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  • Crítica | Inside Man

    Minissérie interessante com grandes nomes do entretenimento não emplaca na Netflix Divulgação: Netflix Lançada no início do mês na Netflix, a minissérie “Inside Man” não foi tão comentada pelo público em geral, mesmo tendo chegado ao ranking de mais assistidas da semana. Criada e dirigida por Steven Moffat (Sherlock e Doctor Who), a premissa da série se divide em seus quatro episódios e foca em uma questão central: o que leva uma pessoa a cometer um assasinato? Na trama, dividida entre Estados Unidos e Inglaterra, conhecemos os seus personagens centrais. Nos EUA, Jefferson Grieff (Stanley Tucci) é um prisioneiro no corredor da morte em busca de redenção antes que seja executado pelo sistema após assassinar, a sangue frio, sua esposa. Já na Inglaterra, a jornalista Beth Davenport (Lydia West) está em busca de uma nova história e em um vilarejo, o vigário Harry Watling (David Tennant) encontra a professora particular de matemática Janice Fife (Dolly Wells) em uma estação. Divulgação: Netflix Cada uma enfrenta dilemas morais que podem levar a um crime e as histórias centrais que permeiam a trama vão se conectando com o decorrer da minissérie. Seu forte, sem dúvidas, é o elenco. David Tennant é muito bom em criar personagens repletos de nuances e aqui não é diferente, pois, Harry é um personagem que consegue despertar os mais variados sentimentos no telespectador, desde empatia ao ódio extremo. Tucci também segue fenomenal e sustenta uma parte menos explorada, porém importante, do arco da trama. Moffat, com suas sempre mirabolantes ideias, consegue prender o telespectador de uma forma surpreendente por meio desta trama policial. Os jogos mentais com telespectador, por meio de um roteiro bem capcioso dão o tom a minissérie, que se perde em alguns momentos com tantas voltas e reviravoltas. Mas, mesmo assim é uma boa opção para quem é fã de um bom thriller. Essa narrativa arquitetada sobre a capacidade de matar dos seres humanos é, sem dúvidas, algo que faz o telespectador pensar e deixa a trama mais audaciosa e inteligente, afinal, ”Todo mundo é um assassino. Só precisa de um motivo bom em um dia ruim”. E é nesse jogo de xadrez, sempre a um passo à frente de quem assiste, que Moffat se destaca. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Spirited - Um Conto Natalino

    O espirituoso musical funciona bem mesmo se repetindo Divulgação: Apple TV+ Adaptando o cânone Um Conto de Natal, de Charles Dickens, para uma versão moderna de comédia musical, Spirited conta a história do Fantasma do Natal Presente (Will Ferrell) que todo a cada véspera de Natal escolhe uma alma ruim para receber a visita dos três fantasmas do Natal (passado, presente e futuro caso alguém nunca tenha se deparado com qualquer uma das infinitas adaptações do livro) para que essa alma possa se redimir e, como um milagre de Natal, se tornar uma pessoa melhor. Porém o alvo escolhido nesse ano foi o empresário egoísta e manipulador Clint Briggs (Ryan Reynolds) que não vai colaborar os processos de mudança e ainda fará com que o Fantasma do Presente se questione sobre todas as suas escolhas e motivações no plano em que atua. O efusivo filme é dirigido por Sean Anders e conta com um roteiro de Anders e John Morris. A dupla já trabalhou junto em outras comédias como A Família do Bagulho e Quero Matar Meu Chefe 2, e aqui eles conseguem, com a enorme ajuda dos compositores Benj Pasek and Justin Paul – responsáveis pelas famosas músicas de La La Land e O Rei do Show – criar mais uma comédia cheia de bons momentos e sem qualquer compromisso em se manter pé no chão. Primeiro porque é uma fantasia, e esse é o terceiro filme esse ano que me lembro de tratar um “pós-vida” com uma abordagem corporativista (as animações Lucky e Wendell & Wild também fizeram algo do tipo). Então a comédia abusa dos elementos irreais para criar seus momentos chave, o que algumas vezes funciona muito bem como nos números musicais e em outras nem tanto por conta do uso excessivo de efeitos visuais questionáveis. Divulgação: Apple TV+ Segundo porque tem Will Ferrell como protagonista. Quem conhece os filmes do ator sabe que ele parece não ter a menor vergonha ou pudor de se arriscar em fazer todo o tipo de bobagem em cena, a impressão que dá é que ele está sempre tentando se divertir ao máximo e isso reflete no resultado. E certamente quem acompanha os trabalhos dele sabe que ele por várias vezes inseriu músicas em seus filmes – as vezes sem o menor valor narrativo – apenas para mostrar seus talentos vocais. Quem quiser ver mais de Will Ferrell cantando assista seu último sucesso, o bagunçado Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars. Então já estava passando do tempo dele aparecer num filme musical, e ainda mais um musical de Natal que agora se soma a Um Duende em Nova York como dois de seus melhores no currículo. Ryan Reynolds surpreende com seus dotes musicais. O seu personagem é basicamente o que ele faz de melhor: um canastrão, indiferente e irônico com tudo e com todos ao seu redor, só que aqui ele cabe tão bem que a gente finge que não é exatamente o que ele faz em qualquer outro filme em que esteja. Ambos os protagonistas entregam um show no melhor sentido da palavra, ele soltam a voz e arriscam passos de dança em números muito bem coreografados e executados com riqueza de detalhes. O grande trunfo do filme não é o que está sendo contado, afinal é a mais uma adaptação da conhecida história de Charles Dickens, mas maneira como está sendo contado. Mesmo quando o filme faz piadas sobre si próprio, mostrando um tipo de insegurança sobre suas escolhas, e se repete em vários momentos o resultado é positivo e consegue analisar e dar sua própria luz sobre a grande lição de moral do Conto de Natal. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Reservation Dogs (2ª temporada)

