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- Crítica | RRR: Revolta, Rebelião, Revolução
Bromance e luta anticolonial no melhor blockbuster do ano. Divulgação: RRR (Netflix) Após assistir RRR, de S.S. Rajamouli, a impressão que fica é que ficamos muito mal-acostumados com a mediocridade da grande maioria dos blockbusters hollywoodianos. Se as mais de 3h de duração a princípio podem assustar, ao final fica a sensação de que dificilmente Hollywood saberia usar tão bem cada minuto dessa duração da forma como Rajamouli faz, entregando um filme que não nos permite descansar, mas num bom sentido. O diretor também incorpora uma eclética mistura de gêneros. Sim, é um épico histórico situado na Índia dos anos 1920 dominada pelos britânicos, mas também é um filme de ação no melhor estilo brucutu dos anos 80; por vezes é quase um filme de super-herói, em outras é comédia, musical ou romance (bromance). Rajamouli dá a cada um desses gêneros seu espaço para brilhar, construindo uma trama bem-delineada em 4 atos distintos, no qual acompanhamos a relação tanto de amizade quanto de antagonismo entre os dois personagens principais, Komaram Bheem (N.T. Rama Rao Jr.) e Alluri Sitarama Raju (Ram Charan). Divulgação: RRR (Netflix) Bheem é um líder tribal que é encarregado de buscar uma menina de seu povo que foi sequestrada por um perverso governador britânico da administração colonial (Ray Stevenson). Já Raju é um policial que é visto como traidor por se juntar aos colonizadores, e é encarregado de se infiltrar em movimentos pró-independência para encontrar um misterioso líder revolucionário que é ninguém menos do que Bheem. O problema? Ambos se conhecem ao ajudarem num resgate e viram amigos sem saberem da identidade real um do outro. Assim, o filme se constrói na tensão de quando a verdade vai ser revelada e o que os dois protagonistas farão com sua amizade quando isso acontecer. Toda essa tensão, contudo, é amenizada pelas escolhas estilísticas e de gênero que o filme abraça sem pudor. No entanto, se tudo soa hiperbólico, das cenas de ação (como a referida sequência do resgate, um ataque com animais aos colonizadores e o clímax) à sequência de dança onde Bheem e Raju humilham os britânicos, também nada soa gratuito. Muitas vezes o filme é brega e exagerado, mas é uma proposta que funciona dentro desse universo; afinal de contas nem sempre o cinema precisa ser demasiadamente realista, não é mesmo? Divulgação: RRR (Netflix) Contudo, há uma camada a mais que ajuda a diferenciar RRR: ambos os protagonistas são baseados em figuras históricas reais que atuaram combativamente na luta anticolonial da Índia contra os britânicos. Ainda que não haja nenhum registro de que os verdadeiros Bheem e Raju de fato se conheceram (o primeiro foi morto em 1940 e o segundo em 1924), Rajamouli adota uma ótica revisionista que engrandece o filme, não apenas ao unir as duas figuras, mas também no trato aos britânicos. Alguns podem reclamar que estes são tratados como vilões caricatos e unidimensionais, mas quantas vezes o cinema ocidental fez o mesmo com personagens indianos e asiáticos? É uma outra escolha visando um certo exagero, mas que condiz perfeitamente com o tom da obra. RRR é uma demonstração perfeita do quanto nós, ocidentais, estamos muitas vezes condicionados a um modelo único de se fazer cinema. Trata-se de um longa impressionante do primeiro ao último segundo, que ainda por cima está embebido numa forte simbologia anticolonial que, mesmo com alguns exageros, ilustra bem as chagas da colonização no país. Porém, esse fator só eleva a fascinação com uma obra que se configura como o melhor blockbuster de 2022 e meu filme favorito do ano até o momento. Nota: 5/5
- Crítica | Evil - Contatos Sobrenaturais (Temporada 3)
O impossível aconteceu. Sim, ela está melhor do que nunca. Com um estilo de programação procedural, onde acompanhamos Kristen, uma psicóloga cética que se junta a David, um padre em formação para resolverem casos até então sem explicação, e Ben Shakir, responsável por trazer uma visão científica para a suposta sobrenaturalidade, ‘Evil’ encerrou recentemente o seu terceiro e melhor ano. O primeiro destaque a ser mencionado é Katja Herbers, que interpreta a psicóloga. Sendo uma das melhores protagonistas em exibição na TV, Katja consegue brilhar do início ao fim estando sozinha ou acompanhada e entrega a melhor performance da série. Outro grande destaque nessa temporada foi Andrea Martin, que interpreta a Irmã Andrea, figura bastante fundamental para o desenrolar da trama que, pelo desempenho de Martin, ficou vários décimos acima de apenas uma coadjuvante. Vale citar também que a série traz um dos antagonistas mais detestáveis da televisão; Leland Townsend, interpretado por Michael Emerson. É impossível assistir e não sentir repulsa pelas ações de Leland, e grande parte disso vem da convincente atuação de Emerson. Temos ainda Sheryl, ambígua personagem de Christine Lahti, que deixa o telespectador em dúvidas sobre suas atitudes. O que facilita tantos desempenhos bons serem entregue, é ela ter um roteiro bem trabalhado com aprofundamento e desenvolvimento de personagens e de história. Mesmo que ela traga casos diferentes a cada episódio, e consiga explorá-los com maestria, nessa temporada em que a série conseguiu encontrar de fato o seu tom, ela trabalha os personagens mais importantes para a trama com bastante cautela. Para encerrar, 'Evil' é uma série escrita e pensada puramente para a televisão, e é muito gratificante fazer parte do público que a acompanha. Criada por Robert e Michelle King (pais de The Good Wife e The Good Fight), ela é um respiro de alívio sobre fazer TV num período em que uma parte dos espectadores e até produtores parecem estar num crescente vício em ter apenas o cinema como parâmetro de entretenimento.
