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  • Entrevista | “Acho que o cinema sempre foi um espaço para a fantasia, para o surreal, para sair das quatro linhas do cotidiano”: Gustavo Spolidoro fala sobre seu filme “Os Dragões” e fazer audiovisual

    “Os Dragões”, drama adolescente de fantasia, chega aos cinemas de 26 cidades brasileiras. Imagem: Divulgação Dirigido por Gustavo Spolidoro e inspirado na obra de Murilo Rubião, Os Dragões teve sua estreia oficial e exclusiva no Rio Grande do Sul no dia 22 de maio. Agora, amplia seu alcance com sessões em salas de cinema de 26 cidades do país, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Boa Vista, Cuiabá, Curitiba e Manaus. A história do longa-metragem acompanha cinco jovens de Cotiporã, uma pequena cidade com uma comunidade conservadora que, ao passarem por transformações físicas inexplicáveis, enfrentam o dilema entre seguir as regras ou assumir sua verdadeira natureza. O Oxente Pipoca conversou com o diretor Gustavo Spolidoro, que contou como o projeto começou, quais as expectativas para o gênero fantástico no Brasil e a importância de políticas de fomento ao audiovisual no país. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): Primeiramente, Gustavo, queria perguntar como o projeto veio a acontecer. Qual foi o início de “Os Dragões”? Gustavo Spolidoro: Então… Senta que lá vem história! Eu já tinha uma admiração muito grande pelo Murilo Rubião, que é um autor mineiro de realismo mágico, expoente do realismo mágico aqui no Brasil. E essa admiração veio muito por filmes que eu vi de amigos, mineiros também. Fui conhecer a obra dele, que é uma obra enxuta, são 33 contos que ele escreveu, e o jeito que ele escreveu durante muito tempo, eu reescrevia. Tanto que o conto original de “Os Dragões" não é o mesmo que está no projeto atual. Eu já tinha feito um filme em Cotiporã, no caso chama-se “Morro do Céu”, esse documentário, que é a cidade em que a minha avó nasceu. Eu tinha vontade de voltar e continuar filmando lá, mas eu queria passar pra uma ficção. E aí foi, acho que, bem natural, eu reler essas obras, em algum momento. O Rubião já com a vontade também, já que eu tive a oportunidade, em vezes anteriores, de fazer algo sobre ele. E eu queria enxergar em alguns desses contos paisagens e histórias que poderiam ser contadas em Cotiporã, principalmente nessa ideia adolescente. É um filme feito com, para e sobre esse público adolescente. Isso porque também hoje eu tenho uma filha que está com 18, mas quando o projeto surgiu ela deveria ter uns 12 anos, digamos assim. E aí encontrei em Cotiporã essas histórias que se pareciam também com as histórias dos meus amigos da minha adolescência. São as descobertas, a valorização da liberdade, que é muito importante para uma cidade de apenas 4.500 habitantes. Aquela galera dava valor pra liberdade, que era um tema que, para mim, por morar em Porto Alegre e não ter, digamos, cobranças, eu não tinha a compreensão do que é dar valor pra liberdade. Então eu consegui enxergar nesses meus amigos da adolescência os personagens que estão principalmente nos contos “Os Dragões”, porque são quatro contos adaptados. Então achei bacana juntar essas reminiscências: a obra do Rubião, a cidade de Cotiporã e o assunto da adolescência. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): “Os Dragões” é um drama de fantasia que aborda temas como o amadurecimento e as transformações que acompanham o passar do tempo. Qual foi o maior desafio em, ao mesmo tempo, fazer um filme sobre fantasia e trazer questões reais que muita gente se identifica? Gustavo Spolidoro: Eu me identifico com esses personagens, porque são inspirados em histórias que eu vivi com os meus amigos de Cotiporã, que hoje estão todos com a minha idade também. Não é tão difícil compreender a adolescência quando você já foi adolescente, é difícil quando você está passando por isso. Quando você passou por esse medo, e eu passei por muitos. Na época eu já era punk, usava o cabelo moicano (risos), nos anos 80, então era tudo assustador. A gente não sabia o que estava por vir. A gente trouxe pro filme essa frase do Rubião: “É preciso conspirar”. Essa frase está no conto “A Cidade”, que fala sobre um cara que é preso por fazer perguntas demais. Então a gente trouxe essa citação no filme, na cena da delegacia em que a jovem é presa por fazer muitas perguntas. Então, o desafio era fazer um filme que pudesse ser compreendido por essa parcela de jovens – eu diria que são os jovens que sentam no fundo da sala. É um filme para aquela galera que eu, e uma boa parcela de brasileiros, se identifica, que sentava no fundão. A galera que questiona, que não aceita tudo como está sendo colocado. São os jovens e jovens-adultos que fazem as revoluções do mundo. Eu, quando jovem, também tentei fazer as minhas revoluções. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): Por falar em jovens, queria te perguntar como foi o processo de gravação com o elenco. Como foram as gravações no set? Gustavo Spolidoro: A gente teve a parceria da Companhia Arte In Cena, que é uma companhia de teatro de Cotiporã. Então imagine manter uma companhia de teatro em uma cidade de 4.500 habitantes, pequena, mas que tem o seu teatro e faz as suas apresentações na região e, às vezes, fora do estado também. Foi uma parceria desde o início do projeto, e a única exigência da professora Adriana Titton Balotin foi: “Precisamos colocar os 23 atores da companhia no filme.” E todos estão lá, com falas. Também tivemos o Marcos Breda, ator renomado, que já fez muita coisa. Interpretou, inclusive, o Mário do Marcelo Rubens Paiva no filme “Feliz Ano Velho”, de 1987. O pai dele é de Cotiporã, então chamar o Breda, que é um amigo, foi muito bom também. E claro, muitos figurantes da cidade. A cidade praticamente toda se mobilizou para a realização do filme. Parentes meus também aparecem em cena. Então foi um trabalho bem longo com o grupo. Porque, no primeiro momento, o grupo ensaiou uma peça de teatro chamada “Os Dragões”, mas no fim decidimos que não ia fazer tanto sentido para o roteiro. Então, fiz o teste com os jovens já colocando nos personagens parte da personalidade dos atores que eu já estava conhecendo. Isso principalmente para o personagem do Jacó, que é o Paulo Reginatto, e da Isa, que é a personagem da Larissa Tres. Também contei com a preparadora de elenco Larissa Sanguiné, de Porto Alegre, que me ajudou em cenas muito importantes. Ela ajudou muito na preparação de atores que estavam inseguros. Porque muitos ali são atores, mas têm a sua vida, outra faculdade, outros processos. Então, foi bem natural chamar a Larissa, com quem eu já tinha trabalhado, para ajudar com a preparação desse elenco. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): A fantasia brasileira ainda é um gênero em desenvolvimento no cinema nacional. Você enxerga um crescimento recente nessa área? Quais caminhos acredita que o gênero pode seguir nos próximos anos? Gustavo Spolidoro: Acho que o cinema sempre foi um espaço para a fantasia, para o surreal, para sair das quatro linhas do cotidiano. Acho que o cinema não é um mero reprodutor da realidade, porque a gente vê muito isso no jornalismo, por exemplo. Às vezes, me incomoda quando um filme tenta ser apenas moralista ou mostrar o que a gente vê todo dia ou o que a gente já sabe. Eu acho que o cinema tem um papel muito maior de transformar através da arte. Então, mesmo trazendo temas da adolescência e sobre questionar, a gente tentou fazer isso de uma forma que dialogasse com o realismo mágico, que é uma marca do Rubião. Eu acho que o cinema brasileiro transita bem por isso. Já o cinema europeu e o americano não tanto, já que eles são mais cartesianos. A África trouxe muito para o Brasil essa marca. Os escritores beberam muito dessa fonte, das religiões de matrizes afro-brasileiras e afro-latinas, e trouxeram isso para o cinema brasileiro e a literatura. Claro que, no filme, alguém pode estranhar a situação, por talvez não ter muito contexto sobre o realismo mágico ou a obra do Rubião. Então alguém pode ficar pensando “como isso pode estar acontecendo?”. Afinal, os jovens soltam fogo no filme. Porém, ninguém questiona que eles soltam fogo, mas sim que eles estão “tumultuando” a cidade. Isso é realismo mágico, né? Ana Beatriz (Oxente Pipoca): Durante minha pesquisa sobre o filme, vi que ele tem uma distribuição feita por um edital de comercialização, o Prodecine 03. Então, Gustavo, eu queria perguntar sobre a importância dessas iniciativas de fomento para produtores e cineastas e como tem sido a sua experiência? Gustavo Spolidoro: Eu acho que o Brasil amadureceu as suas políticas de audiovisual. As políticas estão cada vez mais descentralizadoras, trabalhando com pautas afirmativas. Então os editais e as políticas funcionam, o Fundo Setorial do Audiovisual funciona. O problema maior é a questão da relação entre distribuição e exibição. Você está lidando com um meio comercial, que é a exibição, e um meio que transita entre o autoral dos cineastas brasileiros e o comercial, que é a distribuição. Nem sempre é fácil. Existem, então, os editais, como o Prodecine 03, para isso. Infelizmente, tivemos uma paralisia momentânea no fomento do cinema brasileiro há alguns anos. Isso atrasou também o nosso filme. A gente só está conseguindo distribuir o filme agora, já que ele dependia de um edital. Às vezes, dependendo da linha de fomento que você entra, você já tem o recurso previsto para distribuição, porém não foi o caso e tivemos que aguardar. Recurso esse que, para quem não sabe, parte dele vem do Fundo Setorial do Audiovisual, alimentado pelos realizadores de audiovisual no Brasil, que são as TVs e as telefônicas que exibem esse conteúdo audiovisual. Infelizmente, o streaming não está regulamentado no Brasil ainda, então eles não pagam nem contribuem para o fomento da indústria audiovisual brasileira. A não ser quando eles fazem individualmente as produções brasileiras, que costumam fazer por conta própria. Então, essas políticas são importantes por isso, e ainda há um caminho a se percorrer em relação a questões de distribuição e exibição. Ana Beatriz (Oxente Pipoca): Por fim, essa pergunta já é clássica do Oxente Pipoca: vou pedir pra você recomendar três filmes brasileiros para os nossos leitores. Gustavo Spolidoro: Primeiro, vou recomendar o meu filme brasileiro favorito de todos os tempos, que é “O Bandido da Luz Vermelha”, um filme do Rogério Sganzerla que é um dos mais marcantes da minha vida. Tive o prazer de conhecer o Rogério ainda vivo, em Porto Alegre. Também conheci a esposa dele, Helena Ignez, atriz e cineasta. Uma pessoa muito querida e amiga, com quem eventualmente falo. Recomendarei um filme recente e gaúcho, que transita dentro do realismo mágico e que, pra mim, está no Top 5 dos filmes feitos no Rio Grande do Sul, que se chama “Despedida”. Um filme infantil e pré-adolescente, para um público um pouco mais jovem do que “Os Dragões”. Ele bebe de “Alice no País das Maravilhas” e outras propostas que fogem desse lugar-comum. Foi feito pela Luciana Mazeto e com o roteiro do Vinícius Lopes, que foram meus alunos, e é um longa-metragem que gosto muito. E um terceiro filme que eu indicaria, esse foi bastante revolucionário na chamada retomada do cinema brasileiro, após o baque do governo Collor. Houve cineastas que surgiram numa época em que era muito difícil fazer filme e captar dinheiro, já que não havia editais e leis. Então, esse cineasta, Beto Brant, fez o filme chamado “Os Matadores”, uma adaptação do Marcelo Aquino. Um filme que foi um marco no cinema brasileiro, que tem uma proposta contemporânea, ousada, com fontes e referências interessantes, mas com muita autoria do Beto Brant também.

