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- Crítica | O Ensaio (2ª temporada)
Nathan Fielder dobra a aposta e brinca de ser Deus. Divulgação Se na primeira temporada de O Ensaio Nathan Fielder tentou ajudar estranhos a se comportar em situações sociais embaraçosas, como o caso em que ele constrói uma réplica desnecessariamente detalhada de um bar do Brooklyn para ajudar um homem a encenar uma conversa difícil com um amiga, na segunda temporada ele dobra a aposta. Dessa vez ele tem uma fixação por algo um tanto incomum: acidentes de avião. A cena de abertura acaba sendo, sem surpresa, uma reconstituição, desta vez de um desastre da vida real, com atores recitando falas tiradas da caixa preta de um avião. À medida que o avião - na verdade, uma cabine simulada de frente para uma grande tela curva de led - se aproxima do pouso, o co-piloto expressa preocupação de que o avião esteja fora do curso e avisa ao piloto sobre a presença de uma colina baixa perto do aeroporto. Mas o piloto ignora o comando, e em segundos, os alarmes estão tocando e a tela é preenchida com uma nuvem de chamas. E lá, de pé como um anjo indiferente nos portões do inferno, está Nathan Fielder, com semblante sério observando enquanto os atores ficam imóveis em seus assentos, já nos preparando para o que está por vir. Logo descobrimos que Fielder tem uma obsessão pela segurança da aviação e quer pôr em prática uma espécie de pesquisa independente sobre acidentes de avião, no qual ele conclui que muitos acidentes são causados não por falhas técnicas, mas por má comunicação e constrangimento social entre os pilotos na cabine. Ele teoriza que há uma hierarquização dentro da cabine que acaba intimidando a relação entre piloto e co-piloto, levando a erros catastróficos. Mas Fielder está disposto a mudar isso, e ele tem a brilhante ideia de usar o orçamento de uma série da HBO como desculpa, se propondo a revolucionar o treinamento de pilotos. E nisso ele parte umas para uma sequência de "ensaios" cada vez mais megalomaníacos, a fim de desenvolver uma boa comunicação dentro da cabine. Logo nos deparamos com a construção da réplica de um aeroporto, cockpits, e a criação de uma reality show com pessoas reais que se destina apenas para ajudar os copilotos a aprender a dar críticas. Mas para além de conseguir provar seu ponto e mudar toda a história da segurança da aviação, Nathan está disposto a olhar para si e expor suas vulnerabilidades para audiência. Do mesmo modo que Deus cria o mundo com ordem, propósito e conhecimento de todas as possibilidades, Nathan cria microcosmos com o mesmo objetivo. Ele deseja prever e controlar tudo, mas descobre que, mesmo com todo esse poder, o comportamento humano escapa ao controle total. Nathan, em sua tentativa de ser um criador perfeito, enfrenta os mesmos dilemas que envolvem a criação do mundo: o caos inevitável da liberdade, a limitação do controle e o reflexo do criador em sua obra. Assim, a série oferece uma reflexão provocativa sobre o que significa criar, controlar e, acima de tudo, conviver com o imprevisto, seja como humano, seja como “deus”. Divulgação É como se Fielder estivesse fazendo na televisão o que nomes como Herzog ou Kiarostami fizeram no cinema. Se em Close-up (1990) Kiarostami reencena um caso real, o julgamento de Hossein Sabzian, um homem que se fez passar pelo diretor Mohsen Makhmalbaf, em O Ensaio temos o indescritível episódio 2x03, em que Nathan se perde dentro da simulação ao tentar encenar a vida de Sully, e começa a reinterpretar também sua própria experiência. Assim como Sabzian se perde (ou se encontra) ao viver como Makhmalbaf, Nathan se perde (ou se revela) ao viver como Sully. A sensação que fica é de que Nathan Fielder está pilotando um avião com toda a sua audiência a caminho de suas confusões e ambições, expondo seu lado mais vulnerável enquanto pessoa, repleto de sentimentos confusos que não são tão simples de explicar. A ansiedade social já foi visitada várias vezes por um programa de TV, mas nunca antes dessa maneira. Mas aqui, ele parece utilizar os recursos da comédia para mergulhar o espectador na mesma atmosfera de incerteza e ansiedade que ele e seus personagens enfrentam constantemente. A imprevisibilidade da vida, a dificuldade de compreender os outros e a dor da rejeição são os dilemas centrais que O Ensaio aparenta querer resolver, mas o faz de um modo peculiar, intensificando essas sensações em vez de aliviá-las, como se o público fosse mais um cenário montado para abrigar as angústias de Fielder. Mesmo quando a narrativa sugere algum alívio ou resolução, a sensação predominante ainda é de desconforto. O que é estranhamente justificável dentro do cenário que a série se coloca, ou como o próprio Fielder coloca em sua fala final: "Ninguém é permitido no cockpit se houver algo errado com eles. Então, se você está aqui, você deve estar bem." Nota: 5/5
- Cinema de rua em foco: Cine Vitória completa 12 anos de atuação e Cine Walmir Almeida é oficialmente inaugurado em Aracaju
Dois marcos para o audiovisual sergipano reforçam a importância do cinema e da valorização dos espaços culturais Divulgação No dia 4 de maio, o Cine Vitória completou 12 anos desde sua reabertura em 2013, reafirmando sua relevância como símbolo de resistência dos cinemas de rua em Aracaju. O espaço se consolidou como palco de festivais e mostras audiovisuais locais, nacionais e internacionais, além de manter uma programação diversa e mais acessível ao público. A história do Cine Vitória, no entanto, remonta a muito antes dessa retomada. Inaugurado originalmente em 1939, o cinema era vinculado à Ação Solidária dos Trabalhadores e funcionava na rua Itabaianinha, também no centro da capital sergipana. Ao longo das décadas, o espaço passou por diferentes fases, incluindo longos períodos de fechamento. Foi apenas com o projeto de revitalização liderado pela atual coordenadora Rosângela Rocha, iniciado em 2001, que o cinema voltou a ocupar um lugar de destaque na cena cultural de Aracaju. Sua reabertura mais recente, em 2013, foi marcada pelo Festival Varilux de Cinema Francês e, desde então, o espaço tem sido palco de momentos marcantes para o audiovisual sergipano. Agora, em um novo capítulo de sua trajetória, o Cine Vitória se prepara para reformas estruturais que visam melhorar a experiência do público. As obras incluirão modernização do sistema de climatização, som e projeção, adequando o cinema às exigências técnicas das produções contemporâneas. Divulgação Enquanto o Cine Vitória se reinventa, uma nova sala cinematográfica passa a integrar o circuito cultural sergipano: o Cinema do Centro – Sala Walmir Almeida, oficialmente aberto ao público nesta semana (15). Localizada na Praça General Valadão, no centro de Aracaju, a sala representa mais um avanço na democratização do acesso ao cinema na capital. Apesar de estarem sob a mesma gestão, o novo espaço não tem vínculo direto com o Cine Vitória. A Sala Walmir Almeida funcionava anteriormente como um auditório voltado a atividades diversas e, agora, foi completamente readequada para atuar como sala de cinema, equipada com estrutura técnica de alta qualidade. A transformação foi viabilizada por meio de um Termo de Colaboração com uma Organização da Sociedade Civil, com recursos do edital da Lei Paulo Gustavo 006/2023. O projeto é resultado da parceria entre a AVBR Produções e Tarcísio Duarte/Audiovisual, com apoio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap), Governo do Estado de Sergipe, Governo Federal e do Terreiro São Lázaro, via edital 011/2023 da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju). Em entrevista ao Oxente Pipoca, Deyse Rocha, gestora da AVBR Produções e produtora executiva do Cine Walmir Almeida, destacou que o objetivo do projeto é oferecer conforto e qualidade ao público sergipano. “Nós deixamos a sala moderna, confortável e aconchegante para que o público sergipano possa, com toda modernização e digitalização, apreciar uma programação que esteja acompanhando o cenário da sétima arte brasileira e mundial”, afirma Deyse. Ela também ressaltou os planos para tornar o espaço um ponto de movimentação cultural: “É esse o nosso papel — difundir, fomentar, estimular e trazer produções novas, trazer diretores, fazer oficinas... Tudo isso junto, para que os apreciadores da arte, os cinéfilos e os críticos também possam desfrutar do Cine Walmir Almeida.” O Cinema do Centro – Sala Walmir Almeida já está aberto ao público. A programação completa pode ser conferida no site e nas redes sociais do espaço (@cinemadocentro).
