dois livros de uma vez. Na recém lançada, apesar de ter histórias interessantes criadas unicamente para a adaptação, grande parte da temporada se sente esticada para completar os oito episódios. Porém, acaba caindo na própria armadilha de terem novos elementos introduzidos que poderiam ser melhor explorados, deixando de ser somente um gostinho superficial do que ainda está por vi. Dito isso, apesar de visualmente muito parecida com a primeira temporada e se prolongar em alguns momentos, a segunda temporada de Heartstopper continua transportando o telespectador para uma realidade perfeita onde todos nós gostaríamos de morar. Nota: 4/5
- Crítica | Asteroid City
Mais um filme do Wes Anderson elevado à sua própria potência máxima Foto: Divulgação Asteroid City, uma cidade fictícia no meio de um deserto nos Estados Unidos é palco de uma convenção de Astrônomos Júnior/Cadetes do Espaço, em 1955, evento que reúne alguns dos mais brilhantes alunos do país e seus familiares. A família de um desses jovens estudantes fica presa na cidade após seu carro quebrar, mas o que ninguém espera é que todos os presentes também fiquem presos na cidade, em quarentena, depois de um inesperado acontecimento espacial. Quem conhece o trabalho do diretor Wes Anderson sabe muito bem o que esperar. Se você não conhece saiba que sua filmografia é marcada pelo rigor à forma e à simetria e por sempre adotar um tom soturno em seu roteiro. Mesmo mudando as abordagens, as referências e as homenagens a cada produção, a estética Wes Anderson é de longe a mais fácil de reconhecer quando se coloca os portfolios dos diretores mais conhecidos internacionalmente em comparação. À medida que ia se estabelecendo e ganhando notoriedade, Anderson foi ampliando seu escopo dentro de suas crônicas e construindo tramas gigantes ao mesmo tempo em que singelas. E assim como A Crônica Francesa (2022), em Asteroid City tem um elenco incontável se encontrando em histórias paralelas que por hora somam e dão alicerce para o filme e o em outros momentos parece muito enchimento de linguiça. Dessa vez ele usa os EUA pós-guerra como pontapé inicial e plano de fundo para seus questionamentos existenciais e reflexões antológicas. Tem corrida espacial, tem aliens, tem sociedade de consumo, tem Guerra Fria, e mais um amontoado de palavras e termos falados rápidos demais por aqueles incontáveis personagens e que às vezes fazem barulho, mas que não necessariamente passam algum recado. Honestamente em alguns momentos chega até a ser irritante que todos os personagens tenham o mesmo tom blasé e não pareçam querer demonstrar qualquer emoção ou reação além de um determinado limite posto na elaboração do filme. Foto: Divulgação Talvez o que mais me agrade, no fim das contas, seja a recorrente vontade de Anderson de dar importância ao cotidiano, aos pequenos eventos, as pequenas ações. Dando como exemplo o barulhento Oppenheimer que reconta a história de uma grande personalidade responsável por alguns dos maiores (e piores) acontecimentos da humanidade e o fato do megalomaníaco Christopher Nolan ter “recriado” uma explosão atômica, aqui Wes Anderson usa os testes atômicos de forma bem silenciosa, discreta e limpa – bem teatral mesmo, sem querer dar spoiler – como pontos de abertura e fechamento de seu enredo. Mas não vou ser hipócrita, ele tem seus charmes. O diretor sabe muito bem trabalhar com crianças e aqui elas têm alguns dos momentos mais fora da curva (ou menos estáticos). O tal descompromisso do elenco citado anteriormente por vezes se veste com uma encantadora inocência, mas que não cabe bem em todos os personagens. E tiro meu chapéu também para a direção de arte detalhadamente elaborada de forma quase artesanal, outro recurso presente na assinatura de Anderson. O designer de produção Adam Stockhausen, parceiro de longa data do diretor, mais uma vez deu vida a um local que é de certa forma o personagem principal e, assim como fez O Grande Hotel Budapeste (2014), montou um ambiente cuja forma é tão importante quanto à função. Louros também à cenógrafa Kris Moran. A ambientação fecha seu ciclo com uma trilha sonora refinada que dá voz aos silêncios de ligação. É Wes Anderson sendo Wes Anderson de todas as formas possíveis e imagináveis, e, infelizmente, de todas as formas já conhecidas e repetidas por ele incessantemente. Pra quem gosta é bom, eu já não me afeto tanto. Nota: 3/5
- Crítica | Besouro Azul