- Crítica | Em Nome do Céu (Minissérie)
Apesar de certos deslizes narrativos, Andrew Garfield faz por merecer sua indicação em Melhor Ator em Série Limitada no Emmy 2022. Divulgação (Hulu) Com uma indicação ao Emmy para o protagonista Andrew Garfield, a minissérie ‘Em Nome do Céu’ chegou recentemente ao catálogo brasileiro do Star+. No enredo, baseado em uma história real, o detetive Jeb Pryre (Garfield) é chamado com sua equipe para investigar o homicídio de uma mulher e da sua filha bebê em uma pequena cidade rural no estado de Utah, nos EUA. Tanto o detetive, quanto os principais suspeitos do crime são adeptos das ideias de Joseph Smith e da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Quanto mais se aprofunda na investigação, ele descobre segredos que mudam completamente sua visão do mundo, abalando sua fé ao perceber como os escritos podem ser interpretados dentro de uma visão extremista. ‘Em Nome do Céu’ já começa muito frenética ao nos depararmos com a brutalidade do crime no qual a história gira em torno. Nesses primeiros momentos de investigação conhecemos a família Lafferty e as nuances dos irmãos, em especial o marido da vítima, considerado o principal suspeito em um primeiro momento. Misturando bastante cenas da investigação com cenas do passado, a minissérie segue essa narrativa de ida e volta que funciona em alguns momentos mais cruciais, mas torna a série arrastada em momentos no qual ela poderia ser melhor aproveitada. Acredito que essa seja a principal falha da série, já que com episódios tão longos, ela pode se tornar bastante cansativa para quem resolve acompanhá-la, especialmente para quem não conhece a história da religião, por exemplo. Porém, isso não tira o mérito de ‘Em Nome do Céu’ que com atuações brilhantes mostra como fundamentalistas abusam do fanatismo para atingir os próprios interesses, buscando na religião meios para tal e por causa de ideias deturpadas (e criminosas), sucumbiram perante à lei dos homens e à de Deus. No fim das contas, a minissérie, mesmo difícil de ser digerida em alguns momentos, pode ser uma obra fundamental para entendermos um tema tão atual de uma maneira bem crua, real e sensível.
- Festival Internacional de Cinema de Veneza 2022 anuncia seus vencedores
All the Beauty and the Bloodshed e o francê Saint Omer saem como as grandes ganhadoras da 79ª edição. Divulgação: All the Beauty and the Bloodshed (NEON) Considerado por muitos o início propriamente dito da temporada de premiações, o Festival Internacional de Cinema de Veneza realiza em seu último dia a entrega dos prêmios das competições do evento. Confiram os vencedores das seleções oficiais da edição de 2022: Em Competição: Leão de Ouro: All the Beauty and the Bloodshed (Laura Poitras) Grande Prêmio do Júri: Saint Omer (Alice Diop) Leão de Prata de Melhor Direção: Bones & All (Luca Guadagnino) Volpi Cup de Melhor Atriz: Cate Blanchett (Tár) Volpi Cup de Melhor Ator: Colin Farrell (The Banshees of Inisherin) Golden Osella de Melhor Roteiro: The Banshees of Inisherin (Martin McDonagh) Prêmio Especial do Júri: No Bears (Jafar Panahi) Marcello Mastroianni de Melhor Artista Revelação: Taylor Russell (Bones & All) A vitória de marca o terceiro ano seguido que um longa dirigido por uma mulher vence o Leão de Ouro, maior prêmio do Festival de Cinema de Veneza. 2020 • Nomadland (Chloé Zhao) 2021 • L’Événement (Audrey Diwan) 2022 • All the Beauty and the Bloodshed (Laura Poitras) Divulgação: Saint Omer (Super) Mostra Orizzonti: Melhor Filme: World War III (Houman Seyyedi) Melhor Direção: Vera (Tizza Covi e Rainer Frimmel) Prêmio Especial do Júri: Bread and Salt (Damian Kocur) Melhor Atriz: Vera Gemma (Vera) Melhor Ator: Mohsen Tanabandeh (World War III) Melhor Roteiro: Blanquita (Fernando Guzzoni) Melhor Curta-Metragem: Snow In September (Lkhagvadulam Purev-Ochir) Divulgação Além disso, vale destacar que o brasileiro Pedro Harres venceu o Grande Prêmio do Júri da Mostra Venice Immersive com 'From the Main Square', seu curta-metragem alemão. "Circundando sua praça central, uma nova cidade emerge em toda a sua diversidade. Uma encruzilhada de histórias, edificações, esperanças e conflitos. Os laços sociais e as culturas se enraízam. As pessoas nutrem simpatia e cuidam de seus iguais, mas também animosidade para com aqueles que são diferentes. Não demora muito para que uma atmosfera de 'nós contra eles' assuma o controle. From the Main Square é uma experiência interativa de RV que convida o espectador a testemunhar a ascensão e queda de uma sociedade dividida. Uma civilização floresce, com todas as suas contradições, apenas para se tornar um perigo para si mesma." Divulgação
