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- Entrevista | Ícone do cinema nacional, Helena Ignez fala sobre a remasterização de “A Mulher de Todos”
A atriz conversou com o OP? sobre cinema brasileiro, protagonismo feminino, conservadorismo, novos fãs e sua relação com Rogério Sganzerla. Divulgação No dia 21/02 a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, exibiu pela primeira vez em 4K o filme A Mulher de Todos, escrito e dirigido por Rogério Sganzerla em 1969 e restaurado por Débora Butruce. O processo de restauração digital em 4K contou também com recursos do edital de Digitalização de Acervos 2023 da Lei Paulo Gustavo pela Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo Com lançamento em plena ditadura militar, o longa, estrelado por Helena Ignez, conta a jornada de Ângela Carne e Osso, uma protagonista feminina, sensual, libertária e rebelde, se tornando imediatamente um clássico do cinema nacional. Também no elenco estão grandes nomes da atuação brasileira como Jô Soares, Antonio Pitanga, Paulo Villaça e Stênio Garcia. Comédia satírica que faz uma crítica ácida à sociedade ocidental, A Mulher de Todos foi o segundo filme de Rogério Sganzerla, lançado um ano após O Bandido da Luz Vermelha – no qual Helena Ignez também brilhou como protagonista. Além da colaboração artística, Sganzerla e Ignez compartilharam uma parceria na vida pessoal, permanecendo casados até a morte do cineasta. O Oxente, Pipoca? teve a imensa honra de conversar com Helena Ignez, uma das mais icônicas figuras do cinema brasileiro, sobre o filme. Confira a entrevista na íntegra: Aianne Amado: Como que tem sido para você reviver esse filme e sua jornada com esse filme? Vi, por exemplo, que você foi divulgar a nova versão na Cinemateca. Helena Ignez: A experiência foi maravilhosa. Maravilhosa. Foi a Cinemateca cheia, principalmente jovens, muito jovens – quer dizer, gente que está estudando esse trabalho, essa obra – e pessoas importantes da cultura brasileira, como Inácio de Araújo. Então foi completo, foi maravilhoso. A Mulher de Todos é de uma atualidade extraordinária. Fiquei impressionada como aquilo que os personagens do filme refletem repercutem até hoje – afinal, o filme pensa no século XXI, não é? A Ângela Carne e Osso é uma mulher do século XXI. Eu agradeço muito a Rogério por como ele completa isso: [ela é] uma rata, que é uma realmente uma definição inesperada. É como Abismo (1977), um filme também restaurado, que passou no ano passado em Locarno [cidade na Suíça], com grande repercussão. Esse filme de Rogério é considerado um clássico – não só um filme experimental, mas um clássico! [Foi exibido] junto com Goddard, que também participava dessa mostra – que se chama A História do Cinema (L'histoire du Cinéma) – e com Hitchcock. Quer dizer, com os os grandes diretores do cinema, seja ele clássico, moderno, experimental, não importa. São grandes diretores de cinema. AA: Eu encontrei um texto publicado pelo Sganzerla em 1970 que falava: “Feliz ou infelizmente, A Mulher de Todos é mais inteligente do que os críticos. Esse pecado ninguém perdoa. No entanto, é tão fácil fazer filmes mais inteligentes do que as opiniões da crítica.” O que você acha que ele quis dizer com isso? E você acha que se aplicaria até hoje? HI: Que idade o Rogério tinha aí? Que ano foi? AA: Foi em 1970, um ano depois do filme ser lançado. HI: Um ano depois… ele tinha 22, 23 anos em 70. É uma crítica que só pode ser feita por ele, que, em primeiro lugar, que era um crítico extraordinário dos melhores jornais de São Paulo: a Folha, o Estado e o Jornal da Tarde. Quer dizer, um menino, grande crítico e que fez um filme. E esse filme! Evidentemente que A Mulher de Todos foi invejado, profundamente invejado. Era um filme popular, um filme que deu dinheiro, entendeu? Era um sucesso muito grande de público. E pela primeira vez uma mulher ativa nesse protagonização [sic], porque existiam mulheres que foram maravilhosas, em filmes maravilhosos. Tinham vítimas como Joana D’arc (Victor Fleming, 1948) – esse filme extraordinário, que a atriz [Ingrid Bergman] enlouqueceu de tanta entrega que ela teve. Mas olha o personagem: personagem vítima. [As mulheres eram] sempre vítimas exploradas, sem possibilidade de conexões, por exemplo. Agora eu me lembrei do filme do Coutinho [Cabra Marcado para Morrer, 1984], que apresenta a Elizabeth Teixeira, essa mulher fantástica… Essa mulher, ela, de alguma maneira, é tão grande quanto as grandes heroínas do cinema brasileiro. É como agora, não é? É o que acontece com Ainda Estou Aqui [Walter Salles, 2024]. É isso: essas mulheres que lutam, que vencem. E ali [em A Mulher de Todos], então, foi altamente sexy! Entrar na política através da sexualidade de uma mulher exagerada, de uma mulher que inclusive não é virtuosa, é uma louca e é uma trágica, porque ela é morta. O seu “maridinho” manda ela para o espaço, sorrindo! E aí, em 1970, ele fala que a crítica não tinha inteligência, não estava pronta para esse filme e é isso: a gente estava num contexto social totalmente diferente, de 1970, ditadura. A gente superou isso, só que a gente tá numa nova onda de conservadorismo, de valores tradicionais da família. AA: Você acha que esse filme vai ter uma recepção muito diferente ou você imagina que esses valores conservadores não mudaram tanto assim? Ela já está tendo uma recepção diferente! Estão acontecendo coisas comigo realmente diferentes, eu acredito. Por isso eu passo adiante, porque outras pessoas também podem estar recebendo isso. É uma receptividade dos filmes e de mim mesma como atriz muito diversa do passado. No passado, [eu] era essa mulher perigosa, que fazia personagens perigosos, meio incompreensíveis, então existia um certo perigo, uma certa desconfiança, uma certa inveja muito, muito forte dos meus parceiros e parceiras… também uma vontade muito grande de me comer. A palavra é essa: comer. O que os homens fazem com as mulheres? Comem. Sim. Mas isso não aconteceu. Não aconteceu! isso foi muito bom, que não aconteceu. A mulher de todos não se sujeitou a isso, não é? E hoje eu tenho um público maravilhoso, um público de gente jovem, como você, que entende esses filmes estudando. Não é mais aquela coisa de pensar que é uma loucura a mulher lá de com os peitinhos de fora, não é nada disso. É uma outra receptividade. Isso me emociona profundamente, na verdade. Me emociona profundamente. Eu tô tendo uma uma relação também diferente do que eu pensava com essa história de fãs. Os fãs fazem parte da alma da gente, com certeza. Eles trazem muito amor, muita consideração– e o artista é frágil, o artista sofre muito. Então, essa receptividade é maravilhosa! Continuem assim. AA: Bem, você menciona o protagonismo feminismo muito forte no filme, e eu concordo – ela [Ângela Carne e Osso] é o centro de toda a narrativa. Porém, eu entendo que um dos pontos centrais do filme também é a postura do homem. São vários tipos de homens diferentes, que têm características distintas, só que com alguns pontos em comum. É uma sátira à masculinidade muito forte e muito atual também, não? HI: Não só de masculinidade, como um pensamento político. Eu vi no Dr. Plits [personagem interpretado por Jô Soares], esse neonazista, o Elon Musk! É um doido! E você pensa que não existe, que é história de quadrinho, mas existe e esse personagem é fortíssimo. Interessante que você falando isso, eu pensei nos homens do filme que, em geral, eu não penso muito. Aí eu vi aquele personagem do poeta louco… aquele personagem, ele é gay. Ele é gay! E nada além dele ser gay, no entanto, ele sai desse padrão. Ele sai cortando os ossos. E de alguma maneira isso já prevê essa onda de conservadorismo muito forte, não é? É impressionante [como hoje] é bem maior. Porque a gente lutava contra a ditadura, então a gente precisava de liberdade. Agora a coisa é outra – inclusive, acabou a classe operária como uma leitura filosófica. Não existe mais o operário, existe o pequeno-burguês, a classe média, que quer também a sua liberdade, mas não mais dentro do do proletariado. Então, houve uma mudança e está havendo sem parar, sem parar, sem parar. O que está acontecendo, inclusive, no governo aqui no Brasil, essa essa onda desaprovando… Mas exatamente quem é que desaprovam? É a parte mais reacionária do governo do Congresso para variar. AA: Li em outras entrevistas suas você comentando que “o filme foi feito para mim a partir de mim”. Poderia falar mais sobre essa sua relação pessoal com a Ângela Carne e Osso? HI: Então, é porque como Rogério [Sganzerla] me convidou a partir do meu trabalho de atriz no Padre e A Moça [filme de 1966, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade]... Foi assim, com uma crítica que ele me convidou, então ele convidou a atriz. Ele viu que eu poderia fazer isso e aquilo. Era somente a atriz. Não tinha outro tipo de interesse quando ele me fez o convite. Ele me conhecia como crítico de cinema, viu todos os meus filmes, ele me conhecia. Quando ele me chamou para O Bandido da Luz Vermelha (1968), aí que ficou claro, né? A minha relação com a câmera dele, com o estilo… Ele fez um filme, sim, a partir de mim. Esse personagem, ele seria a partir da atriz que foi feito. E ele esperou muito tempo para fazer esse filme. Ele tinha pensado numa outra atriz que ele gostava, Ittala Nandi, que tinha feito o [Teatro] Oficina, numa peça maravilhosa, O Rei da Vela, mas ele optou por mim. Não era a namorada dele, nem mulher, nem nada, somente