  • Atrizes trans brasileiras que estão transformando o audiovisual nacional

    No Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, destacamos artistas que vêm ocupando espaços com talento, representatividade e histórias que atravessam o país Durante o Mês do Orgulho, o Oxente Pipoca celebra o trabalho de atrizes trans que estão conquistando visibilidade e reconhecimento no cinema, na televisão e nas plataformas de streaming. Com trajetórias que unem potência artística, ativismo e narrativas que refletem múltiplos Brasis, elas têm contribuído de forma decisiva para transformar o audiovisual nacional – dentro e fora das telas. Noá Bonoba Atriz, roteirista, realizadora, preparadora de elenco, encenadora, dramaturga, curadora e pesquisadora. É doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará (PPGCOM-UFC), onde desenvolve pesquisa sobre cinematografias trans e as possibilidades de reestruturação do audiovisual brasileiro a partir dos eixos: formação, realização, redistribuição de acessos e políticas afirmativas. Foi Diretora de Descentralização e Pesquisa da Associação de Profissionais Trans do Audiovisual (APTA) durante o ano de 2024, atuando na articulação de políticas culturais e estratégias de descentralização da produção audiovisual brasileira. É também mestra em Artes pelo PPGARTES-UFC e Licenciada em Teatro pelo IFCE. No cinema dirigiu os curtas-metragens O Mundo Sem Nós (2016) e Terra Ausente (2018); fez também a preparação de elenco dos curtas: Multidões (2013) e Rua dos Valagumes (2014), de Camila Vieira, Tenho um Dragão que Mora Comigo (2013), de Wislan Esmeraldo e Paisagem na Garganta (2019), de Mike Dutra e Gabi Trindade. Fez parte do elenco do longa-metragem Canto dos Ossos (2020) e Estranho Caminho (2024), onde também foi preparadora de elenco. Kiara Felippe Atriz, DJ e artista multidisciplinar. Nascida em Carapicuíba (SP), iniciou sua transição de gênero aos 20 anos e, desde então, construiu uma carreira marcada por representatividade e talento. Estreou nas novelas como Andrea em Beleza Fatal (Max), interpretando uma professora de dança trans, papel que reflete sua própria trajetória. Ela está no elenco da minissérie Casa da Vó e aparece nos documentários de curta-metragem Beat é Protesto! e Sou Trans e [R]Existo. Kiara também é DJ residente da festa BATEKOO e já se apresentou em eventos internacionais como o Afropunk em Nova York. Uma artista que inspira e transforma com sua arte e presença. Danny Barbosa Atriz, roteirista, diretora e produtora audiovisual natural de João Pessoa, na Paraíba, e é reconhecida como a primeira profissional trans a atuar e produzir audiovisual no estado. Sua trajetória artística começou no teatro, ainda na infância, ao participar de apresentações de dança e teatro na igreja com sua avó, Maria de Lurdes. Formada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ao longo dos anos sua trajetória artística se diversificou, destacando-se por atuações em musicais, espetáculos teatrais, além de curtas e longas-metragens, que lhe renderam prêmios em diversos festivais de cinema e teatro no Brasil. Danny se destaca por suas atuações em filmes como Bacurau (2019), de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Mais Pesado é o Céu (2023), de Petrus Cariry, O Sertão Vai Vir ao Mar (2024), de Rodrigo César (produção Globo) e Salomé (2024), de André Antônio. Esses filmes premiados marcaram presença em importantes festivais de cinema, como o Festival de Cannes, o Festival Internacional de Cinema de Berlim, o Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, entre outros. Atualmente, Danny Barbosa segue como uma das vozes mais importantes na cena audiovisual paraibana, consolidando-se como uma referência para a representatividade trans na cultura brasileira. Isis Broken Mulher trans afro-indígena, sergipana, cantora e atriz. É também mãe progenitora de Apolo, fruto de um relacionamento transcentrado, o que fez com que a artista se tornasse uma voz potente na luta contra o preconceito e pelo reconhecimento na maternidade trans. Ela estreou como atriz com a personagem Mateusa na série Histórias impossíveis, do Globoplay. Em 2024 fez parte do elenco de No Rancho Fundo, novela das 18h da Rede Globo. Atualmente está gravando o filme Borda do Mundo, da diretora Jo Serfaty, que retrata a vida de uma pescadora e sua jovem neta, enfrentando a iminente destruição de sua casa. No longa, Isis interpreta Nayara, uma pescadora experiente que atua em uma cooperativa formada por mulheres. Jupyra Carvalho Travesti, artista multilinguagem e audiodescritora, formada em Teatro pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e produtora cultural na cidade de Fortaleza desde 2014, onde vem desenvolvendo projetos autônomos e exercendo, profissionalmente, esta função em instituições culturais desde 2016, como o Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, Instituto de Cultura, Arte e Esporte (CUCA), Centro Cultural Belchior e, atualmente, na Pinacoteca do Ceará. No cinema, participou como atriz nos filmes Revoada (CE, 2019), de Victor Costa Lopes (Melhor curta-metragem na mostra Première Brasil Novos Rumos); Canto dos Ossos (CE/RJ, 2020), de Jorge Polo e Petrus de Bairros (Melhor longa-metragem da Mostra Aurora, pelo Júri Oficial); A Filha do Palhaço (CE, 2022), de Pedro Diógenes e Motel Destino, de Karim Ainouz, com estreia oficial na mostra competitiva de Cannes (2024). Participou também da minissérie O Relógio de Einstein (TV Jangadeiro/SBT/Filmograph). Recentemente esteve no filme A Vaqueira, a Dançarina e o Porco com estreia na Quinzena de Realizadores, em Cannes (2025). Protagonizou como atriz o clipe da música “Azul Dourada”, de Igor Caracas, disponível no Youtube. Na acessibilidade, realiza a Tradução Audiovisual Acessível (TAVa) por meio da Audiodescrição (AD), no qual presta consultorias para projetos diversos. Renata Carvalho Atriz, diretora, dramaturga e transpóloga. Graduanda em Ciências Sociais, é fundadora do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), do “Manifesto Representatividade Trans” e do COLETIVO T, primeiro grupo a ser formado integralmente por artistas trans em São Paulo. Renata é autora e intérprete de peças impactantes como Manifesto Transpofágico (2012), Corpo Sua Autobiografia, Domínio Público, ZONA! (2013), Projeto Bispo e Dentro de Mim Mora Outra. No cinema, Renata atuou em Vento Seco (2020), como a policial Paula, e protagonizou Os Primeiros Soldados (2021), interpretando Rose, uma artista trans durante a crise do HIV/AIDS nos anos 1980. Este papel lhe rendeu o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio e no International Film Festival of India, além de ser a primeira mulher trans a vencer o Prêmio Guarani de Melhor Atriz Coadjuvante. Ela também participou dos documentários Quem Tem Medo? (2022), sobre censura nas artes, e Corpolítica (2022), que discute questões políticas recentes envolvendo figuras públicas LGBT brasileiras. Em 2024, estrelou o filme Salomé, de André Antônio. Na televisão, Renata interpretou Carmen na série Pico da Neblina (2019), da HBO Max, e participou das séries As Five (3ª temporada) e Fim, ambas do Globoplay. Kika Sena Kika é arte-educadora, atriz, diretora teatral, poeta e performer. Graduada em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília, a alagoana começou sua carreira no teatro em 2010 e desde então atua como atriz e pesquisadora teatral com estudos sobre voz e palavra na performance de seu corpo travesti. Sua estreia no cinema ocorreu em 2022 como protagonista do filme Paloma, de Marcelo Gomes, trabalho que a levou a ganhar o Troféu Redentor de Melhor Atriz no Festival do Rio. Desde então Kika fez o filme Noites Alienígenas, amplamente premiado no Festival de Gramado, e protagonizou um dos episódios de Histórias (Im)possíveis, série produzida pela Rede Globo, com direção artística de Luisa Lima. Kika está no elenco de Geni e o Zepelim, de Anna Muylaert, adaptação da canção homônima de Chico Buarque, lançada em 1978 como parte da peça musical Ópera do Malandro. Souma Atuante no teatro, cinema, educação e performance. É atriz, preparadora de elenco, produtora, arte-educadora, pesquisadora e performer, articulando práticas de resistência e transformação a partir de perspectivas transvestigêneres e periféricas. Desenvolve e colabora em projetos que atravessam expressões corporais, raça, gênero e territorialidade, tendo a memória como um princípio ativo, que orienta suas criações e ações no presente para que se prolonguem, que tenham continuidade. No cinema, esteve no elenco dos longas: O Melhor Amigo, de Allan Deberton; Fortaleza Hotel, de Armando Praça; e Cabeça de Nêgo, Déo Cardoso; Souma também está em Morte e Vida Madalena, próximo filme de Guto Parente. Fez preparação de elenco para os curtas Ponte Metálica, de Wes Maria e Felipe Bruno, Menção Honrosa no Festival Ceará Voador pelo trabalho; Cavalo Branco, de Gabriel Marques; Marimbã Está Acontecendo, de Maryn Marinho; Chapéus Cartolas e Buckets, deVictor Bernardo e Pedro, de Leo Silva. Na TV fez parte do elenco das séries Trago a Pessoa Amada (Vitã) e Virtude (Germano Gomes e Dado Fernandes). Ayla Gabriela Atriz, cineasta, dançarina e performer brasileira que se destaca por sua pesquisa sobre o estado de presença e o diálogo com o corpo. Seu primeiro contato com as artes cênicas foi por meio do teatro de expressão corporal, sob a direção de Dani Visco. No cinema, Ayla protagonizou o curta-metragem Pássaro Memória (2023), de Leonardo Martinelli, selecionado para importantes festivais internacionais como Locarno, Toronto e Gramado. Em 2020, dirigiu e atuou no curta A Corpa Fala, que aborda questões de identidade e corpo. Outros trabalhos incluem os filmes Santo (2023), onde interpretou Gisele, uma sonhadora em um relacionamento secreto com um ex-policial, e Girassóis (2024), no papel de Dora, filha de um casal do subúrbio do Rio de Janeiro. Em 2025, protagonizou o curta Defesa Pura, rodado em São Luís. Ayla será a personagem título do longa-metragem Geni e o Zepelim.