- Crítica | O Livro dos Prazeres
Às vezes tudo que nós precisamos é de um banho de mar. Divulgação: O Livro dos Prazeres O existencialismo no cinema e televisão pode ser retratado de diversas formas. Seja de forma positiva como em ‘A Pior Pessoa do Mundo’ ou através do ideal do luto como em ‘The Leftovers’, a proposta da corrente filosófica existencialista busca basicamente a mesma coisa: analisar todas as camadas do ser humano. É isso que ‘O Livro dos Prazeres’ tenta fazer. Baseado na obra ‘Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres’ de Clarice Lispector, o filme dirigido por Marcela Lordy retrata a vida de Lóri (Simone Spoladore), uma professora do ensino fundamental, livre e melancólica, que acredita que se ela se afastar das pessoas suas dores internas também sumirão. Num acaso, ela conhece Ulisses, um professor de filosofia egocêntrico e provocador, que desperta uma profunda mudança em Lóri. Inicialmente, vale-se engrandecer a direção de Lordy. Sucinta, delicada e melancólica, a diretora consegue retratar através de seus movimentos tudo que o ambiente colabora para que Lóri se sinta como se sente. O apartamento em frente à praia do Rio de Janeiro, o sentimento de inferioridade diante de cômodos enormes, porém, vazios, e uma sala de aula que serve como uma sessão de terapia indireta, todos eles são feitos para caracterizar e entendermos o que nossa protagonista sofre inteiramente durante boa parte do filme. Contudo, o uso direto de citações do livro de forma abrupta atrapalha um pouco a experiência. Adaptar algo já é difícil por si só, então fazer isso com uma obra conhecida por suas frases marcantes e reflexivas é ainda mais. Não é como se isso deixasse o filme ruim, mas o destaque dado em determinadas cenas faz com que essas cotações se tornem maiores que o próprio longa, dando a elas uma carga dramática emocional que nós não encontramos quando o analisamos como um todo, atrapalhando até a atuação em várias partes. Em relação a isso, com exceção de Simone Spoladore, que ocupa a tela brilhantemente, os atores Javier Drolas e Felipe Rocha são os únicos que seus personagens ainda ganham uma história paralela, podendo ainda serem melhor exploradas. Ulisses e Davi servem para Lóri apenas como lembretes do mundo externo que problemas sempre vão existir, mas a forma que você lida com eles que dita sua presença em meio a isso. De forma geral, ‘O Livro dos Prazeres’ nos entrega cenas belíssimas em meio a um roteiro fraco, mas eficaz e atuações interessantes. Além disso, vai te deixar com mil pensamentos sobre como levamos a vida diante do caos que é viver no Brasil de 2022 e que tomar um banho de mar renova a alma, e querendo ou não, ele está certo. Nota: 2,5/5
- Crítica | Trancada
Longa de suspense traz protagonista forte que luta para proteger os filhos. Divulgação: Synapse Distribution Disponível desde 30 de setembro nas plataformas da Claro tv+, iTunes/Apple, Google/Youtube e Vivo Play, o filme Trancada (Shut In) foi lançado nos EUA em fevereiro e é dirigido por por D.J Caruso, de “Eu Sou o Número Quatro” e “Paranoia”. O longa acompanha a jovem Jessica (Rainey Qualley) e seus dois filhos. Enquanto organiza a casa de sua mãe em uma localidade remota para vendê-la, ela é surpreendida pelo ex-namorado violento, Rob e Sammy, um perigoso foragido da justiça. Para se vingar de Jessica, Rob a tranca na despensa da casa. Aproveitando-se da situação, Sammy retorna à casa atrás de Lainey, a filha mais velha do casal. Desesperada, Jessica procura uma saída para salvar seus filhos do perigo iminente. O grande destaque, sem dúvidas, é a protagonista Rainey Qualley (sim, a irmã da Margaret Qualley de “Maid” e “The Leftovers”). Esse é o seu maior papel até então e ela dá conta do recado em momentos extremamente angustiantes. É possível perceber como a atriz se apropria dos aspectos físicos e emocionais da sua personagem para demonstrar o desespero perante a situação. O roteiro deixa explícito as dificuldades de Jessica diante das adversidades e, principalmente, da sua vontade em proteger os seus filhos custe o que custar. Divulgação: Synapse Distribution Tecnicamente, o longa explora bem o tom sombrio e assustador das localidades afastadas e abusa das cores frias em quase todas as cenas, ajudando a criar uma atmosfera tensa. E, mesmo abusando dos clichês do gênero em alguns momentos, consegue prender o telespectador durante a sua 1h28 de duração, especialmente por tratar de assuntos como violência doméstica e abuso de substâncias. Com 60% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes, o filme é uma boa pedida para os amantes de histórias tensas de suspense. Com atuações e personagens envolventes, “Trancada” tem momentos tensos que se complementam por meio de ótimos arcos de redenção e de amor maternal. Nota: 3/5