- Entrevista | Marcelo Caetano fala sobre “Baby” e sua participação como jurado da Queer Palm em Cannes
O diretor abordou a representação de histórias LGBTQIA+ no cinema contemporâneo, a importância do centro de São Paulo para suas histórias e sua presença na atual edição de Cannes. Divulgação O Brasil estará presente em peso na 78ª edição do Festival de Cannes, que inicia nesta terça-feira (13). Além da presença de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, na competição pela Palma de Ouro, bem como produções nacionais participando do Marché du Film 2025 – o mercado de cinema do Festival de Cannes, que este ano homenageia o Brasil como país de honra –, o brasileiro Marcelo Caetano será um dos jurados da Queer Palm neste ano. Mineiro radicado em São Paulo, Marcelo é diretor de Baby, filme que competiu pela Queer Palm do ano passado e estreou nos cinemas em janeiro. No longa, ambientado no centro da capital paulista, Wellington (João Pedro Mariano) sai de um centro de detenção juvenil e se vê sem rumo nas ruas da cidade, sem contato com seus pais e recursos para reconstruir sua vida. Durante uma visita a um cinema pornô, ele encontra Ronaldo (Ricardo Teodoro), um homem mais velho, que ensina ao rapaz novas formas de sobrevivência. Gradualmente, o relacionamento dos dois se transforma em uma paixão conflituosa, oscilando entre exploração e proteção, ciúmes e cumplicidade. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Marcelo, que falou acerca da proposta de representação LGBTQIA+ na obra, bem como da sua visão para o centro de São Paulo e de sua participação como jurado da Queer Palm neste ano. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Recentemente assisti ao Lispectorante, da Renata Pinheiro, que é um filme que discute esse processo de gentrificação e abandono do centro de Recife, mas com um olhar muito carinhoso para esse centro, mostrando o quanto ele ainda é vivo. E eu sinto que “Baby” também dirige um olhar muito carinhoso ao centro de São Paulo, sem deixar de ignorar as problemáticas que o assolam. O que você queria mostrar desses espaços, como você pretendia retratá-lo conforme contava a história de Wellington e Ronaldo? Marcelo Caetano: Baby é o segundo longa que eu filmo no centro, Corpo Elétrico [longa de estreia do diretor] também se passa no centro, e eu fiz aqui também quatro curtas que se passam na região. E eu moro também há bastante tempo aqui na região, na avenida São João, e é uma região em disputa. Eu não sei se a gente consegue dizer que houve gentrificação porque ela nunca conseguiu se efetivar aqui no centro. Se tentou construir várias instituições, se tentou trazer para cá órgãos governamentais, mas ainda assim essa região mantém uma coisa bastante típica do centro de São Paulo, que é esses contrastes que você pode perceber na rua. Então você vai ter a classe média, você vai ter parte da elite intelectual, mas a grande parte são pessoas operárias, da classe trabalhadora, você vai ter os prédios novos ao lado dos prédios modernistas e ao lado dos cortiços das pensões. Você tem os migrantes nordestinos, os migrantes de outros países que vieram viver aqui, ao lado da população queer de São Paulo e de outros lugares do Brasil também, migrantes sexuais. Você vai ter uma diversidade muito grande, vai ter lado a lado um imigrante do Cabo Verde com uma bicha de Belém e uma evangélica trabalhadora do centro de São Paulo. Então para mim é um uma espécie de microcosmo do que a gente consegue ser mais cosmopolita em relação ao Brasil. É, temos aqui todas as mazelas, mas também todas as grandes belezas, né? É um espaço extremamente colorido dentro de uma cidade cinza, é um espaço extremamente musical dentro de uma cidade que tenta ser europeia e burguesa. Então, acho que é muito curioso o centro de São Paulo, e eu tendo a achar que ele é um pouco do microcosmo do Brasil. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Falando agora sobre os personagens, me chama a atenção como você constrói a relação deles de forma autêntica, mas sem isentá-los de suas falhas e contradições, dando uma dimensão humana a esse relacionamento. Você diria que é uma resposta à maneira um tanto “higienizada” e “comportada” como muitas vezes pessoas e relações queer são representadas no cinema contemporâneo? Marcelo Caetano: Eu acho que tem uma diversidade também muito grande dentro do cinema queer contemporâneo; não sinto que seja só essa higienização, não. Eu acho que tem diversas coisas acontecendo que são muito underground e que tratam de formas de cinema pouco convencionais, então mesmo aqui no Brasil a gente teve recentemente o trabalho de vários diretores. Eu posso citar o Salomé do André Antônio, que é um filme que tem um tipo de abordagem bastante radical em relação ao que seria o cinema queer. Mas pensando no meu filme, no que eu tento fazer, eu acho que a gente só consegue trazer profundidade para o cinema se a gente trabalha com contrastes. Ainda na ideia do que eu falava do centro de São Paulo, também pensando em termos de dramaturgia, eu acho que os personagens só são fortes, só têm profundidade, só vão atingir de questões metafísicas e existenciais se existe contraste dentro da construção deles, se existe contraste entre os encontros que você possibilita dentro de um filme, de pessoas muito diferentes, de encontros que eles são não impossíveis, mas improváveis. E, dentro da formação de cada personagem, é tentar trazer elementos que em um primeiro momento nos recorreria a julgar, a trazer uma visão moral, e ao mesmo tempo humanizar no sentido de dizer que, para além dos nossos preconceitos, nossos julgamentos, da nossa necessidade de acusar, existe ali uma série de circunstâncias, uma série de contradições, uma série de desejos reprimidos que muitas vezes vêm à tona, que quando você coloca isso tudo dentro de um personagem, ele fica muito complexo. Então essa complexidade é o que me interessa, e ela vem justamente de imaginar que dentro da gente habitam contrastes, habitam contradições e eu não acredito que seja um trabalho condescendente ou indulgente em relação aos personagens. Eu acho isso uma visão totalmente torpe, equivocada sobre o Baby. O que eu acho que acontece com esses personagens é que habitam dentro deles sentimentos muito contraditórios, vontades que são contraditórias. Eu acho que ao poder falar dessa contradição sem julgar a gente abre um espaço para uma conexão com um tipo de personalidade, de identidade que forma o Brasil e que é bastante complexa, bastante confusa. Ela vem de diversas demandas de sobrevivência e de existência. Então eu sempre me interessei muito em qualquer tipo de arte, não só no cinema, pela construção que parte dos contrastes, que parte das contradições. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Ainda falando sobre obras queer, você será um dos jurados da Queer Palm em Cannes neste ano. Como você avalia o impacto de estar no festival nessa posição de jurado levando em conta a sua trajetória até aqui? E o que você diria que espera ver para o cinema queer, especialmente o nacional, nestes próximos anos? Marcelo Caetano: Eu acho que essa oportunidade de estar nesse júri tem uma dimensão pessoal e interessante, porque vou assistir 16 longas, então, vou assistir uma produção atual. Boa parte dos filmes selecionados que estão nessa mostra são filmes europeus, e eu gostaria que fosse um espectro mais amplo, mas infelizmente a geopolítica do cinema é bastante cruel. Mas é uma oportunidade muito grande de entrar em contato com essas vozes, com esses pensamentos de cinema. Tem a Julia Ducournau voltando com Alpha depois de ter ganhado a Palma de Ouro com Titane; tem o Enzo do Robin Campillo, que ganhou o Grand Prix com 120 Batimentos Por Minuto; tem filme do Lucio Castro, o Drunken Noodles. Então tem uma coisa bem interessante em termos das autoralidades desses diretores que estão propondo visões de cinema bastante particulares. Então, acho que tem esse ponto de vista pessoal que é muito bom. O segundo ponto é estar em em diálogo com o júri, e é um júri muito interessante, que tem pessoas de diferentes áreas dentro do cinema, de diretores, curadores, compositores, críticos. Então são cinco pessoas, cada um representando um pouco uma área dessa nossa arte, acho que vai ser um diálogo bastante interessante. O Cristophe Honoré, que é o presidente do júri, é alguém que eu acompanho a obra há muito tempo, desde o Dans Paris, Canções de Amor, até os filmes mais recentes, o Marcello Mio. E eu acho que eu, como único representante do sul global desse júri, vou tentar trazer também um pouco dessa perspectiva dessas outras existências queer, dessas outras possibilidades queer também. E aí se for falar do cinema queer brasileiro, eu acho que a gente chegou num lugar de destaque muito importante internacionalmente. Se a gente ver, o Brasil seja o único país latino-americano que sempre tem filmes em festivais queer, como a Queer Palm e o Teddy Award no Festival de Berlim. A gente tem o cinema do Márcio Reolon, da Juliana Rojas, da Carolina Markowicz, do Gustavo Vinagre, Caetano Gotardo, Ricardo Alves Júnior. Então, acho que é um cinema muito, muito diverso, muito rico e todo mundo vindo com uma proposta de linguagem muito forte, muito afirmativa, está todo mundo ali criando, tentando descobrir como é que se posiciona dentro desses cinemas. Acho que a gente conseguiu com o Baby furar a bolha do cinema queer. A gente fez uma carreira de festivais gerais, mostrando um filme com personagens LGBTs, com uma história de amor de dois homens. Para mim é muito importante que a gente saia do conforto do nicho, que a gente vá discutir com o público mais amplo, porque a gente vive um momento de perseguição, de restrição de direitos. E eu acho que a gente, para além de fazer cinema queer, está fazendo cinema. Em momento nenhum eu deixei de usar coisas que eu acho que são muito típicas da linguagem queer como, por exemplo, o excesso de cor, os movimentos de câmera, os jogos de espelho. Não deixei de ter cenas de sexo, não deixei de ter cenas de sensualidade, não tive que fazer concessões em relação à queerness, mas ao mesmo tempo é um filme que que vai tentar levar isso para um público muito mais amplo. Então, acho que esse é o desafio político desses filmes. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Foi até bom que você tenha citado muitos nomes de diretores e diretoras e de muitos filmes, porque a gente sempre termina as nossas entrevistas aqui no Oxente Pipoca pedindo que os nossos entrevistados indiquem obras nacionais que eles acham que o público deve assistir. Então, dentro desse repertório de filmes, quais você acha que as pessoas deveriam estar assistindo, especialmente nesse âmbito do cinema queer? Marcelo Caetano: Eu vou fazer um pouquinho o papel da história, tá? Vou falar um pouquinho dos do que eu acho que historicamente me tocaram bastante em relação ao cinema queer. O primeiro filme que eu vou citar é O Menino e o Vento, que é um filme do Carlos Carlos Hugo Christensen, um diretor argentino que trabalhava no Brasil, foi filmado nos anos 60. Ele foi filmado, inclusive, na cidade onde os meus pais nasceram [Visconde do Rio Branco-MG], minha mãe faz figuração no filme. Então, então eu já tenho ali o leite materno, um pouco de cinema queer [risos] e foi talvez nosso primeiro filme a falar desse amor proibido. Eu vou citar também um filme super importante, com uma personagem lésbica interpretada pela Betty Faria, que é o Anjos do Arrabalde, o filme do Carlos Reichenbach, de 1987. Eu acho um filme tem uma personagem que é super interessante. E vou indicar também para quem ainda não viu o Tatuagem, do Hilton Lacerda, de 2013. Foi a minha grande escola de cinema, foi o filme em que eu fui diretor assistente e tenho bastante carinho. Acho que quase todo mundo já viu, mas é bom sempre reafirmar porque eu acho que ele faz parte dessa história. Trabalhei meses com Hilton em Recife, pensando e fabulando esse filme que eu acho extremamente importante, justamente nesse movimento que eu falo gente falar desses amores para um público cada vez mais amplo e confrontar a caretice das pessoas.
