Resultados de busca
Buscar neste site
1408 resultados encontrados com uma busca vazia
- Crítica | Grand Prix: A Toda Velocidade
Animação desperdiçada potencial de analogias e se sustenta na ação Imagem: Divulgação Em Grand Prix: A Toda Velocidade, uma jovem ratinha chamada Edda sonha em se tornar uma corredora de carros e competir no Grand Prix. Esse sonho, porém, está muito distante da realidade de Edda que, vivendo no subúrbio da vibrante cidade de Paris, ajuda a administrar o parque de diversões da família ao lado de seu pai Erwin. Após a morte de sua mãe, os negócios não vão indo bem e, com uma conta repleta de dívidas, logo o parque será tomado dos dois. O mundo de Edda vira de cabeça para baixo, porém, quando inesperadamente aparece a oportunidade de não apenas salvar o estabelecimento da família, mas também disputar a corrida Grand Prix ao lado de seu ídolo, o piloto estrelado Ed. Sob a orientação do lendário Ed, Edda se disfarça do corredor campeão para competir no grande evento, enfrentando uma série de desafios e obstáculos na pista. O que começa como um plano arriscado e secreto, logo se transforma na chance de sua vida na qual o prêmio em dinheiro pode ser a salvação do sustento de sua família. Toda animação que usa animais como personagens principais tem em mãos um material de potencial inesgotável de abordagens. O exemplo recente mais vívido disto é Zootopia (2016), que consegue misturar as mais variadas classes de animais e brincar com o imaginário antropomórfico de cada um deles dentro do roteiro proposto. E Grand Prix, coprodução da Alemanha com o Reino Unido, parece ignorar completamente toda essa capacidade criativa para se sustentar basicamente nas sequências de corrida e ação. O diretor alemão Waldemar Fast desenvolve bons momentos frenéticos, dadas as proporções do gênero, mas para além disso não consegue dar muita vida ao roteiro bobo e sem inspiração que repete piadas e usa todos os clichês de textos já conhecidos do cinema infantil de maneira morna e enfadonha. As motivações dos personagens principais são rasas e previsíveis, sustentadas mais pela conveniência do roteiro do que por qualquer desenvolvimento emocional genuíno. Imagem: Divulgação Visualmente, o filme entrega uma estética competente, com cores vibrantes e fluidez nas cenas de corrida. No entanto, a ausência de um subtexto mais consistente ou de uma mensagem realmente inspiradora transforma o espetáculo visual em algo rapidamente esquecível. Falta o equilíbrio entre emoção e ritmo, entre fantasia e reflexão, que torna memoráveis as melhores animações do gênero. Em última instância, Grand Prix: A Toda Velocidade é uma animação tecnicamente correta, mas emocionalmente fraca. Diverte momentaneamente com sua ação bem desenhada e bem acabada, mas chega ao final sem muita personalidade. Nota: 2/5
- Crítica | Predador: Terras Selvagens
As aventuras do Predador boa praça Imagem: Divulgação Em Predador: Terras Selvagens, um jovem predador banido de seu clã embarca em uma perigosa jornada em busca de um adversário final em um planeta remoto e futurista. Lá, ele encontra uma aliada improvável em Thia (Elle Fanning), uma sobrevivente andróide, e juntos enfrentam perigos em um cenário inóspito. Como toda boa franquia hollywoodiana que foi requentada por mais de 4 décadas, Predador já viu diferentes apresentações e abordagens ao longo dos anos. O que de início começou como um másculo filme de ação estruturado no complexo do homem branco salvador contra um alienígena assassino, hoje traz uma perspectiva diferente ao ser extraterrestre dotando ele de sentimentos e motivações que o farão cair na graça do público, no sentido mais compassivo da expressão. O filme abraça uma estrutura de ação que lembra fortemente jogos de videogame. Cada ambiente do planeta funciona como uma espécie de fase, cheia de obstáculos naturais e criaturas hostis que atrasam o avanço dos protagonistas. O enredo filmado se move de maneira quase interativa, com desafios que se sucedem em ritmo crescente, dando ao espectador a sensação de estar acompanhando uma longa e perigosa missão em um cenário virtual. Essa escolha estética e narrativa reforça o caráter lúdico da produção e mantém a tensão sempre presente. Imagem: Divulgação Elle Fanning entrega uma atuação bem competente em um papel duplo que exige muito mais do que a expressividade facial. A atriz consegue alternar sutis diferenças de postura e movimento, transmitindo humanidade e frieza em doses sistemáticas, além de muito carisma. Além disso, seu trabalho de corpo bem ensaiado e executado ficam bem perceptíveis numa personagem que passa mais da metade do filme existindo apenas como metade superior. É uma performance que sustenta boa parte da empatia que o público sente durante a jornada. Não é todo dia que se vê a atriz em produções comerciais desse tamanho, tipo de trabalho ela parece desempenhar com facilidade. Por vezes, no entanto, os efeitos visuais parecem apressados, especialmente em cenas de maior escala, nas quais a integração entre personagens e ambiente digital perde um pouco de naturalidade. Há momentos em que o filme se aproxima mais de uma animação hiper-realista do que de uma produção em live action. Ainda assim, a ação é empolgante, com sequências de combate e exploração que fisgam a atenção e que funcionam como catalisadores da narrativa. Como aventura, Predador: Terras Selvagens se sai muito bem, abraçando sem vergonha o espírito de camaradagem e a mensagem sobre “o poder da amizade”. É um longa que entende sua própria simplicidade quanto a estrutura do texto, e a transforma em ímpeto, seguindo até o fim com um entusiasmo, mesmo nem sempre conseguindo resultados tão positivos nos fechamento dos arcos menores. Nota: 3/5