- Análise | A Casa do Dragão 1x07 ("Driftmark")
Quanto vale um final impactante? Divulgação: HBO Em contraste com os saltos temporais dos episódios passados, "Driftmark" dá sequência imediata aos eventos de The Princess and the Queen, utilizando a morte de Laena Velaryion (Nanna Blondell) como um catalisador para reunir os personagens principais. Se We Light the Way demonstrou os perigos de um casamento em Westeros, aqui vemos os perigos de um funeral; e tal qual naquele episódio, temos uma construção hábil da tensão entre os diferentes núcleos, tensão essa agora agravada em face dos 10 anos que se passaram. Todo o primeiro ato é uma aula de direção por parte de Miguel Sapochnik, que usa o espaço pós-funeral para criar um ambiente claustrofóbico onde as rivalidades e tensões podem explodir a qualquer momento, tudo isso com o mínimo de diálogo possível. Driftmark se beneficia da sua estrutura de “bottle episode” (por sua ambientação restrita ao castelo dos Velaryon e arredores) para se mostrar um episódio onde a narrativa é claramente mais focada do que nos episódios anteriores, nos quais os saltos temporais e a constante leva de informações e personagens às vezes poderia mais prejudicar do que ajudar o espectador. Isso permite uma relação de causa-consequência muito mais orgânica, como atesta a sequência principal do episódio, envolvendo Aemond (Leo Ashton) domando Vhagar e sua briga com os sobrinhos, que resulta na perda do seu olho após ser esfaqueado por Lucerys (Harvey Sadler). A costura do roteiro permite que esse incidente tenha a dimensão devida, servindo talvez como a gota d’água definitiva para a separação entre as facções de Rhaenyra (Emma D’Arcy) e Alicent (Olivia Cooke). Se a cena em que Alicent tenta esfaquear a antiga amiga pode soar de início exagerada, ao menos é eficaz em mostrar o quanto Viserys (Paddy Considine) é um rei fraco ao não dar as punições devidas aos netos, filhos ou à esposa. Embora eu acho que o roteiro pese a mão em simbolizar a fraqueza do personagem através da sua deterioração física, ela é muito mais nítida aqui do que através da violência de Sor Criston (Fabien Frankel) no episódio 5, já que podemos ver a (falta de) consequências às ações de Alicent e das crianças e como a inércia de Viserys apenas piora a situação, ao mesmo tempo em que o fato de estar vivo é o único obstáculo para que a guerra de fato aconteça. Da mesma forma, esse foco narrativo, aliado à excelência das atuações, é o que nos permite comprar o relacionamento de Rhaenyra com Daemon (Matt Smith). Tanto D’Arcy quanto Smith conseguem transmitir perfeitamente todo o desejo e cumplicidade dos personagens, que não foi alterado depois de uma década. E o final apenas solidifica esse (deliciosamente) problemático laço, dando inclusive novas dimensões a Rhaenyra, que aqui começa a abraçar de vez um lado mais sombrio de si que será mais e mais visto conforme a série avançar. Divulgação: HBO Contudo, esse final também é onde o episódio escorrega. Ritmo tem sido um problema constante à House of the Dragon até aqui, especialmente por conta da sua escolha em avançar anos e anos na narrativa, mas parece haver um desejo constante por finais impactantes e marcados por plot twists ou uma certa grandeza, que vem ao custo de uma completa discrepância em relação ao que foi apresentado nos 50 minutos anteriores. Essa sensação foi particularmente evidente no episódio passado, mas era mais reflexo do salto temporal e do espaço negado a personagens como Laena e Harwin (Ryan Corr) na narrativa. Aqui tudo parece muito corrido, desde o plano articulado por Rhaenyra com Daemon e a revelação envolvendo Laenor (John McMillan) – que ganha um destino diferente dos livros, o que não é um problema em si, mas que também soa “solto” diante do mostrado nos personagens anteriores. É uma falha nítida demais num episódio que até então vinha mostrando um controle sobre seu ritmo que faltou a alguns dos anteriores. Apesar disso, porém, Driftmark representa um ponto de virada definitivo para a trama de House of the Dragon, definindo os jogadores principais de cada lado: Rhaenyra e Daemon contra Alicent, Otto, Larys e Criston. Mesmo carregando alguns dos problemas maiores que vêm acometendo a temporada, também se sobressai ao evitar outros erros, mostrando que, em meio às rivalidades, falhas de caráter e traições, o conflito desenhado para a Casa Targaryen promete ser épico e trágico.