a atriz. Então foi a partir de mim mesmo. A partir de mim, do meu jeito de ser, das minhas brincadeiras, da risada, das ironias. O filme já estava escrito, existia um roteiro. Ele finalizou. Divulgação AA: Então você acha que, de alguma forma, você conseguiu inserir suas particularidades de Helena na Ângela? HI: Sim, foi isso que aconteceu. E é normal, não é? Inclusive, o Rogério, ele pensava nos atores realmente antes de fazer [o roteiro]. Paulo Villaça, mesmo, foi muito escolhido e querido por ele. No outro filme, que ele já tinha falecido e eu fiz, Luz nas Trevas – a Volta do Bandido da Luz Vermelha [dirigido pela própria Helena Ignez em 2012], ele já tinha falado com Sérgio Mamberti para fazer o filme. Ele estava pensando na Bruna Lombardi, que fez. Então ali existe uma escolha de Rogério. O Paulo Goulart, também foi escolhido por ele. O Ney não foi, mas tem um certeza que ele aceitaria muitíssimo. AA: Então puxando o gancho para essa relação entre vocês dois: em 2015, A Mulher de Todos entrou na lista da Abraccine como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempo, na 48ª posição, e outras três parcerias suas com Sganzerla também entraram, que é O Bandido da Luz Vermelha, em sexto, Sem essa, Aranha (1970), em 43º, e Signo do Caos (2003) em 97º. E aí eu queria saber de você, se você consegue ter noção e reconhecer a importância – a sua importância, a importância dele, a importância da dinâmica de vocês – para a sétima arte brasileira, porque daqui de quem fala, que estuda cinema, essa importância é gigante. HI: Muito obrigada. Primeiro lugar, obrigada. Um dos meus trabalhos é ter o menor ego possível. Então eu tomo muito cuidado também com os elogios, né? Mas sim, acredito que sim, é importante. É uma diversidade, é um pensamento muito pessoal, é um estilo pessoal, que realmente enriquece o cinema brasileiro. Pela revista Rolling Stone, O Bandido da Luz Vermelha, foi considerado o quarto filme dos 10. E um ator que eu sou inteiramente apaixonada, muitíssima apaixonada, que é o Selton Melo, falou que esse era o melhor filme do mundo. O filme de um grande cineasta, não é? É isso AA: E qual o que você acha que é importância de restaurar o filme? Porque normalmente a gente veria o filme sendo refeito com outros atores, outros diretores, um novo roteiro. Mas esse filme está sendo restaurado, sendo reexibido em sua forma original com restauração. HI: Eu acho que é quase uma coisa cármica. Esse filme teria que ser restaurado. Ele veio antes, né? Os trabalhos de Rogério, eles vieram antes e agora que eles estão sendo compreendidos. Eu vi O Abismo (Sganzerla, 1977), como foi, fora do Brasil. O Abismo era um filme difícil. Era um show de rock, entendeu? A projeção era um show de rock! Como aqui foi também. Engraçado, não é? Não tinha nada de impopular: era totalmente popular, mas para um determinado público – claro, só podia ser assim. Não posso imaginar o Bispo Malafaia adorando esses jeitos. Nunca. AA: E para terminar, se você pudesse contar uma memória afetuosa da época que você estava gravando esse filme. HI: É uma memória muito mista porque existiu medo – a qualquer momento aquilo podia se dar muito mal, muito mal. O Bandido da Luz Vermelha ainda segurou um pouco o Rogério, tá entendendo? E que fez o sucesso danado e eles não quiseram se meter. Pegaram o Rogério, prenderam, rasparam a cabeça e soltaram. Não seguraram lá. Então esse medo que existia era muito grande. E [também] uma alegria extraordinária de estar vencendo o medo, não é? De conseguir fazer, de acreditar que aquele regime horroroso… [Éramos] muito jovens e eles odiavam jovens, odiavam! E foi tudo feito por muitos jovens. Imagina aqueles jovens cabeludos, soltos, donos do país… [Eles] pegavam mesmo. Pegavam. E cabelo grande era surra. E [ao mesmo tempo] a felicidade enorme de estar ali, com aqueles atores maravilhosos, aquela gente maravilhosa. Eu fui extremamente bem tratada, carinhosa. Afinal ninguém quis me comer, não é? [risos] Me amavam, era diferente. Então foi uma maravilha. AA: Helena, já acabei a entrevista, mas quero fazer um comentário pessoal. Eu tenho feito algumas entrevistas para filmes que são lançados – não restaurados, lançados – e a gente sempre recebe o briefing de não entrar em questões políticas. E é muito fresco, muito bom ver você falando tão abertamente dessas questões, sem medo. Eu acho que é isso, a gente não pode mais voltar atrás e ver você com essa abertura para falar, para criticar, para se posicionar é incrível. Raro são os atores que fazem esse movimento hoje em dia. Então queria dar meus parabéns, não só por toda sua trajetória, mas também por hoje, por se posicionar ainda. HI: É raro, realmente. Muito obrigada, viu? Muito obrigada por seu amor. Obrigada. Seu nome? AA: Aianne. HI: Mariane? AA: Aianne. HI: Aianne. Que nome, que maravilha. AA: Eu não gosto muito… minha mãe quem inventou. HI: Pois goste. Eu também não gostava do meu.
- Entrevista | Wagner Moura e equipe de "Ladrões de Drogas" falam sobre a nova série policial do Apple TV+
Moura, Peter Craig e integrantes do elenco conversaram com o Oxente, Pipoca? sobre mais um acerto do Apple TV+, que estreia dia 14 de março Divulgação Por anos se travou uma guerra silenciosa entre as plataformas de streaming para saber qual delas ofereceria produções de melhor qualidade e serviria de concorrência real à quase sempre imbatível HBO. Parece que finalmente estamos perto de encontrar uma resposta: com um catálogo praticamente irretocável, o Apple TV+ tem se destacado com produções aclamadas como Ted Lasso, Ruptura, Mal de Família, Slow Horses e The Morning Show. Bem, esse catálogo está prestes a ganhar uma adição interessantíssima com Ladrões de Drogas (Dope Thief). Brian Tyree Henry e Wagner Moura dão a vida a Ray e Manny, dois amigos de infância que tentam sobreviver a uma Filadélfia devastada por duas pandemias: a de covid-19 e a da dependência química – e, de quebra, enfrentam suas doses diárias de racismo, xenofobia e desigualdade social. A solução encontrada é bancar um Robin Hood contemporâneo e tirar de quem tira a saúde da população: os traficantes. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, certo? Bem, não aqui. Ray e Manny acabam mexendo com os vilões grandes demais para a inocência deles e a estratégia que parecia infalível toma proporções muito além do planejado. Inspirada no livro homônimo de Dennis Tafoya, a série traz elementos demais: a semelhança com a crise de drogas enfrentada pela Filadélfia real é desconcertante; os coadjuvantes são muitos, todos complexos e com peso na história; e os personagens principais ficam numa área cinzenta em que não se sabe ao certo se são mocinhos ou anti herois (ou os dois); e os verdadeiros “bad guys” são intermináveis. Tudo isso em meros oito episódios, que passam voando. Seria a fórmula perfeita para uma obra confusa e desconexa, não fosse a maestria de Peter Craig (roteirista de Top Gun: Maverick, Batman e Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1 e Final) que aqui, além do roteiro, também assume a posição de showrunner, produtor e diretor do episódio final. À exceção do final, que se mostra demasiadamente apressado, Craig consegue manter um ritmo acelerado na medida certa, sem cansar o espectador, sem deixar pontos soltos e sustentando a narrativa numa cadência ótima. Na lista de créditos, também encontramos a chilena Marcela Said (Lupin, Gangs of London), que dirige três episódios, e Ridley Scott (Gladiador, Gladiador II, Casa Gucci, Perdido em Marte, Thelma & Louise, Alien: o 8º Passageiro, para citar alguns), que produz a série e dirige um episódio. O Oxente, Pipoca? teve a oportunidade de assistir Ladrões de Drogas antecipadamente e conversar com Wagner Moura, Peter Craig e demais membros do elenco, que a todo momento demonstraram profundo respeito pela história que contaram e admiração mútua entre eles. Um exemplo é quando pergunto a Wagner Moura como foi balancear a seriedade da narrativa (que se descreve como um “drama policial”) com a comicidade que está presente em quase todas as cenas em que ele aparece. Rápida e humildemente, ele passa o mérito para Craig – que, segundo ele, “é um um roteirista que sabe lidar com isso bem: sabe escrever o punchline do humor, mas ao mesmo tempo sem perder o que está acontecendo com os personagens” – e para Henry, já que comédia e drama “é um balanço que ele domina muito bem”. No dia seguinte, em outra sessão de entrevistas, devolvo a pergunta para Craig, e aviso que o brasileiro tinha creditado o mérito principal a ele. O roteirista ri e diz que não é a primeira vez que ouve isso, mas já deixou avisado para Moura: “Eu fui até lá hoje e disse: ‘Toda vez que me elogiarem, vou devolver para você. Vou dizer: não, foi ele que fez.’” E segue: "Sim, o roteiro está lá. Ele dá uma base para o ator se apoiar, mas é o ator que realmente completa o processo. O ator precisa ter inteligência emocional para assumir o papel, vivê-lo desde a base, dar ao personagem seus maneirismos, sua cadência, suas reações, suas falhas, seus pequenos detalhes… E ele [Wagner Moura] pensou em tudo". "Preciso contar uma pequena anedota: Wagner é tão bom que um dos nossos editores percebeu que o formato do rosto dele mudou quando o personagem começou a usar drogas na série. Ele literalmente começou a segurar a mandíbula de um jeito diferente pelo resto da temporada inteira para mostrar que tinha voltado a usar. E só um editor percebeu isso, porque para nós, que