- Entrevista | “Gravar aqui é como revisitar a nossa história”, elenco de Corações Naufragados fala sobre o filme
Diretamente do set de filmagens e com exclusividade para o OP, Olivia Torres, Mina Nercessian, Rita Maia, Gabi Britto e Dalton Vigh compartilham as experiências da gravação em Sergipe. Imagem: Michele Becker No coração de Aracaju/SE, o Palácio Museu Olímpio Campos se transformou em cenário de uma história que mistura memória, emoção e cinema. Entre móveis antigos, jornais amarelados e a movimentação intensa da equipe, o Oxente Pipoca acompanhou um dia de gravação de Corações Naufragados, capturando detalhes que revelam o quanto este projeto é especial para Sergipe e para o cinema brasileiro. A produção revive acontecimentos da Segunda Guerra Mundial na costa nordestina, quando o submarino alemão U‑507 atacou navios civis e militares, deixando marcas profundas na população local. Para os atores, gravar neste espaço histórico vai muito além da atuação: é estar em contato direto com os lugares e memórias que inspiraram a história, vivenciando a emoção de personagens que dialogam com o passado real do estado. A roteirista Cacilda de Jesus, cuja avó sobreviveu ao torpedeamento do Baependi, já havia contado ao Oxente Pipoca, em entrevista exclusiva, como essa memória familiar deu origem ao roteiro do longa. Agora, nos bastidores da filmagem, Olivia Torres, Mina Nercessian, Rita Maia, Gabi Britto e Dalton Vigh compartilham suas experiências e o impacto de dar vida a personagens profundamente ligados à história de Sergipe. Leia na íntegra as entrevistas abaixo: Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Primeiro, é um prazer falar com você aqui na gravação do filme. O nosso portal, o Oxente Pipoca, é um portal de cinema que nasceu em Sergipe e fala sobre cinema, com foco no cinema brasileiro e no cinema nordestino. Então, pra gente, é muito legal estar aqui. Eu queria saber como está sendo, pra você, gravar um filme histórico, de fato, no lugar onde ele aconteceu.Dalton Vigh: Pois esse foi um dos maiores, se não talvez o principal motivo de eu fazer o filme. Claro, o personagem é muito bom, mas acho que o que mais me chamou a atenção é que a gente está contando um fato histórico que aconteceu no Brasil, aconteceu aqui em Sergipe. Acho que a população de Sergipe conhece bastante essa história, mas o Brasil, o resto do Brasil, acho que não se lembra mais. Eu acho muito importante a gente sempre olhar o passado, para a gente poder entender o presente e poder se preparar para o futuro, né? Eu acho que é assim que funcionam as coisas. Então, pra mim, foi um prazer ter sido convidado pra fazer esse personagem. É um almirante, né, da Marinha, então é um cara que se vê envolvido de duas formas aí com o episódio: não só pelo afundamento dos navios, mas também por conta da filha ser a repórter que noticia isso. Então, é um personagem riquíssimo, que eu acho que ajuda a dar um peso maior pra história da protagonista, sabe? É uma pessoa que acaba colocando obstáculos pra que ela atinja os seus objetivos. Enfim, então, de uma certa forma, eu sou o antagonista. Mas eu tô muito feliz de poder estar participando dessa produção, que, aliás, tá de parabéns. Eu acho muito legal que seja uma produção daqui. Enfim, eu acho que a produção cultural brasileira não devia se restringir à região Sudeste e tudo mais. Eu acho que tem muita história pra ser contada sobre o nosso povo, sobre os nossos estados, os nossos municípios pelo Brasil inteiro. A gente tem um território enorme, né? Imagem: Michele Becker Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu acho muito importante o fato de você estar gravando um filme no próprio lugar onde a história realmente aconteceu. Eu até comentei com o Dalton sobre isso. Acho que isso acaba trazendo uma carga emocional muito grande para todo mundo envolvido. Queria que você falasse um pouquinho sobre isso. Mina Oliveira Nercessian: A emoção é muito grande. E a coincidência da vida é que, na verdade, quando eu cheguei… eu moro fora, e quando eu cheguei no Brasil, eu contei pro meu pai que eu tava fazendo esse filme, e ele falou assim: ‘O meu tio morreu nesse navio.’ Caramba. Então eu fiquei assim, chocada, e vi assim que realmente era pra eu estar aqui fazendo esse filme, é… contar essa história, né? Honrar essas pessoas que perderam a vida. É, e, e, divulgar a nossa história, né? Porque as histórias, se a gente não, não, não eterniza elas com cinema, com livros, elas se perdem. Então eu vejo de uma importância muito grande. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A sua personagem é a mãe da protagonista, né? Queria que você falasse um pouquinho sobre isso, sem dar spoiler. Mina Oliveira Nercessian: Sim, não posso dar spoiler, mas ela… ela tá numa situação assim de conflito interno, digamos, porque ela, ao mesmo tempo que quer ajudar a filha, ela gosta, ela apoia a filha, ela também tem a situação com o pai, com o marido, né? Que ela também não pode, digamos… fica difícil pra ela se expressar do jeito que ela gostaria com o marido, que é um militar, que é mais rígido. Mas é um personagem muito interessante. Eu gostei muito quando eu li. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E como está sendo a experiência aqui em Sergipe? Mina Oliveira Nercessian: Maravilhosa. Estou amando Sergipe, eu acho assim… gostando demais. Tô achando tudo muito limpinho, muito lindo, as pessoas muito gentis, muito amorosas, assim… Tem sido um presente enorme poder ter vindo pra cá. Então, eu tô muito agradecida e muito feliz. Imagem: Michele Becker Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Curiosamente, há um ano eu estava entrevistando o Davi Pretto, que dirigiu Continente, um filme que você fez. E eu preciso dizer que é um dos meus filmes de terror favoritos do ano — e, assim, acho que da vida. Então eu fiquei muito feliz de saber que você estava aqui. E uma coisa em que eu fiquei pensando foi: você participou desse filme, que é um terror, quase um slasher brasileiro, no interior do Rio Grande do Sul; teve Ainda Estou Aqui; e agora você está aqui fazendo um filme histórico. Caramba! São personagens totalmente diferentes. Eu queria que você falasse um pouco sobre essa experiência, como atriz, de estar vivendo tudo isso. Olívia Torres: Ah, é muito massa. Fico feliz que você tenha assistido Continente, é um filme que eu amo também. Vou aproveitar e dizer que, agora na Mostra de São Paulo, o novo filme do Davi Preto, Futuro Futuro, que eu também fiz, foi vencedor de melhor filme, melhor roteiro, melhor montagem no Festival de Brasília. Vai estar na Mostra de São Paulo, assim como Aurora, do José Eduardo Belmonte, que é um filme também de terror, que eu faço também um monstro, uma criatura sanguinária, que a gente filmou dez anos atrás e agora vai ser lançado, comigo, com Carol Dickman, Humberto Carrão, Milena Cortazzoni e Matyruma. Fiz aqui o meu merchan. Mas eu amo muito navegar em gêneros. Também, no ano que vem, vai lançar um outro filme que eu fiz de gênero. Então, acho que eu tenho Ainda Estou Aqui no meio, mas tem uma sequência de vários filmes de gênero, e agora fazendo, voltando pra um filme histórico, mas que eu acho que, primordialmente, é um filme romântico, né? É um romance. É muito bom, assim, porque… ah, a gente é atriz, né? O que a gente gosta mesmo é de brincar entre universos e personagens, e ter essa oportunidade, que é rara, me deixa muito contente e completa mesmo. É muito legal, muito massa. E estar aqui também, né, com uma equipe que eu nunca tinha trabalhado antes, numa cidade que eu não conhecia, enfim, acrescenta também na experiência. É muito legal. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu ia perguntar justamente sobre isso: o que você está achando daqui e como é gravar um filme onde o fato realmente aconteceu. O que isso representa também para a atuação, estando dentro desses cenários e desse contexto? Eu queria que você falasse um pouco sobre isso. Olívia Torres: Ah, eu acho que eu só, principalmente, só tomei noção da importância desse fato para Sergipe estando aqui e conversando com as pessoas, inclusive fora do filme. Porque a gente, enfim, tá aqui já o quê… duas semanas e alguma coisa. A gente fofoca com o povo, né? Passeia, vai nos lugares, e aí eu tenho trocado com as pessoas aqui de Aracaju, e muitas têm muitos, muitos casos para contar: avó, bisavó, tia-avó, enfim… muitas memórias que estão me relatando sobre essa história. E é muito especial. Obviamente, a gente sente um senso de responsabilidade, de honrar essas vidas e essa memória. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Só pra encerrar, eu queria que você falasse um pouquinho: Ainda Estou Aqui foi um marco, e eu acho que ele abre portas para que o cinema brasileiro seja conhecido de forma mundial e mostre a nossa potência de cinema. E eu acho legal ver como isso abriu para que outras produções chegassem e alcançassem mais gente. E aí, Corações Naufragados eu acho que também marca um momento para ser lembrado no nosso cinema. Eu queria que você falasse sobre isso: como você vê o movimento do cinema brasileiro? Você comentou de alguns filmes que vão estar na Mostra, e você é uma atriz que participa bastante de filmes assim, por exemplo, de terror, filmes mais independentes, fora da zona comercial. Queria que você falasse um pouquinho de como você vê esse cenário do cinema brasileiro. Olívia Torres: Ah, acho que tá muito potente, né? Não que o cinema brasileiro não estivesse potente antes de Ainda Estou Aqui, pelo contrário. Tem um tanto de cineasta que eu admiro demais em todos os lugares do Brasil: Recife, Pernambuco, cineastas de Minas Gerais, enfim, do Sul, sempre fazendo filmes muito relevantes, importantes. Recentemente eu tava assistindo, ah, zapeando nos streamings, e vi um filme que eu não tinha assistido ainda, chamado Arábia, do diretor de Minas Gerais Afonso Uchoa. Muito especial. Mas eu sinto que algo mudou, e aí eu fico pensando o que que é. Porque eu acho que tem muito a ver com o interesse do público mesmo, sabe? Eu acho que os filmes sempre estiveram aí, mas eu sinto que o povo brasileiro tá muito mais interessado em saber o que tá sendo feito, o que tá sendo produzido, o que foi produzido, quais vão ser os caminhos pro futuro. Eu sinto que o Oscar dá realmente visibilidade pra um país, né? É só a gente ver o exemplo da Argentina, quando ganhou filmes no Oscar, foi um boom, lembra? Todo mundo super interessado em ver o que tava sendo feito por lá. Ou a Coreia do Sul, né, com Parasita. A gente sempre fica interessado no que tá sendo feito num país que vence melhor filme internacional. Então, sinto isso assim, acho que tá todo mundo numa certa efervescência, e fico comemorando, porque é um cinema muito rico o nosso, muito múltiplo, de todos os cantos. Tô torcendo muito por Agente Secreto. Imagem: Michele Becker Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como é estar participando de uma produção desse tamanho sendo uma atriz daqui de Sergipe? Rita Maia: Muito feliz, né? Uma oportunidade muito, muito interessante. Existem outras produções que eu já participei no estado, acho que todas que aconteceram por aqui de alguma forma eu sempre estive trabalhando, mas essa é bem especial por ser da Cacilda, que é uma pessoa que eu conheço já há 30 anos, uma amiga que começou a fazer teatro junto comigo. E por ser uma produção que fala dessa história que quase ninguém sabe, quase ninguém lembra. Então eu tô muito honrada em fazer parte. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Como você acha que essa experiência pode agregar também para o audiovisual sergipano? Rita Maia: Conhecimento, né? Foi um processo muito intenso de preparação de atores, feito pelo Rogério Troiano, que foi muito, muito interessante. Uma nova visão, diferente de preparação, que eu não tinha tido oportunidade antes, e gostei muito. E acredito que fica o legado, né? De que seja possível fazer uma produção desse nível, que temos bons atores para estar numa produção nesse nível, né? E que cada vez venham mais produções assim, para que a gente possa ter mais oportunidade no trabalho. Imagem: Michele Becker Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E aí, como tá sendo para você trabalhar em um longa de projeção nacional? Sendo atriz daqui de Sergipe, como tá sendo para você essa experiência? Gabi Britto: Eu tô muito feliz e honrada de estar trabalhando com a equipe, primeiro que é do Brasil inteiro, uma equipe de projeção nacional, e ainda mais que fala sobre a minha terra, sobre acontecimentos que aconteceram aqui, que eu ouvi de passagem quando eu era criança. Eu tive uma casa, quando eu morava aqui, a última casa que eu morei, que era na praia, então eu passava todos os dias pela Praia dos Náufragos. A gente, que é daqui, sempre ouviu falar da Rodovia dos Náufragos, mas infelizmente poucas pessoas sabem o porquê. Então assim, eu tô muito feliz em fazer parte dessa história, porque eu acho que é uma história que vem para trazer, primeiro para Sergipe, um conhecimento de história que foi pouco explorado. Os historiadores, como a Cacilda e o Luizão, batalharam para pesquisar toda essa história e trazer isso à tona. Então é algo que é muito importante e que a gente vai começar a valorizar ainda mais a história do nosso estado. Então eu tô muito feliz porque é um projeto incrível, que eu acredito e que vai levar Sergipe, essa história que aconteceu, para o Brasil inteiro. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Eu tava comentando uma coisa legal, que eu acho que vai tocar muito quem é daqui, e eu acho que o Brasil inteiro também, de se reconhecer, reconhecer lugares, né? Reconhecer… enfim. Eu acho que às vezes a gente já se reconhece no sotaque de alguns atores. Eu acho que isso, muito além da história, também é algo que toca a gente. Gabi Britto: Eu sou uma atriz sergipana, mas eu já moro há 8 anos em São Paulo. Então, quando eu vim para cá para fazer a primeira leitura do texto, primeiro eu fiz uma leitura com o elenco local, e foi muito emocionante. Ouvi as vozes dos artistas sergipanos, falando do seu jeito, da sua forma. Eu saí muito emocionada nesse dia e tenho a possibilidade hoje de estar com o elenco local, com elenco que tá vindo para Sergipe, que também tá muito feliz de estar conhecendo Aracaju. A gente passa os dias juntos, passeia. É muito bom. Então essa eu tenho… estou tendo a oportunidade de ter essa troca com todos eles. Então tem sido muito forte, assim, para minha experiência como pessoa e como atriz. Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E assim, como você acha que Corações Naufragados pode marcar, trazer esse olhar especial? Eu acho que Sergipe é lindo, né? É um espaço incrível, que dá para gravar milhões de histórias de vários tipos. Como você acha que o filme pode trazer esse olhar para outras pessoas do meio? Até para, sei lá, futuras produções serem gravadas aqui? Gabi Britto: Eu acho que é muito importante. É uma super oportunidade de olhar para o nosso estado com essa visão de direção de arte, de direção de fotografia, que é super possível. E eu acredito que esse trabalho está acontecendo aqui dessa forma. Não só a história, que é fruto do trabalho da Cacilda, que lutou para que tudo de fato fosse gravado aqui, para que esse cenário fosse o pano de fundo. Então, eu acho que o estado só tem a ganhar, e que mais produções cheguem aqui para os atores trabalharem, para as atrizes trabalharem, roteiro, direção, tudo. O estado pode fazer isso. Então, eu espero mesmo que seja o primeiro projeto desse porte, porque projetos acontecem aqui, isso é importante ser falado. Sim, a galera produz, mas que cada vez isso cresça e tenha visibilidade, porque a gente tem muito a oferecer.
- Entrevista | “A gente não escapa da religião”: Marco Dutra reflete sobre o Brasil em Enterre Seus Mortos
Em entrevista ao Oxente Pipoca, o diretor Marco Dutra fala sobre Enterre Seus Mortos, destacando o desafio de adaptar o livro de Ana Paula Maia e de explorar um universo apocalíptico inédito em sua filmografia. Imagem: Divulgação Enterre Seus Mortos, novo longa de Marco Dutra, estreou nos cinemas de todo o Brasil no dia 30 de outubro de 2025. Na trama, Edgar Wilson (Selton Mello) trabalha recolhendo animais mortos nas estradas da fictícia cidade de Abalurdes. Ao seu lado estão Tomás (Danilo Grangheia), um padre excomungado, e Nete (Marjorie Estiano), sua chefe. Juntos, eles enfrentam os sinais de que um arrebatamento final pode estar próximo, em meio a um mundo em decadência e dominado pelo medo do fim. O Oxente Pipoca entrevistou o diretor Marco Dutra, que falou sobre os desafios e as motivações por trás de Enterre Seus Mortos, adaptação do livro de Ana Paula Maia. Na conversa, ele reflete sobre como o filme aborda o fanatismo religioso, a decadência social e o medo do fim, temas que dialogam com o Brasil contemporâneo. Dutra também comenta sua busca por renovação artística, o papel da fé em sua filmografia e indica cineastas brasileiros que o inspiram, convidando o público a uma experiência sombria e reflexiva sobre humanidade e crença. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Para começar, queria te perguntar sobre esse novo desafio. Como o projeto de Enterre Seus Mortos chegou até você e como foi lidar com a adaptação do livro da Ana Paula Maia? Além disso, percebi que o filme tem muitas cenas externas, o que amplia o escopo da produção. Como foi esse processo técnico e narrativo? Marco Dutra: O convite veio do Rodrigo Teixeira, bem no ano-novo de 2020. Ele me ligou para desejar feliz ano-novo e perguntou se eu já tinha lido Enterre Seus Mortos. Eu conhecia a Ana Paula Maia, já tinha lido outro livro dela, mas esse ainda não. O Rodrigo tinha os direitos do livro e me disse: “Acho que você vai gostar muito”. Coloquei na frente da minha fila de leituras e li logo em seguida. É um livro conciso, afiado e duro, e gostei demais. O personagem Edgar Wilson e esse universo que a Ana cria, com lugares fictícios como Abalúdes e o Vale dos Cominantes, me seduziram muito. A ideia de fazer um filme fantástico, situado nesse pré-apocalipse, me atraiu de imediato. Era um subgênero que eu ainda não tinha explorado. Entrei em contato com a Ana, primeiro virtualmente, porque ela mora em Curitiba, e fomos ficando amigos ao longo do processo. Ela me deu total liberdade na adaptação. Nos meus filmes, eu costumo filmar situações domésticas, é um universo que venho explorando com a Juliana Rojas e o Caetano Gotardo, meus parceiros de vida e de cinema. Mas esse filme tinha um aspecto de “estrada”, como a própria Ana chama, um “filme estradeiro”. Esse deslocamento, essa escala maior de um mundo em decadência, foi um desafio novo. A Ana trabalha com referências bíblicas, kafkianas e elementos de literatura de gênero. A própria Companhia das Letras define o livro como um misto de faroeste, horror, novela policial e romance filosófico. Todas essas ferramentas me interessam muito, então o processo foi prazeroso. O difícil foi que, em março, a pandemia chegou. Escrever essa história nesse contexto drástico, com tantas perdas e incertezas, foi delicado. Mas também me fez compreender mais profundamente o tema do apocalipse, que é algo que a humanidade sempre revisita. Percebi que vivemos vários “apocalipses diários”, e que o medo do fim da humanidade faz parte da nossa formação filosófica. Imagem: Divulgação Caio Augusto (Oxente Pipoca): Eu vi o cartaz de Quando Eu Era Vivo ao fundo da sua sala e me veio a curiosidade: como Enterre Seus Mortos se encaixa na sua filmografia? Ele seria uma síntese de trabalhos anteriores como Trabalhar Cansa, Quando Eu Era Vivo e As Boas Maneiras, ou marca uma ruptura, uma nova direção? Marco Dutra: O que eu tento — e digo “tento” porque não sei o grau de sucesso disso — é não me repetir. É uma forma de manter viva minha paixão pelo cinema: me desafiar, buscar algo que renove meu interesse. Vejo cada filme como um tijolo que vou colocando na parede. Se isso forma um muro ou não, não sei (risos). Mas tenho um interesse constante por gênero e fantasia, algo que me acompanha desde criança. Acho que são ferramentas dramáticas poderosas, que permitem trabalhar fora dos limites do realismo. Nem todos os meus filmes têm elementos sobrenaturais, mas quase todos têm um certo desassossego — um desconforto na gênese. Gosto de investigar por que sentimos medo, perturbação, mesmo cercados de amor e paixão. Quando revejo meus filmes, às vezes percebo estratégias repetidas, mas minha busca consciente é sempre pela renovação. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Enterre Seus Mortos lida muito com o fanatismo religioso e com a manipulação da fé. Como você acha que o filme dialoga com o Brasil de hoje, politicamente e socialmente? Marco Dutra: No livro da Ana, os comportamentos ligados ao fanatismo são vagamente evangélicos. Conversando com ela, senti que precisaria expandir isso, adaptar, não copiar. Literatura e cinema são linguagens muito diferentes. Criei no filme a comunidade de Soroshi, que surge em meio ao desespero, prometendo salvação e um novo estado de existência. Situações de desesperança estimulam essa busca por fé, e me incluo nisso. Ao mesmo tempo, temos o Tomás, um padre excomungado, e o personagem do Carlos Francisco, que tem outra fé. Essa multiplicidade é interessante, porque a Ana trabalha muitas referências bíblicas. E, de fato, vivemos cercados pela religião, frases, ditados, modos de pensar. Não dá para escapar dela. A política se apropria da fé para disputar poder e território. Não sinto que preciso “criticar” isso, é um dado da realidade. O mundo é muito religioso, e o cristianismo e o islamismo são as maiores expressões disso. De certa forma, Quando Eu Era Vivo, Todos os Mortos e Enterre Seus Mortos formam uma trilogia da fé e da crença. Todos lidam com a morte, que é uma das bases das religiões. No Quando Eu Era Vivo, há ritos inventados e uma história de fantasmas; em Todos os Mortos, as tensões entre cristianismo e candomblé; e agora, em Enterre Seus Mortos, o fanatismo e o apocalipse. Caio Augusto (Oxente Pipoca): Por fim, temos uma tradição no Oxente Pipoca de pedir que vocês indiquem algum filme do cinema brasileiro que gostem, além de Paterno, é claro, para que nossa audiência possa assistir e conhecer outras obras. Marco Dutra: Eu sempre indico Amélia, da Ana Carolina, e toda a obra dela. É uma cineasta que revisito sempre, cada vez descubro algo novo em Mar de Rosas ou Sonho de Valsa. Ela merece ser mais vista e discutida. Entre colegas da minha geração, adoro o trabalho da Gabriela Amaral Almeida. Estou curioso para ver o novo filme dela, O Animal Corajoso. Também cito o Rodrigo Aragão, que trabalhou em Enterre Seus Mortos e lançou O Cemitério das Almas Perdidas e Prédio Vazio, ótimos filmes dentro do gênero. Historicamente, recomendo Humberto Mauro: Ganga Bruta é um filme que me marcou muito. Também São Paulo, S/A, do Person. E, claro, Mojica, Coutinho… poderia ficar horas. Por fim, destaco a obra do Walter Hugo Khouri, que foi muito importante para mim e para a Juliana Rojas. Descobrimos As Deusas e até fizemos um curta chamado As Sombras em homenagem a esse filme.