    A nova leva de episódios eleva o já altíssimo nível da série Divulgação: FX Uma grata surpresa do ano passado, 'Reservation Dogs' finalmente retorna com novos episódios no Star+. A temporada começa praticamente onde a passada terminou, com Elora (Devery Jacobs) abandonando Bear (D’Pharaoh Woon-A-Tai) e partindo para a Califórnia com Jackie (Elva Guerra). Willie Jack (Paulina Alexis) e Cheese (Lane Factor) tentam confortar o amigo, enquanto também estão magoados com Elora. A dor da perda de Daniel (Dalton Cramer) ainda reflete na maioria dos personagens e nas atitudes que os movem. Se na temporada anterior Bear e Elora tinham um protagonismo maior, nesta eles dividem mais os holofotes com Willie Jack e Cheese. Não que eles tenham ficado de lado, porém, todos têm seus momentos de destaque e o texto aprofunda melhor cada um deles. O amadurecimento é o foco dos novos episódios, e o roteiro trabalha isso de uma maneira brilhante, dosando perfeitamente humor e drama. Nos primeiros episódios, acompanhamos Elora e Jackie na tentativa de chegar à Califórnia, se metendo em várias enrascadas, como esperado. É uma delícia de se assistir, enquanto a amizade das duas vai se desenvolvendo e se tornando uma das melhores da série. Apesar dessa nova amiga, Elora não consegue se esquivar da culpa de deixar Bear, mas ainda julga que fez o certo. Quando um acontecimento a faz retornar à reserva, ela precisa mais do que nunca do apoio de todos. Eles estão lá por ela, mas ainda há uma barreira no grupo e algumas coisas precisam ser ditas. A dinâmica gera conflito entre eles, o que é bem interessante de se acompanhar. Não há lados corretos, há jovens que erram e acertam e há um forte laço de amizade que ainda pode ser atado novamente. Devory James já havia mostrado seu talento na temporada passada e nessa ela confirma a que veio. A moça é um achado, assim como a maioria do elenco. Bear se sente abandonado, Willie Jack se sente traída (principalmente pelo fato de Elora ter ido embora com Jackie, uma suposta inimiga) e Cheese é o Cheese, que só quer que tudo e todos fiquem bem. Bear tem que lidar com o fato de ser deixado mais uma vez, antes por seu pai e por Daniel (como ele mesmo questiona) e agora por Elora. Ao longo da temporada, ele vai ganhando mais maturidade para lidar com as situações, seja no trabalho ou no eventual retorno de Elora à comunidade. O rapaz passa a trabalhar em uma construção ao lado do pai de Daniel. Em uma belíssima cena, os dois conversam em cima de um telhado enquanto o sol se põe, sobre a perda de Daniel. Os diálogos, a direção, a fotografia, tudo colabora para a perfeição, mas a atuação deles, e principalmente de Woon-A-Tai, eleva tudo a outro patamar. Os conflitos e dores do personagem estão expostos ali, tudo dentro de um garoto de tão pouca idade que não deveria ter que lidar com tanto. Willie Jack tem um dos melhores arcos da temporada, onde Paulina Alexis tem a chance de brilhar. Sem papas na língua, ela fere e ajuda na mesma medida, o que só dá à personagem mais camadas e complexidade. Quando uma professora entrega uma carta de Daniel a ela, em um dos melhores episódios do ano, não só da série, a jovem decide ir visitar a mãe de Daniel na prisão. A trama emociona e evoca fortemente a ancestralidade nativo-americana deles de uma maneira genuinamente bonita e tocante. É simplesmente de arrepiar. A cena é forte, cheia de diálogos impactantes que ressaltam a dor das personagens, bem dirigida e com atuações fantásticas. Como na temporada de estreia Willie Jack era responsável por boa parte do humor, aqui ela ainda é, mas trazer mais dramaticidade para sua história dá mais densidade a ela e mostra a versatilidade de Alexis, que passeia facilmente entre as tiradas cômicas e os momentos mais emotivos. Cheese, que é um poço de carisma, prefere o bem-estar de todos e sem se importar com ele próprio. Em um dos episódios, o menino é preso em um tipo de detenção para menores. Não só o episódio nos mostra bem mais do personagem, de como ele é inteligente, ainda que enxergue o mundo com uma certa inocência, mas também da amizade e de como ele é importante para o grupo, quando eles aparecem para resgatá-lo. O mais surpreendente? Cheese se recusa a ir e escolhe esperar. Não é tão surpreendente assim, porque passamos a conhecer ainda mais dele e sabemos que ele, geralmente, escolhe fazer o certo. Se os outros três principais são mais conflituosos em suas escolhas e nem sempre escolhem fazer o mesmo, ainda que saibam que podem machucar alguém, em Cheese vemos esse contraponto, de alguém que teima em se importar com o próximo e ter empatia. A empatia por ele é verdadeiramente é recíproca, pelo menos do ponto de vista de telespectador. O fato de a temporada ter dois episódios a mais do que a anterior, ajuda a coadjuvantes ganharem mais tempo de tela, como no ótimo episódio que foca na mãe de Bear e suas amigas. Imagino que muita gente não vá gostar dele por tirar o foco dos jovens. Mas é tão divertido, parece um filme bacana da Sessão da Tarde com um bocado de comédia. No entanto, essa meia hora ainda tem uma boa dose de drama, que desenvolve as personagens e nos ajuda a entender mais sobre elas e as suas relações com seus parentes mais jovens. O oficial Big (Zahn McClarnon), assim como no ano anterior, também tem seu episódio de destaque. É divertido, mas é de longe o que menos gostei, devo dizer. É inegável que eu adoro séries adolescentes, mas há uma parcela da população que ainda vira o rosto quando elas são o assunto, apesar da qualidade de várias delas. Ainda assim, muitas fazem um sucesso estrondoso, como ‘Euphoria’ (HBO Max), ‘Sex Education’ (Netflix), ‘Elite’ (Netflix), para citar só alguns exemplos atuais. Assisto e gosto de todas, ciente de suas qualidades e defeitos, mas nenhuma delas consegue fazer o que ‘Reservation Dogs’ faz. Em termos de qualidade, para mim, essa temporada só perde para a última de ‘Better Call Saul’ como uma das melhores do ano. Hoje em dia, o gênero é muito mais inclusivo do que já foi em meados dos anos 1990 ou 2000, mas a representatividade nativo-americana era pouquíssimo explorada até então. ‘Reservation Dogs’ chega com uma equipe talentosíssima de indígenas americanos por trás e na frente das câmeras, contando histórias belíssimas, emocionantes e engraçadas. A 2ª temporada pega tudo que deu certo na já excelente 1ª e eleva o nível do jogo, aprofundando seus personagens e suas raízes, em 10 incríveis episódios de pouco mais de 30 minutos (às vezes até menos), tudo isso embalado por uma trilha sonora para ninguém botar defeito. Sterlin Harjo e Taika Waititi sabem onde querem levar a narrativa e como chegar lá. Contar a história de descendentes de povos originários não é uma tarefa fácil e eles o fazem não só com uma trama extremamente atual, mas que honra suas origens e é um deleite de se acompanhar. Nota: 5/5

  • Crítica | Encantado's (1ª temporada)