  • Crítica | O Silêncio das Ostras

    Uma ficção quase documental sobre os crimes ambientais que marcam Minas Gerais. Imagem: Divulgação A arte e a realidade andam de mãos dadas. Muitos dizem que é necessário o real para que a arte exista e possa reproduzir seus fragmentos; outros defendem que a arte, por si só, não precisa de pré-requisitos. Ela é livre para fazer o que bem entender. No cinema, estamos familiarizados com a reprodução de fatos reais, especialmente com a ascensão do gênero documental nos últimos anos. Mas há também um caminho híbrido: o do longa-metragem ficcional baseado em uma história real. É o caso de O Silêncio das Ostras, que se inspira nos desastres ambientais provocados pelo rompimento das barragens em Minas Gerais. Dirigido por Marcos Pimentel, “O Silêncio das Ostras” conta a história de uma família em situação de extrema vulnerabilidade em um vilarejo em Minas Gerais. A região é altamente marcada pela atividade mineradora, afetando a paisagem e a vida dos seus moradores. Somos introduzidos à narrativa pela visão de Kaylane (vivida com sensibilidade pelas atrizes por Lavínia Castelari e Bárbara Colen), da sua infância até a vida adulta. Sempre curiosa e criativa, a personagem tem uma relação particular com os seus entornos, colecionando insetos e prestando atenção nos detalhes e modificações da natureza. O filme é ocre, monocromático e bastante silencioso. Por mais que ele possua uma linearidade temporal dos seus acontecimentos, a sensação é de estagnação – um verdadeiro vácuo. Não há uma noção de mudança além do domínio das mineradoras naquela região, e o filme faz questão de enfatizar isso, especialmente por meio de seus enquadramentos e da sua edição de som. Imagem: Divulgação A fotografia de Petrus Cariry não economiza em trazer sensação de paralisia naquele cenário hostil. Ao lado da direção de Marcos Pimentel, a câmera é estática, porém firme em seu conteúdo, seja na experimentação de Kaylane sobre a vida, ou na lama se formando. O lugar, por si só, já encontra substância para contar uma história. Talvez o casamento entre imagem e som seja a melhor combinação de O Silêncio das Ostras. O som ambiente acaba sendo a melhor trilha sonora, aliando vento, moinho e a presença invisível, mas sempre onipresente, da mineradora. A trajetória de Kaylane, embora ela seja nossos olhos e ouvidos, é marcada por muita subjetividade, e talvez isso tenha sido uma escolha proposital. Um dos sentimentos que o filme provoca é pensar como seria a sua vida caso a mineração não fosse tão incisiva e inescapável sobre os moradores de suas adjacências. A falsa sensação de gratidão a uma empresa que oferece emprego e renda paira no ar, mas é confrontada com força quando cenas reais dos crimes ambientais de Bento Rodrigues e Brumadinho são inseridas na narrativa. Fiel ao título, O Silêncio das Ostras é, de fato, silencioso e difícil de engolir. Não é um filme para se ver muitas vezes. Com um tom ficcional impregnado de realidade documental, ele provoca indignação diante do que aconteceu, e do que ainda acontece. A rota da lama é dolorosa, e talvez retratos tão duros como este sejam essenciais para que a arte cumpra sua velha missão: nos fazer olhar, mais uma vez, para algo que deveria estar sendo acompanhado nas pautas dos jornais todos os dias. Mas que seja uma experiência fácil ou agradável, isso definitivamente não é – ela é lenta e massante. Nota: 3/5

  • Crítica | Pablo e Luisão (1ª temporada)

    Humor de qualidade no absurdo do dia a dia é aposta certeira da série de Paulo Vieira. Imagem: Divulgação As aventuras de Luisão (Ailton Graça), pai do humorista Paulo Vieira, e de seu inseparável amigo Pablo (Otávio Muller). Juntos, eles vivem inventando planos mirabolantes que acabam gerando consequências inusitadas, especialmente para as crianças Paulo (Yves Miguel), Neto (João Pedro Martins) e Conceição (Dira Paes), a mãe dos meninos. Eu confesso que não esperava gostar tanto. Tava com saudade de assistir algo tão nosso, tão brasileiro. Um tipo de humor tão interiorano, mas que consegue atingir todo mundo, porque mesmo que você não tenha vivido em cidades assim ou situações parecidas, ainda é incrível ver os absurdos aprontados pelos protagonistas, e saber que, pelo menos, a ideia original de cada episódio é real, deixa tudo mais incrível ainda. As cenas finais com Conceição, Luís e Pablo são maravilhosas e o sentimento ali é palpável. A ambientação ajuda bastante também, o design de produção te transporta para meados dos anos 2000, e ainda por se passar em Palmas, no Tocantins, traz visibilidade para um estado que quase nunca tem espaço nas mídias nacionais. Imagem: Divulgação São 16 episódios onde cada um conta um causo, todos divertidíssimos, mas alguns são mais que outros, naturalmente. Aílton Graça, Otávio Muller e Dira Paes estão fantásticos e conseguem passar esse sentimento genuíno para a ficção. Não é surpresa pra ninguém porque o trio já demonstrou que sabe fazer rir com maestria, e quando são amparados por um texto tão bom como esse de Paulo Vieira e seu time de roteiristas, fica mais fácil ainda. Yves Miguel e João Pedro Martins, as crianças, são um achado, vale dizer. Eles ainda não têm um timing perfeito como os veteranos, mas o que falta de prática, sobra em fofura. Além disso, ainda temos participações especiais de nomes como Rejane Faria, Miguel Falabella, Carlos Francisco, Lima Duarte e tantos outros talentos. Digo que não é aquele tipo de produção que provoca apenas um risinho simpático, é coisa pra gargalhar mesmo. Talvez por eu ser do interior, seja mais identificável pra mim, mas acima de tudo é uma série sobre família e amizade, que são coisas mais universais. A escrita é muito humana, corriqueira e conversa com o telespectador de uma maneira tão orgânica que eu não canso de exaltar. Vi todos os episódios de um dia pro outro, é uma delícia de assistir e mesmo com tanta risada, ainda sobrou espaço para emocionar no final. É uma das melhores séries do ano, digo com tranquilidade, e aguardo a confirmação de uma 2ª temporada. Tenho certeza que Pablo e Luisão ainda têm muitos causos para nos contar. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Ariel (Olhar de Cinema 2025)

    Lois Patiño filma a matéria do sonho e usa a metanarrativa do universo de Shakespeare para discutir nossa própria existência. Imagem: Divulgação Seria um esforço hercúleo – e inútil – tentar rastrear todas as adaptações já feitas das obras de Shakespeare na história do cinema. Das adaptações seminais de Laurence Olivier, passando pelas reinterpretações de Akira Kurosawa até releituras contemporâneas e nos mais diversos gêneros (como a comédia romântica), o legado do dramaturgo inglês não é apenas atemporal, como transcende quaisquer barreiras físicas. É se aproveitando dessa universalidade que o diretor espanhol Lois Patiño resolve borrar as linhas entre realidade e ficção, Patiño faz a atriz Agustina Muñoz interpretar uma (suposta?) versão ficcional de si mesma, a qual viaja para a ilha portuguesa de Faial para participar de uma adaptação de A Tempestade, a última peça de Shakespeare, interpretando Ariel. No entanto, ao chegar lá, ela se vê num grande palco em que os habitantes da ilha se revelam mais do que atores encenando as peças shakespearianas, mas os próprios personagens destas obras. Existe uma forte carga onírica em Ariel desde seus minutos iniciais, que brincam com a possibilidade das portas da realidade se irromperem neste mundo de aparentes sonhos que regem a obra. Trata-se de um longa fortemente sensorial, que conduz essa carga onírica através do uso de cores (o púrpura que abre e fecha o filme) e também de sobreposições entre cenas, como na sequência da “tempestade” durante o percurso de Agustina até Faial. Essa carga sensorial também advém da própria ilha em si, cujas paisagens naturais e atmosfera – em especial no ato final, onde saímos em definitivo do seu espaço urbano – contribuem ainda mais para esse aspecto fantasioso e de sonho. Imagem: Divulgação Esse universo de estranhamentos vai se apresentando cada vez mais gradativamente até ser absorvido por Agustina – que ainda assim se mantém a única autoconsciente ali – e também por nós, espectadores. Há algo de divertido em ver os cidadãos comuns encenando peças como Hamlet, Macbeth, Romeu e Julieta ou a própria A Tempestade, e essa leveza se mantém mesmo após o filme introduzir uma natureza mais densa das suas reflexões, discutindo se essas pessoas (ou personagens) estão vivos ou mortos, e se há alguma capacidade de se libertarem desses papéis que lhe foram impostos. Patiño não está interessado em oferecer respostas e, de fato, elas são irrelevantes depois de certo tempo. Isso pode afastar uma parcela do público, e há momentos em que a obra se ancora demais nessa realidade um tanto abstrata, mesmo quando oferece um fio narrativo através da jornada dos personagens para se “libertarem” de seu criador. No fim, Ariel parece mais interessado em discutir a condição de nossa existência e do nosso suposto livre-arbítrio: afinal de contas, somos mesmo livres para tomar as nossas decisões ou nossas vidas são regidas por Deus, destino, o que quer que seja? Ao escolher terminar num final ligeiramente ambíguo, o diretor prefere deixar a resposta conosco...ou nos textos de Shakespeare. Nota: 3.5/5

  • Crítica | A Voz de Deus (Olhar de Cinema 2025)