estávamos ali no dia, parecia algo natural. Mas ele estava tão imerso fisicamente no personagem que manteve essa consistência o tempo todo. Então, ele pode me elogiar o quanto quiser, mas eu vou sempre devolver os elogios para ele", relata Craig. E me desculpe, Wagner, mas Peter Craig está certo: o roteiro é excelente e os diálogos fornecem material riquíssimo para se trabalhar, mas o que o ator faz ultrapassa o texto. É, sem dúvidas, sua melhor atuação desde que se aventurou em produções fora do Brasil – talvez por que, além do talento que já estamos acostumados a ver em tudo que faz, ele também finalmente parece demonstrar um conforto total com a língua estrangeira. Assume com orgulho o sotaque de Manny, seu personagem. Ele ilumina toda a cena em que participa – o que não é fácil de se fazer, considerando que está quase sempre contracenando com o gigante Brian Tyree Henry. As atrizes Nesta Cooper (Supergirl) e Kate Mulgrew (Star Trek, Orange is The New Black), que contracenam prioritariamente com Henry, concordam com a grandeza deste, destacando sua habilidade de enriquecer o texto sem desrespeitar o roteiro. “Eu não chamaria exatamente de improvisação, e sim de estar presente e acrescentar elementos ao redor. Ele tem muito respeito pelo roteiro e segue fielmente, mas ele simplesmente está tão no momento que você nunca sabe o que vai sair de sua boca ou como ele vai reagir ao que você está dizendo, porque ele está extremamente presente e atento”, diz Cooper. Mulgrew o chama de “um improvisador muito disciplinado”, sendo “extremamente cuidadoso para nunca perder a intenção da cena”, o que a ajudou com sua própria personagem: “quando isso acontece de forma orgânica – o que acontece com frequência com Brian Tyree Henry, porque ele é um ator excepcional – isso libera em mim, como sua parceira de cena, a mesma capacidade ou disposição para fazer o mesmo.” De fato, Ladrões de Drogas não poderia pedir por um protagonista melhor. Brian carrega a série sem demonstrar esforço nenhum. Não posso dizer que é a melhor atuação dele, pois não sei se dá para ficar melhor que seu “Paper Boi” em Atlanta, mas posso afirmar que seu nível se mantém – o que já é elogio o suficiente. Acredito que o ponto chave da série esteja no jogo entre bem e mau, engraçado e trágico, certo e errado, e a atuação de Brian Tyree Henry é a balança perfeita entre todas essas coisas. Do episódio seis ao final, é como se fossem quatro atores diferentes em um só. Puro talento. Divulgação Nessa balança, a série traz uma mensagem extremamente urgente e sensível sem nunca pesar na panfletagem. Marin Ireland (Law & Order, The Umbrella Academy), que vive a policial Kristy Lynne, resume o tema da série em “querer cuidar uns dos outros e cuidar da melhor forma possível das pessoas que amamos, especialmente considerando as circunstâncias em que esses personagens nasceram.” "Trata-se de manter em mente o contexto em que cada um está vivendo e as dificuldades que todos enfrentamos. Como podemos cuidar de nós mesmos, dos nossos entes queridos e também dos outros? No fim das contas, o que nos sustenta é a conexão e a comunidade. Para mim, é aí que a série está indo, e espero que as pessoas comecem a pensar sobre isso, para além da aparência de alguém. Se alguém parece um criminoso por fora ou parece ser uma pessoa má porque cometeu um erro, sempre haverá mais por trás disso – ou talvez nem sempre, mas pode haver. No final, somos todos seres humanos, e é essa conexão e esse senso de comunidade que realmente podem nos ajudar a seguir em frente", afirma ela. A série vem para dar ainda mais peso para o catálogo do Apple TV+, que tem mesclado qualidade artística com roteiro inteligente e debate social. Perguntei a Peter Craig onde ele acha que está o diferencial dessa plataforma, que tem levado-a ao destaque dentre a concorrência. Ele respondeu: "Bem, só posso falar da minha experiência com eles, mas, pelo que vivi, eles estão escolhendo materiais realmente bons. Eles têm executivos muito inteligentes, que selecionam conteúdos de alta qualidade. E eles são muito criteriosos na escolha de quem vai comandar esses projetos, dando a essas pessoas total liberdade para expressar sua visão. Eles estão quase adotando um modelo mais autoral, muito focado no diretor e na visão do criador – algo que, talvez, seja inspirado no jeito que a Warner Brothers fazia com filmes há muito tempo". Craig continua: "A ideia é confiar nas pessoas que contratam, confiar na visão delas e deixá-las contar histórias muito específicas. Sei que foi assim com Severance, com Ben Stiller e com outras produções incríveis que têm diretores extremamente talentosos". No final da entrevista, não pude me conter e deixei o ufanismo falar mais alto. Precisei perguntar a Wagner Moura como tem sido viver de perto esse ano tão importante para as artes cênicas brasileiras internacionalmente (que começou com o próprio Wagner em Guerra Civil, passou pelo prestígio de Motel Destino em Cannes e pelo anúncio de Selton Mello em Anaconda, atingiu seu ápice com a campanha e vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar, e agora se encerra com chave de ouro novamente com Wagner Moura em Ladrões de Drogas). A resposta vem digna do momento histórico que estamos presenciando: "Todo mundo que torce pela cultura do Brasil, pelo audiovisual brasileiro, está muito feliz com o que está acontecendo. O fato do brasileiro se enxergar nos artistas brasileiros, o fato do o engajamento do brasileiro com Ainda Estou Aqui – de de olhar para Waltinho, para Nanda, para Selton, para aquele filme e dizer assim: 'nós temos orgulho disso, nós nos vemos representado nessa história e queremos que que Nanda ganhe o Oscar'... para mim isso é muito, muito lindo. Muito forte. Sobretudo porque o setor cultural toma muita porrada, né? Nós viramos os inimigos do povo por muito tempo no Brasil. E que bom que o país consegue se ver na sua arte. Que bom que o país consegue se ver em seus artistas e se sentir representado por eles, como é o que está acontecendo. Trieste do país que faz de seus artistas os inimigos do povo", declara ele. Nossa arte, representada por Wagner Moura, em parceria com grande elenco, estará disponível semanalmente do Apple TV+ a partir do próximo dia 14, quando estreiam seus dois primeiros episódios de Ladrões de Drogas.
- Crítica | Mickey 17
Ficção científica abraça todas as suas possibilidades narrativas e o resultado é instável, mas pertinente. Divulgação Dirigido por Bong Joon-ho e protagonizado por Robert Pattinson, a trama acompanha o jovem Mickey Barnes que, para fugir da perseguição de agiotas, aceita encarar uma missão inédita fora da Terra. Na jornada, depois de realizar missões, acaba sendo um funcionário “descartado”, mas cujas memórias são restauradas em um novo ser após a morte. No entanto, após inúmeras regenerações, Mickey 17, sua atual versão, sobrevive a uma missão perigosa e acaba enfrentando um dilema existencial ao encontrar sua próxima versão, Mickey 18, que está pronta para substituí-lo. O cineasta Bong Joon-ho tem em sua filmografia uma gama de filmes que, por mais que apresentem semelhanças nas temáticas e na condução narrativa, são bem distintos uns dos outros. Drama, suspense, ficção científica, thriller... não importa o gênero base da produção, ele sempre encontrará uma maneira de inserir questões de estratificação social e costurá-las com um humor áspero. E foi exatamente tudo isso que ele fez em Mickey 17. Tem viagem espacial, tem clone, tem crítica política, tem crítica ambiental, tem personagem caricato, tem seres alienígenas, e está tudo bem amarrado, nunca deixando cair no óbvio. É um filme divertido e comprometido em contar sua história custe o que custar. Digo isto porque o longa sofre com uma edição que tenta dar a mesma atenção para seus incontáveis personagens secundários, e por vezes termina sem conseguir desenvolvê-los como poderia. O argumento do filme é baseado no romance Mickey7 de Edward Ashton, e não sei o quanto foi retirado ou adicionado na hora de compor o roteiro, mas o fato é, se existe um grande obstáculo para o pleno desempenho do filme é o excesso de arcos e narrativas paralelas com que o personagem principal precisa lidar em contrapartida ao corte final do longa. Com certeza existe muito de Mickey 17 que ficou pelo caminho e o resultado deixa transparecer. São personagens que somem e aparecem sem um desenvolvimento no meio, outros competem por um tempo de cena mais relevante, enquanto Pattinson precisa lidar com isso da forma que seus Mickeys com o tanto de coisa que acontece no enredo. E, ainda assim, o desfecho prevalece. Divulgação Se ainda resta a alguém a dúvida sobre a versatilidade de Robert Pattinson, esta é mais uma prova do quão abrangente é o alcance do ator. Ele que já passou pelos mais diferentes tipos de filmes, comerciais e independentes, aqui mostra que consegue vestir a comédia muito bem ao dar vida a várias versões do mesmo personagem que possuem a mesma estrutura, mas com traços de personalidade diferentes. E todos os outros nomes são escolhas que somaram bastante à graciosa esquisitice do texto, com destaque para Naomi Ackie e Toni Collette. A produção é competente e coerente nos quesitos de construção visual. Os efeitos e a cenografia são pontos essenciais para o enredo, num plano mais amplo e num escopo mais detalhista, haja vista que muito do filme se passa em ambientes fechados, mas onde acontecem ações das mais variadas. Mickey 17 em outras mãos poderia ser um filme bem menos instigante do que é, poderia ser bagunçado, poderia não ser engraçado e poderia ser repetitivo (o argumento é uma faca de dois gumes porque permite que isso possa acontecer facilmente), mas o sul-coreano consegue usar sua experiência e se autorreferenciar para dar uma roupagem diferente a quem tinha tudo para ser apenas mais um filme espacial. 3.5/5