    Com uma sucessão de acertos, a nova produção do Globoplay chega clamando para ser uma potência Divulgação: Globoplay Quando se fala em sitcom, os primeiros pensamentos são levados geralmente a 'Friends' e 'How I Met Your Mother', e algumas cabeças mais antigas vão dar um puxadinho para 'Seinfeld'. O gênero se popularizou lá pelos anos 50, com a chegada de 'I Love Lucy', 'The Dick Van Dyke Show' e outros clássicos que ficaram imortalizados na história da televisão. Trazendo para o cenário nacional, ao fazer essa pergunta as respostas seriam com séries majoritariamente dos anos 90 e anos 2000, por exemplo; 'A Grande Família', 'Sob Nova Direção', 'Tapas & Beijos', etc, no entanto, houve uma escassez do gênero por aqui, que acaba com a chegada de 'Encantado's'. Fruto da oficina de humor para roteiristas negros criada pela Globo, 'Encantado's' estreou no Globoplay no último dia 18. Criada por Renata Andrade e Thais Pontes, a série acompanha o supermercado Encantado's que também é a diretoria da escola de samba Jóia do Encantado, e quando o proprietário morre, seus dois filhos, Eraldo e Olímpia, recebem a missão de cuidar de ambas as coisas. Iniciando e finalizando no carnaval, temos onze episódios recheados de humor, samba e muita qualidade. Divulgação: Globoplay Escrita por Renata Andrade, Thais Pontes, Antonio Prata e Chico Mattoso, a série traz roteiros excelentes para seus episódios, no melhor estilo sitcom, elevando o grau de comédia em cada um deles, sendo seu melhor momento o 'Coisinha do Pai'. Com textos ágeis, ela se monta ao redor de um caos maravilhoso que possibilita instantes graciosos com um humor refinadíssimo captado pelos menores detalhes. Seu maior acerto está em não usar um tom escrachado e batido, comum na televisão brasileira, e que funcionou muito bem nos anos 2000, e saber dosar com atenção seus momentos de graça. Não somente o humor, a série mostra sua sagacidade ao estar atenta a pautas atuais, inserindo-as em seus diálogos de forma sutil, mas certeira, e sempre com um tom leve. Tem um desenvolvimento de história fascinante e traz uma naturalidade impecável. Ela passeia pelo drama, misticismo e romance sem alterar o tom do seu gênero, unifica os tópicos que levanta com piadas afiadas e que caem bem para cada situação. O seu elenco é uma obra de arte à parte, sendo ele integrado massivamente por atores e atrizes pretos. É de se pensar que uma série estreante, e com tantos personagens, fosse acabar se perdendo em algum momento, o que é bastante comum, se você analisar, ter algumas personas ficando de escanteio e até esquecidas. Contudo, o que temos aqui é um conjunto espetacular e bem engendrado em que tudo se encaixa. O enredo desenvolve bem os seus personagens principais e utiliza seus coadjuvantes com muita competência, fazendo com que todo o cast trabalhe bem e entregue uma interpretação condizente com o proposto para cada um deles. Divulgação: Globoplay A direção é comandada por Henrique Sauer, Naína de Paula e Deo Cardoso (diretor do filme cearense Cabeça de Nêgo), e é outro ponto positivo para esta produção. Assim como o roteiro, ambos estão afiados e conseguem transmitir o que a obra pede, com uma execução caprichada eles elevam ainda mais a qualidade que a série já tem. Além disso, há também uma fotografia muito bem pensada, que traz uma vivacidade que se encaixa magistralmente com o restante. Provando o que já era óbvio, 'Encantado's' mostra que nossa terra está mais que capacitada e pronta para entregar obras de qualidade em todos os gêneros e com maestria, até melhor que muitas gringas. O que não falta nesse Brasilzão é gente competente e criativa, que trabalha incessantemente para elaborar produções de qualidade, e que merecem dia após dia mais reconhecimento e mais apreciação por parte do público. A série é de fácil identificação por retratar o cotidiano de um supermercado, além de fazer um misto com algo presente na cultura brasileira, que é o carnaval. É um dos grandes acertos do Globoplay nessa reta final do ano, e esperamos que possam vir mais temporadas, e mais novas séries dessa oficina de humor. Nota: 5/5

  • Crítica | Aftersun

    A máxima de “cinema como a arte de esculpir com o tempo” levada a sério Divulgação: O2 Play/MUBI Ao decidir contar uma história em filme, o artista tem em suas mãos o desafio de dar ao público uma narrativa completa e suficientemente interessante em um período extremamente limitado. Para isso, normalmente fazem uso de conflitos grandiosos, clímaxes espetaculares e ações inusitadas. Do outro lado da tela, o público, já acostumado com esse padrão, espera esse momento extraordinário acontecer – e ele quase sempre acontece. Mas esse não é o caso de Aftersun, estreia da diretora Charlotte Wells, que também assina o roteiro. E por mais intimidador que possa parecer fugir desse padrão, originalidade de Welles teve resultado positivo: ao longo de 2022, a obra vem sendo aclamada nas mais diversas premiações internacionais, desde o Festival de Cannes ao British Independent Film Awards. Como um bom filme, Aftersun não faz questão de se explicar e conta com a paciência e lucidez do público. Desde o início sabemos se tratar da história de Calum (Paul Mescal), a completar 31 anos, e de Sophie (Francesca Corio), de nove. Mas quem são eles? Porque estão sozinhos nesse quarto? Calum parece jovem e descontraído demais para ser pai da menina, mas então por que estão juntos nessa viagem? Quem confiou a criança a um adulto com cara de adolescente e braço quebrado, incapaz de acender seu próprio cigarro? Devemos nos preocupar com a segurança dela? Qual a última vez que vimos um homem adulto e uma menina em relação tão íntima? Divulgação: O2 Play/MUBI Enquanto Sophie dorme, Calum liga para a recepção e reclama que, apesar de ter especificamente solicitado duas camas separadas, o quarto que foram alocados possui apenas uma, de casal. E assim entendemos que Sophie está em boas mãos. Algumas cenas depois, Calum corrige outros hóspedes que, assim como nós, parecem não entender a relação. Agora está afirmado que os personagens são, sim, pai e filha. É nessa calmaria que o filme se leva. Não adianta fazer perguntas, elas não serão respondidas ao nosso tempo. É preciso observar e esperar. Por sorte, ao fazer isso, contamos com o fascinante talento de Mescal, que consegue exprimir tudo que precisamos saber em toda sua sutileza e, com ela, cria uma dinâmica de imensa familiaridade em suas interações com Corio. Durante todo enredo temos a constante sensação de que estamos na iminência de que algo ruim vai acontecer. Na fotografia de Gregory Oke, as cores vibrantes contrastam com os enquadramentos inquietantes, dispostos, pela montagem de Blair McClendon, em planos muito mais longos do que estamos acostumados e de um sonoridade perturbadoramente silenciosa, instaurando um clima de desconforto e melancolia que nos deixam em estado de alerta. Mas nada nunca acontece, pelo menos não imediatamente. Os conflitos existentes – como a máscara de snorkel perdida em alto mar ou o desentendimento a respeito de uma canção do karaokê – não passam de atritos comuns numa relação indubitavelmente amorosa entre pai e filha. Até o ápice da tensão do filme, com um Calum embriagado mergulhando de madrugada enquanto Sophie tenta se enturmar com os adolescentes do hotel e fica trancada para fora do quarto, se resolve com um simples pedido de desculpas. E a vida segue. Divulgação: O2 Play/MUBI O longa não é sobre as férias de Calum e Sophie, mas sim sobre as memórias dessas férias. De fato, algo ruim aconteceu: não sabemos como, quando ou onde, mas Calum morre pouco tempo depois das férias. Entramos na mente da Sophie adulta (Celia Rowlson-Hall), de mesma idade que o pai tinha durante a história central, e, a partir de vídeos antigos e lembranças por esses despertadas, tentamos remontar aquela viagem de verão à Turquia para assimilar detalhes que a inocência infantil não permitiu que fossem enxergados (ou até foram, porém não com a maturidade devida). E os detalhes estão ali: no Tai Chi, nos livros de autoajuda, na outra rodada de bebida, na cuspida no espelho… Queremos conhecer aquele pai, de novo. Agora, talvez, um pouco melhor. Em Aftersun, assim como na vida, a história não é definida em alguns minutos. Não vai existir um grande plot twist e tampouco um mentor vai surgir nos orientando como seguir a jornada em busca do final feliz. Aqui, quem dá a ação e torna o conflito grandioso é o tempo – os 101 minutos de filme e as duas décadas que separam a Sophie criança da Sophie adulta. Nota: 4,5/5