- Análise | Andor 1x04 ("Aldhani")
Todo mundo está escondendo alguma coisa. Divulgação: Disney+ Em seu quarto episódio, Andor mais uma vez desacelera o ritmo, estabelecendo uma transição entre a jornada mais íntima de seu protagonista na trinca inicial de episódios e o escopo cada vez maior envolvendo as lutas internas e externas da Aliança Rebelde e do Império. Os críticos do ritmo mais lento não se calarão, mas é fascinante ver a série tomando seu próprio tempo para explorar uma narrativa que promete ser cada vez mais expansiva e ambiciosa, sem perder de vista o desenvolvimento dos seus personagens. O lado político de Star Wars – que nunca recebeu o tratamento devido nos live-actions que George Lucas pretendia – ganha força aqui, com o roteiro oferecendo mais camadas e nuances a Luthen Rael (Stellan Skarsgard), o misterioso personagem que recrutou Cassian (Diego Luna) no episódio passado. Aqui descobrimos que não apenas ele opera sob o disfarce de um negociante de artes em Coruscant, mas que ele tem contato direto com a senadora Mon Mothma (Genevieve O’Reilly), que já conhecemos antes como a futura líder da Aliança e que neste ponto da cronologia ainda é uma política do Império, mas que secretamente obtém fundos para os rebeldes. Ambos os personagens precisam se valer de subterfúgios para jogarem o perigoso jogo no qual estão envolvidos, e a série habilmente constrói uma tensão sufocante em volta da possibilidade deles serem desmascarados e fracassarem em sua missão. Ao mesmo tempo, há uma maior exploração e enfoque no lado dos antagonistas, com o Império efetivamente sendo introduzido na trama. Porém, não espere ver o Imperador, Darth Vader ou Moff Tarkin: mantendo-se fiel à proposta dos primeiros episódios, vemos uma espécie de “FBI” Imperial que ilustra não só o lado mais burocrático dessa ditadura, como também os jogos de poder e as intrigas políticas, através da figura da ambiciosa Dedra Meelo (Denise Gough), que passa a investigar o dispositivo roubado por Cassian e vendido à Luthen no episódio passado. Essas partes foram uma excelente adição, já que nem as suspeitas de Dedra conseguem bater de frente com a imensa estrutura burocrática do Império, e é fácil perceber porque eles serão lentos em perceber as ações dos rebeldes antes que seja tarde demais. É uma pena que a introdução desse núcleo implique em uma diminuição do espaço de Syril Karn (Kyle Soller), que se configurou como o antagonista principal dos três primeiros episódios, mas não duvido que o personagem ainda terá relevância na narrativa e eventualmente até mesmo se juntará à Dedra em sua caçada a Cassian. Essa ampliação de novos espaços e núcleos acaba tirando um pouco do brilho da própria trama de Cassian, que se junta a um grupo de rebeldes em um planeta florestal em circunstâncias adversas. A missão para a qual ele foi recrutado por Luthen não é nada simples, e seus novos companheiros não o aceitam bem, mas ainda assim é uma introdução tímida que, no entanto, deve ser recompensada nos próximos episódios. É evidente que Andor deve adotar uma estrutura de arcos compostos de três episódios, mas sem perder a fluidez de uma trama mais serializada. O fato desse episódio ser lançado individualmente em contraste com os três primeiros pode frustrar aqueles que esperavam um modelo de lançamento de três episódios por semana, mas da minha parte me vejo fortemente cativado pelo ritmo metódico que a série vem adotando, num contraste distinto com as outras séries de Star Wars ou do Disney+ e streamings num geral. É pouco provável que Andor vá receber a mesma atenção dada às outras obras situadas nessa galáxia tão, tão distante, mas é nítido seu planejamento narrativo. Com novos jogadores em cena, o retorno a alguns cenários muito queridos (Coruscant é talvez meu planeta favorito de toda a saga) e a manutenção desse senso de construção de mundos orgânicos, imersivos e palpáveis, a série continua na disputa por ser uma das melhores criações do universo de Star Wars.