- Entrevista | Fernando Fraiha fala sobre o processo de direção de ‘Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa’
O cineasta conta sobre sua entrada no projeto, o processo de filmagens e o que esperar do universo do Chico Bento nos cinemas. Divulgação Próximo de completar 1 milhão de espectadores, o filme Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa se consolida como uma das grandes estreias do cinema nacional de 2025 até o momento. Em entrevista exclusiva para o Oxente, Pipoca?, o diretor Fernando Fraiha compartilha a experiência de dirigir um filme protagonizado por um dos personagens mais amados do Brasil. A trama acompanha Chico Bento (Isaac Amendoim), que costuma subir em sua amada goiabeira para pegar a fruta sem que o dono das terras saiba. O que ele não imaginava é que sua árvore estaria ameaçada pela construção de uma estrada na região. Esse não é o primeiro trabalho de Fernando Fraiha no universo Maurício de Sousa. O cineasta fez parte da produção dos filmes Turma da Mônica: Laços e Turma da Mônica: Lições. Quando perguntado sobre como o processo de Chico Bento se diferenciou dos projetos anteriores, Fraiha explicou que, quando Daniel Rezende, diretor dos outros filmes da Turma, levou o projeto de Laços para a produtora Biônica, da qual Fraiha é sócio, o filme já estava em um estágio avançado. O contato de Fernando com os filmes da Turma da Mônica começou a partir desse momento. O diretor conta que nunca imaginou dirigir um filme infantil e que teve seu primeiro contato com esse universo ao dirigir uma cena de Laços em que Magali pega todas as coisas da geladeira para arrumar suas malas, inclusive sua icônica melancia. Neste momento, Fraiha se emocionou muito. Foi um sentimento de nostalgia e de lembrança da infância e do baú de HQs que ele guardava embaixo da cama. Depois desse envolvimento direto e orgânico com o projeto, Fernando relembra que, em uma pausa para o café na sala de roteiro e edição, Daniel Rezende comentou que Fernando seria uma escolha ideal para dirigir um filme do Chico Bento. Daniel destacou que o DNA do Chico é muito cômico e que Fernando já tinha uma forte ligação com a comédia. Inicialmente, Fernando achou que era apenas uma brincadeira e nem cogitou a ideia, pois na época estava envolvido com outros filmes. Com o tempo, Daniel apresentou uma proposta de roteiro sobre o Chico para Maurício de Sousa e pediu a ajuda de Fernando para pensar em uma história. A ideia foi repassada para Raul Chequer, que já escrevia para a série Choque de Cultura (com o próprio Fernando) e para a animação Irmão do Jorel. Aos poucos, foi se formando um consenso sobre a narrativa do filme. Essa passagem de bastão para Fernando aconteceu de uma forma muito orgânica. Ele brinca dizendo que acha que foi "manipulado" por Daniel, que soube lidar muito bem com a situação e abrir espaço com a Maurício de Sousa Produções. Foram dois anos escrevendo uma história em parceria, até que Daniel convidou Fernando para dirigir Chico Bento. Foi um processo longo, diluído ao longo de dois anos. Sobre a seleção dos aspectos e histórias do Chico que seriam adaptados para o longa, Fernando conta que “Seu Maurício” trouxe muitas HQs para a equipe, além de referências encontradas na internet e no acervo pessoal dos roteiristas. “Toda vez que a gente emperrava, a gente olhava no catálogo de ideias. E foi tudo muito orgânico. E é muito lindo essa coisa do seu trabalho ser passar o dia lendo quadrinhos e anotando ideias. Essa fase da pesquisa foi muito gostosa”, conta. Quando perguntado sobre as dificuldades nas gravações, Fernando diz que o processo foi prazeroso até o fim. Ele ressalta que as diárias eram desgastantes devido ao deslocamento entre locações. Filmar em uma fazenda envolvia uma viagem de uma hora até o local, e como o filme foi rodado com luz natural, havia pouca margem de controle sobre as condições climáticas. Tudo isso exigia paciência. Fernando destaca que foi mágico sair de um processo de preparação de nove semanas de ensaio com o elenco, em conjunto com Larissa Mauro, preparadora de elenco. Durante esse período, houve muita decupagem do roteiro e, por consequência, no set, devido à preparação dilatada, as filmagens aconteceram de forma fluida e tranquila. Fernando ainda ressalta: “Trabalhar com criança é uma viagem. Elas são os melhores seres humanos. A gente deveria parar tudo que estamos fazendo hoje e dar todos os cargos para as crianças – governo dos países, torná-las presidentes e CEOs de banco”, ri. Divulgação O filme cumpre a missão de honrar os fãs antigos do Chico Bento e, ao mesmo tempo, trazer uma nova geração para esse universo. Fernando destaca que ver a comoção do público com o filme o emociona profundamente. “Eu fiquei viciado em ver os comentários no Letterboxd sobre o filme. Em meus outros trabalhos, eles tinham uma repercussão legal, mas eu nunca tinha escrito e dirigido um filme que chegasse tão fora da bolha. Ver seu trabalho indo tão além, isso é muito emocionante.” Por fim, quando perguntado sobre outras possíveis adaptações do Chico para o cinema – inclusive se teríamos talvez Chico Bento no Shopping ou Chico Bento em: A Hora da Onça Beber Água –, Fernando afirma que já existe um roteiro novo. “Tudo que eu posso dizer sobre a sequência do filme é que o Isaac [Amendoim] está fazendo uma novela, e enquanto isso, a gente está entendendo se vai ter 2 ou não. A gente quer muito fazer. A gente luta muito por isso.” “É difícil fazer cinema no Brasil. Isso por uma série de circunstâncias que vão além da nossa vontade. O que eu posso adiantar é que o roteiro do Chico Bento 2, escrito por mim, Elena Altheman e Raul Chequer, eu acho muito lindo mesmo. Pra mim, é ainda melhor que o roteiro do primeiro filme, que já é uma história que me apaixona muito!” Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa está em cartaz nos cinemas e tem previsão de estreia no Prime Video em 22 de março de 2025.
- Crítica | O Macaco (2025)
Excesso de temas e abordagens resultam em filme sem tom. Divulgação Adaptado de um conto do mestre do terror Stephen King, O Macaco é dirigido e coescrito por Osgood Perkins (Longlegs) e produzido por James Wan (Jogos Mortais, Annabelle, M3gan). A trama acompanha os gêmeos Bill e Hal (Theo James), que descobrem um antigo macaco de brinquedo no sótão de seu pai. A partir desse momento, uma série de mortes terríveis começa a acontecer. Tentando se livrar do brinquedo e seguir em frente, os irmãos decidem descartá-lo e, com o tempo, distanciam-se desse passado sombrio. No entanto, o terror parece não os abandonar. O elenco também inclui Elijah Wood, Tatiana Maslany e Christian Convery. Stephen King assina o roteiro ao lado de Perkins. Não sou o maior fã de filmes de terror, não gosto de me assustar de graça. Sou uma pessoa facilmente assustável, não precisa de muito para que eu esteja cerrando os olhos (ou tapando com as mãos mesmo) para tentar esperar da melhor forma possível o inevitável susto que precede o momento de silêncio na cena escura. E tenho a plena convicção de que “esse filme dá medo” é algo completamente subjetivo. Então, como um não entusiasta de terror facilmente assustável, digo que como terror O Macaco funciona melhor na comédia, e ainda assim nem sempre. O cineasta Osgood Perkins tem letramento visual e narrativo, e isso ficou claro em sua filmografia até aqui, no entanto, desta vez parece que ele quis despejar muitas de suas referências de uma vez, gerando um filme instável como terror, como suspense e até como comédia, embora essa seja a abordagem mais bem desenvolvida. O texto não se preocupa em explicar com detalhes os “comos” e os “porquês” da mística em torno do macaco (sem querer entrar em méritos narrativos de “suspensão de descrença”) então o que resta ao espectador é sentar e aproveitar os desdobramentos malignos que o objeto traz aos personagens que o cercam. As mortes inusitadas e sarcásticas à lá franquia Premonição funcionam de início, mas vão perdendo o impacto quando se dissipam em meio a diálogos existenciais, em meio as piadas e em meio a incessantes tentativas de ligar pontos que não existem no enredo para justificar tudo que acontece no argumento. Divulgação O elenco é, de longe, quem facilita o caminho tortuoso da narrativa até o final. Os atores que interpretam os protagonistas gêmeos são, tanto na versão infantil (que inclusive estes desatentos olhos não perceberam se tratar do mesmo ator Christian Convery), quanto na versão adulta (Theo James) brincam com as diferentes personalidades de seus personagens que se moldam aos muitos e confrontantes tons que o filme possui. Tatiana Maslany também deixa sua marca em alguns dos melhores momentos da história. Entre os sarcasmos que remetem aos primeiros longas de Tim Burton e um suspense inocente à la Clube do Terror, O Macaco acaba por ser um filme mais inofensivo do que pretende e deixa escapar as poucas boas oportunidades que teve de assumir uma vertente e tentar se consolidar num direcionamento preciso. 2/5
- O que o Oscar 2025 representa para o cinema brasileiro?