  • Crítica | O Dragão do Meu Pai

    O poder da fantasia imaginativa como rota de fuga Divulgação: Netflix Lançado na Netflix no último dia 11, 'O Dragão do Meu Pai' é uma obra de animação produzida pelo mesmo estúdio responsável por 'Wolfwalkers', indicado ao Oscar em 2021. Ele aborda a história de Elmer, narrada por um filho seu, sobre como ele conheceu um dragão após uma mudança de cidade que precisou fazer com sua mãe. Dirigido por Nora Twomey, o filme animado é regado de aventura e fantasia que prendem a atenção do início ao fim, e mais importante; com uma qualidade estupenda. O primeiro tópico a se comentar é sobre a elaboração de seus traços, que têm um requinte visual absurdo e ao mesmo tempo uma simplicidade que combina com a proposta da obra. Com o uso e o abuso da criativade, o filme traz uma aura de aconchego de forma a fazer o público ficar preso à tela enquanto o assiste, além de ter cores vibrantes que hipnotizam o espectador, seja criança ou adulto. A trilha é outro ponto a ser abordado por fazer complemento direto com o visual. A escolha da sonoridade encaixa perfeitamente com o traço, as cores e a história, fazendo um agregamento magnífico. Com um roteiro que não faz rodeios, ele monta a trama com rapidez e eficiência, conseguindo transportar para as telas a mente de quem o assiste, trazendo com sua simplicidade uma sensação de identificação em algum momento. Bastante sutil e ágil, o enredo desenvolve bem o personagem principal, e eleva sua história através da imaginação. Divulgação: Netflix Apesar de a arte ser algo subjetivo, o longa se molda em volta de uma interpretação bastante singela. Deixando claro que o nosso imaginativo pode muitas vezes nos tirar de situações complicadas, ele aborda com clareza através dos problemas de Elmer, que a fantasia é um guia necessário de vez em quando. O filme se torna grandioso ao executar isso de maneira que atinja tanto o público infantil quanto o jovem-adulto, mesmo as interpretações para cada um chegue de maneira diferente. Para encerrar, se faz cada vez mais necessário que produções animadas que se vendem para todos os públicos consigam transmitir sua história com clareza e firmeza, sem que pareçam pedantes e óbvias. 'O Dragão do Meu Pai' resgata um pouco daquele desejo de mais originalidade em produções deste tipo, mesmo que seja uma adaptação (muito bem feita). É uma animação que encanta por transbordar criatividade e fantasia, e saber usar tudo isso a seu favor sem se fazer óbvia demais. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Procura-se

    Comédia romântica brasileira é uma boa adaptação do livro e deverá agradar os fãs do gênero Divulgação: HBO Max Depois do lançamento de “No Mundo da Luna”, a HBO Max inseriu em seu catálogo mais uma obra audiovisual inspirada nos livros de Carina Rissi. Dessa vez, o livro “Procura-se um Marido” foi moldado para o formato de filme e recebeu o título de (apenas) “Procura-se” e chegou à plataforma na última sexta-feira, 25. Na história, Alicia é uma mulher que gosta de curtir a vida, viajar, ir para festas e baladas e ter uma vida boa, tudo é graças ao dinheiro do avô - que ela ama. Mas Alicia vê sua vida desmoronar quando o avô morre e sua herança é lida para sua família e ela se vê sem nada no testamento, já que o avô alega que a neta não tem maturidade nem para cuidar da empresa, nem da mansão e nem do dinheiro que a jovem deveria herdar. Isso, é claro, só poderá ser desviado caso ela esteja casada e permaneça com o parceiro por mais de um ano. A jovem, para burlar a retrógrada ideia do avô, resolve se envolver em um casamento fake com Max, um dos funcionários da empresa do avô. No elenco, destacam-se o casal principal interpretado por Camila Queiroz e Kleber Toledo que também são um par romântico na vida real. A química em cena também já foi vista na novela “Êta Mundo Bom” da Rede Globo e em “Procura-se” os dois repetem a dose e criam um Max e uma Alicia bem convincentes e próximos aos descritos nas páginas de Carina Rissi. Mari, melhor amiga de Alicia, é interpretada pela carismática Noemia Oliveira que traz em todas as suas cenas uma leveza, acertando bastante nos principais momentos cômicos da trama e tendo uma ótima química em cena com Camila. Divulgação: HBO Max Roteirizado por Guilherme Ruiz, Carolina Minardi, Alessandra Ruiz e Angélica Lopes e dirigido por Marcelo Antunez, “Procura-se” tem o cuidado de revitalizar alguns aspectos do livro, escrito em 2012, para o momento atual em que vivemos e faz algumas mudanças bem-vindas na obra. Óbvio que por ser uma adaptação, a profundidade do livro se perde tentando condensar quase 600 páginas em apenas 1h30 de longa e a impressão que fica é que tudo acontece rápido demais. Outro problema do filme é a resolução final da história que tenta evitar a vilanização dos personagens, entregando um fechamento simplista e um pouco questionável. Porém, “Procura-se” tem, em sua essência, tudo que o livro de Carina Rissi propõe para os fãs de romances clichês e se torna uma excelente opção para quem busca isso em uma história nacional. Com outra adaptação confirmada e um possível gancho para, quem sabe, um novo filme no mesmo universo de “Procura-se”, Carina Rissi pode se tornar a Thalita Rebouças das adaptações literárias para jovens adultos. Um bom material original ela tem, só precisa de alguém que consiga adaptá-los da melhor forma. “Procura-se” quase chegou lá. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Guardiões da Galáxia: Especial de Festas

    Natal, clichês, bizarrices e Kevin Bacon Divulgação: Disney+ Tenho uma relação ambígua com o Natal: embora adore a data em si (por ser um momento de reunião da minha família para comemorar o aniversário de meu avô), não tenho nenhuma paciência para o período que a antecede e toda a temática envolvida, seja nas decorações, na música ou no cinema. Dito isso, é óbvio que não se poderia esperar uma trama clichê de Natal em um especial de TV dos Guardiões da Galáxia, e é exatamente isso que acontece. Temos aqui um episódio(?)/mini-filme(?) que honra algumas das melhores características dos dois filmes da equipe, embora nem sempre alcance o mesmo charme ou o mesmo nível. Na trama, vemos Drax (Dave Bautista) e Mantis (Pom Klementieff) em busca do melhor presente de Natal para Peter Quill (Chris Pratt), ainda abalado pela ausência de Gamora (Zoe Saldana). Para isso, eles decidem ir à Terra para sequestrar ninguém menos do que Kevin Bacon, herói de infância de Quill conforme aprendemos no primeiro filme. Obviamente nada sai como esperado, e é daí que o especial tira sua força e as suas risadas, especialmente pela forma como Bacon, interpretando a si mesmo, é tratado no decorrer da narrativa. Embora o especial seja menos sobre a equipe em si e mais sobre a parceria de Drax e Mantis, essa se revela uma decisão acertada, visto que a junção dos dois foi um dos melhores acertos do segundo filme e isso se repete aqui. É justo dizer até que Mantis é a verdadeira protagonista desse especial, ainda mais pela conexão que o roteiro de James Gunn estabelece entre ela e Peter. Divulgação: Disney+ Essa conexão é talvez a mais importante informação apresentada aqui, o que é compreensível, pois o especial serve como uma ponte entre os dois primeiros filmes (e Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato) e o vindouro terceiro filme que encerrará a atual formação da equipe. Logo, ele escapa da cada vez mais saturada necessidade do MCU de interconectar todos os seus filmes e séries, servindo como uma aventura mais autocontida e despretensiosa que joga suas próprias regras. Isso acaba sendo uma lufada de ar fresco, mas por outro lado não posso deixar de sentir que o formato de especial acaba retirando um pouco do potencial da história aqui apresentada. A duração de cerca de 40 minutos faz com que o roteiro pareça eliminar certas partes que ajudariam melhor na coesão da história, precisando apressá-la em alguns momentos. Além do mais, vejo aqui um problema que já vinha observando em Guardiões da Galáxia 2 e Peacemaker, que é a tendência de Gunn em não saber por um ponto final em algumas de suas piadas, por vezes estendendo-as até que percam a graça. Essas falhas, contudo, não impedem que esse especial cumpra seu objetivo: trazer toda a pieguice e fofura do Natal sob o viés cômico e tresloucado dos Guardiões da Galáxia sob a batuta de Gunn. É clichê e dispensável? Sim, mas nem sempre isso precisa ser um demérito, e o que vemos aqui é mais uma vez a confirmação de que a equipe é uma das melhores preciosidades dentro do MCU. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Meu Policial