    Ao abordar o universo dos pregadores mirins sem condescendência ou paternalismo, documentário se revela um dos registros mais emblemáticos do fenômeno evangélico contemporâneo. Divulgação Daniel Pentecoste começou como um pregador mirim aos 5 anos. Quando A Voz de Deus se inicia, vemos uma montagem de várias de suas pregações em igrejas Brasil afora, ou dos seus vídeos particulares em casa, até que aquela criança seja revelada para o espectador como um adolescente, meio orgulhoso, envergonhado e nostálgico da carreira que teve – a qual, agora aos 16 anos, não consegue manter com o mesmo sucesso. Os anos passam, Daniel envelhece e outros nomes surgem no meio, como é o caso do coprotagonista, João Vitor Ota, que acompanhamos dos 7 aos 12 anos. Em meio a isso tem-se a eleição e presidência de Bolsonaro, e seus impactos sobre a população evangélica do país. Em minha entrevista com Calebe Lopes sobre Ataques Psicotrônicos, o diretor comentou como sua formação evangélica (e seus traumas) moldaram aspectos significativos de sua filmografia. Ele lamentou como uma boa parte do audiovisual brasileiro, especialmente os ligados à esquerda, ainda trata os evangélicos com um tom acusatório ou condescendente e paternalista, especialmente em razão dos últimos anos e o entrelaçamento da população evangélica com o bolsonarismo e a extrema-direita. Ignora-se, portanto, as pluralidades desta religião e invisibiliza-se os seus praticantes que não se aliaram ao bolsonarismo nem viram nele o Messias deturpado que foi tanto alardeado. Toda vez que A Voz de Deus captura os desconfortos de Daniel em razão do avanço do bolsonarismo (que engole, dentre tantas pessoas, o seu pai), vê-se um exemplo de alguém cujo conflito interno é habilmente capturado pelas lentes do diretor Miguel Antunes Ramos. Longe da condescendência e do paternalismo, Miguel traz olhar que de forma alguma é neutro (e que ótimo que não o seja), mas que está antes de tudo interessado em se despir de suas preconcepções, aproximando-se de seus dois personagens principais e suas respectivas famílias para mostrar seus cotidianos e, sobretudo, suas humanidades. Sim, há falhas e muito a se problematizar (para quem não é evangélico, mergulhar no universo dos pregadores mirins pode ser deveras assustador e indigesto), mas a câmera dele se torna tão íntima deste universo e destes personagens que é surpreendente ver o que ela consegue capturar com tamanha naturalidade. Há momentos de riso, de camaradagem, compaixão e de questões genuínas com a própria fé, mas também de dores, hipocrisias e de contradições. Divulgação Com isso, Antunes Ramos consegue criar um documento do que a religião evangélica foi se tornando ao longo dos últimos 15 anos. A decisão de fazer na metade do filme uma “passagem de manto” entre Daniel e João Vitor através da única cena em que os dois estão juntos é uma sacada inteligente, que promove uma troca orgânica entre pontos de vistas e realidades e indica com maior precisão as mudanças dentro desta parcela da população. O mundo evangélico de João Vitor não é o mesmo do de Daniel uma década atrás: em meio às demandas das redes sociais, o crescimento avassalador das teologias da prosperidade e coach, as influências norte-americanas e o já mencionado avanço da extrema-direita, o filme captura a lógica de status em que ser evangélico se tornou e como a religião saiu de uma posição “marginalizada” para ditar os rumos do país, muitas vezes de maneiras horrendas e que envergonham o próprio Evangelho que afirma seguir. Não é que tais mudanças e fenômenos não pudessem ser capturados por uma câmera mais crítica e já com uma preconcepção formada. Mas os resultados e reflexões finais são ainda mais avassaladores justamente pela forma como Antunes Ramos se aproxima e se entranha nas realidades de Daniel e João Vitor, extraindo algo de muito sincero e genuíno em suas jornadas que, mesmo nessas dimensões particulares, se relaciona a uma visão mais geral dos rumos que o país tomou nos últimos anos. O resultado é um filme que não apenas já se configura como um dos potenciais destaques do festival, mas é um testamento histórico que dá conta de apresentar as muitas nuances do ser evangélico no Brasil. Nota: 4/5

  • Crítica | Cloud – Nuvem de Vingança (Olhar de Cinema 2025)

    Em thriller mundano que escancara as mazelas do capitalismo tardio, Kiyoshi Kurosawa ancora seus pés na realidade japonesa sem deixar de lado o cinema de gênero. Imagem: Divulgação Filme de abertura da 14ª edição do festival Olhar de Cinema, em Curitiba, Cloud – Nuvem de Vingança foi uma das três produções dirigidas por Kiyoshi Kurosawa no ano 2024 e a escolha do Japão para representar o país na última edição do Oscar, embora não tenha sido indicado. Uma escolha aparentemente curiosa, considerando que o filme é um exercício do cinema de gênero com o qual Kurosawa tem sido fortemente atrelado ao longo da sua prolífica carreira. Entretanto, trata-se de um cinema de gênero que, nas palavras dirigidas pelo diretor ao público antes da exibição, escancara uma realidade comum a muitos japoneses: a revenda de produtos ilegais na internet. Afinal de contas, é disso que vive o protagonista, Ryosuke Yoshii (Masaki Suda). Mesmo com um emprego aparentemente estável numa fábrica – onde seu chefe, Takamoto (Yoshiyoshi Arakawa), o estimula a ascender na carreira – Ryosuke foi, como tantos de sua geração, completamente tragado pela mentalidade do “ser empreendedor de si mesmo”, advinda do neoliberalismo e do capitalismo tardio. Contando com o apoio da sua namorada Akiko (Kotone Furukawa), ele investe cada vez mais em seus esquemas, até que os frutos destes se voltam contra ele na forma de vinganças por parte de figuras misteriosas que, uma vez reveladas, se mostram diretamente conectadas a ele. Há dois filmes um tanto diferentes em Cloud, mas isso não é de forma alguma um demérito, pois estão intimamente entrelaçados pela condução vigorosa da mise-en-scène por parte de Kurosawa. Na primeira metade, o diretor traz seus comentários ácidos sobre o neoliberalismo de maneira mais direta (mas nunca didática), encenando a rotina de “golpes” do protagonista com um aspecto extremamente ordinário e calcado na realidade. Entretanto, a construção gradual do terror imprimido por essas figuras misteriosas faz com que o longa assuma uma dimensão psicológica que é por vezes angustiante e digna dos melhores filmes de horror que o diretor fez no passado – a sequência no ônibus é um exemplo perfeito disso. A decisão de manter o(s) antagonista(s) fora de campo, adiando a revelação da identidade dele(s), sustenta ainda mais o clima de inquietação e ambiguidade da obra. Imagem: Divulgação Quando Kurosawa enfim revela quem está por trás dos ataques a Ryosuke, temi por um instante que a premissa do filme se esvaziasse rapidamente, mas o diretor é inteligente (e corajoso) o suficiente para dar um giro de 180º na trama sem, no entanto, tirar os pés deste mundo diegético. Ao fazer os antagonistas serem revelados pelo campo, Cloud expõe ainda mais o quanto estas figuras são ordinárias em suas concepções e motivações. De alguma forma, entretanto, isso impulsiona o filme a ser cada vez menos ordinário, com Kurosawa deixando o terror de lado para abraçar de vez o suspense e até mesmo a ação, como mostrado no ato final, ambientado numa fábrica abandonada (os cenários aqui têm sempre muito a dizer) e abandonando também o silêncio opressivo da primeira metade para uma cacofonia de tiros, gritos e sons metálicos. Há até toques de comédia, porque o filme se entrega a um certo absurdo que, de alguma forma, nunca parece muito longe da realidade. Sou um grande entusiasta de obras que são capazes de mudar significativamente de tom e gênero, mas é preciso muita segurança e controle sobre a mise-en-scène para que essa mudança tonal não faça o filme se perder, e felizmente este é o caso de Cloud. Até as revelações sobre o enigmático assistente de Ryosuke, Sano (Daiken Okudaira), casam organicamente com este universo, especialmente pela sua última cena com o protagonista, que carrega uma certa estilização na superfície bastante destoante do restante da obra, mas que pela troca de diálogos entre ambos também se justifica. No fim das contas, não temos monstros, espíritos ou demônios para assombrar Ryosuke (ou talvez tenhamos, porque o filme nunca nega uma certa ambiguidade): apenas o bom e velho capitalismo na sua forma mais sórdida e inumana, sugando tudo de todos para que a roda possa girar. Que Kurosawa nos mostre isso através da tensão, da violência e até do riso é um dos melhores atestados da inteligência do cinema de gênero que pude ver nos últimos tempos. Nota: 4/5

  • Entrevista | Rodrigo Aragão e Gilda Nomacce falam sobre o terror urbano de “Prédio Vazio”