A contribuição de 'Ainda Estou Aqui' para o nosso eterno recomeço Divulgação Em 1999, Carlos Augusto Calil refletia sobre o “eterno recomeço” do cinema brasileiro, enfatizando que ele sempre “renasce do zero a cada ciclo e os problemas se repetem infinitamente, sem o vislumbre de uma solução estrutural que permita, enfim, a superação dos mesmos entraves. O caso atual — o dito 'renascimento do cinema brasileiro', inventado pela mídia — não é diferente. A retomada da produção mais uma vez se coloca como o marco zero.” O autor escrevia isso no que podemos chamar de “auge do Brasil no Oscar”: em cinco anos, o país foi indicado três vezes na categoria de Melhor Filme Internacional, um feito impressionante para um país fora do eixo europeu, que domina a categoria há décadas. Na época, muitos acreditavam que era questão de tempo até que nossos filmes quebrassem a barreira da língua que imperava na premiação estadunidense e conquistassem espaço nas grandes categorias. De certa forma, eles não estavam errados. Cidade de Deus, embora não tenha concorrido na categoria voltada a filmes falados em língua não inglesa, foi indicado a quatro prêmios, incluindo Melhor Direção. Sendo um pouco especulativo, talvez tenha ficado por pouco fora da disputa de Melhor Filme – algo que, acredito, teria acontecido se, na época, o Oscar já adotasse a regra dos 10 indicados fixos para a categoria principal. Mas, 25 anos depois da nossa última indicação em Melhor Filme Internacional, um outro fez exatamente o que muitos diziam estar “faltando pouco”. Dirigido por Walter Salles, Ainda Estou Aqui foi indicado à categoria mais importante do Oscar, a de Melhor Filme – um feito impressionante para uma produção falada em português e, principalmente, por ter ficado de fora das categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Direção. Algo que, quem sabe, poderia ter acontecido se houvesse mais uma semana de campanha, já que o timing estava todo conosco. Mas, como mencionei antes, isso é pura especulação – algo que estará presente ao longo deste texto. Antes, porém, vale refletir sobre essa crescente presença de filmes estrangeiros na premiação. Divulgação Nos últimos quatro anos, 6 filmes da categoria internacional foram indicados ao Oscar de Melhor Filme. Para efeito de comparação, entre 1990 e 2020, um espaço de 30 anos, apenas 5 alcançaram essa indicação. Não, você não leu errado. E isso não chega a ser surpreendente, já que, nos últimos anos, a Academia tem ampliado consideravelmente seus convites para artistas e profissionais da indústria internacional, prezando pela diversidade, inovação e pelo slogan de "festa do cinema mundial". No entanto, apesar de avanços visíveis, ainda há um longo caminho a percorrer. O indiano Tudo que Imaginamos Como Luz, que arrisco dizer ser o filme internacional mais aclamado do ano, ficou de fora dessa grande festa estadunidense. O alemão-iraniano A Semente do Fruto Sagrado? Restrito à categoria de Melhor Filme Internacional. O irlandês Kneecap, que dominou o BAFTA, sequer conseguiu uma indicação. E nem preciso comentar sobre o domínio europeu na premiação: Ainda Estou Aqui é o único filme não europeu indicado na categoria internacional. Voltando para a citação de Calil, a presença do filme de Walter Salles nos coloca novamente nessa encruzilhada. O cinema brasileiro esteve longe de passar despercebido nos grandes festivais do cinema mundial. Em Cannes, Kleber Mendonça Filho e Karim Aïnouz vêm fazendo bonito com seus trabalhos mais recentes. Em Berlim, o país sempre passa por diversas mostras, incluindo este ano na competição principal com O Último Azul, onde venceu o prestigiado Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri. No Festival de Locarno, não faz nem cinco anos que levamos o prêmio principal com Regra 34, de Júlia Murat. Além da fantástica rodada de festivais que filmes como Pedágio, de Carolina Markowicz, fizeram. Enfim, relatos e exemplos não faltam. Mas por qual motivo o público não consegue se enxergar e/ou acompanhar essa linda jornada que nosso audiovisual vem fazendo? Minha resposta sempre será a mesma: a falta de divulgação dos nossos feitos. Existem, sim, mídias jornalísticas que dão visibilidade a esses momentos, mas o público não tem o hábito de, por conta própria, buscar as histórias do nosso cinema. Embora isso não seja uma falha diretamente atribuída aos veículos tradicionais de comunicação, é, em parte, responsabilidade deles, pois o público tende a consumir o que está mais facilmente acessível e acaba tratando isso como algo “normal”. Se nós, dentro do nosso próprio país, não valorizamos isso como algo natural, quem o fará? Essa falta de reconhecimento também se reflete na distribuição dos filmes brasileiros nos cinemas. Enquanto não pudermos nos reconhecer na tela, com filmes como Kasa Branca e Baby tendo um lançamento amplo e uma presença realmente expressiva nas salas – para citar apenas alguns exemplos recentes –, essa sensação de anormalidade em relação ao nosso cinema não desaparecerá, mas se tornará ainda mais enraizada. E isso apesar de ambos terem sido premiados em diversos festivais. Mas, para o grande público, esses prêmios não possuem o mesmo prestígio do Oscar. Divulgação As políticas públicas precisam desempenhar um papel primordial nessa mudança, seja na urgente regulamentação dos streamings ou na contínua criação de editais culturais que descubram novos realizadores. Com isso, aumenta-se o número de projetos, oportunidades de trabalho, capital cultural, gerando, consequentemente, mais renda – algo que, no fim das contas, é o que acaba sendo cobrado por parte da população que não compreende esses investimentos. O que precisa ficar claro, de forma bem resumida, é: a valorização do audiovisual vai muito além do que é pontualmente destacado nos jornais. Trata-se de um processo que exige investimento contínuo para que, no futuro, os resultados sejam colhidos – ainda que isso não aconteça a curto prazo. Temos a recente cota de tela, mas quais filmes realmente chegam ao público? Apenas aqueles com grandes nomes ou com apelo internacional (diga-se, Oscar)? Ou conseguimos, de fato, abrir espaço para produções que representem nossa diversidade cultural? Por isso, é fundamental valorizar as distribuidoras independentes, que tentam furar a bolha e precisam do apoio da mídia para isso. Mas será que essas mídias estão realmente interessadas? Muitos dizem que Ainda Estou Aqui vai ser apenas um fato isolado… Concordo em parte. O cinema brasileiro não vai se transformar sem políticas de produção, distribuição e consumo mais robustas e bem direcionadas, especialmente para além do eixo sudestino. Mas é inegável que o sucesso de bilheteria de Ainda Estou Aqui não se deve apenas à imensa qualidade do filme. Ele ocorreu, sobretudo, por três fatores: A boa distribuição da Sony Pictures Brasil; O apelo dos nomes envolvidos; O hype e a expectativa gerados desde o Festival de Veneza, que se transformaria no ápice: hype do Oscar. Segundo a Comscore e o Filme B, Ainda Estou Aqui registrou um aumento de 231% na bilheteria após a vitória no Globo de Ouro e, após as indicações ao Oscar, retomou a liderança no ranking dos longas mais vistos no cinema, com R$5,3 milhões arrecadados. “Mas Rafael, o filme já havia batido dois milhões de espectadores antes disso.” Sim, mas o boca a boca semanal que manteve Ainda Estou Aqui vivo nos cinemas tem muito a ver com a vitória do filme em Melhor Roteiro no festival italiano. As redes sociais foram dominadas pela expectativa de um “retorno do cinema brasileiro” à temporada de premiações. Desde o início, a Sony soube aproveitar esse hype e levar as pessoas ao cinema. Divulgação Em sua primeira semana, o filme protagonizado por Fernanda Torres assumiu a liderança das bilheterias no Brasil – algo raríssimo no momento atual para um drama nacional. A Vida Invisível, Bacurau (que, claro, não é puramente um drama) e Motel Destino não chegaram nem perto da quantidade de espectadores em suas respectivas estreias. Sim, a distribuição desses filmes foi muito menor, mas eles ainda contavam com um mínimo de hype devido à sua presença em grandes premiações. O filme de Karim Aïnouz foi o representante do Brasil no Oscar em seu ano, ficando à frente de Bacurau, muito por conta de sua distribuição nos EUA pelo Prime Video – que, no entanto, não fez do longa uma prioridade. Já Bacurau, distribuído pela Kino Lorber, foi amplamente prestigiado nos EUA, chegando a vencer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no New York Film Critics Awards. No entanto, não tinha chances reais no Oscar, apesar de ter sido eleito um dos melhores filmes do ano por diversos veículos – assim como o sucessor de Kleber Mendonça Filho, Retratos Fantasmas. Este último foi selecionado pelo Brasil para o Oscar, mas a ausência de um grande distribuidor nos EUA fez com que suas chances fossem escassas. Motel Destino teve um hype inicial, mas acabou "morrendo na praia" para o público brasileiro após uma estreia morna em Cannes. Meu ponto é: não basta apenas ser aclamado ou ter presença em festivais e premiações internacionais, é preciso criar um sentimento de “podemos, sim, chegar ao Oscar com esse filme”. Essa narrativa é facilmente vendida pela mídia, gera uma falsa ideia de patriotismo e, dependendo das circunstâncias, pode se sustentar ou morrer na praia. Divulgação Ainda Estou Aqui tinha tudo a seu favor – aclamação, prêmios e uma narrativa forte –, mas, sem a Sony Pictures Classics por trás de sua distribuição nos EUA e sem a construção da narrativa de "possível candidato ao Oscar", provavelmente teria sido apenas mais um filme aclamado, com muito menos comoção do público brasileiro. Como citado no início do texto, tudo isso não passa de especulação, mas os exemplos anteriores apontam exatamente para essa dinâmica. Concordo com Lucas Salgado, do O Globo, quando ele escreve que a trajetória de Ainda Estou Aqui mostra que "o Oscar precisa mais do Brasil do que o Brasil do Oscar". O engajamento e a comoção dos brasileiros ao redor do filme reforçam essa ideia. No entanto, ao mesmo tempo, acredito que o Oscar ainda carrega um peso de validação para o público brasileiro, deixando-nos presos a essa dualidade. A própria Fernanda Torres aborda essa questão em entrevista ao canal UOL: "O Brasil tem pena do mundo, pena de o mundo não saber o que a gente sabe. Então, quando alguém fura a fronteira e leva algo que nos é pessoal para fora, temos esse sentimento de 'olha o que a gente tem de rico'. Olha o que a gente... É um sentimento de orgulho nacional bacana, bom de sentir." O público brasileiro vê o Oscar como uma oportunidade ímpar de mostrar o país para os gringos, mas, ao mesmo tempo, precisa entender que não depende 100% do prêmio para isso. A diferença que eu espero que aconteça com o nosso indicado ao Oscar, é que as pessoas se interessem mais em descobrir sobre os filmes que estão sendo lançados, ao invés de esperar que eles cheguem até elas. Assim, seguimos nessa encruzilhada: Ainda Estou Aqui será realmente uma exceção, um ponto de virada ou o início de mais um (dos muitos) eternos recomeços para o cinema brasileiro? Só o tempo dirá, mas podem ter certeza de que o Oxente, Pipoca? estará aqui para acompanhar cada passo e, quem sabe, responder essa pergunta no futuro.