Um delicioso clichê que acerta ao exagerar Foto: Divulgação Anunciado em 2021, com o elenco se formando ao longo dos meses seguintes, Besouro Azul, a nova aposta da DC, finalmente chega em sua semana de estreia nos cinemas. Baseado nos quadrinhos publicados pela DC Comics, o filme nos apresenta Jaime Reyes, um mexicano que reside em Palmera City, nos Estados Unidos, com sua família e que tem o destino cruzado com o escaravelho que era guardado pelas empresas Kord. A premissa inicial não diverge da já conhecida fórmula de origem de heróis, sem poder, sem dinheiro e com questões pessoais e familiares ruindo ao seu redor, mas, a graça neste é a forma descontraída em que o público é posto de frente com o protagonista. Já sabemos como funciona toda essa questão de heróis, universos compartilhados, participações, crossovers e afins, então queria deixar aqui registrado o alívio que é assistir a uma produção isolada (pelo menos inicialmente), e livre de qualquer obrigação universal, em que não precisa criar diversas conexões. É um filme solo que permanece assim do início ao fim, e que se futuramente permanecesse assim seria o seu maior trunfo. Dado esse pequeno desabafo, vamos aos pormenores. O roteiro não tem muita grandiosidade, é um clichê do gênero que abusa da fórmula já disseminada e que não tenta propor em nenhum momento que vai ser algo diferente disso. Contudo, ele sabe iniciar, apresentar seus personagens e finalizar a sua história sem qualquer dificuldade, mesmo com suas previsibilidades. A direção de Angel Manuel Soto é amparada pelo exagero, o que ironicamente faz o longa se tornar mais leve e despretensioso. As cenas de ação são as que mais se beneficiam desse artifício, gerando diversos momentos de uso de poder e força sem qualquer pudor. Apesar disso, o humor pré-determinado acaba não funcionando tão bem durante o tempo, já as cenas mais orgânicas conseguem gerar uma risadinha no telespectador. Foto: Divulgação Como dito antes, aqui não há preocupação com universo, multiversos, três mil conexões com outros três mil personagens ou ameaças interplanetárias, intergalácticas, etc, etc, etc. E isso possibilita ter uma vilã comum que se encaixa sem cobranças maiores. Susan Sarandon é quem interpreta Victoria Kord, uma megera sedenta por poder que tem o domínio do escaravelho, e com ele deseja implantar seus planos malignos e coisa e tal. É bom frisar o quanto Sarandon cai bem em um papel de megera fria e sem coração, mesmo aparecendo pouco ela domina a tela e por mais que não seja o tipo de vilã que causa simpatia, sua imponência faz nascer o desejo de que a tivéssemos por mais tempo. Claro que não teria como não falar sobre os protagonistas Jaime Reyes e Jenny Kord sem comentar sobre Xolo Maridueña e Bruna Marquezine. Xolo, já conhecido por Cobra Kai, traz para as telas do cinema todo o seu carisma e simpatia, entregando um protagonista fácil de ser gostado e que brilha sem dificuldades, no entanto, e sem puxar nenhum pouco de sardinha para o nosso lado, Marquezine reluz com muita facilidade e fluidez, já conhecida pelo público brasileiro desde criança, ela mostra ali a razão de estar há tanto tempo em tela e de conseguir esse papel; ela é simplesmente boa no que faz. Não poderia haver uma dupla melhor que esses dois para estar ali, um agiganta o outro e a combinação de suas interações resulta em algo gratificante de assistir. Foto: Divulgação O elenco coadjuvante traz diversos bons atores e alguns nomes já conhecidos de outros tempos, como George Lopez, o Sr. Elétrico lá de As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl, além de Harvey Guillén, que vem despontando cada vez mais no cenário audiovisual e continua dando seu brilho em What We Do In The Shadows. Mas quem se torna o destaque dentre os personagens coadjuvantes é Adriana Barraza, que interpreta a avó que tem uma virada na trama, e que muito provavelmente seria mais um alívio cômico, mas nessa parte dá uma falhada. Vale citar também Damian Alcázar (Acapulco), que interpreta o pai do protagonista, a quem fica a responsabilidade de trazer a carga dramática em momento estratégico. Mesmo com falhas no timing do humor e do drama, o longa se prova um bom entretenimento, que certamente poderia ter um resultado melhor fazendo algumas aparas, no entanto, suas falhas não são o que o definem ao final de tudo. Além, é claro, de trazer uma boa dose de cultura mexicana e uma latinidade gostosa de ver em tela, com algumas doses de nostalgia que, com certeza, funcionarão com facilidade entre o público brasileiro, algumas memórias destravadas e a garantia de pelo menos um risinho nos lábios. Por fim, a DC tem o dom de acertar em filmes solos, mesmo com heróis não tão conhecidos nas telas. Se haverá uma continuação ou um encaixe do Besouro Azul em um universo compartilhado de heróis infinitos ainda não sabemos, mas o que foi entregue foi suficiente para fazer com que o público goste dele. Nota: 3,5/5