    Com uma história sem charme, filme se monta sobre um grande e monótono flashback Divulgação: Amazon Prime Video A infelicidade romântica entre casais homossexuais sempre pareceu ser algo mais atrativo entre as produções com essa temática. Dando uma folga por um tempo e com lançamentos recentes de romance e leveza, 'Meu Policial' resolveu surgir trazendo de volta uma tentativa de drama baseada no sofrimento gay. A história, adaptação de livro homônimo, gira em torno de um romance proibido entre um curador de museu e um policial, que é casado com uma professora, em uma Inglaterra dos anos 50 onde a homossexualidade ainda era crime. O longa começa no presente, com os personagens já idosos, onde o curador está debilitado e necessita de auxílio e é recebido na casa do agora ex-policial e sua esposa, que são as únicas pessoas que ele conhece. Após essa apresentação, ele dá início a um longo e cansativo flashback mostrando o passado dos três e como se envolveram. A trama não é nova nem revolucionária em nenhum aspecto, além de batida tem uma execução cansativa, com um roteiro que se estende por longas duas horas, ele prova que mesmo com temas repetidos é possível errar ainda mais. A direção simplista faz com que ele se torne ainda menos atrativo, ao tentar repassar uma sensação de intimidade e visceralidade, ele mostra a sua falha que poderia ser a mais corrigível. O enredo, como já dito antes, se molda em forma de flashback, ele viaja no tempo sem ter um desenvolvimento de fato na trama, e entrega uma história rasa que não consegue emular nenhum sentimento do público. Apesar de tentar ter um tom dramático, ele faz com que o espectador sinta como se estivesse assistindo a algo supérfluo e alheio à sua atenção, que quando acabar não vai ficar nas lembranças o que viu. Divulgação: Amazon Prime Video O maior destaque fica por conta de David Dawson, que tem uma atuação certeira em relação ao que seu personagem pede. O seu Patrick consegue transparecer o seu sofrimento e sua interpretação faz com que ele seja o mais interessante dali, com camadas que ficam fáceis de compreender. Emma Corrin também faz uma boa entrega mesmo que sua personagem seja a mais limitada dentro da história. Nessa questão, só não se salva o intérprete de Tom Burgees, o policial, Harry Styles não tem nenhuma profundidade dramática, tornando o seu personagem o mais desinteressante e com uma ausência notável de emoções, apesar da direção cômoda em relação a ele. Não tem uma trilha que se destaque, ficando entre mediana e boa, mas que não se conecta com a trama e nem consegue fazer conexão com os sentimentos que o filme falha em repassar. Apesar de tudo, ele é visualmente agradável de assistir, a sua fotografia em tons frios fazem os olhos do público se sentirem bem, e é o que melhor se encaixa levando em conta o que o longa tenta propor. Para encerrar, a produção surgiu com um burburinho, mas que deixou claro ao chegar que não tinha potência para fazer barulho. Todas as suas peças são mal encaixadas, mesmo com as exceções boas. É uma sucessão de falhas que tornam o conjunto todo uma obra pífia. 'Meu Policial' é uma tentativa de romance que saiu sem forma, não tem charme algum, não consegue repassar sentimentalismo nem emoção e não tem um atrativo real além da curiosidade pelo cast (que, querendo ou não, já é algo com resposta óbvia antes mesmo do play). Nota: 2/5