- Crítica | Código Preto (2025)
Steven Soderbegh prova que uma história já conhecida pode parecer nova, sendo bem contada. Divulgação Com roteiro de David Koepp, Código Preto é o mais novo thriller de espionagem dirigido pelo aclamado diretor e ganhador do Oscar Steven Soderbergh. O longa, estrelado por Cate Blanchett e Michael Fassbender, narra a história dos lendários agentes de inteligência George Woodhouse e sua esposa Kathryn. Quando ela é suspeita de trair a nação, George enfrenta o teste final: lealdade ao seu casamento ou ao seu país. O cineasta Steven Soderbergh sabe como poucos dirigir filmes centrados nos personagens e seus diálogos. Mesmo tendo uma filmografia diversa em temas e gêneros, a valorização do texto verbalizado e a destreza em criar sequências quase que teatrais, tamanha a fluidez da montagem, estão presentes em quase todos os seus longas e dessa vez imprimem o estilo da narrativa, algo semelhante ao que havia apresentado em Terapia de Risco (2013), porém agora ainda mais refinado e enxuto. A trama não é lá tão nova. Um Sr. & Sra. Smith contado com a elegância à lá John le Carré e adaptado para um contexto sociopolítico atual. Inclusive o roteiro é cheio de deliciosos pequenos clichês que em nada comprometem a experiência de se assistir a um thriller bem amarrado. Mas é a maneira com que esse enredo já conhecido é contada que deixa ela parecendo nova. Soderbergh tem um charme no trato com a narrativa, ele não tem pressa de desenhar seus personagens, ele sabe apresentar detalhes, e isso sem se prolongar em tomadas longas e contemplativas. O texto ganha vida mesmo é quando foca nas complexas Ligações Perigosas que os personagens, todos espiões, costuram entre si, na corda bamba entre moral, confiança e traição, e na desconstrução desses conceitos dadas suas realidades. Divulgação Por mais que a história não girasse em torno de Cate Blanchett isso acabaria acontecendo de qualquer maneira. Ela é o centro gravitacional de um elenco astuto, interessado e com total compreensão do tom de suspense com ironia refinada que o filme demanda. Fassbender já tem em sua filmografia algumas personalidades bem semelhantes ao espião que representa, e mesmo assim consegue representar distinções sutis que enriquecem a frieza calculista de George. Código Preto é um filme redondo, polido e bem-acabado. Tem reviravoltas sagazes, tem personagens secundários bem empregados e que somam camadas ao argumento sem fazer excesso de bagagem, tem uma continuidade precisa e é resoluto como os melhores dos suspenses hitchcockianos. Nota: 4/5
- Entrevista | Diretor e protagonistas de "O Melhor Amigo" conversam sobre o filme
Allan Deberton, Gabriel Fuentes e Vinícius Teixeira conversaram com o Oxente, Pipoca a respeito do musical cearense que estreia nesta quinta (13). Divulgação Chega aos cinemas no dia 13/03 o segundo longa-metragem do cineasta cearense Allan Deberton, O Melhor Amigo. Os atores Vinicius Teixeira e Gabriel Fuentes estiveram em Fortaleza na última segunda-feira (10) para atender a imprensa e participar da pré-estreia na capital cearense. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de conversar com o diretor antes de assistir ao filme, e você pode conferir a entrevista na íntegra aqui no site. Nossa crítica do musical também está disponível. Dessa vez, podemos entrevistá-lo junto dos atores, oportunidade em que falaram sobre os desafios de fazer um filme musical, seus personagens e o litoral do Ceará. Ávila Oliveira: Bom, eu já me declarei para os três na minha crítica, mas queria dizer pessoal: Parabéns, pelo trabalho. O filme já é um evento por si, por ser um musical, por ser nordestino, pela representatividade, e apenas por isso ele já tinha se validado. Mas ele ainda é bem filmado, divertido e muito gostoso de assistir. Quero começar conversando com o Gabriel. Esse é o seu primeiro trabalho com cinema e você já chegou grandão, fazendo um protagonista que canta, que dança, que sobe na mesa, que dirige buggy nas dunas e que sensualiza no palco. Como é que foi pra você encarar isso tudo num primeiro papel? E não só por essas habilidades, mas pela complexidade do personagem que tem uma pinta de galã e seguro de si, mas que também tem várias incertezas e questões mal resolvidas. Gabriel Fuentes: Olha, foi muito gostoso dar vida ao Felipe, mas também foi muito desafiador. É isso que você falou, ele tem essa postura de moreno alto, bonito e sensual, que vive no seu habitat natural, pé na areia, bugueiro, e quando ele encontra o Lucas acontecem muitas coisas com ele internamente. É um atravessamento de questões. Mas em relação a construção eu acredito que todo personagem que chega para nós atores já existe um pouco dele na nossa humanidade. Acho que existe muita coisa do Felipe em mim e muita coisa do Gabriel no Felipe. Eu busquei muito nas minhas referências concretas e nas minhas vivências. Bebi da fonte de pessoas que estão ao meu redor e que eu consigo encontrar e ver as realidades. E teve também a nossa preparação. Fui para Canoa, passei vários dias lá, passei um tempo conversando com vários bugueiros. Lembro que um bugueiro passou quase uns 20 minutos conversando comigo e a maravilhosa Georgina Castro, que foi nossa preparadora de elenco, uma atriz fenomenal, olhava para mim dizendo “Gab, já deu, né?”, e eu queria continuar ali porque ele contava tantas histórias boas, sabe? Então foi desafiador e maravilhoso. E como você citou, é meu primeiro trabalho no cinema. E, além disso, cinema queer, tem essa grande responsabilidade, além do fato de ser rodado no Nordeste. E também a questão de ser musical, que é um gênero que eu adoro e que eu consumo, mas que era distante de mim. Mas chegou e eu agarrei com unhas e dentes e dei meu melhor como sempre faço em todo trabalho, me entrego de corpo, alma e coração. Eu acho que tem que existir muita verdade, muita entrega e eu acredito que nesse trabalho isso existiu. E eu quero fazer cinema para a vida, cara. Já joguei pro universo e tem muita coisa voltando, outros projetos e eu estou muito feliz de ter começado aqui. Ávila: Vinicius, você já tem um passado com o teatro musical. Inclusive na conversa que tive com o Allan antes de eu ver o filme ele tinha comentando da montagem de O Livro de Mórmon que você participou, e que o Leo Bahia também estava. E por mais que sejam linguagens diferentes, você acha que o essa sua vivência com o teatro musical te ajudou com a preparação para O Melhor Amigo? Vinicius Teixeira: Totalmente, acho que fez muita diferença, me passou mais segurança. Eu sou ator, não sou cantor nem bailarino, mas já estive nesses lugares. Já tive que cantar num palco com pessoas olhando, já tive que ensaiar coreografias, então fica uma memória física dessas situações, o corpo guarda. Mas é difícil, não é algo simples, fazer musical tanto no teatro quanto no cinema é um trabalho pesado. E teve também a questão de equalizar todas as coisas do personagem e do musical. Porque esse é um musical daqueles que convida o público a participar, é animado, é solar, é explosivo, mas é um filme cheio de camadas e sutilezas. O meu personagem especificamente é retraído, muito tímido, com problemas de autoestima. E aí é quando uma coisa bate de frente com a outra. Então dar conta de tudo isso na linguagem do cinema que te expõe de uma forma diferente do teatro também foi um desafio. Por isso, essa experiência de antes me deu mais calma e confiança, já ter passado por algo semelhante me dava mais convicção de que tudo daria certo. Divulgação Ávila: Allan, a gente conversou antes sobre o seu curta que inspirou este filme. Você passou alguma recomendação em relação ao curta para o Vinicius e para o Gabriel? Porque existem ali as mesmas situações do restaurante e da colher, mas são contextos bem diferentes nos dois filmes. Allan Deberton: Não foi um encaminhamento. Eu falei para eles da existência do curta, inclusive o Vinicius falou que já tinha assistido e bebeu daquela fonte porque a essência dos filmes era basicamente a mesma. Mas eu já havia recortado na proposta do longa os principais elementos do curta. A manutenção dos personagens, as cores, as texturas, o curta também já tinha uma certa musicalidade, tem ali uma performance de dança. Porém o curta seguia uma ideia mais experimental, tinha um aspecto mais dramático, mais introspectivo porque era centrado no sentimento dos dois personagens apenas. E no longa a gente manteve isso, mas quis tornar tudo mais exuberante. Trouxemos a exuberância nas locações, na música, nos outros personagens. E essa exuberância veio para contrastar com o introspectivo do Lucas, que é contido e reprimido. Mas agora ele lida com isso de forma diferente do que no curta, em que ele silenciava, se boicotava, ficava entristecido, e no longa essa fase não dura muito porque ele tem na mão um aplicativo, porque ele sai para a noite, conhece outras pessoas, então de alguma forma traz uma atualização para essa história que é muito real, sabe? E se eu quisesse eu poderia tornar ainda mais real no sentido físico, carnal, com cenas mais picantes e tudo mais, mas ao fazer isso, talvez eu perdesse também o público que para mim era muito importante, que era o público