- Entrevista | Renata Pinheiro fala sobre “Lispectorante”, seu novo filme
Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora falou sobre as influências de Clarice Lispector no longa, a gentrificação de Recife e o trabalho com Marcélia Cartaxo e Grace Passô. Divulgação Estreia nos cinemas brasileiros no dia 08 o longa-metragem Lispectorante, dirigido por Renata Pinheiro (Amor, Plástico e Barulho e Açúcar). O filme acompanha Glória Hartman (Marcélia Cartaxo), uma mulher madura que atravessa uma crise existencial e financeira e volta à sua cidade natal, Recife, que também passa por um processo de abandono. Por meio de uma fenda nas ruínas onde morou a escritora Clarice Lispector, Glória começa a ver cenas fantásticas que vão alterar a sua vida. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Renata a respeito do filme. Ela pôde comentar sobre a escolha de trazer o espírito da obra de uma das maiores escritoras brasileiras para o longa, a abordagem a respeito dos processos de gentrificação que Recife vem sofrendo e a oportunidade de trabalhar com atrizes do calibre de Cartaxo e Grace Passô. Você pode acompanhar a entrevista abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Lispectorante, como seu título indica, tem como base não só a casa de Clarice Lispector, mas sobretudo o espírito de sua obra. Como foi trazer Marcélia Cartaxo - que ganhou notoriedade justamente pelo seu papel em A Hora da Estrela - para o filme e fazê-la se reencontrar de certa forma com Clarice? Renata Pinheiro: A obra de Clarice Lispector como um todo sempre me motivou muito e principalmente também porque eu sou uma mulher que me descobri artista desde criança. A gente tem aquele vazio dentro da gente que só é preenchido em alguns momentos quando você encontra obras como a de Clarice. Eu me lembro que li ela muito criança, depois na adolescência, e nem sei se eu entendia tudo, mas aquilo me deu um certo alívio dessa complexidade que é ser mulher, ser artista. Aí esse filme vem por uma grande coincidência do acaso, que foi essa construção toda. A personagem nasceu antes, é essa mulher de meia idade, uma mulher madura que está passando por um momento de grande crise existencial, financeira, termina um casamento. É uma artista frustrada porque se dedicou muito mais à carreira do ex-marido, e agora, o que fazer com isso? E foi numa ida furtiva ao centro da cidade que Sérgio Oliveira, que também é criador desse projeto, chegou para mim e falou: "Pô, você já reparou na casa de Clarice Lispector na praça Marciel Pinheiro, lá no bairro da Boa Vista, que é bem o centro da cidade?”. Eu disse: "Não, é mesmo, é ali a casa dela". Então é algo que realmente estava esquecido, e aí veio essa conexão, porque na verdade essa construção da Glória tinha tudo a ver com esse universo único de Clarice Lispector. Então, eu acho que o filme se aproxima mais dessa minha necessidade de falar o quanto que Clarice Lispector viveu em Recife. Ela habitou aquela praça, andou por ali igual a igual a todos nós daqui, respirou aquele ar, foi ali no rio Capibaribe, voltou pra praça, enfim. Uma coisa que até eu, que sou recifense, estava esquecida, de que ela tinha aquela casa dela num lugar tão turístico e central. Então o filme tenta resgatar, fazer um contato com a pessoa da escritora Clarice Lispector e traz, claro, essa aura que está nas obras dela. E para a gente ter essa personagem no filme, logo chegamos à conclusão de que Marcélia Cartaxo seria perfeita, pela idade dela, pela complexidade, por ela ter feito Macabeia [em A Hora da Estrela]. Ela vem com uma carga muito intuitiva, de uma atriz intuitiva. Ela tem uma aura de estrela mesmo, e imprime um elemento de mulher-criança, o que dá uma humanidade incrível à personagem. E por isso me sinto uma artista recifense em comunhão com outras duas grandes artistas, uma pernambucana e uma paraibana. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme também trata muito de questões de gentrificação, ainda mais nesse contexto pós-pandêmico. Inclusive eu tive a infelicidade de ser assaltado no centro de Recife ano passado. Para você, de que forma se deve discutir a memória e a ocupação desses espaços para conter o avanço dessa degradação e abandono? Renata Pinheiro: Eu acho que é preciso juntar muitas pessoas, de várias áreas, multidisciplinares, para entender o que fazer com o espaço tão rico de memória e inclusive nobre. Ele fica à beira do rio Capibaribe, e esse bairro da Boa Vista tem o cinema São Luís, tem o teatro do parque. Então está tudo ali e eu acho que partindo de uma economia limpa como o turismo talvez fosse o mais interessante. Traçar um mapa sentimental da cidade do Recife, que é algo que o filme também traça um pouco, ao mostrar que foi onde nasceu o físico Mário Schenberg, além da própria casa de Clarice. Eu acho que a cultura sempre salva, então acho que através de centros culturais naturais poderia se deixar mais vivo aquilo tudo. Poderia se trazer um outro tipo de ocupação para essas áreas, porque acontece em outras cidades também. Desde o final dos anos 80, quando começaram os shopping centers a tomar esse lugar do centro da cidade, até agora, onde o comércio virtual tem dominado e muitas lojas físicas têm fechado, tudo isso tem sido um fenômeno mundial. Eu acho que as cidades têm que estar preparadas para se adaptarem a essas novas tendências, principalmente privilegiando a vida humana. Então têm muitos espaços que estão vazios, com pessoas que não têm casa, e tem que ter uma política de ocupação desses espaços, além da preservação da nossa história, isso é cultura. Tem museu também por ali, que ninguém sabe que existe, cara, ninguém sabe porque é uma portinha. Trata-se de uma história, o nosso passado, que estão esquecidos. É realmente uma pena, porque a gente que faz cinema tem essa função de às vezes até de colocar na roda as questões, as temáticas para se fazer, conversando sobre temas que, se não for a gente para puxar, ninguém fala. Temos essa função e a gente vai fundo, é a nossa arma, mas é preciso que venha um pouco lá de cima, infelizmente. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Algumas das minhas partes favoritas são as envolvendo a grande Grace Passô, nesse lance meio surrealista onde realidade, sonho e fantasia se sobrepõem, mas também estão em constante conflito. Para mim me pareceu muito representativo do ofício criativo de um(a) artista como a personagem de Marcélia, mas queria saber o que você propôs com essas sequências e também como foi o processo de trazer Grace para o filme. Renata Pinheiro: A Grace é uma grande atriz, e como se trata desse universo lúdico, de sonho, precisaria de uma atriz do porte dela. Porque Grace chega chegando, ela teve uma compreensão desse lugar, que é um lugar imaginado pela protagonista, e que tem sim um cunho surreal no sentido de que ele, de fato, utiliza traços de realidade para construir uma realidade paralela, e eu acho a performance dela incrível. Ela fez uma diária e meia só de filmagem, teve uma preparação com Tavinho Teixeira [diretor de atores do filme] e ela surpreendeu, foi além do que eu tinha imaginado. E essa é a grande cena do filme, que é quando a gente vê se materializando lá o que é o tal do Lispectorante, essa bombinha de confete que ao explodir te transporta para um lugar alucinógeno contra a caretice. Você expurga as mágoas, enfim, vê a vida de uma forma diferente. Acho que esse não poderia ser meu primeiro filme, porque é um filme muito sofisticado, ousado e corajoso. E você precisa ter parceiros também corajosos, ousados e, vamos dizer, maduros para entrar nessa, como a Grace Passô, o Pedro Wagner e a Marcélia Cartaxo. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca sempre pedimos aos nossos entrevistados que nos indiquem seus filmes nacionais favoritos, ou aqueles que acham que todo mundo deveria estar assistindo. Quais seriam suas indicações de filmes nacionais para o nosso público? Renata Pinheiro: Como a gente está falando tanto aqui de Clarice e de Marcélia, eu vou indicar A Hora da Estrela, de Suzana Amaral. Parêntese, eu trabalhei com Susana Amaral, uma diretora incrível, fui diretora de arte do último filme dela, Hotel Atlântico. Também pensei aqui em Madame Satã, do Karim Ainouz. Acho que os dois filmes mergulham num Brasil muito interessante, que, como diz Matheus Nachtergaele, é o “Brasil com S”. Também são filmes que se passam nos centros das cidades, então eu os indicaria para as pessoas que são muito jovens, principalmente, que talvez não tenham assistido ainda.