  • Filmes brasileiros selecionados para o Fest Aruanda 2022

    A 17ª edição do evento acontece entre os dias 01 e 07 de dezembro Divulgação: Pérola (Murilo Benício) Na última quarta-feira, 23 de novembro, aconteceu a divulgação dos filmes selecionados para Mostras Competitivas Nacional (longas e curtas) e Mostra Sob o Céu Nordestino (longas e curtas) do Fest Aruanda 2022, que acontece entre 01 e 07 de dezembro na cidade de João Pessoa. Além das mostras, o evento conta com uma série de homenagens. Entre elas: Zezé Motta, Tony Tornado, Jurandy Moura, Eliézer Rolim, Zezita Matos, Fernando Teixeira e Gal Costa. O fundador e produtor executivo Lúcio Vilar abriu a coletiva de imprensa afirmando que o festival "já está na praça, já está em curso através do projeto Aruandando no Brejo Paraibano que realiza um périplo por cinco cidades da referida região, democratizando o acesso para quem está distante da Capital". Confiram a lista completa: MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE LONGAS-METRAGENS: • Andança - Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho (Pedro Bronz) O filme se debruça em imagens documentadas por Beth Carvalho, “A Madrinha do Samba”, ao longo dos 53 anos de palcos e pagodes, para traçar um recorte único e íntimo de sua carreira. • Bia (Taciano Valério) Bia é uma mulher não alheia aos ditames de uma sociedade patriarcal e sexista, e que enfrenta, como tantas outras mulheres, as dificuldades em dar um “não” às práticas heteronormativas, misóginas e sexistas da sociedade em que vive. Doutoranda, investiga o lugar da mulher no espaço da luta da camponesa, traduzida nas mulheres sem-terra, que são personagens reais no filme, através delas Bia busca forças para romper de vez com as estruturas fundacionais do patriarcado, como casamento, família, valorizando o seu trabalho e a sua liberdade. • Fausto Fawcett na Cabeça (Victor Lopes) Documentário sobre o cantor, poeta e compositor de músicas ícones como “Kátia Flávia” e “Rio 40 Graus”, Fausto Fawcett é também autor de cinco romances e diversas performances que desvendam um vasto e singular universo. Partindo de signos reais e cotidianos com raízes em Copacabana, sua obra cruza fronteiras narrativas, filosóficas e temporais para instaurar visões futuristas e experiências sensoriais que chacoalham a aventura humana nos carregando para outros mundos. O destino deste filme-transe é entrar nestes mundos que habitam a mente criativa, inquieta e desafiadora de um artista único. Divulgação • Lupicínio Rodrigues - Confissões de um Sofredor (Alfredo Manevy) Celebra o legado poético de Lupicínio Rodrigues, investigando a contribuição musical e o contexto histórico desse compositor nascido no Rio Grande do Sul e autor de sucessos que ultrapassam gerações. Divulgação • Pérola (Murilo Benício) Baseada na obra de Mauro Rasi, Pérola conta a história de uma mãe pelo olhar de seu filho. Logo após saber da morte da mãe, Mauro volta para sua antiga casa, em Bauru. A partir desse caminho de volta, revive momentos passados de sua família. Divulgação • Propriedade (Daniel Bandeira) Para proteger-se de uma revolta dos trabalhadores da fazenda de sua família, uma mulher se tranca em seu carro blindado. Separados por uma camada impenetrável de vidro, dois universos estão prestes a colidir. Divulgação MOSTRA COMPETITIVA SOB O CÉU NORDESTINO DE LONGAS-METRAGENS: • Cordelina (Jaime Guimarães) Uma mulher peregrina por estradas do interior de Pernambuco e Paraíba e leva um tesouro dentro de uma caixa. Por onde passa encontra pessoas que se encantam com a arte, a vida e a singeleza. Dentro de si ela reflete sobre sua terra, as memórias de sua amiga árvore Angico e conta histórias dentro de histórias. Cordelina é um roadmovie que fala de encantamento e de sempre renascer. Divulgação • Fim de Semana no Paraíso Selvagem (Severino) Entre a margem de uma praia marcada por coqueiros tropicais e a margem oposta cravada de usinas e cargueiros, há um território de disputas desleais entre tubarões e peixes pequenos. É nele que Rejane chega para tentar entender o que aconteceu com seu irmão, um exímio mergulhador encontrado morto em um mar cercado de sombras por todos os lados. Divulgação • Manguebit (Jura Capela) O mangue beat, movimento musical e estético que nasceu em Pernambuco nos anos 90, mudou a visibilidade das periferias e das manifestações culturais da região metropolitana de Recife e colocou o estado na rota do mercado musical mundial, após o lançamento de bandas como Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. O filme MANGUEBIT experimenta a liberdade do pensar do mangue por meio de uma linguagem multifacetada, que reúne ideias e ideais, refletindo a ousadia que deu vazão ao grande símbolo do movimento: uma antena parabólica enfiada na lama dos estuários. Divulgação • Paterno (Marcelo Lordello) Para realizar seu edifício mais ambicioso, Sérgio, um arquiteto de 55 anos, precisa tomar o poder da empreiteira da família com um plano que depende da herança do seu pai Heitor, em estado terminal. No entanto, Sérgio descobre um segredo guardado há muito tempo por Heitor. Começa assim uma busca obsessiva e reveladora do passado de seu pai, algo que desconstruirá Sérgio e todas as suas certezas. Divulgação • Pequenos Guerreiros (Bárbara Cariry) Cosme e Dona Maria, acompanhados do filho Benedito e dos sobrinhos Matheuzinho e Bruna, fazem uma viagem do litoral até a cidade de Barbalha, onde vão pagar uma promessa na Festa do Pau da Bandeira. A viagem é uma descoberta das paisagens, das histórias e das riquezas culturais do sertão. As três crianças vivem um processo de encantamento e afetividade e, depois da bonita aventura, Bruna, Matheuzinho e Benedito serão para sempre grandes amigos. Divulgação MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL DE CURTAS-METRAGENS: • Mergulho (Marton Olympio e Anderson Jesus) Durante os preparativos para um final de semana na praia, os sentimentos de uma família são confrontados a partir do retorno do filho mais velho, longe há dez anos. Mesmo sem querer eles mergulham nas próprias emoções. • Tiro de Misericórdia (Augusto Barros) O sol ilumina o casal na cama. Ao levantar-se, o rapaz evidencia seu embaraço diante da anfitriã. No correr do dia, a casa transforma-se num templo solene. Ela sai da condição de amante para a de sacerdotisa. Ele transforma seu embaraço em confissão. • Carta Para Glauber (Gregory Baltz) Em 1964, dias após o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil, Gustavo Dahl, cineasta e pensador do cinema brasileiro, escreve uma carta para o amigo Glauber Rocha, que estava em Cannes apresentando seu filme Deus e o Diabo na Terra do Sol. • Déjà Vu (Carlos Mosca) Dois produtores de audiovisual independentes, comemoram uma premiação em dinheiro de seu filme, num festival importante. Enquanto se banqueteiam na mesa da cozinha, discutem as “dores e delícias” do cinema. • Desejo e Necessidade (Milso Roberto) Uma família de retirantes do interior vem à feira de Campina Grande a procura do pai que partiu em busca de trabalho. Partiu dividido entre o desejo de ficar e a necessidade do sustento. Logo eles descobrem o turbilhão que é a vida na sociedade urbana. Com sua dinâmica que mói os indivíduos e destrói aquela família já dilacerada. Esse é o mote do espetáculo "A FEIRA" da dramaturga LOURDES RAMALHO encenado nesse filme com a expressão corporal dos integrantes do Balé cidade de Campina Grande em uma performance que expressa os sentimentos dessa jornada pela feira central de Campina Grande, que é considerada patrimônio histórico-cultural imaterial brasileiro pelo IPHAN. • Sangue Por Sangue (Ian Abé e Rodolpho de Barros) Longe de tudo e de todos, três homens selam seus destinos. • Saindo com Estranhos da Internet (Eduardo Wahrhaftig) Dezenas de milhões de pessoas estão usando algum aplicativo de paquera. Este é o relato de alguns usuários compartilhando histórias sobre encontros bons e ruins e suas impressões sobre paquerar na era dos smartphones. • Quarentena (Adriel Nizer e Nando Sturmer) Brasil. É noite. Mãe e filho descobrem que não estão sozinhos durante a quarentena. • Eles Não Vêm em Paz (Pedro Oranges e Victor Silva) Enquanto dois irmãos assistem uma matéria de jornal sobre seres extraterrestres, o irmão mais velho faz uma analogia sobre o seu mundo ser invadido por visitantes indesejados. • Socorro (Susanna Lira) Um grito de socorro da líder comunitária Socorro do Burajuba, do município de Barcarena, no Pará, considerado como uma "zona de sacrifício" ambiental e social. • Filme de Quarto (Raffaella Rosset) Num apartamento esvaziado no centro de São Paulo uma mulher divide a sala com uma imagem. Enquanto isso, uma infiltração ameaça o prédio. • Tekoha (Carlos Adriano) Em 6 de setembro de 2021, seguranças privados de fazendeiros queimaram uma casa familiar Guarani Kaiowá, no Tekoha Ava’te, em área de Retomada, na Reserva de Dourados (Mato Grosso do Sul). A ação violenta e criminosa foi registrada em vídeo (um plano só, de 02 min 52 seg) pelo Povo Guarani Kaiowá. Em 29 de dezembro de 2021, membros de igreja pentecostal queimaram uma casa de reza Guarani Kaiowá, no Tekoha Itay Ka’Agwyrusu, em Douradina (Mato Grosso do Sul). Também registrada em vídeo pelo Povo Guarani Kaiowá (um plano só, de 51 seg). A Oga Pysy (Casa de Reza) é patrimônio coletivo da cultura e da religião do Povo Guarani Kaiowá. Para os Guarani Kaiowá, Tekoha é a definição de terra indígena, território étnico e vital dos povos originários do Brasil – um lugar onde se é. O filme apresenta fragmentos de três cantos Guarani Kaiowá, do Cacique Getúlio, chamados Ñengary (canto-reza), traduzidos especialmente para este filme por Douglas Diegues em colaboração com Dani Guarani Kaiowá (da região de Dourados) e Gregorio Gómez Centurión. MOSTRA COMPETITIVA SOB O CÉU NORDESTINO DE CURTAS PARAIBANOS: • Aratu (Firmino de Almeida) Uma mãe solteira reencontra seu filho desaparecido há anos enquanto luta pelo seu direito à moradia numa comunidade de ocupação. Ao passo que uma antiga figura dofolclore brasileiro entra em cena. • A Praça de Joás (Gutenberg Pequeno) A destruição e demolição de obras e monumentos históricos tem ocorrido com mais frequência nos últimos anos, talvez por uma tentativa de apagar os fatos históricos ali representados, de um lado não satisfeito com tal memória. Situação que chega a Praça de Joás, onde a placa da praça foi apagada logo após sua inauguração, talvez por insatisfação de quem não conheceu Joás. Sendo assim, Mana, Régis Soares, Pedro Osmar, Escurinho e Walber resolvem contar um pouco da história do amigo e líder comunitário que deu nome à praça. • Anjos Cingidos (Laercio Filho e Maria Tereza Azevedo) Sertão nordestino início do século XX. A mortalidade infantil é uma das mais altas de todo o país. Dezenas de crianças morriam todos os dias, muitas delas sem sequer terem sido batizadas, sendo negado as mesmas o direito de um sepultamento dentro da tradição cristã, dominante naquelas terras. • A Espera (Ana Célia Gomes) Busca refletir sobre anseios, sentimentos, sonhos... É sobre como viver em mundo que apenas se espera ser notado, encontrar e receber amor, afeto e cuidados. • Calunga Maior (Thiago Costa) Ana, uma escritora, recentemente órfã, que decide se aventurar pelos becos da memória e seu relacionamento rompido com a mãe e a avó. • Era Uma Noite de São João (Bruna Velden) Dona Dorinha, uma viúva idosa cumprindo quarentena no interior do Sertão, relembra da janela de seu sobradinho a sua história de vida através das festas juninas da cidade ao longo dos anos. • Não Existe Pôr do Sol (Janaína Lacerda) Um terraplanista, Cláudio Wagner, viaja até a praia para refutar a teoria da terra redonda, porém, no caminho, coisas estranhas acontecem. • O Rebanho de Quincas (Hipólito Lucena e Rebeca Souza) Joaquim é um simples pastor de ovelhas, habitante do Cariri paraibano. Vive o seu cotidiano dividido entre a lida da criação, trabalho com o qual sobrevive, e a leitura em sua biblioteca repleta de almanaques e livros de filosofia. Depois de uma noite mal dormida, toma uma decisão importante. • Rendeiros (Romero Sousa) Três gerações de rendeiros do cariri paraibano é o ponto de partida deste documentário que apresenta homens que tecem renda renascença em um universo predominantemente feminino. MOSTRA CALEIDOSCÓPIO UNIVERSITÁRIO - UFPB • Outras Maneiras (Malu Ramos) Quando descobri que a fotografia sempre foi muito mais do que um registro do cotidiano. • Miau (Allyson Souza) Quando uma amiga próxima desaparece, Bento e Mari iniciam uma investigação que os leva a uma antiga lenda da UFPB. • Rapadura (Erika Paz) João é um sertanejo que decide conhecer a vida na capital da Paraíba, quando tenta a sorte com um bilhete premiado. O que ele não espera são as trapaças nas quais se mete através de sua prima, Júlia, que dificultam sua chegada ao prêmio. • Fobia Social (Sydney Nelson) Youtuber que sofre de fobia social é chamado para apresentar um evento, ao se preparar psicologicamente algo lhe deixa incerto. • Luna (Debora Lucia) Luna é mãe da casa das milhões, e uma pessoa influente na cena ballroom local, acompanhamos seu dia a dia, sua história, dificuldades e alegrias sobre a óptica dela, e de pessoas próximas também incluídas e influentes na cena • Afrocantos (Ana Beatriz Rocha) Afrocantos traz relatos de mulheres negras de diferentes ocupações, elas contam sobre os desafios do racismo, a busca da identidade e o poder da autodefinição. O fio condutor das narrativas é a canção ‘A mulher do fim do mundo’, de Elza Soares. O filme surge da crença de que músicas pretas são uma forma de intelectualidade orgânica, por isso vale a pena buscar histórias reais representadas em famosos versos da música brasileira. Afrocantos é sobre ancestralidade, autoamor e arte. Patrocínios e parcerias – A 17ª edição do Fest Aruanda tem patrocínio master do Grupo Energisa, da Cagepa e copatrocínio da PBGás, via Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal, sob a chancela do CCHLA-UFPB e da Bolandeir@rte&Films, produtora do evento.