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, diretor e atriz do filme falam como a estética artesanal, o conceito de filme-escola e as camadas emocionais da personagem se conectam à crítica social sobre solidão, maternidade e abandono nos centros urbanos. Divulgação O terror capixaba Prédio Vazio, novo longa de Rodrigo Aragão, estreia nos cinemas de todo o Brasil no dia 12 de junho, com distribuição da Retrato Filmes. Pela primeira vez ambientado em um cenário urbano, o cineasta convida o público a mergulhar em um horror psicológico à beira-mar, nas paisagens de Guarapari. Na trama, Luna parte em busca da mãe desaparecida no último dia de Carnaval e acaba entrando em um antigo prédio aparentemente desabitado, mas onde presenças perturbadoras ainda habitam. O Oxente Pipoca entrevistou Rodrigo Aragão e Gilda Nomacce, que compartilharam os bastidores da criação de Prédio Vazio, falando sobre a construção artesanal dos cenários, o conceito de filme-escola, a abordagem do horror psicológico e urbano, e a complexidade emocional da personagem vivida por Gilda, marcada pelo isolamento e pela busca por afeto. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Inicialmente eu gostaria de fazer uma pergunta pro Rodrigo, que seria sobre o prédio em si. Que é um elemento que me instigou muita curiosidade e acaba meio que caracterizando como o seu primeiro longa urbano, né? Sempre mais habitual ali nos cenários rurais, manguezais e agora se coloca nesse cenário mais urbano, do prédio e no qual o prédio se coloca como um personagem ali, quase como uma entidade. Como foi esse processo de colocar o prédio como potência na narrativa? Rodrigo Aragão: Inicialmente, a gente até cogitou filmar em um prédio real, mas nas primeiras tentativas de contato eu vi que não ia rolar, ia ser um problema grande. E aí nós optamos por uma estética mais fantástica. O que me deu uma certa liberdade de utilizar truques do cinema antigo. Então, assim, o prédio foi construído à mão. Foi quase um mês de trabalho nele. Nós fizemos uma miniatura de 2,5 metros de altura. Os cenários foram todos montados; a maior parte foi feita do zero. E eu pude fazer truques como, tem momentos do filme em que o mar é feito de plástico e o céu é feito de algodão com luz atrás. Então, assim, são coisas que nem sempre o público vai perceber, mas eu acho que isso dá uma diferença de imagem, dá alguma coisa. O povo percebe, às vezes não sabe o que está diferente, mas sabe que tem alguma coisa diferente. Eu acho que tudo isso cria uma aura especial para o filme, que algumas pessoas vão odiar de início, mas eu acho que isso faz desse filme um filme único, um filme diferente. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Gilda, agora falando sobre sua personagem, né? Que tem uma complexidade emocional enorme assim, ainda mais quando a gente percebe que o filme aborda essa questão da maternidade. Então tem um peso psicológico imenso. E ainda mais uma personagem que se vê inserida nesse local fechado, nesse prédio, nesses locais mais opressores mesmo. Então, como foi a preparação do papel para essa personagem, como se deu essa ideia, e essa troca com o Rodrigo para preparar esse personagem para o "Prédio Vazio"? Gilda Nomacce: Eu cheguei uns dias antes, e nós conversamos muito, assim, contando causos. Eu até aluguei o Rodrigo, contei um monte de coisas da minha vida, sempre aquela coisa de buscar os paralelos. E também tem uma coisa nessa mulher, que é a solidão. Porque é tanto que, quando eu sequestro a personagem da Rejane, eu primeiro me divirto um pouco com ela. E isso me pegou muito: esse lugar de você ter tanta gente no entorno... Porque, claro, o filme é a partir do esvaziamento. Tem o Carnaval, que é a época máxima da temporada, que, aliás, aquele filme é lindo, né? Onde começa tudo. Então, eu não vivenciei no período do filme a temporada cheia, mas dentro de mim tinha esse momento, essa vivência de anos ali naquele prédio sendo zeladora, com todas aquelas pessoas... Mas ninguém tem intimidade comigo. A única pessoa com quem eu tenho um vínculo é uma filha morta, que é um vínculo estabelecido de uma maneira... Me veio a palavra "embriagante", porque, apesar de eu até ensinar como se vê um fantasma, né? Tem aquele momento em que eu falo: “É só olhar”, coisa do Rodrigo, né? Não sei se dá certo, mas ele disse que sim. A minha intimidade é com um fantasma que eu nem, de fato, tenho essa percepção total. Tanto que outra pessoa vê a minha filha, e eu não. E tem aquele momento, até com aquela foto muito bonita, em que minha filha tá aqui junto de mim, que até me arrepia falar disso. Essa cena foi muito forte, porque tinha essa presença do afeto, que já é esvaziado. Então, o prédio é vazio, mas a minha existência também é esvaziada, de afeto. Absolutamente esvaziada de afeto. Então, essa "brincadeira", com essas pessoas que eu sequestro. Eu tenho, de fato, um carinho. Eu estava falando com a Lorena sobre a sopinha, a Lorena morre de rir, porque elas estão lá juntas, e aí de repente eu falo: “Toma uma sopinha.” Eu realmente faço uma sopa gostosa. Eu quero oferecer aquele alimento. Eu quero uma amizade. Só que as pessoas não sabem me receber. E aí eu fico nervosa. Porque eu não sei me relacionar. Então, por não saber me relacionar, eu resolvo de outra forma. Eu tento uma amizade. Eu acho aquela cena da alimentação muito metafórica e muito bonita. Acho que naquela cena acontecem muitas coisas. Porque é isso: é uma tentativa de, de fato, alimentar, mas não consegue, porque é torto, porque não teve isso, não conhece isso em si. Tanto que o que dá um novo andamento para o filme, que é quando começa aquela violência.... né? Aquele andamento que vai até o fim, é quando a personagem da Rejane diz que nem a minha filha gosta de mim. Aquilo não deu pra suportar. Eu tinha até servido um vinho pra ela. Eu queria... eu queria a amizade. Então, também, as pessoas provocam, né? Não morrem à toa. É só uma forma. Então, eu acho que é muito a respeito de afeto essa temporada que está no que é o todo. Esse esvaziamento de sentido, de humor, esse monte de gente que não tem casa pra morar, e ficam aqueles apartamentos todos vazios de frente para o mar. Então, essas relações que se dão de formas muito tortas, né? Acho que tem muitas críticas nesse filme. A gente ri, a gente morre de medo, a gente sente muitas coisas, mas a gente está falando de coisas importantes. A gente está falando desse mercado imobiliário, dessa coisa, né? De tudo isso que é a nossa sociedade. E também dessa falta de condição de se relacionar, dessa tentativa, essa tentativa que, não se conseguindo, é resolvida de uma forma brutal. Que eu também acho que acontece muito na nossa sociedade. Acho que muito mais gente gostaria de ser legal e oferecer uma sopinha. Mas, ao se sentir rejeitado, estando em lugares de isolamento, acontece a agressividade. Então, eu fui muito para esse lugar de tentar me relacionar... e não consegui. Rodrigo Aragão: E uma coisa que eu lembro, assim, que me marcou muito: quando a gente sentou para conversar sobre a personagem mesmo, já perto de filmar, quando a Gilda chegou lá em Guarapari, a gente falou sobre ela. No final da conversa, a Júlia falou assim: “Então, ela não é malvada. Ela não é malvada. Ela é complicada. Não é malvada.” Eu achei muito legal isso. E é verdade, ela tem problemas, mas ela não é uma má pessoa. Caio Augusto (Oxente Pipoca): É, me lembrou muito o "A Morte do Demônio: A Ascensão". Que é esse último e último filme do "Evil Dead", né? Porque tem realmente essa coisa da mãe que é possuída. E essa essa fisicalidade corporal me lembrou bastante. Rodrigo Aragão: Eu acho que as coisas estão no campo das ideias, assim. Esse projeto levou muitos anos para ficar pronto. Eu sou muito fã do Evil Dead. Assim, quando descobri que o Evil Dead ia fazer um filme sobre um prédio, foi marcante pra gente. E eu gostei muito do filme. E teve outra coincidência também que eu achei muito interessante, que é a cena da mão segurando uma chave, tem um filme, acho que Maxxxine, que tem um plano igualzinho, cara. Eu falei: “Olha lá, todo mundo vai falar que eu imitei, mas eu já tinha filmado.” Parece que é o campo das ideias, ele acontece em vários lugares ao mesmo tempo. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Na sua filmografia como um todo assim, tem bastante uma questão do artesanal, né? E nesse filme me chamou a atenção o tanto o artesanal como o coletivo quando nos créditos iniciais a gente observa o conceito de filme-escola. E eu queria que você falasse um pouco sobre esse conceito e como isso influenciou no filme. Rodrigo Aragão: Então, o filme-escola é uma maneira que eu encontrei de continuar fazendo filmes no lugar em que eu nasci, onde eu pretendo continuar fazendo cinema. É uma necessidade de mapear pessoas que têm um sonho parecido com o meu, que querem trabalhar com cinema. E, ao mesmo tempo em que eu dou oportunidade para essas pessoas vivenciarem um set e terem um intercâmbio tão importante com pessoas do calibre da Gilda, pessoas experientes, também me habilita a continuar produzindo ali. Então, é um projeto muito do bem, que funcionou muito bem. E é um aconselhamento, assim, uma dica que eu dou para quem está fazendo filmes pelo Brasil afora e tem dificuldade de formar equipe: é um caminho que funciona mesmo. Porque, em todo o Brasil, tem gente sonhando em fazer cinema, precisando só de um empurrãozinho. Divulgação Gilda Nomacce: Ah, para mim também foi muito motivador ser um filme-escola, porque eu também acredito que a gente não pode ser extrativista, sabe? Eu não vou para um filme pensando: “Ai, o que eu vou ganhar desse filme? Como é que vai ser para a minha carreira?” Eu amo trocar. E essas pessoas que estavam ali, essa coisa de formar pessoas pelo Brasil todo... Cada vez que eu filmo fora de São Paulo, amo filmar em São Paulo, mas eu acho tão importante que existam profissionais incríveis em todos os lugares, inclusive no interior, né? No caso, ali também é interior. Então, eu acho tão bonito isso. E foi muito, muito forte essa relação que eu tive com os atores, com essa formação. Porque a Rejane já é uma atriz que tem uma carreira enorme, o que foi maravilhoso, mas a Lorena, que está em seu primeiro filme, e já como protagonista, essa integração de uma pegada com a outra... Porque, ao mesmo tempo em que eu tenho experiência, é muito instigante ver quem está começando, porque está aberto. Eu gosto de pessoas que não sabem, entre aspas. Porque, quando você acha que sabe muito, às vezes você está, na verdade, congelado, né? Você está repetitivo. Então, eu achei fantástico todos os profissionais que estavam lá, mas também todo mundo que estava fazendo estágio, porque tinha uma cabeça. E as pessoas estavam se formando. E eu conhecia muitas dessas pessoas, porque eu tinha dado uma oficina em Vitória, no Festival de Vitória, e esses eram quatro alunos que tinham sido meus alunos e com quem eu tive um processo muito profundo. E quando eu os reencontrei, eu pensei: “Nossa, uma coisa é você dar uma oficina e ser a pessoa que está falando como faz. Outra coisa é essas pessoas verem, de fato, como você é.” Eu fiquei insegura. Pensei: “Será que eles vão pensar: ‘A Gilda falou tudo isso... e agora olha o que ela é?’” Mas foi um convívio maravilhoso, com muita troca. Eu tenho certeza de que esses profissionais que o Rodrigo formou, eu já chamo de profissionais, porque já são pessoas muito bem formadas. E ali nem se sabia mais quem era profissional, quem era da escola. Isso foi bacana, o Rodrigo fez uma oficina longa. Então, todo mundo entrou com muita vontade e com preparo. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Por fim, nós do Oxente Pipoca temos uma tradição de pedir aos nossos entrevistados que indiquem filmes brasileiros que achem que o público deveria assistir. Quais são as indicações de vocês? Gilda Nomacce: Eu gosto muito de um filme do Caetano Gotardo que se chama O que se move. Acho um filme muito bom e eu acho que são três atrizes, três grandes atrizes que é a Cida Moreira que sempre que eu tenho que pensar, sempre que eu faço uma personagem que sabe muito o que faz, a referência é a Sida Moreira. Com Andrea Marques e com Fernanda Viacava, três atrizes fantásticas. É um filme muito poético e eu acho que ele foi pouco visto pela qualidade que ele tem e eu recomendo esse filme. Rodrigo Aragão: Eu vou indicar, na verdade, um cineasta que eu sou muito fã, que é o Paulo Biscaia, lá de Curitiba, que ele tem filmes incríveis. Todos os filmes dele vale muito a pena ver e eu gostaria que as pessoas conhecessem. E tem um chamado Nervo Craniano Zero, que é maravilhoso, é muito diferente, é muito interessante e vale a pena ser descoberto aí pelo grande público brasileiro.