- Crítica | Sereias (Minissérie)
Ótimo elenco não consegue salvar esta tentativa de sátira da bagunça que ela é Divulgação Criada por Molly Smith Metzler, que também criou a sensacional Maid (2021), Sereias conta a história de Devon (Meghann Fahy), que precisa da ajuda da irmã Simone (Milly Alcock) para cuidar do pai com demência. A vida de Devon é um trem descarrilhado, mas ela faz o que pode, e quando Simone não responde as mensagens e nem atende ligações, a moça resolve ir buscá-la pessoalmente em uma luxuosa propriedade litorânea onde ela trabalha como assistente de Michaela (Julianne Moore), uma mulher muito rica por quem Simone parece ter verdadeira adoração. Esta premissa básica é bem interessante e a minissérie tem uma identidade própria, apesar de ser mais uma pós The White Lotus. No entanto, a tentativa de satirizar a excentricidade dos ricos da vez cai por terra quando há um forte desequilíbrio entre o drama e o humor, que não ornam com as estranhezas que a produção propõe. É como se algumas cenas funcionassem isoladamente, mas não se conectam muito bem com o que a série constrói e como desenvolve seus personagens. As três protagonistas estão excelentes nos papéis e é uma pena que o material não esteja à altura. Meghann Fahy consegue dar alguma humanidade à sua Devon barraqueira e sem papas na língua e tem um surpreendente timing cômico muito afiado. Milly Alcock, revelação de House of the Dragon como a jovem Rhaenyra, em nada lembra a rainha. Aqui ela é uma jovem ambiciosa que quer ter sempre o controle da situação, mas quando isso foge das mãos dela, é seu momento de brilhar. Julianne Moore parece estar à base de medicamentos quase o tempo todo, o que casa bem com o que o texto e a direção pedem dela, sem perder a elegância quando sua Kiki – como é conhecida – precisa se impor de outra forma. Kevin Bacon é o marido de Kiki, Peter e o ator está bem, mas não se sobressai. Glenn Howerton, Josh Segarra, Felix Solis e Bill Camp completam o baita elenco, que realmente merecia mais substância em personagens tão volúveis que é quase impossível estabelecer uma conexão com o telespectador. Divulgação Felizmente, são apenas cinco episódios, mas desde o primeiro os problemas aparecem. As protagonistas são apresentadas como estereótipos, mas o texto não as leva para além da casca. O mito das sereias fala sobre belas mulheres que, com seu canto, seduzem pessoas – homens, principalmente – e os levam para o fundo do mar. É a metáfora que a minissérie tenta fazer com suas personagens principais. Devon e Simone colecionam ficantes apaixonados por elas, enquanto Kiki recebe a adoração da alta sociedade. Há um misticismo envolvido com as três, mas unicamente para trazer estranhezas, ressaltadas por olhares hipnotizantes ou até uma lambida em um pescoço – sim, isso mesmo. Sem falar nos mistérios abordados, resolvidos com simples conversas. São jogados na tela, mal trabalhados e com uma resolução pior ainda. O título também é uma referência mais clara a um código de pedido de ajuda das irmãs, e quando eu disse que algumas cenas são boas isoladamente, estava me referindo às que Devon e Simone dividem, principalmente quando emocionadas. Ali, naquele momento – muito por causa das atrizes também – parece que há uma relação bem explorada pelo roteiro. Na cena seguinte a impressão se desfaz, porque nem a série parece saber aonde quer chegar e atira para todo lado, não tendo sucesso no humor, suspense ou drama, salvo raríssimas exceções em cenas isoladas. E o final, uma sucessão de atropelos convenientes para que resultem em uma reviravolta pífia e previsível, coloca tudo a perder. Se algo fez sentido ali, não faz mais. Um dos maiores problemas de uma produção pretensiosa não é ela ser pretensiosa – até porque foi isso que faz ela ter algum destaque –, é quando ela se leva tão à sério que não consegue sequer entreter, como é o caso aqui, e se não fosse pelo elenco, praticamente nada se salvaria. Nota: 2/5
- Entrevista | “O cinema já acabou duas vezes”: Jorge Furtado comenta resistência do audiovisual brasileiro
Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor comentou das inspirações e da relevância do longa, que será relançado no dia 29 junto com seu curta-metragem “Ilha das Flores” pela Vitrine Filmes. Divulgação Lançado em 2007, o longa-metragem Saneamento Básico, o Filme, dirigido por Jorge Furtado, ganhará a partir do dia 29 um relançamento especial nos cinemas. A obra é estrelada por Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Paulo José e Tonico Pereira, e segue um grupo de moradores de uma pequena cidade da Serra Gaúcha que, na tentativa de resolver o problema de uma fossa a céu aberto que empesteia o ambiente, decidem usar uma verba de 10 mil reais da prefeitura disponibilizada pelo governo federal para gravar um filme de ficção que aborde o problema. O relançamento de Saneamento Básico, o Filme ocorre em conjunto com o do curta-metragem Ilha das Flores (1989), também dirigido por Jorge Furtado, e ambos os filmes serão exibidos com cópias restauradas em 4k pela Vitrine Filmes. Segundo a distribuidora, a iniciativa visa resgatar e valorizar o patrimônio audiovisual do país, permitindo que novas gerações tenham acesso a filmes fundamentais da cinematografia brasileira no formato original para o qual foram concebidos: o cinema. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Jorge Furtado para falar sobre as inspirações que o ajudaram a fazer o filme, bem como sua relevância quase 20 anos após o lançamento original e a importância de se assisti-lo no cinema. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Uma das melhores coisas de “Saneamento Básico, O Filme” é ver esses personagens que não têm conhecimento nenhum sobre cinema tendo de fazer um filme. Mas eu queria saber: quais obras te inspiraram? Porque é nítido como “O Monstro do Fosso” tem essa coisa meio de filme B de ficção científica dos anos 50, ou até de slasher, então queria saber quais foram suas principais referências para fazer esse “filme dentro do filme” tão autenticamente nacional. Jorge Furtado: É interessante porque a inspiração de um filme é sempre uma pergunta que tu faz para ti mesmo e que tu tenta responder. E a pergunta que eu e fiz para mim mesmo era: um país como o Brasil, com tanta desigualdade, com injustiça social terrível, o mais desigual do planeta, tem o direito de usar dinheiro público para fazer cinema? E a resposta que o filme dá é: sim, tem o direito, mais que isso, tem a obrigação, porque numa sociedade tem que se construir junto, saúde, educação, segurança, balé, ópera, livraria, música, tudo tem que andar junto. Não dá para escolher. Então, são personagens que, como tu dissesse, não conhecem o cinema e só querem o dinheiro, mas acabam se envolvendo, se apaixonando e entendendo o poder de uma música. Ela [a personagem de Fernanda Torres] gasta uma grana de não sei quantos tijolos para comprar Billie Holiday, porque Billie Holiday vale muitos tijolos. E quanto à questão do monstro, o personagem do Wagner [Moura], Joaquim, é o Arlequim. Então, quando ele resolve ajudar a mulher dele para fazer uma história, pensa numa história de monstro, que certamente deve ter a ver com algum gibi que leu, e é infantil, mas funciona. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Estamos aqui quase 20 anos depois do lançamento original do filme, e vemos tantas pessoas criticando os investimentos em cultura. De que forma “Saneamento Básico, o Filme” ajuda a dialogar com esse cenário, no sentido de mostrar que a cultura é tão válida de ser investida quanto outras áreas da sociedade brasileira? Jorge Furtado: Eu tô fazendo cinema há 41 anos e nesse período o cinema já acabou pelo menos duas vezes, primeiro com o Collor, depois agora recentemente. E ele acaba e recomeça, acaba e recomeça e claro que não vai acabar. Os governantes que tentaram acabar estão com problemas de ficar fora da cadeia – um já foi preso, o outro espero que seja. E o cinema brasileiro tá aí de novo e sempre vai continuar, porque tem uma galera querendo fazer filme sempre, novos, jovens, e de algum jeito eles vão fazer. O filme foi feito inspirado também num projeto que, naquele momento, era Muitos Brasis ou Diferentes Brasis, não sei exatamente o título do projeto, mas era uma verba para produção de cinema em cidades de até 20.000 habitantes. Quando esse projeto saiu, eu tava em Santa Maria, no Festival de Cinema, e o pessoal de Santa Maria, que é uma cidade que tem quase, sei lá, 200.000 habitantes, disse assim: "Nós vamos ter que nos mudar para a cidade mínima para poder fazer filme agora". E então eu fiquei pensando: como é que uma cidade tão pequena vai pensar um filme, fazer um filme? Divulgação E tem uma outra coisa também, que só tem a ver comigo, mas eu tive uma longa obsessão – tenho ainda – por Shakespeare. Sempre estudei muito, gosto de Shakespeare. E chegou uma hora que eu meio que pensei assim: "Não, é possível, o teatro existiu antes de Shakespeare, o que que tinha antes?” E aí eu fui estudar como é a Commedia Dell’Arte, que sustentou a dramaturgia e o teatro por 300 anos, desde a volta do teatro na Renascença até o século XVII. E a Commedia Dell’Arte contou todas as histórias com oito personagens, então, peguei aqueles personagens, que são italianos, vou para uma cidade italiana, no interior do Sul, boto música italiana e vou fazer o Arlequim, a Mirandolina, etc., contar uma história com eles. A Marina [Fernanda Torres] quer provar para o pai que ela é talentosa e pode fazer o que um filho, um homem, não faria. A personagem é muito inspirada na Mirandolina, da Locandiera, do [Carlo] Goldoni, que marcou o fim da Commedia Dell’Arte. O Joaquim é meio Arlequim, o Fabrício [Bruno Garcia] e a Silene [Camila Pitanga] são os namorados bonitos, têm o Antônio [Tonico Pereira] e Otaviano [Paulo José], um é de Bolonha e gosta de dinheiro e o outro é de Veneza e é culto. Então os personagens são arquetípicos, eles têm 300 anos de existência. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Agora eu queria saber de como você está se sentindo vendo o filme voltar aos cinemas quase 20 anos após seu lançamento original, junto com “Ilha das Flores”. O que levou a esse relançamento de ambos os filmes? Jorge Furtado: A escolha foi da Vitrine [Filmes], esse é um projeto da Vitrine de relançamento de filmes brasileiros, eles nos procuraram no final do ano passado. Agora parece que é tudo feito meio em função do Oscar e da Fernanda, mas não, no final do ano passado eles já tinham nos procurado para fazer o relançamento. Agora melhorou, porque eu vejo no Letterboxd os americanos entrando para ver o filme para saber quem é essa Fernanda Torres e o que ela já fez, e se espanta ao ver que ela é comediante também, é engraçado. E tô achando muito bom o filme voltar para o cinema em 4K. É diferente de ver um filme numa sala de cinema, né? É mais transformador assim, porque tu não tá com o controle remoto na mão. O filme tem um tempo, tu te comove com o silêncio alheio e com a risada alheia também. Então, esse estado de cinema é uma experiência muito rica e transformadora que a minha geração viveu muito. Eu ia cinema quase todo dia, uma época. E hoje as pessoas pensam que ver um filme em qualquer lugar é a mesma coisa. Não é. Lawrence da Arábia no celular não é a mesma coisa do que numa sala. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Para finalizar, nós do Oxente Pipoca sempre gostamos de pedir aos nossos entrevistados que indiquem filmes nacionais que achem que o público deva assistir. Então quais seriam suas indicações para o nosso público? Jorge Furtado: Gostaria de indicar sem dúvida o meu filme e da Yasmin Thayná, que é o Virgínia e Adelaide, que é um filme que eu tenho o maior prazer e orgulho de ter feito. Ele conta a história de duas mulheres absurdas, a Virgínia Bicudo, primeira psicanalista brasileira, uma mulher negra que nos anos 30 enfrentou todo tipo de preconceito para se tornar uma grande cientista, e a Adelaide Koch, que é uma médica judia que fugiu do Holocausto, da Alemanha nazista para vir para São Paulo e fundar a psicanálise aqui. Então esse filme tá nos cinemas e vejam lá. Depois tem um filme que eu não vi, só vi o trailer e ouvi falar, mas eu vou essa semana, se puder, que é o Manas, que tá no cinema e deve ser visto. Eu vi e gostei muito do Homem com H, uma direção absurda do Esmir [Filho], montagem do Germano [de Oliveira], trabalho do Jesuíta [Barbosa], vale muito o filme. Eu acho que as minhas indicações são essas.