  • Filmes nacionais que serão lançados em dezembro nos cinemas

    'A morte Habita à Noite', 'O Amor dá Voltas' e o aclamado documentário 'Deus Tem AIDS' estão entres os lançamentos do mês Divulgação: Vitrine Filmes Após um grande mês de novembro, recheado de filmes aclamados, dezembro chega mais fraco em quantidade, mas forte em qualidade. Confiram quais longas nacionais estrearão nos cinemas: 01/12: • Deus Tem AIDS (Documentário, 80 min) Direção: Fábio Leal e Gustavo Vinagre Sinopse: Quarenta anos após o início da pandemia de aids, sete artistas e um médico ativista, todos portadores do HIV, oferecem novas imagens e perspectivas para o enfrentamento da sorofobia no Brasil. • Pequenos Guerreiros (Infantil, 74 min) Direção: Bárbara Cariry Elenco: Georgina Castro, Bruno Goya, Juan Calado, Lara Ferreira e Daniel Almeida Sinopse: Cosme e Dona Maria, acompanhados do filho Benedito e dos sobrinhos Matheuzinho e Bruna, fazem uma viagem do litoral até a cidade de Barbalha, onde vão pagar uma promessa na Festa do Pau da Bandeira. A viagem é uma descoberta das paisagens, das histórias e das riquezas culturais do sertão. As três crianças vivem um processo de encantamento e afetividade e, depois da bonita aventura, Bruna, Matheuzinho e Benedito serão para sempre grandes amigos. • Na Rédea Curta (Comédia, 95 min) Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio Elenco: Sulivã Bispo, Thiago Almasy e Luciana Souza Sinopse: Da periferia de Salvador, criado apenas pela mãe, Júnior, aos 20 anos, descobre que vai ser pai e decide, a partir disso, ir atrás de seu pai. Mainha, mãe super protetora, se vê obrigada a revelar a identidade do pai de Júnio, que mora no interior do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira. Inicia-se então uma divertida viagem de Mainha e Júnior em busca do pai, numa aventura repleta de confusões que no fim só servem para aproximar mais mãe e filho. Afinal, para Júnior, Mainha é insubstituível, e não há nada nem ninguém no mundo capaz de ocupar o seu lugar. • Nunca Mais Serei a Mesma (Documentário, 90 min) Direção: Alice Lanari Sinopse: Lorena , Brandy , Ana e Cecília nunca se encontraram, mas suas histórias sim. Elas têm distintas idades, origens e cores da pele, mas todas são mulheres latino-americanas que foram afetadas pela violência. • Êxtase (Documentário, 80 min) Direção: Moara Passoni Sinopse: Conta a história da jovem Clara, em sua luta para superar a anorexia. No filme, vivemos a intimidade de sua agonia, acompanhada pelo aguçamento dos seus sentidos e por uma paradoxal sensação de êxtase. Ao se privar de comida, ela cria uma rotina baseada em cálculo, repetição e ritual. Medo e vulnerabilidade são sentimentos constantes na infância de Clara. Para lidar com a situação, ela desenvolve um sistema de controle sobre a única coisa que ela de fato podia controlar: seu próprio corpo. 08/12: • O Tablado e Maria Clara Machado (Documentário, X min) Direção: Creuza Gravina Sinopse: A história do Teatro Tablado e de sua fundadora Maria Clara Machado contada através de sessenta e dois depoimentos de ex-alunos de diferentes gerações, como Marieta Severo, Malu Mader, Cláudia Abreu, Lúcio Mauro Filho, Marcelo Serrado, Bárbara Heliodora, Ernesto Piccolo, Lupe Gigliotti, Louise Cardoso, Cacá Mourthé, Leandro Hassum, Andréa Beltrão e muitos outros, além dos professores do curso de teatro e de amigos que acompanharam o trabalho da escritora, como Gilberto Braga e Marcos Palmeira. • Pronto, Falei (Comédia, 90 min) Direção: Michel Tikhomiroff Elenco: Nicolas Prattes, Rômulo Arantes Neto, Kéfera Buchmann e Duda Santos Sinopse: Renato é um jovem tímido e inseguro, que expressa o que verdadeiramente pensa apenas através de e-mails. Escreve para o colega de trabalho, para a namorada, para os pais... não esconde nada, diz tudo o que pensa. Absolutamente tudo! E na hora de enviar... não envia. Grava na pasta de rascunhos. Um dia, sem nenhuma explicação, todos os seus rascunhos são enviados e, de uma hora para outra, ele precisa enfrentar as terríveis consequências de ser quem realmente é. • Muco - Contradição na Tradição (Documentário, X min) Direção: Oberom Sinopse: Dois irmãos brasileiros viajam à Índia a fim de entender as implicações que a prática milenar do Yoga, e seus princípios éticos (os Yamas), têm em nossa sociedade. Ao longo da jornada desvelam-se verdades ocultas da Índia que colocam em xeque a própria tradição do Yoga. • Sol (Drama, 107 min) Direção: Lo Politi Elenco: Romulo Braga, Everaldo Pontes e Malu Landim Sinopse: Um pai recém-separado, que não consegue se reconectar com a filha de dez anos, é obrigado a viajar com ela para o interior do País em busca do próprio pai que o abandonou quando criança e agora quer morrer. O convívio forçado com o pai que ele odeia e a imediata conexão de sua filha com o avô testa todos os seus limites, mas lhe dá a chance de se reaproximar da filha. • Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo (Documentário, 102 min) Direção: Taciana Oliveira Sinopse: Ensaio documental criado a partir de uma seleção de depoimentos da escritora Clarice Lispector e entrevistas com amigos e familiares em uma costura poética visual de trechos adaptados da sua obra. Exibição de material inédito e resgate da participação da escritora no programa "Os mágicos" da TV Educativa, em dezembro de 1976. • # (Drama, 102 min) Direção: Caio Sóh Elenco: Paula Burlamarqui, Rhay Polster e Leo Rosa Sinopse: Bia Leal é uma celebridade moderna, modelo e blogueira bem-sucedida que está se preparando para a sua festa de comemoração de aniversário. Ao mesmo tempo, fica cada vez mais desconectada do mundo real e de sua própria família. Ela vive o seu melhor momento até que uma ameaça a faz questionar sua realidade. 15/12: • A Morte Habita à Noite (Drama, 94 min) Direção: Eduardo Morotó Elenco: Roney Villela, Mariana Nunes e Rita Carelli Sinopse: Após ser abandonado por Lígia, Raul deseja a bebida com mais vigor, contrai tuberculose e, entre postos de saúde e trabalhos transitórios, constrói uma doce relação com Cássia, uma jovem de dezenove anos. É a primeira vez que ela se apega de verdade a alguém. Porém, Raul, ainda fragilizado pelo sumiço de Lígia e pela doença, resiste em transformar a amizade numa relação amorosa. Com corpo e mente bastante corroídos pela doença, depara-se com Inês, uma mulher misteriosa que surge em seu quarto para uma última conversa. 22/12: • O Amor Dá Voltas (Drama, 94 min) Direção: Marcos Bernstein Elenco: Cleo Pires, Igor Angelkorte, Juliana Didone Sinopse: Os encontros e desencontros amorosos de André, um jovem médico que, ao retornar ao Brasil, após mais de um ano cuidando de doentes na África, descobre que havia trocado cartas de amor não com sua namorada de longa data, mas sim com a irmã da moça. Confiram a programação dos cinemas de sua cidade (principalmente os de rua) para não perderem nenhum lançamento. Informações coletas no Filme B e Ingresso.com