- Crítica | Arcanjo Renegado (2ª Temporada)
A representação fiel do atual cenário político e social do Brasil. A segunda temporada de ‘Arcanjo Renegado’, série do Globoplay que estreou em 2020, encerrou recentemente e trouxe de volta aquele clima pesado de perigo e caos envolvendo crime, milícia, política e religião, de uma forma tão realista que a sensação ao assistir é a de que colocamos em um telejornal. Estrelada por Marcello Melo Jr. e com um elenco coadjuvante cheio de gente talentosa, a série volta com um tom ainda mais denso, tendo em vista o período pré-eleição no Brasil e todas as nuances que esse jogo político envolve, desde os bastidores até ao que nos é mostrado. Em seu segundo ano, a série volta sem enrolação, e apesar dos dez episódios, ela entrega em cada segundo alguma informação importante, que em algum momento será utilizada no meio da trama, sem deixar pontas soltas ou fazer colocação de drama apenas para causar choque no telespectador. Após o assassinato de um importante político no cenário do Rio de Janeiro na temporada anterior, vemos essa temporada se desenrolar a partir daí trazendo de volta o perigoso e valioso Mikhael, que sem muito esforço consegue se meter no meio de todas as tramas sendo uma figura preciosa para a história. A base central desse novo ano se dá por um tema que desde 2018 se tornou frequente na política; as fake news, e é muito interessante a forma crua que o roteiro mostra ao público como elas são criadas e introduzidas à população, causando alvoroço e tirando de foco os responsáveis por alguma coisa que geraria algum julgamento, prisão ou execução. Nesse ponto, uma figura bastante presente é o repórter independente Ronaldo Leitão, que se envolve no meio disso tudo através de Mikhael e é alvo frequente de ataques dos políticos e policiais corruptos envolvidos. Sem se ater somente a esse tópico, a temporada destrincha de maneira minuciosa como age a milícia dentro da polícia e da política, causando estragos quase irreversíveis de forma que tudo desmorone para o lado daqueles que são sua oposição. Outro ponto que abordado de maneira técnica, é a inserção de religiosos nesse poder político, coisa que não precisamos ir longe para saber como acontece, e o uso que fazem da fé para demonizar aqueles que pensam de forma contrária apenas visando benefícios para os seus, em prol de uma posição que os mantenham visíveis como mandantes e figuras de retidão. A temporada também consegue encaixar em sua trama um problema social do cotidiano; o racismo, aqui abordado tanto pelo tratamento dentro da política como pelo policial. Sem fazer demagogia, o texto é claro, direto e didático em mostrar como o racismo escancarado e o estrutural funcionam e afetam diversos setores e pessoas. Um dos pontos positivos nessa questão, é que a série não se prende somente na violência e nem sendo carrasca com corpos pretos, ela usa nuances simples, se aproveitando em sua maioria do próprio protagonista; um policial preto, para se fazer clara. A direção das cenas de ação continua tão boa quanto na temporada anterior, trazendo à tela diversos momentos de tensão visual de enfrentamento corpo a corpo, e os atores se saem bem em sua maioria e um roteiro bem feito, apesar de alguns vícios da televisão. Em um ano como o que estamos, ela conseguiu trazer temas pertinentes, importantes e necessários de serem vistos e explicados, e fez isso com uma qualidade visual absurda. Fica o desejo para uma próxima temporada ainda melhor, como mostrado no final dessa, com um tema tão importante quanto os já mostrados. Nota: 4/5
- Crítica | Marte Um (Representante do Brasil no Oscar 2023)
A fenomenal visão de Gabriel Martins sobre viver em uma sociedade eclipsada pela passividade do indivíduo. Divulgação: Embaúba Filmes Como seguir a vida quando todas as suas escolhas parecem estar condicionadas à ocasião? Ou quando você não consegue ter voz ativa para falar por si próprio? Como reagir a um mundo que parece te induzir ao fracasso? Lutando contra as probabilidades, os personagens de Marte Um acabam respondendo esses questionamentos e mais alguns no decorrer do filme, que foi o escolhido para representar o Brasil numa tentativa de indicação ao Oscar 2023. Dirigido pelo cineasta Gabriel Martins, ele nos leva ao seio de uma família mineira na periferia de Contagem vivendo seu cotidiano num período um tanto conturbado para os quatro membros; Tércia e Wellington, os pais, Eunice a irmã mais velha e Deivinho, o caçula. É acolhedora a forma como ele molda personagens sem estereótipos genéricos comuns em filmes que retratam as periferias do Brasil, a maneira como Martins os conduz com sutileza e dignidade mostra o nível de respeito nessa produção pelas vivências de milhares de pessoas Brasil afora. É importante ressaltar, pois, pelo olhar de quem está longe, haveria uma disparidade gigantesca do que foi mostrado, e enquanto cidadão que se identifica com aquilo, é gratificante poder consumir uma obra pensada com visível afeição. Indo pelo começo, ele nos apresenta os personagens numa perspectiva descontextualizada do quadro geral, vamos conhecendo-os gradativamente nas cenas iniciais em que cada um vai se encaixando na história posteriormente. Desde seu primeiro momento, o longa já mostra o seu ritmo, não há nada frenético ou um ápice, ele evolui sem pressa alguma e deixa claro que tudo o que vemos em tela vai importar. O desenvolvimento da trama está intrinsecamente ligada aos quatro membros da família, são eles que dão o tom até o final, e são igualmente trabalhados durante todo o percurso da história, mesmo