- “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, ganha teaser oficial após estreia aclamada no Festival de Cannes
Filme concorre à Palma de Ouro, o mais importante prêmio do festival, e receberá distribuição internacional pela Neon e Mubi. Divulgação Um dos representantes brasileiros no Festival de Cannes neste ano, O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, teve divulgado seu primeiro teaser, após sua estreia no festival, no último dia 18. O novo filme do diretor pernambucano é o único longa-metragem latino-americano a competir pela Palma de Ouro, a mais importante premiação em Cannes. Ambientado em Recife, em 1977, o longa acompanha Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia que retorna à cidade após anos fora em busca de paz, apenas para descobrir que sua cidade natal esconde perigos e segredos inquietantes. Além de Moura, o elenco ainda conta com Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Alice Carvalho, Roberto Diogenes, Hermila Guedes, entre outros grandes artistas. Divulgação Desde sua estreia em Cannes, onde foi ovacionado com 13 minutos de aplauso, O Agente Secreto vem sendo aclamado pela crítica. A distribuição internacional foi adquirida pela Neon, que lançará o filme nos EUA e no Canadá, e a Mubi, que o lançará no Reino Unido, Irlanda, Índia e América Latina, exceto no Brasil. Aqui no país, o longa será lançado nos cinemas pela Vitrine Filmes. Você pode assistir ao teaser abaixo:
- Entrevista | Jorge Furtado e Yasmin Thayná falam sobre "Virgínia e Adelaide"
Em conversa com o Oxente Pipoca, dupla de diretores destacou a importância de contar a história da trama para o público. Divulgação O dia 8 de maio de 2025 marca a estreia nos cinemas de Virgínia e Adelaide, longa que conta a história do encontro entre duas mulheres extraordinárias que transformaram a psicanálise no Brasil. Em um retrato sensível e impactante, o filme narra a trajetória de Adelaide Koch (Sophie Charlotte), uma psicanalista alemã que fugiu da perseguição nazista, e Virgínia Bicudo (Gabriea Correa), a primeira psicanalista brasileira não-médica e uma das primeiras professoras universitárias negras do país. Dirigido por Jorge Furtado e Yasmin Thayná, o filme explora a relação entre essas duas mulheres que, juntas, desafiaram barreiras e preconceitos, deixando um legado indelével na psicanálise brasileira. Virgínia e Adelaide não apenas reconta suas vidas e carreiras, mas também celebra a amizade que perdurou por mais de 30 anos e os impactos de suas trajetórias no Brasil. Em entrevista ao Oxente Pipoca, Jorge Furtado e Yasmin Thayná compartilham os bastidores da criação desse projeto cinematográfico, o processo de pesquisa e a parceria que ajudou a moldar a narrativa. Confira a íntegra da conversa abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Queria saber primeiro como surgiu a ideia de fazer um filme contando a história dessas duas mulheres, uma história real. Como foi a concepção dessa história para você? Jorge Furtado: Eu fico pensando às vezes como é que essa ideia de filme não surgiu antes. Como é que nunca ninguém tinha feito um filme sobre a Virgínia? A ideia de juntar ela com a Adelaide foi meio minha, quando eu fui entender como foi que a Virgínia se formou. Porque a Virgínia era uma personagem tão extraordinária, uma mulher tão incrível em tantos sentidos, que parece até óbvio que alguém tinha que fazer um filme sobre ela. Na verdade, acho que deviam fazer mais de um filme sobre ela, ainda tem muita coisa a ser contada. Ela foi muito pioneira em muitos aspectos. E o que me interessou também foi essa ideia de um encontro entre duas mulheres tão diferentes, com histórias de vida tão distintas, e que mesmo assim conseguiram produzir algo juntas. Primeiro elas foram médica e paciente, depois viraram colegas, amigas para a vida toda, e realizaram muitas coisas juntas. Acho que isso é uma lição importante até para o Brasil de hoje. A gente vive muito em bolhas, cada um na sua, e essa história mostra que, mesmo vindo de mundos muito diferentes, duas pessoas podem se encontrar e criar algo. Quando a Virgínia diz para a Adelaide: "Vamos ver, por que não eu?", e a Adelaide responde: "Tá, vamos, por que não, né?", nasce algo desse encontro. Isso é muito bonito, acho até como uma fábula. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Queria saber como foi esse encontro entre vocês dois — a junção de experiências, com você já sendo um diretor com vários filmes no currículo, e a Yasmin, que está começando agora, mas já com um olhar super afiado para questões raciais. Como rolou essa parceria? Yasmin Thayná: Eu sabia quem era a Virgínia Leone Bicudo por conta da tese da professora Janaína Damasceno, Segredos de Virgínia. Mas eu descobri de fato essa personagem, essa história, né, essa pessoa, por meio da pesquisa do Jorge — por essa dramaturgia que ele construiu e que ainda está em processo, porque ele continua pesquisando, continua buscando mais sobre a história das duas. Então acho que, nessa parceria com o Jorge, eu pude aprender muito, principalmente em relação ao diálogo, a filmes que são muito falados — como é que você dirige e torna suportável, mesmo prazerosa, uma cena longa entre duas pessoas que estão só conversando, falando coisas densas. Isso é uma arte muito grande, né? Manter o interesse da audiência numa cena assim, longa, com duas pessoas sentadas falando, e ainda assim criar movimento a partir da fala. E eu pude aprender muito com ele sobre isso. E, por último, acho que teve também essa troca no lugar do humor. O Jorge é uma pessoa muito experiente, um cineasta que tem o humor como uma marca nos trabalhos dele. E uma das minhas contribuições como diretora foi trazer esse olhar para o humor na intelectualidade — especialmente na intelectualidade de mulheres, e mais ainda de mulheres negras. É algo que eu reconheço em muitas mulheres com quem eu convivo, como Sueli Carneiro, Conceição Evaristo... Mulheres que eu conheço pessoalmente e que têm um humor na fala, não necessariamente para ser engraçado, mas como uma estratégia de vida, como forma de articulação do pensamento. E a Virgínia era uma dessas pessoas. Então acho que isso, de alguma forma, também está ali presente nessa personagem. Divulgação Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como vocês equilibraram a construção de um fato histórico com a liberdade criativa, especialmente nos diálogos e na criação das personagens? Imagino que tenha sido um desafio lidar com esse peso de representar figuras reais, ainda mais quando se trata de personagens históricas tão marcantes. Jorge Furtado: Pois é... é um desafio e tem uma certa ousadia que eu acho que é fundamental pra quem cria. Um certo desrespeito, sabe? Eu me lembro de uma exposição em homenagem ao Guernica, que tava fazendo não sei quantos anos do quadro. E vários cartunistas fizeram leitura, e o Jaguar fez a mais divertida de todas, que era um apartamento embaixo, assim, alguém batendo com a vassoura, como se o Guernica fosse um apartamento de cima, uma festa assim, né? Era muito engraçada, muito divertida a leitura dele. E ele disse assim: “Ah, eu tratei Guernica com o maior desrespeito possível”. Às vezes, tu tem que desrespeitar um pouco quem tu idolatra, quem tu diz assim: “Pô, que mulher incrível, que mulher fantástica essa... a Virgínia”. O que que ela vai falar? Ela vai falar sobre quanto ela tem que pagar na sessão: se é 30, se é 10, se é 5, se vai ser no dia 4 ou no dia 3. Ela é um ser humano, ela tá cheia de necessidades, assim... “ó, pode ser no dia 7, mas eu recebo do estado dia 10”. E a Gabriela vai para dentro das atrizes, faz aquilo com talento, dizendo assim: “Eu posso pagar dia 7. Dia 7 até seria melhor”. Tu vê que o dinheiro faz diferença pra ela. Então, humanizar o personagem, mesmo que ele seja extraordinário... quem ensinou isso foi Shakespeare. Ele fazia isso, foi o primeiro a fazer. O príncipe cansado, o príncipe exausto, que tem uma meia furada. Então a gente, ao humanizar os nossos heróis, nossos ídolos, a gente socializa eles, distribui eles. As pessoas se identificam: “Eu também sou assim. Eu também tô contando o dia pra pagar minha conta. Eu recebo dia tal, eu só posso pagar dois ou três dias depois”. Eu entendo o que ela tá passando. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como vocês esperam que o filme reverbere no público que vai poder assisti-lo nos cinemas em breve? Jorge Furtado: Eu espero três Oscars…[risos] Tô brincando! Mas, assim, eu espero o máximo possível. Espero que as pessoas gostem, que falem, que vejam, que comentem e que fiquem curiosas para descobrir mais sobre essas pessoas. Pra mim, é muito legal quando o nosso filme não depende só da gente para ser exibido, sabe? Quando as pessoas viram exibidoras, se tornam multiplicadoras do filme. E bom... eu acho que isso pode acontecer não só pelo nosso trabalho, que foi mesmo um trabalho muito bom, coletivo, de grupo, mas também por essa história — que eu acho que realmente merece.