- Crítica | De Lugar Nenhum (Mostra de SP 2025)
O processo criativo e as sensibilidades de um escritor encenados ao redor do mundo Foto: Reprodução Em determinada cena de De Lugar Nenhum, o escritor português Valter Hugo Mãe caminha por uma estrada no meio do nada na Islândia, quando uma criança então corre em sua direção. A mãe vem logo atrás, gritando seu nome até alcançá-la antes que a menina alcance Valter, e a puxa de volta agressivamente, enquanto relâmpagos cortam o céu e ele permanece imóvel. O caráter meio fantasioso do momento se justifica quando enfim percebemos, algumas cenas adiante, que tanto a menina quanto a mãe são fruto da imaginação do escritor, o qual viaja pelo país para coletar ideias para seu romance A Desumanização. Dirigido por Miguel Gonçalves Mendes, De Lugar Nenhum faz parte do seu projeto documental O Sentido da Vida, o qual acompanha diversas figuras contemporâneas que, nas suas palavras na entrevista feita com ele (a qual você pode conferir aqui), representam áreas específicas e simbolizem a luta por um mundo melhor em tempos tão loucos. A escolha por Valter Hugo Mãe para representar a literatura se revela mais que fortuita, visto que a bibliografia do escritor é fortemente fundamentada na alteridade e no olhar para o Outro. Foto: Reprodução Assim, o documentário evita abordagens tradicionais no sentido de buscar uma abordagem biográfica de Hugo Mãe, mas permite que o próprio entrevistado conduza essa narrativa e desnude seu processo de escrita perante o público. E que processo: é fascinante mergulhar na mente e nas palavras do escritor, ser envolvido por seu olhar sensível e curioso (e também muito bem-humorado). Como escritor, é difícil não ser tocado pela maneira como sua personalidade é tão atraída por conhecer o Outro, bem como as maneiras pelas quais sua mente vai organizando as ideias que comporão a versão final do livro, especialmente pela escolha acertada de Gonçalves Mendes de encenar momentos da própria obra literária, como na cena descrita acima. São os instantes de maior frescor dentro da obra, que no geral segue uma encenação bem protocolar, sem muitos riscos. A câmera foca majoritariamente em Valter, seja sozinho ou em interações com os outros (as suas conversas com a mãe superprotetora são divertidíssimas). Quando a câmera se afasta do escritor e seu processo, ou da “adaptação” de A Desumanização, é visível como ele perde força, como na sequência de conversa com Laerte, que, ainda que mostre a riqueza da amizade dos dois, parece um certo desvio de rota que prejudica o ritmo da obra já tão curta. De Lugar Nenhum é a expressão do exercício de um escritor em imaginar vidas e mundos. Somos essa classe “legitimada” a mergulhar e extrair dos outros para dar corpo às nossas histórias, mas ver as nuances com as quais Hugo Mãe realiza esse processo serve de inspiração, especialmente pela sensibilidade com a qual isso é feito e mostrado. Mesmo em seu aspecto mais convencional em termos de forma, o filme se revela bem-sucedido em nos revelar como funciona a mente de um escritor tão conceituado e marcado pela prática da alteridade. Nota: 3/5
- Crítica | Springsteen: Salve-me do Desconhecido
Recorte de período soturno do artista desenham o espaço do moderado longa Foto: Reprodução Uma crônica da criação do álbum Nebraska de Bruce Springsteen, de 1982, quando ele era um jovem músico à beira do estrelato, lutando para conciliar as pressões do sucesso com os fantasmas do seu passado. Baseado no livro de Warren Zanes. Sempre abordo o mesmo tópico quando escrevo sobre cinebiografias, mas um recorte bem demarcado é importantíssimo para o bom desenvolvimento de um filme sobre uma personalidade. É um fator que valida a filmagem de uma história, é o que vai diferenciá-la de tantas outras existentes e possivelmente semelhantes em vários aspectos. Springsteen: Salve-me do Desconhecido escolhe a dureza e o início do enfrentamento de questões pessoais, mentais e sentimentais do artista para refletir seu talento, sua expressividade e sua visão de mundo. O roteiro tenta organizar as possíveis causas - subjetivas, sociais e políticas - que convergiram para que a mente de Springsteen entrasse num vórtex de negatividade e questionamentos existenciais durante um crítico período de ascensão da sua carreira. E o filme consegue expressar todas essas vertentes dentro de um molde comportado e sistemático demais, o que não chega a comprometer a execução, mas tira parte da força da narrativa. Foto: Reprodução Jeremy Allen White veste muito bem as roupas de personagens deslocados, depressivos e ansiosos, e, para além da semelhança física com Bruce, ainda cantou e tocou gaita com um nível de profissionalismo que considero relevante para atores que pretendem dar vida a papeis de músicos reais seja no teatro, televisão ou cinema. O ator entrega um trabalho equilibrado e bem construído em cima dessa angústia existencial, e replica muito bem os traços performáticos do papel-título. E Jeremy Strong mais uma vez parece tornar fácil o trabalho de contrapor protagonistas com coadjuvantes também complexos e cheios de personalidade. É um longa com um bom desempenho apesar de sua estrutura formal demais que, por vários momento, ameaça cair numa cadência enfadonha, mas a direção de Scott Cooper percebe exatamente quais momentos deve virar alguma chave no dinamismo para não deixar o texto adormecer em meio ao que está sendo filmado. Este é um filme que acerta na abordagem e no tom da alienação e sentimento de opressão diante da sociedade e das instituições, e mesmo que não contasse a história de um nome famoso, ainda assim teria um resultado positivo pela consistência do seu teor. Nota: 3,5/5
- Entrevista | “Pode se encontrar a resposta nos outros”: Valter Hugo Mãe e Miguel Gonçalves Mendes falam sobre “De Lugar Nenhum” (Mostra de SP 2025)