cada um tendo sua própria subtrama, o que traz ainda mais brilho para a produção, eles têm uma desenvoltura quando reunidos que prende a atenção rapidamente. Divulgação: Embaúba Filmes Não tem como destacar qual dos personagens é o mais interessante, pois, todos são trabalhados com calma e objetividade, o que deve ser destacado é a forma como Martins coloca em linearidade as suas tramas. Ele faz um trabalho tão meticuloso enquanto os desenvolve que cada segundo agrega mais honestidade à história, a começar por Eunice, a personagem mais enigmática da trama, interpretada duramente por Camila Damião. Por diversos momentos tem uma aparição sutil, onde a sua presença é o que mais marca, principalmente no início onde ela não tem textos, e que mesmo assim, de uma forma introspectiva, cativa a atenção e endossa a sua trama e as camadas da personagem que podem ser desvendadas no decorrer do tempo. Duas figuras que se complementam sendo opostos, são Tércia e Wellington, os pais da família, interpretados por Rejane Faria e Carlos Francisco. Quando juntos, temos dois personagens corriqueiros do cotidiano do cidadão médio, e tem muita naturalidade na conjunção que os dois fazem. Assim como Eunice, ambos tem um condicionamento à mudança de perspectiva quando longe dos outros, Wellington é aquele tipo de homem prestativo, mas que tem um passado que colaborou para ele se tornar quem é no presente, que em dado momento o faz sucumbir, e que a partir disso consegue ter uma visão mais ampla sobre as alterações que vêm acontecendo em sua família. Já Tércia é a figura que une, que tenta estar presente, mas que tem seus próprios devaneios e dúvidas, é a porta para o toque místico dentro da trama. Deivinho, interpretado por Cícero Lucas, é o responsável por denotar o tom de subserviência diante das vontades de terceiros sobre si, mas não o único. Divulgação: Embaúba Filmes Nada disso seria possível sem o roteiro de Gabriel Martins. Como dito anteriormente, somente uma vivência real dentro daquilo retratado no filme poderia entregar textos tão respeitosos e verossímeis. Martins deixa claro a todo instante que não há fantasia em nada do que é mostrado, é tudo objetivo e em constante paralelo com o cotidiano periférico, e o que dá mais qualidade ao seu texto é a simplicidade e o uso que ele faz dela dentro da trama, é uma visão bastante límpida, que em momento nenhum tenta iludir o espectador ou o induzir a algo fora do eixo apenas para causar algum choque, ou comoção. Não há tentativas de se apropriar de histórias para gerar desconforto, nem para diminuir ou menosprezar os personagens ali retratados. Ainda nesse tópico, é aqui onde há a inserção dos questionamentos citados no começo do texto. Claro que não são perguntas elucidadas ao público de maneira direta, são questões que permeiam os pensamentos enquanto acompanhamos o desenrolar da história e as frustrações dos personagens. Há constantemente uma discussão social sobre o livre-arbítrio e até onde vai o seu limite, e ‘Marte Um’ mostra com sutileza que nem sempre se trata sobre liberdade de escolhas, mas de condicionamento por situações que o indivíduo passa. São coisas tão sutilmente enraizadas na vida diária que por diversas vezes calamos a própria voz em razão disso. Divulgação: Embaúba Filmes Em uma produção onde tudo se encaixa milimetricamente fica até difícil dizer o que mais se destaca, porém, em 'Marte Um', o grandiosíssimo destaque é, sem sombra de dúvidas, a direção primorosa. O bom de poder dirigir aquilo que escreveu, é que vai haver um embasamento próprio para conduzir cenas específicas que em outras mãos poderiam não ter o resultado esperado. Gabriel Martins encanta como diretor, ele escancara o seu talento com tamanha maestria que cada cena se torna um take memorável, é uma aula sobre como fazer um longa de forma certeira. Se o Oscar fosse uma premiação mais ampla e justa, essa já seria uma indicação inquestionável para a categoria. Outro ponto que traz mais qualidade a todo esse conjunto é a trilha, com destaque para o início e o fim, quando ela é o maior artifício usado. Daniel Simitan fez um trabalho extraordinário de captação de sons e cenas, transformando o que já era bom em ótimo. A edição também merece uma citação, pois, magistralmente bem executada, ela faz transições que elevam o nível do longa em vários pontos. Por fim, Marte Um é um presente para o público em 2022, e será uma indicação muito bem acertada caso consiga avançar na próxima fase de seleção do Oscar. É um filme sobre viver, sobre escolher e principalmente sobre resistir. Nota: 4,5/5
- Análise | Andor 1x05 (“The Axe Forgets”)
A grandeza dos pequenos detalhes. Divulgação: Disney+ "O ritmo da repressão ultrapassa a nossa capacidade de entendê-la. Esse é o truque da máquina Imperial de pensamento. É mais fácil se esconder atrás de 40 atrocidades do que de um único incidente." A essa altura, está mais do que clara a estrutura de Andor de trabalhar mini-arcos estruturados em três episódios, de modo que aqueles que esperam ver a invasão à base Imperial prometida no episódio anterior certamente se frustrarão. Entretanto, a lentidão de The Axe Forget não é de forma algum impeditivo, porque a série parece refinar cada vez mais seu ritmo e capacidade de imersão não só nos mundos que apresenta, como também no interior de seus personagens. O episódio investe boa parte do seu tempo em nos aproximar do heterodoxo grupo de rebeldes aos quais Cassian (Diego Luna) se une, em especial o idealista Nemik (Alex Lauther) e o desconfiado Skeen (Ebon Moss-Bacharach). A desconfiança mútua