- Entrevista | Ben Wang, Ralph Macchio e Joshua Jackson falam sobre "Karate Kid: Lendas" e importância do filme para as novas gerações
Em entrevista ao Oxente Pipoca, os atores falaram um pouco sobre os principais desafios em gravar o “revival” e suas experiências individuais em estarem dentro de uma franquia tão longeva. Divulgação O universo de Karate Kid retorna às telonas com Karate Kid Legends, novo capítulo da franquia que estreou no último dia 8 de maio. Reunindo nomes consagrados e talentos em ascensão, o longa traz Ralph Macchio de volta ao icônico papel de Daniel LaRusso, ao lado de Ben Wang, nosso novo protagonista, e Joshua Jackson, conhecido por Dawson’s Creek e Fringe. Em meio a homenagens, confrontos e lições de vida, o filme resgata a essência da saga original enquanto amplia seu legado para uma nova geração. A convite da Sony, o Oxente Pipoca teve a chance de conversar com os três atores sobre o processo criativo por trás do filme, os desafios físicos e emocionais das gravações, e o impacto duradouro que Karate Kid exerce na cultura pop. Você confere a entrevista completa logo abaixo: Matheus Gomes (Oxente Pipoca): Olá, pessoal! Sou um grande fã do trabalho dos três e fiquei muito feliz ao assistir ao filme. Sabemos que Legends é um filme sobre legado e o diálogo entre as gerações. Eu gostaria de saber qual o principal desafio que vocês enfrentaram nas gravações do filme e como isso impactou no processo. Ben Wang: Acho que meu principal desafio provavelmente foi fazer com que as cenas de luta parecessem boas, principalmente, fazer isso sem vomitar na frente do Jackie Chan (risos). Mas falando sério agora, eu já atuei antes, mas nunca tinha feito um filme com tantas cenas de luta – isso foi completamente novo para mim. Eu tinha alguma base em artes marciais e isso ajudou um pouco, mas chegar a um ponto em que eu parecesse convincente perto da realeza das artes marciais [Jackie] foi de fato meu maior desafio. Ralph Macchio: Para mim o maior desafio foi, principalmente, a logística. Eu tinha acabado de finalizar Cobra Kai e tivemos uma grande festa de encerramento. No outro dia eu já estava em um avião rumo ao set, dentro de um filme que acontece cronologicamente três anos após o fim da série. Eu tive que recalibrar meu cérebro para pensar onde a evolução do meu personagem estava depois desses três anos e pular em um trem em movimento onde todos já estavam gravando há mais ou menos 2 meses. O filme já estava na metade. Jackie e sua grande personalidade já estavam totalmente dentro do projeto, todo mundo já conhecia todo mundo e esses caras [Ben e Joshua] já tinha gravado praticamente todas as suas cenas. Eu sabia que eu significava alguma coisa para a franquia então eu até que cheguei não me sentindo totalmente intimidado. Mas, eu estava na casa de outra pessoa e esse foi o sentimento durante alguns dias. Então, [o maior desafio] foi sobre firmar as bases do meu personagem e permanecer verdadeiro à sua essência; trazer aquele tecido que conecta Daniel Larusso dos outros filmes para algo novo. Esse foi o maior desafio. A questão das artes marciais até que passou. Sabe? Eu tinha acabado de chegar, não tive tanto tempo para me ambientar às cenas de luta e eu consegui trazer meu dublê comigo e isso ajudou bastante. Acho que as cenas de luta e de treinamento saíram legais! [Joshua para Ralph]: Sim! (Risos) Até pareceu que você botou para quebrar lá. Joshua Jackson: Vamos ver... Meu maior desafio foi ganhar peso para o personagem. O plano era ficar [no nível] de um peso pesado. Eu quase cheguei lá. Para ser um peso pesado você tem que ter a partir de 205 libras (92kg), mas eu cheguei até 195 libras (88kg), o que deve ser algo como um peso pena ou algo parecido. O que é 20 libras (9kg) mais pesado do que eu costumo ficar, então isso foi demais. Comer toda aquela comida não foi fácil (risos). Parece simples, mas não é nada simples. Divulgação Matheus Gomes (Oxente Pipoca): Ralph, não vemos Daniel Larusso nas telonas desde 1989. Como foi essa experiência para você? O que nesse projeto em particular chamou sua atenção? Como é estar de volta? Ralph Macchio: Sim! Estou muito animado. Algumas informações eu ainda não tenho até eu assistir o filme numa telona. Eu assisti em uma cabine, mas assistir ao filme junto do público vai ser muito instigante para mim, o que eu não tive oportunidade de fazer ainda. Grande parte do apelo do filme veio assim que nós descobrimos como conectar os personagens e o universo. Sabe, eu comecei [minha carreira] nas telonas e eu nunca vou me esquecer de como foi assistir o filme original na telona pela primeira vez e como foi esse sentimento. Quero muito ter a oportunidade de estar presente em um cinema com uma telona para assistir [o filme], o que eu estou sempre torcendo para que aconteça, já que os telefones estão tomando conta do mundo. É muito legal ter esse tipo de resposta do público; pessoas compartilhando algo juntos. Karate Kid nasceu disso e Legends conseguiu ter essa mesma oportunidade. Então, estou muito animado com isso; não há nada como ver as luzes [do cinema] se apagando e ver todo mundo focando e envolvido na história. E sobre a questão de “continuar o legado”, tem sido fantástico ver como o mundo abraça esses personagens, e agora novos personagens surgindo e que, espero eu, continuem esse novo capítulo. Enquanto for verdadeiro, genuíno e honesto, eu acredito que há espaço para novas histórias serem contadas. Isso sempre foi a raiz [da franquia], mesmo quando decidimos fazer esse filme, eu sempre lutei, primeiramente, pela proteção dos personagens e do legado, fazendo questão que toda a história fosse exaltada e respeitada; e eu acho que conseguimos fazer isso aqui! Então, é isso, estou muito animado por estar na telona.
- Análise | A Casa Do Dragão 2x01 (Um filho por um filho)
Um retorno morno Foto: HBO/ Divulgação Em seus primeiros minutos, “Um Filho por um Filho” quase nos faz pensar que estamos de volta a Game of Thrones. Estamos no Norte, vemos os Starks e a Muralha... mas então entendemos que se trata de uma interação entre o jovem lorde Cregan Stark (Tom Taylor), um dos novos rostos da temporada, com o príncipe Jacaerys Velaryon (Harry Collett), que busca sua lealdade na disputa pela sucessão do falecido Rei Viserys (Paddy Considine). Essa familiaridade se estende quando somos lembrados de que o tema musical da abertura de A Casa do Dragão (House of the Dragon - HOTD) ainda é o mesmo da sua série-mãe. Por mais icônico que seja este tema, ainda assim sinto como essa repetição é um lembrete da sombra da qual HOTD não consegue escapar. Em seu episódio de retorno, a série pega o gancho do final da temporada passada — a morte de Lucerys Velaryon (Elliot Grihault) e seu dragão Arrax pelas mãos de Aemond Targaryen (Ewan Mitchell) e Vhagar, o mais poderoso dos dragões do reino — para movimentar as peças da guerra civil iminente entre o partido dos Negros, personificado em Rhaenyra Targaryen (Emma D’Arcy), e o dos Verdes, apoiador de Aegon II (Tom Glynn-Carney). Mas, apesar do seu final que adapta dos livros um dos seus momentos mais chocantes e icônico, é um episódio morno que reflete os principais problemas da série até aqui, seja os herdados de GOT ou os seus próprios. É natural que, numa série com esse escopo (e ainda mais dois anos após a última temporada), seja preciso um primeiro episódio que prepare terreno e nos relembre do que está em jogo aqui. Contudo, uma das principais falhas da primeira temporada de HOTD foi justamente sua estrutura, onde ao trazer saltos temporais constantes entre os episódios para culminar na morte de Viserys e o início da guerra, sacrificou muito do desenvolvimento dos seus personagens. Mesmo com um ótimo elenco, é muito difícil se apegar ou se importar a certos personagens, e isso é evidente na cena final (mais sobre ela à frente). Não que não existam momentos onde a direção dê a esses personagens e seus intérpretes espaço para brilharem. Três cenas me vêm à mente: aquela em que Rhaenyra encontra os restos de Lucerys e Arrax, a que Jaecaerys tenta dar notícias à mãe e então sucumbe à dor da perda do irmão e a montagem alternada entre o funeral de Lucerys e a oração de Alicent Hightower (Olivia Cooke, que ainda é o grande destaque da série). São cenas simples, mas eficazes em capturar o luto e a tragédia irreversível, mas que, infelizmente, ficam perdidas num episódio que não escapa dessa característica funcional da série, onde A sempre precisa levar a B e o caminho não recebe o tratamento adequado. Isso fica evidente na cena final, que tinha tudo para ser um dos momentos mais chocantes e perturbadores desse universo, mas que é desperdiçada numa encenação burocrática. Aqui tento falar o mínimo possível como leitor das obras originais — livro é livro e série é série, sempre importante lembrar —, mas ainda que a violência da cena precisasse ser atenuada por envolver uma criança, há maneiras muito melhores de sugerir essa violência e o gore do que numa direção tão apática quanto a de Alan Taylor, onde a reação estranhamente fria de Helaena Targaryen (Phia Saban) já é um indício da falta de peso do momento. Pequenos detalhes, como o som da faca serrando, dão o tom aterrorizante necessário, mas infelizmente é pouco para o que podia ter sido visto em tela. Além do mais, as próprias figuras dos assassinos — que parecem dois trapalhões — reforçam outro incômodo meu com HOTD desde a temporada passada: nada pode ser pesado o suficiente sem envolver alguma justificativa ou mudança por trás. Entendo que o público tenha seu apego ao maniqueísmo, mas a grande graça do universo criado por George R.R. Martin sempre foi a complexidade moral dos personagens, sendo a narrativa da Dança dos Dragões aqui adaptada um dos exemplos mais primorosos dessa ausência de vilões e mocinhos. Mas em HOTD os “vilões” precisam ser sempre justificados e os “mocinhos” não podem ir tão longe (exemplo disso é a própria morte de Lucerys, que foi tratada como uma confusão entre Aemond e Vhagar). É como se a produção tivesse pegado as críticas ao choque gratuito que muitas vezes se viu em GOT e tivesse resolvido ir para um outro extremo. Infelizmente, porém, esse outro extremo resulta em episódios apáticos como "Um Filho por um Filho", que se salva por um ou outro momento, mas parece preso à burocracia que tem regido a série até aqui. Fico me perguntando como outros eventos muito mais pesados, violentos e trágicos serão adaptados: que peso terão se o que encontrarmos em tela for algo tão sem vida e ao mesmo tempo preocupado com as “sensibilidades” moralistas do público? É uma perspectiva um tanto desanimadora, mas certamente estarei ligando minha TV no próximo domingo às 22h para assistir o que está por vir.