  • Entrevista | Milena Times e Mayara Santos falam sobre "Ainda Não É Amanhã", filme que retrata a maternidade e suas infinitas possibilidades

    Diretora e atriz protagonista conversaram sobre a construção do filme, gravar no Nordeste e sobre tratar a questão do aborto no Brasil em tela. Divulgação O longa-metragem Ainda Não É Amanhã, dirigido pela pernambucana Milena Times e protagonizado por Mayara Santos, estreou recentemente nos cinemas trazendo uma narrativa sensível e necessária sobre o direito ao aborto no Brasil. Com uma trajetória de desenvolvimento de seis anos, o filme acompanha a história de Janaína, uma jovem de 18 anos de Recife que enfrenta uma gravidez inesperada em um país onde o aborto é permitido apenas em casos muito restritos. A produção retrata com fidelidade a busca de Janaína por um aborto seguro, sigiloso e acessível, mostrando não apenas os desafios pessoais e sociais que ela enfrenta, mas também a desigualdade de acesso a esse direito no Brasil. Entre as dificuldades e os silêncios impostos pelo estigma e pela criminalização, o filme também destaca a força das redes femininas de apoio, fundamentais para a jornada da protagonista. Nesta entrevista com o Oxente Pipoca, Milena Times, diretora e idealizadora do projeto, e Mayara Santos, atriz que dá vida à Janaína, conversam sobre a construção do filme, a importância da temática e a experiência de trazer à tela uma história tão urgente e representativa. Gravado em Recife (PE) e com uma produção quase interinamente nordestina, Ainda Não É Amanhã dialoga com uma realidade quase universal dentro do contexto brasileiro. “Acho que esse também era um dos desejos do filme: ter uma representação que fosse muito próxima da nossa realidade, mas que também dialogasse para fora. Que pessoas de vários outros lugares pudessem se identificar com muita força, porque, no fundo, a gente compartilha de muitas coisas também”, como contou Milena. Confira a íntegra da conversa abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Primeiramente, queria parabenizar vocês pelo trabalho e dizer que gostei bastante do filme como um todo. Isso me fez lembrar de outro filme com uma temática parecida que assisti no ano passado, o Levante, que inclusive foi um dos meus favoritos daquele ano. É muito legal ver esse assunto se tornando mais recorrente no cinema, com diferentes obras abordando o tema sob diversas perspectivas. Milena, queria te perguntar: como surgiu essa história para você? De onde veio a ideia inicial e como ela evoluiu até se tornar um longa-metragem? Durante os créditos, vi que o projeto ganhou um prêmio em um laboratório de roteiro. Você pode contar um pouco mais sobre essa etapa do processo? Milena Times: O filme surge um pouco do desejo de falar desse universo, dessa família formada por três gerações de mulheres, que é uma configuração muito frequente que a gente tem no Brasil. Em alguma medida, ainda é muito comum essa realidade da gravidez precoce, né? São mulheres que se tornam mães muito cedo e que acabam contando com as próprias mães como suporte para cuidar dos seus filhos. Então eu queria, de alguma forma, explorar esse universo e esse ambiente dessas mulheres, e como esses papéis encontram também interseções, como o papel de mãe e avó se confunde também com o de filha, de neta, e até de mãe e filha que, às vezes, estão mais próximas de uma relação de irmãs do que necessariamente de mãe e filha. Isso tudo me interessava muito, e aí eu percebi que, na verdade, talvez o grande tema do filme fosse a maternidade, mas pensada em diversas possibilidades, em torno da maternidade ou de versões dessa maternidade. A gente tem, de alguma forma, um ciclo que se repete na história das três, porque todas engravidam muito cedo. Mas eu quis, talvez, jogar um pouco com essa ideia da quebra desse ciclo, trazendo para essa geração mais nova uma possibilidade de escolha, que talvez nem tivesse passado pela cabeça das gerações anteriores. Que a gente pudesse enxergar a maternidade não como um destino inexorável, mas como uma escolha, um desejo, algo que toda pessoa que embarca nessa missão deveria ter respeitado. Acho que o nosso ponto de partida foi mais ou menos esse. Depois, a gente se debruçou sobre uma intensa pesquisa e uma dedicação muito grande ao desenvolvimento do roteiro do filme, foram seis anos até a filmagem. Então, eu acabei mergulhando de forma muito profunda nessa temática da maternidade e do aborto. E isso foi atravessando todo o desenvolvimento do projeto, que foi ganhando outras camadas, outras complexidades, até finalmente chegar nessa versão que a gente filmou e que agora está sendo lançada. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Mayara, você ganhou um prêmio no Festival do Rio pela sua atuação como a Janaína, e eu queria saber: como essa personagem chegou até você? E como foi para você viver uma personagem tão complexa, cheia de nuances, mas que ao mesmo tempo exige uma atuação muito contida? Ao longo do filme, há vários momentos em que a Janaína praticamente não fala, e mesmo assim a gente entende exatamente o que ela está sentindo só pelo olhar, pelos gestos, pelas sutilezas da interpretação. Você pode contar um pouco sobre esse processo e como foi construir essa personagem dessa forma? Mayara Santos: Então, essa personagem chegou para mim de forma super inesperada. Vou contar um pouquinho da história. A Bruninha Leite, que é uma produtora de elenco lá de Recife, me mandou uma mensagem no Instagram perguntando: “Você teria sua agenda livre de tal a tal período? Estamos fazendo um teste de elenco para um longa.” Só que a mensagem foi parar naquela caixinha de solicitações do Instagram, sabe? Quando eu vi, achei super que era fake. Porque, naquela época, tinham muitos golpes rolando, então eu pensei: “Isso é um fake, com certeza.” Deixei lá. Depois, fiquei com aquilo na cabeça e pensei: “Rapaz, vou stalkear essa mulher.” A foto dela era um desenho, nem era uma pessoa mesmo, e ela tinha pouquíssimas fotos no perfil. Aí fui fuçar e pensei: “Acho que é uma pessoa de verdade mesmo.” Falei com um amigo meu de Pernambuco, o Jason, que é ator, e perguntei: “Amigo, você me indicou para algum filme?” E ele só mandou uma luazinha de resposta, aí eu pensei: “Foi ele que me indicou, com certeza.” Aí respondi a mensagem, mesmo sem conhecer ninguém. Marcamos um teste em João Pessoa, foi a primeira etapa. Eu não lembro o bairro, mas lembro que fui de Uber, estava chovendo muito, um caos. Quando cheguei lá, encontrei a Milena, que era a diretora, e eu nem conhecia. Era só ela, uma câmera e uma cadeira. Eu: “Oi.” Lembro até hoje que ela me olhou da cabeça aos pés (risos). E o teste foi com a Jamila, uma atriz lá de João Pessoa que eu super admiro. Quando vi que ela estava lá, pensei: “Se a Jamila tá aqui, então é confiável.” Fizemos esse primeiro teste, e eu me senti super em casa. Testes sempre são bons pra mim, porque eu me jogo mesmo, fico muito tranquila. Depois, fui convidada pra ir a Recife pela primeira vez — nunca tinha ido, nem viajado sozinha. Foi minha primeira viagem sozinha. Tinha acabado de completar 19 anos. Fui fazer a segunda etapa do teste, e foi lá que conheci a Clau Barros, que faz minha mãe no filme, e a Babi, que faz a Kelly, a melhor amiga da personagem. Nós três demos match total, foi um encontro mesmo. A partir daí começou minha jornada com a Janaína, que até então nem se chamava Janaína. Tivemos um processo de preparação muito cuidadoso e íntimo, com a Amanda Gabriel, nossa preparadora. Fizemos essa preparação na casa dela. Eu tranquei a faculdade, fui pra Recife e passei três meses lá. Isso me ajudou muito, porque eu vivia pro filme. Pude me dedicar completamente à construção da personagem. A Milena participou de todo o processo de preparação. Foram cinco semanas intensas. Foi uma construção feita com muito cuidado, muita pesquisa. A Milena trouxe dados, números, que foram essenciais pra dar materialidade à personagem. Porque, por mais que a Janaína seja uma narrativa íntima, de uma menina, naquele bairro, naquela família, naquela classe social específica, ela retrata a história de muitas mulheres. Acho que eu trago muito da subjetividade na minha forma de atuar, então foi algo muito maturado. Era o meu primeiro longa-metragem, até então, eu só tinha feito curtas, e poucas experiências. A Amanda e a Milena tiveram esse cuidado de fazer com que o filme ficasse internalizado em mim, de forma que eu fui pro set muito cheia de coisas, com esses estados muito bem trabalhados internamente. E claro, na hora do set, muita coisa também acontece, o próprio caos maravilhoso do set colabora com a construção, e é isso que fica registrado. Acho que o cuidado da produção e da Milena não foi só na construção da personagem, mas na forma como o filme inteiro foi feito. Tudo era muito bem pensado, muito bem conversado. Eu estive presente nas decisões de figurino, por exemplo. A gente visitou antes a locação, o apartamento da Janaína, o bairro, inclusive, escolhemos juntos qual seria o melhor lugar. Estar nesses processos, nessas decisões, foi o que fez com que a gente ficasse cada vez mais dentro da história dessa menina. Acho que tudo isso colaborou de forma muito positiva pra minha construção da personagem. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Uma coisa que me chamou a atenção logo que vi o filme foi o fato de ele se passar no Nordeste, mais especificamente na periferia de Recife. A gente sabe o quanto é desafiador filmar um longa-metragem nessa região, então queria saber de vocês: qual é a importância de contar essa história a partir desse território? Como foi para você, Milena, dirigir um filme no Nordeste, e para você, Mayara, atuar nesse contexto tão específico? Milena Times: Acho que a gente ainda enfrenta muitos desafios para captar recursos e filmar cinema independente. E isso não só no Nordeste. Talvez, no contexto pernambucano, a gente até tenha um pouco mais de oportunidades de editais em comparação com outros estados. Então, às vezes, nem dá para reclamar tanto, mas continua sendo um desafio muito grande. Eu sou de Recife, nascida e criada, e acho que a cidade, aquele espaço, aquela forma de ser, me atravessa muito. E é interessante perceber que a cidade, no filme, está sempre como um pano de fundo. Ela não chega a ser um personagem que está ali em primeiro plano. Mas, em alguma medida, o filme é extremamente incisivo. Ele realmente respira uma energia local. Mas eu gosto muito de pensar que, na nossa construção, a gente estabeleceu um diálogo muito grande com qualquer outra periferia, de qualquer outra cidade, não só do Brasil. O filme traz aquilo que a gente tem de particular, mas também aquilo que a gente tem de universal. Porque esse perfil de família, esse contexto, essa personagem, se espelham em muitas outras localidades. E tudo isso sem abrir mão das características que são muito nossas. Acho que esse também era um dos desejos do filme: ter uma representação que fosse muito próxima da nossa realidade, mas que também dialogasse para fora. Que pessoas de vários outros lugares pudessem se identificar com muita força, porque, no fundo, a gente compartilha de muitas coisas também. Divulgação Mayara Santos: É interessante pensar nisso, porque o filme é feito, em sua maioria, por pessoas pernambucanas, né? E eu sou paraibana. Então, no primeiro momento em que tive contato com o projeto, por mais que seja tudo muito próximo, a energia do recifense, do pernambucano, é uma coisa muito específica. E eu fiquei com a sensação de: essa menina é dali, se passa ali, ela é de lá. Então, para mim, teve esse desejo muito forte de me aproximar dessa energia. E foi muito massa, porque, além das salas de ensaio, onde a gente estava construindo as relações, eu procurei também viver a cidade. Pedi para o pessoal me levar para os rolês de Recife, viver a cidade mesmo, a noite de Recife, os bregas, o pagode. Acho que tudo isso foi parte do meu processo de me propor a essas vivências para me aproximar dessa efervescência, desse calor que o filme precisava, e que precisava estar em mim também. Então fui me apropriando disso de forma benéfica, em prol da personagem, mas claro, sem anular o que eu também trago comigo. Particularmente, eu amo filmar aqui. É bom demais filmar na nossa terra. A gente passa por muitas dificuldades, sim, especialmente quando se fala de cinema nacional — e mais ainda quando se trata de cinema nordestino. Essa dificuldade é real, tem outras camadas envolvidas. E, embora eu não queira romantizar, acho que essas dificuldades fazem com que a gente precise tomar decisões criativas, pensar em estratégias muito próprias. Claro que em cada lugar as pessoas pensam estratégias específicas para aquele contexto, mas aqui a gente faz isso não só pela falta de recursos, mas também por um jeito nosso de enxergar as coisas. Para mim, foi uma experiência riquíssima, porque além de trabalhar, eu pude conhecer uma cultura nova. E por mais que eu pensasse “ah, Recife é logo ali, não tem tanta diferença”, tem sim. Tem muita coisa diferente. Eu conheci pessoas novas, fiz amigos recifenses que levo comigo até hoje. Eu amo isso. Acho que tudo isso me alimentou muito e ainda me alimenta. Então, para mim, foi uma experiência a mais, muito rica. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Aqui no Oxente Pipoca, a gente sempre faz uma pergunta obrigatória pra todo mundo que passa por aqui: qual é aquele filme brasileiro que marcou vocês de forma especial — seja como artistas ou como espectadores — e que vocês gostariam de indicar pra quem está ouvindo a gente agora? Milena Times: Eu vou aproveitar que a gente tá em BH dando essa entrevista, e acho que eu escolheria filmes da Filmes de Plástico. Talvez Temporada, do André Novais, e Marte Um, do Gabriel Martins. São filmes que eu amo e que eu acho que são muito mineiros e, ao mesmo tempo, muito brasileiros. Eles dialogam muito com a nossa realidade e têm uma construção de cinema que eu considero riquíssima. Mayara Santos: Esses dias eu tô assistindo muito filmes que parecem quase documentários. Então, recentemente, eu revi Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. E Lispectorante, que ainda está em cartaz, tem a nossa Marcélia Cartaxo, que inclusive também está sendo distribuído pela Embaúba. Marcélia Cartaxo é um acontecimento em cena. Então, são dois filmes que eu indicaria.