do curta, que era um público que está se conhecendo e se iniciando, na identidade, na descoberta sexual. Então, o desafio do longa foi manter todos os fundamentos do curta, mas ao mesmo tempo atualizar a história e seus personagens no tempo. E ao mesmo tempo, como realizador, eu tendo 42 anos, quis trazer essa musicalidade que carrego dentro de mim para o hoje. Eu nasci em 1982, então a década de 80 é muito representativa para mim, sabe? Muitas das músicas são dos anos 80. De alguma forma também parecia que ao fazer isso eu estaria me conectado com os meus, pessoas que eu me envolvi, pessoas que eu conheci e que de alguma forma poderia estar junto no projeto. Ávila: O Allan já me falou antes também da importância de Canoa Quebrada para ele e de como ele quis passar isso no filme. Vocês já conheciam Canoa Quebrada? E se não quais foram as impressões do lugar? Vincius: Eu não conhecia, foi a primeira vez quando vim para a preparação e depois para filmar. E eu me apaixonei por Canoa, eu acho que Canoa é um personagem do filme, acho que o lugar afetou a gente no processo. Quando dava uma pausa nas gravações e ia almoçar, a gente parava e ficava olhando pro mar, e trabalhar com um cenário daquele e vivendo aquele lugar era surreal, a energia de lá é muito gostosa. E acho importante falar também da Fortaleza e da equipe de Fortaleza que estava no filme: a Barbada, a Deydianne, a Mumu, a Souma, acho que elas foram determinantes para o resultado do filme e de todo o processo. O Ceará contagiou a gente, a gente foi muito abraçado por toda a equipe. Gabriel: Nossa, eu também fiquei apaixonado e falei que eu quero voltar para passear o quanto antes. Eu sou mineiro, mas eu moro no Rio e poder vir rodar no Nordeste, que é uma região que eu sou apaixonado, foi uma oportunidade incrível. Eu acho que realmente o Nordeste está muito à frente do restante do Brasil, culturalmente, politicamente falando também. Então eu sinto a necessidade de fazer um pedido de licença para estar aqui, sabe? Para dar voz a esse personagem que é de Canoa. Foi um privilégio ter estado ali nas vezes que estive. Quando eu cheguei pela primeira vez eu fiquei encantado e me remeteu a energia boa que eu sinto em Búzios, no Rio de Janeiro. Tudo é encantador, as barraquinhas, a Broadway… teve um bar que a gente gravou que não estou lembrando o nome… Vinicius: Bar Caverna. Gabriel: Isso, o Bar Caverna! A gente foi, conheceu, frequentou, entendeu como funciona. E as praias dispensam comentários. Ávila: Sempre que a gente posta algo sobre o filme nas nossas redes sociais, a gente recebe todos os tipos de comentários de pessoas dizendo o quanto estão ansiosos pelo filme. Vocês já receberam algum retorno, mensagem ou relatos ou expectativas para O Melhor Amigo? Vinicius: Sim! O trailer saiu e foi a primeira vez que a gente viu o filme ter contato com um público maior. E muitas pessoas mandaram mensagem. Acho que uma coisa que foi muito legal, foi ver muitas pessoas da comunidade LGBT mandando mensagem dizendo: "Meu Deus, tô muito feliz e muito animado para ver um filme que fala sobre a nossa comunidade de uma forma tão solar, tão alegre, tão feliz e tão romântica. Porque a gente tem muitos filmes com temática LGBT no Brasil, mas a maioria foca no drama e nas dificuldades de ser uma pessoa LGBT aqui, e isto é super importante e relevante, mas é importante também ter um filme leve com uma visão mais divertida. É importante a gente se ver num lugar de celebração, de amizade e de parceria. Allan: Eu quis fazer um filme para ter como referência positiva, como se fosse um filme “Sessão da Tarde” sendo LGBT, que pudesse passar por vários gêneros, que fosse divertido, que tivesse músicas conhecidas e que atingisse público de várias idades.
- Crítica | The Infinite Husk (SXSW 2025)
Pessimismo existencial e força do discurso guiam ficção científica intimista. Divulgação Vel (Peace Ikediuba) fez algo proibido, algo tão indizível que ela foi exilada do abraço caloroso de seu povo e aprisionada aqui na Terra. Sua única esperança de voltar para casa é aceitar uma missão aparentemente impossível: espionar um de sua própria espécie, descobrir sua pesquisa e relatar suas descobertas. Como uma consciência alienígena, esta não é uma tarefa fácil para Vel. Forçada a habitar um corpo humano, ela é jogada na expansão de Los Angeles, onde descobre as alegrias e tristezas do que significa ser humano, enquanto seu alvo tece seu próprio jogo de intrigas em nome de um novo e muito perigoso tipo de ciência. O primeiro longa-metragem do cineasta Aaron Silverstein é uma experiência sinestésica que mescla uma visão pessimista generalizada sobre a raça humana e uma crise existencial baseada numa falta de propósito em relação ao universo como um todo. Parece uma ideia prepotente, mas o texto do filme é na verdade honesto o suficiente para deixar claras todas as suas questões sem querer trazer respostas e soluções. O filme busca questionar o papel do ser humano em sua jornada racional por seus dias limitados. A alegoria alienígena é usada para criar um distanciamento entre a humanidade e as interrogações apresentadas no argumento. A mística do filme se inicia com uma “Consciência Divina” que ordena missões a fim de entender e ao mesmo tempo limitar o desenvolvimento dos homens e mulheres terráqueos. E continua numa aula de linguística metafísica onde a palavra e o discurso se tornam a principal arma numa batalha invisível entre a realidade e o imaginário. A direção de Silverstein é segura em dar vida ao seu roteiro, além disso consegue pintar cenários – dinâmicos e estáticos – à base de muito neon e cores saturadas que reflete o estado de realismo fantástico em que os personagens centrais estão inseridos. Peace Ikediuba conduz com maestria a narrativa. A atriz consegue interpretar bem a dualidade de apresentar ao espectador o contexto do filme e de estar se inserindo e desencobrindo tudo aquilo junto com o público. Divulgação Talvez o problema de The Infinite Husk seja a maneira rápida com que o terceiro ato se desdobra. A mudança de perspectivas e as suposições positivas em relação o ser humano, que foi criticado o filme todo, parecem ser despejadas rápidas demais. De toda forma, a crítica ao materialismo, ao consumismo, e frustração com a inconveniente efemeridade da vida lidam o tom da intimista história que surpreende pela crueza, pela simplicidade e pela sofisticação, dentro de sua limitações. Notas: 3,5/5
- ‘Tempo de Guerra’: Filme da A24 estreia nos cinemas brasileiros em 17 de abril
Longa é o primeiro a ser distribuído pela empresa no país. Divulgação Tempo de Guerra (Warfare), novo filme da A24 escrito e dirigido pelo veterano de guerra Ray Mendoza e por Alex Garland (“Guerra Civil”, “Extermínio”) estreia nos cinemas do Brasil no dia 17 de abril. O longa é o primeiro a ser distribuído pela A24 no país, empresa que atua tanto na produção e distribuição de filmes, acumulando mais de 21 Oscars, 18 Globos de Ouro e 18 Emmys. Baseada em uma história real, Tempo de Guerra se destaca pela abordagem imersiva e realista da guerra, conduzida por um jovem elenco promissor de Hollywood formado por Charles Melton (Segredos de um Escândalo, Riverdale), Will Poulter (O Urso e Guardiões da Galáxia Vol. 3), D'Pharaoh Woon-A-Tai (Reservation Dogs), Cosmo Jarvis (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão, Peaky Blinders), Joseph Quinn (Stranger Things, Gladiador 2) e Kit Connor (Heartstopper, Robô Selvagem). Escrito e dirigido por Ray Mendoza, veterano da Guerra do Iraque, e Alex Garland (Guerra Civil, Extermínio), Tempo de Guerra envolve o espectador numa missão, do pelotão de SEALs da Marinha Americana, que deu errado em um território de rebeldes. Uma intensa história de guerra contemporânea e fraternidade, contada como nunca antes: em tempo real e segundo as recordações dos que vivenciaram o drama. A trama também destaca a forte união que se forma entre os soldados em meio ao conflito, retratando a irmandade que surge em situações extremas. Divulgação Sobre a A24 A A24 é uma renomada empresa de entretenimento global, reconhecida por sua atuação na produção e distribuição de filmes, séries, documentários, música, publicações e produtos de consumo. Fundada em 2012, em Nova York, a A24 revolucionou a indústria do entretenimento com um catálogo impressionante de mais de 150 filmes e 50 séries. Ao longo dos anos, conquistou tanto a crítica quanto o público. A A24 é sinônimo de inovação e qualidade, responsável por sucessos como Moonlight: Sob a Luz do Luar, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo e Joias Brutas, além de séries aclamadas como Euphoria, Treta e Ramy. Sua trajetória consolidou uma base de fãs apaixonada e impulsionou a expansão da companhia para empreendimentos como a linha de cosméticos Half Magic e o teatro Cherry Lane. Os próximos projetos da sigla incluem Marty Supreme, com Timothée Chalamet e Gwyneth Paltrow; The Drama, estrelado por Zendaya e Robert Pattinson; The Smashing Machine, com Dwayne "The Rock" Johnson e Emily Blunt; Materialists, protagonizado por Chris Evans, Pedro Pascal e Dakota Johnson; e Eddington, com Joaquin Phoenix, Pedro Pascal e Emma Stone; entre outros.