- Entrevista | Marcos Pimentel e Bárbara Colen mergulham em um universo “sinistro, sombrio, mas ininterrupto” em O Silêncio das Ostras
Diretor e atriz conversam sobre a criação do filme, uma ficção profundamente marcada pelos desastres ambientais de Bento Rodrigues e Brumadinho. Divulgação O filme O Silêncio das Ostras, primeira obra de ficção do diretor e roteirista Marcos Pimentel, já foi exibido em diversos festivais de cinema e agora, a partir do dia 26 de junho, chega às salas de cinema do Brasil. O longa acompanha a rotina de uma família em situação de extrema vulnerabilidade que sobrevive da mineração em um vilarejo em Minas Gerais. A narrativa é conduzida pelo olhar de Kaylane (Bárbara Colen/Lavínia Castelari), filha caçula entre quatro irmãos, que mantém uma sensível e única conexão com a natureza e os insetos ao seu redor. O Oxente Pipoca conversou com o diretor Marcos Pimentel e a atriz Bárbara Colen sobre os bastidores do projeto, os caminhos que levaram à construção do longa e o desafio de traduzir em ficção o impacto de um dos maiores desastres ambientais e humanitários da história do Brasil. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): Marcos, para começar, gostaria que você falasse sobre a origem do projeto. Como ‘O Silêncio das Ostras’ saiu do papel. E Bárbara, como o projeto chegou até você? Marcos Pimentel: Bom, vamos do início. O projeto nasceu da minha vontade, ou melhor, da minha necessidade enquanto mineiro de falar de uma coisa tão forte pra gente e pra todo mundo que nasceu em Minas Gerais, que é a mineração. A gente tem “minas” no nome do estado e a gente cresce permeado pela atividade mineradora em diferentes partes do estado. Eu, enquanto documentarista, que viajo muito pelo estado e vou realizando uma série de projetos diferentes, fica aquela necessidade mesmo de trazer pro papel e apontar a câmera para essa temática que é muito espinhosa. Afinal, as mineradoras são muito poderosas, geram emprego e renda e acabam, por outro lado, modificando a paisagem do estado e não somente isso. Elas interferem nas vidas das pessoas que vivem em torno da atividade mineradora. Então, o projeto surgiu dessa necessidade e foi construído pela história de um monte de personagens que eu encontrei durante minha trajetória no documentário. É uma obra muito pessoal, tem muito a ver com o que a minha mãe contava pra mim, com outros personagens que eu fiz e com as pessoas que eu cruzei o caminho delas, elas cruzaram o meu caminho e nos atravessamos ao longo de décadas. Eu tentei em um primeiro momento fazer um documentário sobre isso, mas não é fácil você conseguir autorização para entrar nas dependências da mineradora. Levar uma câmera para registrar o que acontece lá dentro e no entorno é sempre uma relação bastante complicada – todo mundo que trabalha no audiovisual em Minas Gerais sabe disso e já experimentou essas tensões em determinados momentos. É como se fosse proibido aproximar-se deles. Então, eu fui pro caminho da ficção. Eu construí a minha própria mineradora e a partir disso eu pude contar as histórias que eu queria nesse universo. E que passa também pelas tragédias ambientais e pelos crimes ambientais que o estado experimentou, com Bento Rodrigues, Mariana e Brumadinho. Mas não somente isso. O filme começa muito antes, lá nos anos 80, mostrando o que existia antes até desaguar nas barragens. É algo que vem acontecendo muito antes até a gente chegar nesses tristes episódios da história do estado. Bárbara Colen: A resposta de como eu cheguei até o projeto foi o Marquinhos. A gente fez um trabalho junto em 2018, um telefilme. E foi muito gostoso, foi um trabalho muito legal de fazer. Logo depois ele marcou um café comigo para falar de um projeto (risos). Ele estava com um argumento, um resumo. Não tinha nem roteiro ainda, mas já fiquei muito emocionada com a história e com muita vontade que se desenvolvesse e tomasse corpo de projeto. Esses projetos são longos, né, Ana? A gente começa uma conversa aqui e vai andando, a gente nunca sabe direito quando vai sair. Mas a gente conseguiu, o Marquinhos foi em frente, conseguimos o edital e fizemos o filme. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): O filme tem um belo trabalho de som e fotografia. O Petrus Cariry assina uma direção de fotografia exemplar. Gostaria que você comentasse sobre o processo criativo de trazer o som quase como um personagem, especialmente na representação da presença da mineradora ao longo do filme. Marcos Pimentel: Olha, acho que uma das coisas que mais me interessa no cinema é trabalhar sonoramente as histórias. A gente tinha uma história que possibilitava muito isso. Como a Kaylane tem uma personalidade bastante misteriosa e uma forma enigmática de se relacionar com as pessoas e com a paisagem perto dela, com os insetos e com tudo que ela vai encontrando. A gente utilizava isso para trabalhar a atmosfera sonora do filme, fazendo como se existisse um hiperfoco da Kaylane para a questão sonora. Como se ela estivesse escutando mais aquele universo ali – do moinho, das cigarras, a mineradora, o vento e como ele se relaciona com os objetos do local. Foi um trabalho incrível. A gente faz uma espécie de biblioteca sonora do universo particular da Kaylane e dos elementos da vila também. O carro de boi, por exemplo, que acaba sendo relacionado com a morte ao longo do filme – ele leva os mantimentos, mas também os corpos. O moinho também tem esse som enigmático e onipresente, além de claro, a mineradora. Essa atividade extrativista que vai arrancando a alma dos lugares. Foi um trabalho incrível da Camila Machado, que fez a captação de som, do Vitor Coroa, que fez a edição de som e do Victor Moraes que fez a mixagem. Foi um trio fantástico que trouxe várias camadas pro filme. Já na fotografia, o Petrus é um grande amigo desde a época dos curtas. A gente se conhece há 15, quase 20 anos. Nossos filmes sempre eram programados juntos nas salas, por terem uma linguagem próxima. A gente ficou amigo porque os programadores dos festivais de cinema, que sempre programavam os filmes na mesma sessão, já que são filmes que dialogam muito. Então, a gente se aproximou muito. Na época, o Petrus nem fotografava. Eu o procurei, ele topou na mesma hora. Disse que não esperava nunca esse chamado. A gente acabou fazendo uma ponte muito bonita com o Ceará – veio muita gente de lá de produção, de arte… Não necessariamente pelo Petrus, mas por outros motivos e em outros departamentos. Conseguimos realizar uma sessão lá. Eu acho também muito interessante o trabalho da fotografia com a arte. É uma história que visualmente é muito impactante pelas paisagens do filme, pela mineração, pela devastação e por essas cores ocre da mineração que a gente acaba trazendo pro filme. Além disso, a arte do filme mostra como a Kaylane transforma sua casa, as coisas que ela decide acumular ao longo da vida, os insetos mortos, os bordados… Tudo isso que vai construindo a personalidade enigmática dessa personagem, brilhantemente interpretada pela Babi. Divulgação Ana Beatriz (Oxente Pipoca): Bárbara, a Kaylane é uma personagem marcada pelo silêncio, mas também pela observação e pela criatividade, além de, claro, uma dor latente por tudo que acontece com ela. Como foi o processo de construir essa subjetividade tão interna? Bárbara Colen: Em filmes que a gente tem essa possibilidade de imersão, com a Kaylane a gente foi pra Matipó, depois para uma vila dentro de Matipó. Então, a gente já estava em um ambiente que por si era muito de natureza, de silêncio. Todos os trajetos que a gente fez depois pelas cidades do interior também. Eu acho que isso veio de um processo de conexão com o entorno que estava ali presente. Eu acho que a Kaylane me deu a oportunidade de trabalhar um estado de presença e conexão com tudo – o sol, o vento, os bichinhos. Ela tem uma percepção de tudo que está acontecendo muito amplificada. Com ela, eu fui aprendendo esse estado de presença. Como estar presente em cada tomada, em cada momento. Tem um aspecto pessoal que eu gosto de falar, né, Marquinhos? É triste, mas é interessante, assim. Quando começou a preparação, eu engravidei e logo tive um aborto. Quando a gente começou a gravar em Motipó eu estava vivendo esse processo de aborto, que é muito doloroso, e Marquinhos estava lá comigo o tempo todo. Foi uma coisa que me trouxe uma conexão muito grande com o processo vida e morte. Então, parecia que a pele estava muito exposta, porque eu estava passando por isso internamente. Mas, eu acho que viver Kaylane foi uma cura interna. Engraçado… as coisas acontecem no tempo delas. Muitas das coisas que estão no filme são coisas pessoais que eu estava vivendo e transmutando. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): Embora seja um longa de ficção, ‘O Silêncio das Ostras’ carrega um forte tom documental, algo que vem da sua trajetória no gênero. Inclusive, o filme incorpora imagens de arquivo dos rompimentos das barragens de Bento Rodrigues e Brumadinho. Como foi a decisão de integrar essas imagens reais à narrativa ficcional? Bárbara Colen: Antes do Marquinhos responder, eu vou só fazer uma observação em sua pergunta. Eu acho que os documentaristas têm um jeito de filmar ficção que é muito especial e muito livre, muito gostoso. Então, aproveitando a deixa da pergunta (risos), existia muito uma vivência no set de criação do momento. Fala sobre, Marquinhos! Marcos Pimentel: Eu acho que me interessa muito a intuição. Nas artes de maneira geral. Eu acho muito interessante como a gente pôde se permitir ser invadido pelas locações e pelas histórias. Eu lembro que eu falei à Babi: “eu vou te levar pra lama”. A gente ficou conversando sobre o vácuo que matava os insetos. Quando a gente está em área rural, a gente escuta muita coisa – passarinho, inseto, coruja. E na rota da lama, você não escuta nada. Você está em uma área rural, mas que mata os insetos que estão na base da cadeia alimentar. A gente foi trazendo isso pro filme através da arte que reconstruiu vários espaços da lama. Parecia que a gente estava lá, no olho do furacão, sendo que existia um espaço temporal entre a realização do filme e o que aconteceu. Além disso, algo fantástico é a população também. Como os atingidos pelos desastres ambientais abraçaram o projeto e abriram esses espaços pra gente. Na escola, foi muito forte, né, Babi? A gente conversou sobre a Kaylane de conhecer mundos fora daquele. É assustador. É a catástrofe ambiental escancarada nas paredes, no teto, no chão. Aquele inseto que apareceu por acaso também, que é estranho, parece uma folha viva andando e ele apareceu ali simplesmente. E olha que a gente tinha uma biblioteca de insetos incrível, até pra colocar um na boca da Babi… Bárbara Colen: Nesse dia, eu acho que, inclusive, os meninos estavam buscando por um inseto. E de repente, aparece aquele grilo mutante, super verde… Marcos Pimentel: É muito louco. A gente precisava variar os insetos – esse aqui já apareceu muito, esse aqui fica guardado pra próxima. Tem energias muito misteriosas no fazer cinematográfico e a gente sempre esteve aberto para isso. Isso tem a ver com o processo do documentário também. Eu acho lindo a gente todo dia voltar com o filme que a gente não concebeu. Por mais que haja trabalho sério de campo, de arte, de fotografia, de referências, preparação de elenco… E a Babi que anota tudo, ela faz desenho… Você percebe que um corpo passou por aqui, tem vida, tem história. Bárbara Colen: A gente ia pro set. Eu lembro muito do dia em que a gente foi pra mineradora e a gente teve muito tempo. Era uma equipe reduzida, sabe, Ana? A gente tinha tempo de descobrir as coisas em cada lugar e descobrir o que a locação trazia para filmarmos. Eu lembro que tinha uma cena, do circo, que a Kaylane chega e fala: “tem alguém aí?” e a coruja respondia na mesma hora que eu fazia a pergunta (risos). Então era isso o tempo todo, uma coisa muito louca de conexões. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): O filme toca em traumas ambientais e humanos ainda muito presentes na memória coletiva do Brasil. Como atriz e como diretor, como foi para vocês lidar com essa dimensão política e emocional da história? Bárbara Colen: Acho que a gente sabe das coisas, mas ao mesmo tempo não sabe. Uma coisa é você ver imagens da barragem, ter notícias, dados, números de mortes. Outra coisa é você ir até o lugar e ver com os seus próprios olhos aquela destruição. Acho que isso primeiramente é muito forte. Esse dia da escola que comentamos, acho que foi o pior dia no sentido emocional. Eu lembro que cheguei no quarto e estava tremendo, estava muito mexida com aquilo tudo. O motorista que me levou, ele tinha atuado como socorrista, no resgate das pessoas. Então, ele me contava coisas do tipo, uma mulher grávida teve o filho dentro do helicóptero – o neném nasceu e a mãe morreu. Era difícil puxar os corpos porque, com a lama tóxica, eles se dissolviam. Ele salvou um tanto de gente só pelo fato de conseguir subir em uma coluna. Dava pra perceber o quanto isso tinha abalado ele. Quando você conversa com as pessoas, a coisa ganha pele, cheiro, ambiente, concretude. É muito duro, foi um processo bem devastador. De fato, a gente foi andando até o mar, que também está intoxicado. É um caminho de destruição durante o rio inteiro. Marcos Pimentel: Eu nunca vou esquecer na minha vida a cena em que gravamos da Kaylane ajudando um homem a sair da lama. O que é a gente reproduzir uma das muitas coisas que aconteceram. Quando eles conversam e ele dizia que só sairia dali se achasse a sua filha ou parte dela. Essa questão de achar o corpo para poder dar conta do luto, para poder ter um velório e cumprir seu ritual de despedida. E isso tudo veio das histórias. Como demora muito tempo para fazer um projeto de longa-metragem, ideia, financiamento, produção, montagem, festival. O tempo passa e as montanhas desaparecem. Temos muitas ex montanhas no filme. Muitos dos lugares que filmamos não existem mais. É muito duro conviver com isso porque a gente vai registrando montanhas que estão a ponto de morrer. É um processo que não sai da gente. Gravamos um universo sinistro, sombrio, mas também ininterrupto. Bárbara Colen: Quando eu vi a quantidade de caminhões nas mineradoras, em filas, saindo e voltando com minério por 24 horas… Eu acho que esse volume, você acabar com uma montanha em um processo voraz e ininterrupto, é assustador. Até porque tem a conivência de muita gente, né. Em Minas, se fala muito pouco de tudo que aconteceu e as coisas continuam. Belo Horizonte mesmo estava com toda essa questão da Serra do Curral, fizeram um grande movimento porque caso contrário, BH poderia ficar coberta de poeira. Não é só uma questão de interior. Mesmo na capital, existe uma dificuldade de visibilidade. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): Bom, gente, como de costume do Oxente Pipoca, vou pedir que vocês indiquem três filmes brasileiros para os nossos leitores para finalizarmos a nossa conversa. Marcos Pimentel: Para mim, assistam todos os filmes que a Babi atua (risos). Ela é uma atriz de águas profundas, não tem mergulho raso com ela não. Acho que vale muito a pena. Eu acho que também vale indicar Mais Pesado é o Céu, do Petrus [Cariry], e eu não consigo também não falar de Mato Seco em Chamas. Que encontro do Adirley [Queirós] e da Joana [Pimenta], um verdadeiro acontecimento. Tudo quanto é potência concentrada em um único filme. Assistam! Bárbara Colen: Bom… para mim, eu sou apaixonada por Inferninho. Para mim é uma obra prima mesmo. Eu também sou muito apaixonada pelos filmes do Marcelo Gomes também. Recentemente eu vi Cinema, Aspirinas e Urubus e eu fiquei impressionada com a beleza daquele filme. O Marcelo também tem essa coisa da mistura entre documentário e ficção, em que você vê as pessoas entrando em cena de uma maneira tão fluida. É uma aula. E tem Baby também que eu vi e fiquei arrebatada. Fiquei muito feliz com esse filme, é muito lindo poder ver o Marcelo Caetano fazendo um filme tão forte. E para puxar para os mineiros, acho que Marte Um, do Gabriel Martins, que tem aquela coisa de ser um filme para todo mundo. Acho que eu fico com esses.
- Mês do Orgulho: Longas-Metragens LGBTQIAPN+ que marcaram o cinema brasileiro
Do clássico ao contemporâneo, uma celebração da diversidade que atravessa décadas no cinema nacional Divulgação Em celebração ao Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, o Oxente Pipoca preparou uma série especial voltada para a diversidade do cinema brasileiro e nordestino, no meio e na mensagem. Ao longo de junho, vamos destacar histórias, artistas e obras que reforçam o poder transformador da representatividade na tela, tanto na forma quanto no conteúdo. Abrimos a programação com uma lista de longas nacionais de diferentes décadas, diferentes gêneros e diferentes abordagens que provam que a temática LGBTQIAPN+ está presente no cinema nacional há bastante tempo. Confiram nossa seleção: O Menino e o Vento (1967) Dir.: Carlos Hugo Christensen O engenheiro carioca José Roberto Nery retorna à cidade do interior onde é julgado pelo desaparecimento e suposta morte do menino Zeca da Curva. José tinha uma "estranha amizade" com Zeca, que, por sua vez, tinha uma misteriosa relação com o vento. A Rainha Diaba (1974) Dir.: Antonio Carlos da Fontoura Do quarto dos fundos de um antro de prostituição, a marginal Rainha Diaba controla com mão de ferro o crime organizado da cidade. Para evitar que um de seus homens de frente caia nas mãos da polícia, Rainha Diaba encarrega Catitu de inventar um bandido perigoso e entregá-lo à polícia no lugar do homem procurado. Catitu sai pelas ruas e encontra Bereco, um jovem sustentado pela cantora de cabaré Isa. Ele atrai Bereco para uma série de crimes, projetando-o como um perigoso bandido. Onda Nova (1983) Dir.: Ícaro Martins, José Antonio Garcia As histórias das jogadoras do Gayvotas Futebol Clube, um time feminino formado em 1983 em plena ditadura militar. As mulheres recebem o apoio de renomados jogadores da época como Casagrande, Pita e Wladimir, mas precisam enfrentar os preconceitos de uma sociedade conservadora. Paralelamente, as jogadoras lidam com problemas pessoais e se preparam para um simbólico jogo internacional contra a seleção italiana. Amor Maldito (1984) Dir.: Adélia Sampaio Primeiro longa brasileiro dirigido por uma mulher negra, Amor Maldito narra a história trágica de amor entre duas mulheres, Fernanda, uma executiva, e Sueli, uma ex-miss, filha de uma família evangélica e opressora. Elas vivem um tórrido romance. A relação, porém, passa por crises e Sueli acaba caindo nos braços de um mulherengo. Grávida e sem apoio, ela se suicida, mas as suspeitas da morte recaem sobre Fernanda. Tornada réu pela morte da ex-companheira, Fernanda é julgada por uma corte preconceituosa e cruel. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) Dir.: Daniel Ribeiro Leonardo, um adolescente cego, tenta lidar com a mãe superprotetora ao mesmo tempo em que busca sua independência. Quando Gabriel chega em seu colégio, novos sentimentos começam a surgir em Leonardo, fazendo com que ele descubra mais sobre si mesmo e sua sexualidade. As Boas Maneiras (2017) Dir.: Juliana Rojas, Marco Dutra Ana contrata Clara, uma solitária enfermeira moradora da periferia de São Paulo, para ser babá de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez vai avançando, Ana começa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos e sinistros hábitos noturnos que afetam diretamente Clara. Corpo Elétrico (2017) Dir.: Marcelo Caetano O verão está chegando e Elias tem sonhado muito com o mar. Na fábrica em que trabalha, as responsabilidades aumentam à medida que o fim de ano se aproxima. Depois de uma noite fazendo hora extra, Elias e os operários decidem sair e tomar uma cerveja. É quando novas possibilidades de encontros surgem no horizonte de Elias. Alice Júnior (2019) Dir.: Gil Baroni Alice é uma adolescente trans cheia de carisma que investe seu tempo fazendo vídeos para o YouTube. Um dia, seu pai, Jean, é transferido pela empresa do Recife para Araucárias do Sul, e eles precisam se mudar. Na nova escola, Alice enfrenta preconceitos ao se deparar com uma sociedade mais retrógrada do que estava acostumada. O desejo da menina é dar seu primeiro beijo, mas, antes de tudo, quer o direito de ser quem ela é. Vento Seco (2020) Dir.: Daniel Nolasco Entre trabalho, natação e sexo anônimo, Sandro vive uma vida bastante monótona na extensão quente e árida de Goiás no Brasil. Quando Maicon, um desenhista de quadrinhos de Tom of Finland, aparece em sua pequena cidade, sua vida muda para sempre. Os Primeiros Soldados (2021) Dir.: Rodrigo de Oliveira Em Vitória, na virada de 1983, um grupo de jovens LGBTQIA+ celebra o réveillon sem ideia do que se avizinha. O biólogo Suzano sabe que algo de muito terrível começa a transtornar seu corpo. O desespero diante da falta de informação e do futuro incerto aproxima Suzano da artista transexual Rose e do videomaker Humberto, igualmente doentes. Juntos, eles tentam sobreviver à primeira onda da epidemia de Aids. Baby (2025) Dir.: Marcelo Caetano Logo após ser liberado de um Centro de Detenção, Wellington se vê à deriva nas ruas de SP. Durante uma visita a um cinema pornô, ele conhece Ronaldo, que lhe ensina novas formas de sobreviver. Divulgação E isso é só o começo. Esses são apenas alguns títulos de inúmeros outros longas premiados nacional e internacionalmente, que contemplam uma parte dessa rica produção. Ao longo do mês, traremos novas listas, entrevistas, debates e homenagens a essa produção tão plural quanto necessária. Qual o seu filme LGBTQIAPN+ brasileiro preferido?