  • Entrevista | Guto Parente fala sobre as mudanças durante a produção de Estranho Caminho

    O diretor e roteirista abordou também o atual momento do cinema cearense em conversa exclusiva com o Oxente Pipoca Foto: Divulgação Depois da conversa com Lucas Limeira e Carlos Francisco, o OP teve a oportunidade de entrevistar o cineasta Guto Parente. Na ocasião, o diretor e roteirista de Estranho Caminho, que entra em cartaz no próximo dia 1 de agosto, falou sobre cinema experimental, o processo de criação do longa-metragem e o bom cenário de lançamentos do cinema cearense em 2024. O novo filme do diretor de Inferninho (2018) e O Clube dos Canibais (2018) narra a história de um jovem cineasta que reside em Portugal e retorna a Fortaleza, sua terra natal, depois de anos, para lançar seu novo filme em um festival. O início da pandemia adia o festival e impede seu retorno para a Europa, fazendo com que ele se reaproxime de seu pai, com quem não tem contanto faz bastante tempo. O protagonista David vem ao Brasil lançar seu filme experimental, e Guto afirmou que o filme tem traços autobiográficos, além de ser dedicado ao seu pai. Relembrando o início de seu trabalho com filmes, ele falou sobre o cinema experimental como ferramenta de descobrimento da linguagem, e de como, hoje, se relaciona com esse tipo de produções. “O cinema experimental é algo que me estimula muito, eu tento sempre buscar o que tem de novo rolando, quando vou a festivais eu gosto de assistir a filmes que fogem do modelo mais hegemônico de contação de histórias. Na minha trajetória existe um lugar onde o pensamento da imagem e da experiência cinematográfica vem como a possibilidade uma experimentação mais sensorial e transcendental do que narrativa. Foi por onde eu entrei no cinema e é algo que me sustenta até hoje”, afirma Guto. “Olhando para o começo, especificamente meus seis primeiros longas, eles foram feitos sem nenhum financiamento de edital, todos partindo de uma ideia de realização cinematográfica muito fundada na colaboração, entre pessoas que tinham um desejo comum de cinema e que tinham que encontrar nossa própria forma de fazer cinema e transformar essas limitações em potência estética”, continuou o diretor. Foto: Divulgação Guto falou também sobre as mudanças da primeira versão do roteiro de Estranho Caminho para a versão final do filme. “Tiveram muitas mudanças. Em primeiro lugar quando escrevi o roteiro ainda não tinha o Lucas e o Carlos em mente, como é um roteiro muito baseado em questões pessoais, inicialmente eu via esses personagens como eu e meu pai com rostos diferentes. E quando ganhamos o edital da Lei Aldir Blanc entendemos que a partir dali teríamos um filme. Eu já tinha vontade de trabalhar com o Lucas um dia, eu trabalhei na montagem do Cabeça de Nego e fiquei encantado com ele. Ele estava mais novo no filme do Déo (Cardoso, diretor de Cabeça de Nego) e nesse momento pela idade o personagem (David) já vestia melhor nele. Foi então que liguei para ele, falei do projeto e depois convidei o Carlão. E a partir daí eu reescrevi o roteiro já visualizando eles dois”. Guto também comenta que outras coisas foram sendo alteradas nas leituras e nos ensaios. Ele considera Estranho Caminho um filme bem ensaiado, onde a equipe sempre lia a cena, fazia como estava escrita e depois abria para um espaço de improvisação. Segundo ele, o trabalho com a atriz e dramaturga Noá Bonoba na pré-produção e na preparação de elenco acrescentou fortemente ao resultado final do filme, já que ela trouxe vários exercícios e técnicas para serem passados com os elencos. O diretor comentou ainda de uma grande modificação que foi feita após as filmagens. “O filme era estruturado numa lógica meio calendarizada, tinha os dias marcados, e o título do filme era ‘Abril Vazio’, porque seria em abril que ele ficaria sozinho no apartamento do pai, e esse título se relacionava com essa ausência. Na montagem chegou um momento em que a gente percebeu que essas datas estavam travando a história, e foi uma sugestão da Tici (Ticiana Augusto Lima, produtora) quando estava vendo a montagem com a Taís (Augusto Lima, irmã de Tici) de tirar essa contagem de dias, e parece que o filme deu uma respirada”, diz ele. Por fim, Guto também comentou sobre o atual momento do cinema cearense, em que 9 longas metragens foram ou serão lançados ao longo de 2024. “Acho que a gente tem longos anos de insistência, onde várias pessoas com vários grupos diferentes viam no cinema um viés muito experimental, afinal não existia cursos de formação na área. A gente pensava a construção da imagem a partir de uma perspectiva bem mais livre do que com a expectativa de um mercado de indústria, inclusive a gente nem entendia direito essa ideia de mercado, então parecia que tudo era possível.” Foto: Divulgação Guto considera que esse cenário, associado às políticas públicas, passou a gerar resultados. Ele afirma que se houvesse um mecanismo de política pública mais consolidado e regular como uma agenda, tal qual acontece em vários outros países, “ninguém mais segurava o cinema cearense”. “Porque mesmo dentro da dificuldade e da inconstância essas políticas têm conseguido fazer com que nossos filmes aconteçam. A Lei Aldir Blanc financiou esse filme e estamos distribuindo pela Lei Paulo Gustavo, então sem elas esse filme não existiria, e a gente nunca teria tido um filme cearense ganhando todos os prêmios que concorreu em Tribeca, coisa que nunca aconteceu antes na história do festival e circulando por todo o Brasil. Então é uma combinação de fatores, mas também de contexto”, declara Guto.

  • Entrevista | “Meu filme é latino-americano”: Márcia Faria fala sobre a luta contra a ditadura no continente e a importância da memória em “À Procura de Martina”