e a tensão pela chegada repentina de Cassian é palpável, e direção e roteiro fazem um ótimo trabalho em lentamente aproximar o grupo do protagonista antipático (e eu adoro que Cassian não é um personagem fácil de gostar!). Ao conhecermos mais de cada um, suas motivações e particularidades, não deixamos de nos envolver com eles – e sinto que esse é um prenúncio de que perderemos alguns deles na próxima semana, quando o ataque enfim se concretizar. Divulgação: Disney+ Paralelamente, a série continua a humanizar seus demais núcleos, tanto do lado dos rebeldes quanto dos antagonistas. Mesmo aparecendo em uma única cena, Luthen (Stellan Skarsgard) transparece suas inseguranças sobre se o plano que criou dará certo, enquanto Mon Mothma (Genevieve O’Reilly) está cada vez mais alienada de sua família e em um estado de alerta constante pelo risco de ter sua conexão com a Aliança Rebelde descoberta. Do outro lado, Dedra (Denise Gough) também é relegada a uma única cena, mas podemos ver que ela está longe de ser uma burocrata ineficaz como vimos outros personagens serem; pelo contrário, sua capacidade de observar um padrão em meio à aleatoriedade de ataques e roubos que o Império vem sofrendo é um forte sinal de que em breve a veremos no encalço de Cassian e seus novos aliados. E eu não duvidaria de que em algum momento ela se juntasse a Syril (Kyle Soller), que recebe bastante espaço neste episódio, seja sob o jugo da sua mãe (Kathryn Hunter) quanto na sua nítida obsessão em pegar Cassian, de modo que consigo visualizá-lo perfeitamente como uma versão espacial do Inspetor Javert (de Os Miseráveis). Claro que muito disso é um enorme “vem aí”, mas na qualidade de um episódio de transição (ou segundo ato do presente mini-arco), The Axe Forget continua o processo de encher o universo de Star Wars com um realismo e organicidade que enriquecem a saga, sem deixar de movimentar sua trama ou desenvolver seus personagens através de detalhes e gestos simples, mas que revelam muito de seus mundos interiores. Talvez fosse melhor à série ter três episódios lançados por semana? Sim, mas gosto da ousadia de Andor em não se render às expectativas de um público que anseia por entretenimento barato. Não há dúvidas de que o próximo episódio entregará mais ação, mas são nos momentos ordinários como uma refeição e nos diálogos politicamente carregados que a série evidencia sua grandeza e o frescor que traz para Star Wars.
- Crítica | Blonde
Um retrato de Marilyn Monroe sob a ótica da objetificação e da violência contra a mulher. Divulgação: Ana de Armas em Blonde (Netflix) Nesta quarta-feira, 28, a Netflix disponibilizou em seu streaming o filme Blonde, uma cinebiografia fictícia escrita e dirigida por Andrew Dominik e baseada no romance de 2000 de mesmo nome de Joyce Carol Oates. Desde o anúncio de Ana de Armas como a intérprete de Marilyn até as entrevistas mais recentes do elenco e da produção, o filme vem sendo cercado de polêmicas e causou grande expectativa do público em geral após ser aplaudido de pé por 14 minutos no Festival de Veneza. Com longas duas horas e quarenta e seis minutos, ‘Blonde’ começa mostrando a infância da atriz que veio a se tornar um ícone da cultura pop até os dias de hoje. É desde esse começo que vimos a visão do diretor em enfatizar os momentos mais trágicos da artista. Não que Norma Jeane (nome verdadeiro de Marilyn) não tenha sofrido traumas e tristezas em sua vida, ela sofreu e muito. Porém, fica claro que a intenção do diretor não foi salientar a grande força que era Marilyn nas telas e com o público e sim mostrar a sua trajetória como um grande circo de horrores. Divulgação: Ana de Armas em Blonde (Netflix) ‘Blonde’ usa do poder de ser uma cinebiografia fictícia para exagerar e dramatizar todas as situações vividas pela atriz que são de conhecimento público. Falta sensibilidade ao colocar tantas cenas grotescas em tela, cenas essas que desrespeitam não só a memória de Marilyn como também ofende as diversas mulheres que (provavelmente) assistiram o filme. Andrew Dominik (diretor conhecido por-pasmem-filmes de faroeste com bastante violência) não tem nenhuma cautela durante essas quase três horas de longa e esmaga o telespectador com cenas de estupro, agressões e nudez gratuita. Além disso, utiliza-se de uma ferramenta tosca que parece ter saído de um comercial político conservador ao mostrar para o telespectador um bebê (grande) no útero de uma Marilyn prestes a abortar e usa do fato de Marilyn não ter um pai para a demonstração de um feitiche doentio onde a personagem chama seus parceiros de ‘pai’. Em uma perspectiva maior, o filme tem os destaques positivos na atuação quase que impecável de Ana de Armas e na fotografia que mescla elementos em preto e branco com o colorido. Ana é realmente a única parte memorável de ‘Blonde’ e fica óbvio que ela sustenta com sua atuação a história fantasiosa e misógina de Dominik. Não existe nada que justifique a forma como a figura de Marilyn foi retratada pelo diretor. A desculpa de que o longa é uma ‘visão artística’ não é motivo para reduzir uma figura tão emblemática ao estereótipo da loira burra hipersexualizada e surtada que vive beirando o colapso. Divulgação: Ana de Armas em Blonde (Netflix) É deprimente para a sociedade feminina perceber que, 60 anos depois, a atriz continua sendo sexualizada e violentada de várias formas possíveis. Não importa a qualidade estética e técnica, ‘Blonde’ é mais um longa que demonstra as mulheres do pior jeito possível: através da perspectiva e das lentes de um homem hétero e branco. Nota: 1,5/5