Em entrevista ao Oxente Pipoca, escritor e diretor portugueses discutiram a relação da literatura com alteridade e a exibição do documentário em São Paulo Foto: Mariane Morisawa Poucas figuras podem se gabar de cultivar uma relação tão próxima com a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo neste ano como Valter Hugo Mãe. O escritor e artista português, além de responsável pela arte que estampa a 49ª edição da Mostra, também tem um de seus livros, O Filho de Mil Homens, adaptado em forma de filme (que você pode ler a crítica aqui), além de ser protagonista do documentário De Lugar Nenhum, dirigido pelo seu conterrâneo Miguel Gonçalves Mendes. Parte do projeto O Sentido da Vida, dedicado a acompanhar diversas figuras contemporâneas, o filme acompanha a jornada de Hugo Mãe pelo mundo (passando pela Islândia, Colômbia, Brasil, Macau e Portugal) conforme concebe, escreve e publica seu sexto romance, A Desumanização. O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Valter Hugo Mãe e Miguel Gonçalves Mendes durante a Mostra. A dupla discutiu o processo do documentário, bem como do romance, além de comentarem sobre a relação próxima que ambos têm com São Paulo, especialmente no contexto de lançamento do longa. Você pode acompanhar a entrevista na íntegra abaixo: Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Miguel, você tem feito esse projeto O Sentido da Vida, sobre diversas figuras contemporâneas. Como você as escolhe para serem personagens dos seus documentários e em que medida Valter se enquadra no que você busca retratar em seu projeto? Miguel Gonçalves Mendes: A minha ideia era que o projeto fosse marcar o tempo deste mundo esquizofrênico que a gente tá vivendo e como podemos melhorar e lutar por um mundo um pouco melhor. Então, a ideia era ter, através de cada personagem, refletir a humanidade, e por isso é que temos a literatura, a política, a justiça, a vida sexual; portanto, é uma gama de personagens que representam cada uma destas áreas. No caso do Valter, a coisa foi um pouco diferente, porque eu tinha lido um livro dele, O Apocalipse dos Trabalhadores, que é um livro que eu amo, e achei que ele era pessoa ideal para eu ter na literatura. E aí então fui decido a acompanhar o processo de escrita de A Desumanização, que era o livro que o Valter estava desenvolvendo na época. E fomos ver as primeiras viagens dele fazendo pesquisa na Islândia, depois acompanhando na Colômbia, no Brasil, Macau, enfim. São várias geografias do mundo em que nós vemos o que é a vida de um escritor em trânsito, que tem que também estar a escrever um livro e lidar também com as questões das exigências sociais, palestras e de autógrafos e de relação com os fãs. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Valter, o filme trata muito do seu processo de escrita, especialmente considerando que sua obra é muito voltada a esse olhar para o Outro e estamos vendo um livro que se passa em um país que não é o seu, protagonizado por uma personagem que não necessariamente é você. Eu também sou escritor e sei que cada um tem seu próprio processo, mas o que você consideraria serem pontos principais do seu e que você sugeriria a outros escritores, especialmente em relação a esse olhar de alteridade que muitas vezes buscamos assumir? Foto: Reprodução Valter Hugo Mãe: Eu estou convencido de que se por natureza você não encontrar resposta dentro de você mesmo, pode se encontrar essa resposta nos outros. A nossa necessidade de buscar uma resposta significa imediatamente que a gente não encontrou dentro, que na nossa intimidade ela não nos foi oferecida. Ela pode estar dentro de nós de alguma forma, e tem de estar. Porque ela só vai ser uma resposta para nós se competir à nossa natureza. Mas se você procura essa resposta, é porque por natureza ou por inerência você não encontrou em si. Então, a única hipótese é encontrar nos outros. A única hipótese é você criar processos de empatia e de identificação no que os outros são e no que os outros conseguiram alcançar. Então, para mim isso foi sempre muito claro. Eu vou sempre ter a sensação de que estou a escrever sobre mim, ainda que a única hipótese, a única coisa que faz sentido é escutar quem são os outros. E por isso eu vou escutar os outros e, no fim vou sempre chegar a quem eu sou. Eu vou sempre agregar, vou sempre acumular aquilo que eu descubro sobre mim mesmo. É um processo do filme do Miguel, ele mostra isso, como as coisas são um pouco à deriva e elas acontecem num vazio ou num silêncio que eu acabo por comportar, e que só vai ter resposta no ruído que pertence aos outros. E esse silêncio é representativo de tudo, ou significa tudo, significa o lugar que eu não ocupo, o espaço, o tempo que não é meu, o corpo que não é meu. Tudo o que não me pertence, que não é da minha realidade, mas que eventualmente contém a resposta que eu não consigo encontrar na minha realidade. E por isso as viagens à Islândia, por isso as viagens ao Japão, por isso as viagens ao Brasil, estou com os meus livros, os meus livros têm mostrado muito a convicção de que aquilo que soluciona a minha vida pode não ser uma descoberta da minha vida, mas da vida dos outros, e vai solucionar a minha vida. Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme vai intercalando com cenas que trazem as palavras e páginas do livro à vida. Obviamente que não se trata de uma adaptação direta, mas o que os levou a fazerem essas cenas e como foi o processo de gravá-las para intercalá-las com as cenas de Valter? Miguel Gonçalves Mendes: Como estamos acompanhando o processo de escrita de um livro de um escritor, é como se tivéssemos vendo aquilo que vá na cabeça dele, como se a narrativa fosse construindo ou desconstruindo. Isto é aquela narrativa como está lá, ela nem tem necessariamente que ser linear. Aquilo pode ser uma cena que o Valter voltou atrás, reescreveu e tá escrevendo de novo. Agora o que eu queria era dar corpo àquelas personagens, queria dar o ambiente. No fundo, o ambiente é o que o Valter procura na Islândia retratar e que esteja ali refletido naquela ficção. Portanto, mesmo quando você não tá na Islândia, você tá sempre acompanhando a Islândia, porque existem estes momentos de escrita em diversas partes do mundo em que o Valter escreve o livro. Valter Hugo Mãe: No início não sabia que o Miguel tinha a intenção de fazer essa adaptação da ficção, mas acho que é uma das grandes vitórias deste filme, porque de fato permite que ao mesmo tempo que o observador, quem vê o filme, veja a cabeça do escritor meio em busca, já esteja dentro da cabeça do escritor. Permite que o livro compareça um pouco no imaginário em que a gente anda, no espaço, plantando figuras, plantando personagens para que elas se movam ali e no fundo. Ao mesmo tempo em que ele está mostrando o livro, está dentro do pensamento. É essa permissão