- Mato Seco em Chamas ganha trailer oficial com exclusividade do Oxente Pipoca
Filme que figurou nas principais listas de Melhores do Ano de 2022 terá distribuição no Brasil através da Sessão Vitrine Divulgação: Vitrine Filmes Depois de ser exibido em 36 Festivais de todo o mundo e receber 27 prêmios, Mato Seco Em Chamas, dirigido por Adirley Queirós e Joana Pimenta, ganha data de estreia nacional. O filme chega aos cinemas no dia 23 de fevereiro em todo o Brasil, através de distribuição do projeto Sessão Vitrine, e seu trailer oficial foi divulgado com exclusividade pela página Oxente Pipoca. O longa combina documentário com elementos do faroeste e ficção-científica. Como é de costumes nos filmes de Adirley Queirós, a ação do longa se passa na Ceilândia, periferia de sua cidade, e tem, ao centro, as irmãs Chitara e Léa, líderes de uma gangue feminina que rouba óleo de um oleoduto, refina-o e vende como combustível na favela Sol Nascente. A história do grupo é relembrada por suas membras na prisão. A fotografia é assinada por Joana Pimenta, que já havia trabalhado com Adirley em Era uma vez Brasília. “Acredito que o Brasil esteja em busca de uma certa sensibilidade, já que sensibilidade é definida por classe, território e pensamento. O cinema brasileiro tem a necessidade de retratar a realidade, e se assume que a câmera estática não permite esse tipo de sensibilidade, caindo então num formalismo. Para nós, esse formalismo deu uma nova força para a realidade. Estabelecemos um código, no qual a energia pertence aos personagens”, conta Adirley sobre as escolhas estéticas da dupla em entrevista à Variety. Marcada pela trajetória das personagens, a narrativa de Mato Seco Em Chamas combina o documental com a ficção no arco de transformação de suas protagonistas. “Procuramos mulheres que tinham uma história que trazem uma melancolia, cujos rostos e corpos são marcados por essa história de liberdade e aprisionamento. Uma geração inteira que foi encarcerada e tem o sentimento de não saber se está no presente, passado ou futuro. Você vai para a prisão e o que para você é um dia, para o resto do mundo são anos. É quase coisa de ficção-científica. O tempo é relativo”, explica Joana. De acordo com o jornal francês Le Monde, o filme é uma combinação de Mad Max com o cinema de Pedro Costa. O jornal também escreve: “Bem-vindo ao Brasil de Jair Bolsonaro, onde dois cineastas – o brasileiro Adirley Queiros e a portuguesa Joana Pimenta – unem forças para encenar uma docuficção que sonha com a revolta. Mato Seco Em Chamas foi filmado com não profissionais desempenhando seu próprio papel mesmo na fantasmagoria onde o projeto do filme os conduz”. Mato Seco Em Chamas será lançado no Brasil pela Vitrine Filmes, a qual já distribuiu mais de 200 filmes desde sua criação em 2010, e é uma produção da brasileira Cinco da Norte em coprodução com a portuguesa Terratreme. O filme teve sua estreia mundial no 72o Festival de Berlim, no começo do ano passado, e depois fez carreira em diversos eventos internacionais, recebendo críticas muito positivas, além de integrar a lista dos Melhores Filmes do Ano da tradicional revista britânica Sight and Sound. O longa-metragem também conquistou vários prêmios. No Cinéma du Réel, um dos mais importantes para o gênero documental, foi vencedor da Competição Internacional. Também foi duplamente premiado no IndieLisboa International Independent Film Festival, na competição de longas com o Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa, e, também, como Melhor Filme Português. Foi exibido no Toronto International Film Festival, e nos EUA esteve no New York Film Festival, no AFI, bem como em Mar del Plata e Valdivia. Além do Brasil, o filme tem distribuição confirmada em salas de cinema nos Estados Unidos (Grasshopper Films), Portugal (Terratreme Filmes), Reino Unido (Institute of Contemporary Art London). O filme é um lançamento da Sessão Vitrine 2023, contemplada pelo PROAC 34/2022, programa de fomento do Governo do Estado de São Paulo e Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. O trailer oficial foi divulgado com exclusividade no dia 25 de janeiro pelo Oxente, Pipoca?, que tem como foco a divulgação do mercado audiovisual brasileiro e nordestino.
- Crítica | Milton Bituca Nascimento
Documentário conta com instantes inspirados, mas não consegue estar à altura de um dos maiores artistas do país. Divulgação É meio difícil para mim falar de Milton Nascimento sem sentir um arrepio inevitável pela importância da sua pessoa e sua música em minha vida. Minha tatuagem com a letra de “Nada Será Como Antes” é só uma pequena amostra da minha admiração e veneração pelo artista, sentimentos compartilhados por milhões de pessoas Brasil e mundo afora. Diante de um legado que, sem exagero, pode ser tratado como imensurável, de que maneira é possível dar conta de representá-lo em tela sem sucumbir a tamanho fardo? Milton Bituca Nascimento me parece a princípio consciente da enorme responsabilidade que carrega, de que as expectativas do público são de que esteja à altura do homem de quem fala. Ao indicar que focará na última turnê de Milton, já parece haver ali uma escolha da diretora Flávia Moraes por um determinado recorte, evitando a tentação de cobrir uma carreira de quase 60 anos e todo o impacto dela no país e no exterior. Mas não tarda para que o documentário ceda a essa tentação, adotando uma série de escolhas que, no saldo geral, resultam numa obra aquém do que uma figura como Milton realmente merece. É inegavelmente um documentário chapa-branca, preocupado a todo instante em lançar a luz mais positiva possível sobre Bituca, e por isso não se faz de acanhado em exibir talvez a seleção de entrevistados mais invejável que vi nos últimos tempos: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Simone, Criolo, Mano Brown, Djavan, Djamila Ribeiro, Lô Borges, Beto Guedes, Sérgio Mendes, Maria Gadu, Djonga e muitos outros das nossas artes, além de artistas estrangeiros de peso com o qual Milton colaborou ao longo dos anos, como Pat Metheny, Stanley Clarke, Herbie Hancock, Quincy Jones, Wayne Shorter, Spike Lee e mais. Esses são apenas alguns dos nomes que consigo me lembrar agora, pois há tantos que é fácil se perder em meio ao mar de nomes chamado para falar sobre o artista, tudo isso enquanto contamos com a narração de ninguém menos que Fernanda Montenegro. E talvez aí resida um dos principais problemas do documentário: temos uma super abundância de figuras carimbadas que atestam sobre a genialidade e a importância de Milton, mas quanto ao próprio, vemos muito menos dele em tela do que seria justo para uma obra que carrega seu nome. Talvez essa decisão parta de preservá-lo em meio à sua fragilidade física, que seria impossível de ser ignorada e até recebe foco em alguns momentos do longa, mas há momentos em que é fácil achar que estamos vendo uma obra sobre alguém que já morreu, dado o tom saudosista ou até mesmo a ausência de Milton em cena. Alguns dos momentos mais pungentes vêm justamente quando a câmera se detém sobre ele, seja acolhendo-o em sua vulnerabilidade ou indicando sua sensibilidade e tantas outras características apontadas pelos entrevistados, como na sequência dos créditos. Divulgação Outro problema do longa reside na sua evidente falta de foco, conforme saltamos entre vários blocos temáticos e narrativos sem uma coesão aparente. Em entrevista, Flávia apontou que o filme foi sendo gravado numa dinâmica imprevisível, visto que essa imprevisibilidade marcou a própria turnê (inclusive por conta das questões de saúde de Milton), mas essa montagem mais “solta” e desarticulada acaba minando o impacto de alguns desses blocos, pela maneira como eles são encaixados no contexto geral da obra. É estranho, por exemplo, como a câmera se detém até demais sobre novos nomes da MPB como Zé Ibarra (que acompanhou Milton na turnê), como se querendo puxar uma sardinha para essa nova geração — algo parecido com o que foi feito na série documental da família Gil na Amazon. Isso não quer dizer que individualmente esses blocos não funcionem: por exemplo, aquele em que são trazidos artistas negros para falar da relevância de Milton pela ótica racial parece inicialmente solto, mas se converte num dos mais memoráveis quando temos Criolo e Mano Brown declamando “Morro Velho”. Embora tenha havido algumas críticas à presença de nomes estrangeiros — como se só estivessem presentes para “validar” o legado de Milton —, vejo neste bloco uma expressão vívida de que o sucesso e a apreciação pelo artista vão muito além do nosso país. No entanto, é inegável que quando o filme (um pouco tardiamente) enfim se volta para o Brasil — e sobretudo para Minas Gerais, eterno lar do coração de Milton —, ele cresce muito mais. Ver sua trajetória em Belo Horizonte ou sua reunião com os amigos do Clube da Esquina no último show da turnê na cidade é ter nestes instantes uma dimensão do poderio de Bituca, tão local, nacional e global ao mesmo tempo. Milton Bituca Nascimento é carregado de instantes emocionantes, de depoimentos que, por mais chapa-branca que aparentem, também possuem uma profunda honestidade, ao vermos figuras tão célebres quanto Milton em sua reverência pelo homem. No geral, porém, o saldo é de uma obra com nítidas irregularidades, indecisa sobre qual abordagem optar para tratar de alguém como Bituca, e que no fim das contas não dá conta de um artista e homem tão múltiplo, relevante e eterno. Nota: 3/5