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora discutiu como o longa, que é uma coprodução entre Brasil e Uruguai, entrelaça os efeitos das ditaduras argentina e brasileira. Divulgação Lançado no último dia 05 nos cinemas, À Procura de Martina é o mais novo representante da safra de filmes brasileiros e latino-americanos que discutem as consequências nocivas das ditaduras implantadas no continente entre os anos 1960 e 1980. O filme é dirigido por Márcia Faria e estrelado pela atriz argentina Mercedes Morán como a personagem-título, que há décadas procura pelo seu neto, o qual nasceu em cativeiro durante a ditadura argentina, enquanto começa a sentir os impactos iniciais do Alzheimer. Sua busca o leva ao Rio de Janeiro, onde encontra informações que indicam que seu neto foi adotado por um falecido militar argentino e sua esposa brasileira. O Oxente Pipoca pôde entrevistar Márcia Faria, que falou sobre como o longa se distingue de outras produções brasileiras que tratam da ditadura ao se encaixar num panorama mais amplo da América Latina – destacando inclusive a necessidade dos brasileiros se verem mais como latino-americanos. Ela também comentou sobre a perda da memória de Martina por conta do Alzheimer e como isso se entrelaça à necessidade de resguardar a memória dos crimes cometidos nessas ditaduras para que eles não se repitam. Você pode conferir a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): A ditadura é um tema recorrente no cinema latino-americano. Não tem como não pensar em “Ainda Estou Aqui” por causa do buzz, mas temos vários outros, como “Argentina 1985” e “A História Oficial” da Argentina, “Uma Noite de 12 Anos” do Uruguai ou “No” do Chile. Mas o que me chamou a atenção em “À Procura de Martina” foi trabalhar esse cruzamento das realidades argentina e brasileira no que se refere às suas ditaduras, isso é algo que vi poucos filmes no continente fazerem. O que te motivou a construir essa história ambientada entre os dois países? Márcia Faria: Isso é um pouco clichê de se dizer, mas a gente enquanto nação é muito isolado pela questão da língua. Falamos português enquanto o restante do continente fala espanhol. E eu sempre tive vontade um pouco de trabalhar com talentos que que tão aqui do lado. A Mercedes Morán é uma atriz maravilhosa, assim, sensacional que por sorte topou fazer o filme. Eu acho que estava pensando em como que a mistura entre as atrizes brasileiras e argentinas trouxe para o filme uma identidade muito particular, e muito me alegra de que tenha acontecido dessa forma. Quando comecei a tomar conhecimento da história argentina e também da nossa vivência aqui, da ditadura brasileira, eu senti muita vontade de fazer um certo espelho entre uma história e outra. A Argentina sempre me deu muita admiração pelo que eles conseguiram fazer lá com uma história tão cruel como foi a da ditadura militar. Conseguiram fazer um processo de justiça e de preservação da memória, e teve essa luta incansável das avós da Praça de Maio por reaverem esses netos que ainda continuam desaparecidos, sequestrados, sumidos. Então, tenho muita admiração por isso. Por outro lado, pensar o Brasil... ainda que, que, a gente tenha a comissão da verdade, que foi um passo incrível, a gente não tem um processo de justiça. Muito pelo contrário, né? Quando a gente fala sobre ditadura, muitas vezes existe uma retórica assim: "Não, deixa isso para lá, vamos olhar para o futuro". E, para mim, a gente precisa olhar para o nosso passado para poder entender melhor o nosso futuro. Eu acho que a gente tem filmes maravilhosos já sobre ditadura. O Para Frente Brasil é um filme do meu tio, do Roberto [Farias], meu padrinho, e foi censurado. Ele seria lançado em 1981, mas foi censurado e só foi lançado em 1982. E esse filme, para ele não desaparecer, meu pai, Rivanides Faria, que é produtor do filme, pegou as latas de negativo do filme, distribuiu em várias casas de amigos, porque havia essa ameaça de que eles iam pegar e destruir o negativo do filme. E quando ele foi ao cinema, havia ameaça de bomba no cinema. Então foi, é, uma situação muito, muito distópica. E outros filmes vieram depois disso para falar logo na reabertura [política]. E eu acho que agora a gente volta a olhar para isso. O meu filme tá dentro desse lugar, apesar de falar muito da ditadura argentina, é um olhar de uma de uma avó da Praça de Maio que tá perdendo a sua memória, mas que vem ao Brasil, esse país que a gente está falando que não, fez o seu trabalho de casa. Eu acho que não é coincidência que, depois de 4 anos da extrema direita, a gente volte a falar disso. É importante falar e olhar para isso. É importante que os jovens, como foram ao cinema ver Ainda Estou Aqui, vejam o que aconteceu com o Brasil, para que isso não se repita. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Filmes que lidam com o tema da memória sempre são muito sensíveis para mim, por ter uma avó que vem perdendo a memória nos últimos anos e que hoje mal me reconhece. Como você quis trazer essa questão do Alzheimer de Martina para o filme e ligá-lo ao tema da ditadura argentina e das Mães da Plaza De Mayo? Márcia Faria: Tem uma coisa que eu gosto do filme, que me parece original nesse sentido, é que ele trata isso de uma forma muito pessoal, entendeu? Ele não tem uma bandeira, não é um filme panfletário, ele fala isso de uma maneira muito individual para falar do coletivo. Isso eu acho que é um grande acerto do roteiro da Gabriela Amaral Almeida, que traz toda a complexidade da política internacional, da política brasileira, assim, pra um âmbito muito pessoal e que te permite se conectar muito com essa com essa protagonista, com esse personagem. O filme começou muito com essa vontade política, e eu também tenho a minha mãe, a quem o filme é dedicado. Minha mãe já tem Alzheimer há mais de 10 anos. E o filme também demorou muito para ser escrito Foi um processo longo, uma gestação muito longa. E durante esse processo eu fui colocando a minha vivência com ela dentro do filme. Então, ele passou de um filme muito político para um filme muito pessoal. Acho que ele é um pouco essa mistura, né, e de como que o individual também se faz político. Então, ele é uma metáfora que serve muito bem para falar de todas essas camadas, desse corpo memória, é como se ela se transformasse no próprio arquivo da história dela, e esse arquivo está sendo deletado. A minha opinião tem a ver com a cena do final, dos arquivos. Foi muito curioso essa cena, porque ela não estava escrita assim. Ela era uma cena dentro de um hospital e a gente estava procurando uma imagem mais forte para isso, e tinha filmagem no hospital. E eu fui vendo os espaços do hospital e a gente encontrou esse arquivo praticamente pronto assim, num dos porões assim do hospital. E acabamos filmando lá, substituímos as camas pelos arquivos e pelos números. Então tem uma imagem muito forte dessa sensação da ditadura, de que as pessoas viram números, arquivos, pastas, dossiês. Divulgação Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Temos vivido nos últimos anos um movimento de negação à violência e repressão das ditaduras, mesmo num país que julgou seus militares, como foi o caso da Argentina. Como filmes como “À Procura de Martina” podem ajudar a lançar luz sobre essa temática para que não nos esqueçamos do que foram essas ditaduras para os países latino-americanos? Márcia Faria: Eu acho que essa ascensão da extrema-direita no mundo é mais um motivo para a gente continuar fazendo, falando e lembrando de que ditaduras como a da Argentina, como a do Brasil, como a do Chile, como a do Uruguai, que é coprodutor do filme, não podem voltar a acontecer. Então, eu acho importante que isso seja relembrado sempre. Não sei se os filmes mudam alguma coisa sozinhos, mas se o filme tiver a capacidade de tocar alguém que for ver, dessa pessoa sair dali com perguntas, sair dali com pensamentos, eu acho que ele já cumpriu o seu propósito. Então, eu espero que as pessoas saiam com o filme do cinema. Eu acho que isso é o maior presente. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Por fim, sempre pedimos aos nossos entrevistados indicações de filmes nacionais que achem que o público deva assistir. Mas vou abrir uma exceção aqui, considerando a natureza bilíngue do longa, e te pedir indicações de filmes brasileiros e de outros países latino-americanos também. Quais você recomendaria para o nosso público? Márcia Faria: Dos filmes chilenos tem Glória, que com a Paulina García, que é uma atriz sensacional. Tem o filme A Noiva do Deserto, que é de duas diretoras argentinas [Cecilia Atán e Valeria Pivato], que que também é maravilhoso. Tem os filmes da Lucrecia Martel, que já é um ícone que as pessoas conhecem: La Ciénaga, La Niña Santa, A Mulher Sem Cabeça. Tem um filme que eu acho que é do Paraguai, se chama As Herdeiras, que é maravilhoso também. Enfim, são muitos, é porque a gente não tem a possibilidade de ver. E isso é ruim, espero que cheguem mais aqui, que a gente consiga fazer mais esse intercâmbio. As pessoas me perguntam: "Mas seu filme é argentino? Seu filme é brasileiro?”. Meu filme é latino-americano. É isso, a gente é latino-americano.

  • Crítica | Bailarina

    Mesmo perigando ser um John Wick genérico, spin-off oferece o potencial de uma identidade própria enquanto entrega um espetáculo de ação digno da franquia. Divulgação Quando foi lançado em 2014, o primeiro John Wick se destacou sobretudo por dois aspectos: entregar sequências de ação pensadas e dirigidas com um refino que destacava o filme em meio ao marasmo do gênero; e também por retrabalhar a premissa básica de um assassino voltando a ação por vingança, que aqui se dava pela morte do seu cachorro e não de um ente querido. Assim, mesmo trabalhando com um fiapo narrativo (que foi amplificado, mas nunca muito aprofundado nas sequências), o longa nos lembrou que a ação também é uma forma de se contar sua história, e nisso a franquia se destacou brilhantemente ao longo dos quatro filmes. Bailarina vem, portanto, como uma inevitabilidade: era evidente que o final da história de Wick (Keanu Reeves) no quarto filme não seria o fim da franquia, e ainda que a série Continental tenha sido uma decepção, foi difícil não esperar com curiosidade e ansiedade pelo que seria feito com esta nova personagem, brevemente introduzida em John Wick 3 (o filme se passa entre os eventos deste e do 4). De início, há um certo receio, porque as motivações da protagonista Eve Macarro (Ana de Armas) são muito mais mundanas e genéricas do que as de Wick: ela quer ir atrás da organização que matou seu pai, liderada pelo misterioso Chanceler (Gabriel Byrne), e por isso ingressa neste universo que já conhecemos bem, de assassinos e seus códigos, hotéis como espaços seguros, armas e muitas formas de se matar alguém, tudo embalado num mundo que existe quase à parte do nosso. Dar a Eve essa motivação tão ordinária é quase um reflexo de que Bailarina se satisfaz em ser uma versão genérica de John Wick, se contentando em replicar seus elementos já conhecidos – a fotografia neon, as sequências de lutas em planos mais longos e sem tantos cortes, a trilha sonora pulsante e eletrônica, etc – mas sem que o diretor Len Wiseman muito da finesse que Chad Stahelski deu à franquia original. Não ajuda que no seu primeiro ato o longa se presta a oferecer uma origem também um tanto genérica à personagem, passando por montagens de treinamento e pinceladas da organização à qual ela se inscreve sem, no entanto, oferecer algum vislumbre muito convincente de como esse mundo funciona. Acaba sendo uma introdução protocolar, mas aqui já se evidencia o aspecto que se tornará o norte do filme: a inexperiência e vulnerabilidade de Eve (se comparada a um veterano como Wick) e como ela passa a usar isso ao seu favor. Divulgação É por isso que, quando o filme abandona essa história de origem e foca na jornada de Eve, primeiramente pela filial do Continental em Praga e depois nos Alpes Suícos, ele eleva consideravelmente de qualidade. Não é coincidência que essa melhoria se dá entrelaçada com a inclusão progressiva de mais sequências de ação, que usam e abusam da criatividade e brutalidade tão definidoras da franquia. Quando o filme se move para a cidade da organização do Chanceler, é como ver Chumbo Grosso ser ambientado no universo de John Wick: todos ao seu redor podem ser seus adversários, e o filme se vale bem dessa estrutura mais gamificada, onde Eve precisa derrubar e matar seus inimigos das maneiras mais incomuns possíveis até chegar no chefão final. Mesmo que ele acabe por depender da reinserção do personagem de Reeves em um ponto da trama – como se ainda precisássemos da presença dele para amarrar a obra ao universo em que está inserida –, o filme consegue encontrar mérito em aproveitar o porte físico de Eve (e de de Armas), quase nos fazendo subestimá-la até que a vejamos subjugar seus oponentes sem, no entanto, ser invencível. Vê-la lutar usando pratos, tênis de hóquei e um lança-chamas (que já virou minha arma favorita na franquia) é um verdadeiro deleite, e a maneira pela qual a ação desenvolve a personagem mais do que o texto genérico é a mostra de que, no fim das contas, o longa entende exatamente o que fez John Wick funcionar tão bem – basta comparar a postura madura, mesmo ferida, da personagem no final com a garota inexperiente que apanha incontáveis vezes no começo. No fim, Bailarina pede um pouco de paciência da nossa parte para que o vejamos se desfazer das amarras que o prendem no começo, ganhando confiança à medida que se desenvolve para enfim entregar uma segunda metade muito superior à primeira, confiança essa refletida na crescente qualidade das suas setpieces de ação. Mesmo com esses tropeços e ainda uma certa dependência dos filmes do qual se originou, o longa e encerra demonstrando o potencial de uma maior autonomia em futuras sequências, e mostra que, à sua maneira, pode haver vida para o universo de John Wick sem seu protagonista, e que Eve Macarro/Ana de Armas tem o cacife para levar a franquia ao seu futuro. Nota: 3.5/5

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