  • Crítica | Pinóquio de Guillermo Del Toro

    Um conto (não tão) infantil sobre a insurgência Divulgação: Netflix Há tantos filmes baseados em Pinóquio (o mais conhecido deles, obviamente, sendo o da Disney de 1940) que é até difícil de imaginar o que poderia ser trazido de novo em uma nova versão. Mas nunca se deve subestimar a capacidade imaginativa de Guillermo Del Toro e sua paixão pelo horror e pelo macabro, capazes de trazer frescor a uma história tão conhecida e replicada. O diretor mexicano posiciona seu filme na Itália fascista do período entreguerras, abrindo com um delicado e melancólico prólogo que nos mostra a vida de Gepeto (David Bradley) com seu filho Carlo (Gregory Mann) antes da trágica morte deste durante a I Guerra Mundial. Anos depois, um amargurado e bêbado Gepeto, sob a vigilância do Grilo Falante (Ewan McGregor), decide criar um boneco de madeira (também Mann) que ganha vida sob as mãos da Fada Madrinha (Tilda Swinton) e se vê dividido entre o amor ao seu pai, o desejo de conhecer o mundo e a lealdade ao regime de Mussolini, cuja sombra paira sobre todos. Ao situar o longa num período tão sombrio da história italiana, Del Toro subverte o tom original do livro - que muitas vezes foi usado como um conto de advertência moral às crianças obedientes - para transformar Pinóquio num símbolo de insurgência contra o fascismo. O diretor não se furta em ridicularizar o regime - trazendo até mesmo a figura de Mussolini para ser humilhada em determinada consequência -, e embora essa ambientação e inserção na história seja mais circunstancial do que prioritária à narrativa, não deixa de ser uma atualização bem-vinda aos temas do livro e que conversam com o cenário de extremismo político que vivenciamos atualmente. Essa abordagem mais diretamente política é um retorno bem-vindo após o tom mais comedido de obras como "A Forma da Água", levando em conta que o diretor não se fez de tímido em tratar temas difíceis como a Guerra Civil Espanhola em alguns dos seus longas iniciais, como "A Espinha do Diabo" e "O Labirinto do Fauno". Ao mesmo tempo, Del Toro não perde de vista o cerne da história, que é a relação de profundo amor entre Gepeto e Pinóquio, ainda que os personagens falhem um com o outro. Embora os traços mais memoráveis do protagonista sejam preservados - sua propensão à mentira e a se meter em enrascadas -, é interessante ver como aqui a desobediência do personagem é trabalhada dentro da relação com Gepeto, que também precisa superar seus próprios conflitos (em especial o luto por Carlo) para ser um pai melhor para sua criação. Todos esses temas são trabalhados dentro de uma eficiente mistura entre o lúgubre e fabuloso que se tornou a marca do diretor. Não deixa de ser um filme para crianças, mas em muitos momentos insere um teor mais sombrio e adulto que surpreende - mas nunca se dissocia do lado mais infantil. O trabalho de stop-motion é um primor técnico, assim como o elenco de vozes reunidas, onde se destacam McGregor (que faz também o trabalho de narrador), Bradley, Mann (no papel duplo de Carlo e Pinóquio) e Swinton (também em um papel duplo, como a Fada Madrinha e a Morte). "Pinocchio" não leva o nome de seu diretor à toa, já que carrega consigo alguns dos pontos mais fortes da trajetória e do estilo de Del Toro. Apelando tanto para crianças quanto para adultos com suas temáticas que até chegam a assustar, mas sem nunca perder um verniz humorístico e leve, o filme promove uma releitura do tom moralista da história original para apresentar a insurgência como o único caminho possível para se lidar com o autoritarismo e o fascismo. Tudo isso é amparado na magia do stop-motion, que ajuda a distinguir o filme dentre as várias versões de Pinóquio e se firmar como uma das melhores animações do ano. Nota: 4.5/5

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