para entrar numa dimensão puramente impossível, mas que é como funciona a imaginação, é como funciona a literatura de alguma forma. Miguel Gonçalves Mendes: E também de alguma forma aproxima o espectador do próprio retratado que é o Valter, porque ele se coloca na posição. Portanto, a partir do momento em que o espectador vê o pensamento do Valter, passa a ser o pensamento do espectador que tá vendo o filme na tela. Isso eu acho que é uma coisa que é legal. Valter Hugo Mãe: Sim. É quase como assistir à imaginação, como a imaginação inventa um livro. E isso fica mostrado no filme, fica evidenciada, materializada, porque é uma coisa muito abstrata de explicar em que instante ou como é o instante da invenção de uma personagem, de uma situação, de uma cena qualquer. E ali eu olho e me lembro de percorrer aquelas paisagens e repente imaginar, de inventar aquela criança movendo-se naquelas paisagens. É curioso olhar e parece que ela deitou ali o corpo. De repente o corpo dela é real, os pais são reais. Eu acho que cria uma força muito grande e nós relacionamo-nos empaticamente de uma forma muito imediata com aquela criança. Miguel Gonçalves Mendes: Eu acho que o fato estarmos sempre acompanhando a realidade, no sentido de acompanhar mesmo o Valter e o processo, faz uma coisa que eu acho que espero que as pessoas entendam e que seja um trabalho bem conseguido, que é o fato de que este não é um documentário didático, nem pedagógico que diz: "Ah, o Valter nasceu aqui e teve estes pais". Não, eu espero que as pessoas saiam da sala com a sensação que conheceram o Valter, entendeu? E não dessa forma tradicional, mas de uma forma orgânica, como se estivessem mesmo vivendo o dia-a-dia daquilo que eu estava vivendo. E é por isso que as pessoas se identificam com as questões que ele próprio coloca e que são universais. Esta questão do medo da solidão, se vamos amar alguém ou não, o que é estarmos sozinhos, de tudo isso, eu acho que permite a quem assiste o filme se colocar as mesmas dúvidas e então o filme novamente passa a ser sobre o sentido da vida. Foto: Reprodução Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): O filme traz algumas perspectivas bem interessantes sobre São Paulo, como um "país compacto". Como está sendo ter o lançamento do filme aqui na Mostra de SP, especialmente para você, Valter, que tem essa relação muito próxima no Brasil e que está nessa relação tripla neste ano, com este documentário, o pôster para a Mostra e o lançamento da adaptação de "O Filho de Mil Homens"? Valter Hugo Mãe: Eu fico sempre um pouco espantado com a maneira como as pessoas me recebem, com o fato de conhecerem o meu trabalho, lerem os meus livros, é algo que eu não me consigo propriamente me habituar. Então, há sempre essa coisa que é meio Alice no País das Maravilhas. E São Paulo é muito um País das Maravilhas, no sentido em que você entra nesta espessura, nesta opacidade. Lembro-me das primeiras vezes; de início, não entendia nada. Tudo parecia demasiado excessivo, escondido, as coisas não se revelavam, não eram fáceis, mas subitamente ao fim de tantos anos, eu encontro em São Paulo uma das cidades mais prazerosas que eu conheço, que devolve muita cultura, muitas exposições, muitas galerias, muitas livrarias, muitos livros, muitas editoras, e tudo está traduzido aqui no Brasil – e por isso é a desgraça das minhas finanças [risos]. Eu acho que São Paulo tem essa produção de tudo ser possível. Você pode encontrar todos os livros, mas também você pode encontrar todas as pessoas. E então, essa fortuna humana para mim é muito é muito importante. Que as pessoas não sejam como eu as conheço, mas sejam como elas têm de ser. E por isso eu venho, entro na cidade com a impressão de que há muito para aprender e de que aquilo que eu sei, de que aquilo que eu vi ainda não é nada do que há para ver. E a maioria das vezes em lugares mais pequenos, em lugares mais quietos, as pessoas tendem a ser um pouco mais padronizadas, mais convencionais, talvez obedeçam a tradições às quais elas não conseguem escapar. E uma cidade como São Paulo, ela por tradição não tem muita tradição. Então, ela propõe sempre uma humanidade muito mais futura. E isso comporta os seus riscos, mas também oferece sobretudo a oportunidade de repensar o que é a humanidade que queremos, de repensarmos aquilo em que acreditamos. Miguel Gonçalves Mendes: E no fundo, no filme, aquela sequência do país compacto, é efetivamente uma homenagem à cidade não só do escritor, como também do diretor que também teve que prestar essa homenagem. Porque o Valter tem muita razão, este é um lugar tão especial, tão grande e às vezes tão difícil de apreender, mas em que temos uma liberdade total, que faz de fato com que isto seja um país compacto, um país bom para viver aqui. É um lugar para mim mágico também, onde eu vivi 7 anos da minha vida. Portanto, foi muito importante para mim.
- Crítica | Chad Powers: O Quarterback (1ª temporada)
Glen Powell tem bastante talento e carisma, mas não o suficiente para salvar uma série tão limitada Imagem: Divulgação Gosto muito de Powell, adoro futebol americano e histórias de superação esportiva, então fui conferir Chad Powers com o coração aberto e a melhor das expectativas, mas a decepção já aconteceu nos primeiros episódios. Oito anos após Russ Holiday (Powell), um astro do futebol americano universitário, cometer um erro imperdoável, ele se disfarça de Chad Powers, um esquisitão, porém talentoso jogador, que consegue entrar para os Catfish, um time de uma faculdade da Geórgia do Sul. Com a ajuda de Danny (Frankie A. Rodriguez), ele se esforça para manter essa vida dupla. A premissa não é lá muito inovadora e a série quer claramente beber da influência de Ted Lasso e Friday Night Lights, mas é uma pena que seja tão rasa em tentar construir uma identidade para si. Russ é um babaca e Chad é um poço de gentileza. De início, o roteiro já pretende fazer essa delimitação sem muita nuance. Chad é bom e Russ é mau. Ninguém gosta de Russ, mas todo mundo adora Chad, que vai conquistando a confiança do treinador Jake (Steve Zahn) e da sub treinadora Ricky (Perry Mattfelfd). Além de Danny, é com eles que a série se preocupa em construir alguma conexão. O resto do time fica à deriva e mesmo que o texto nos diga que há uma importância, não consegue mostrar. A trama em si, nunca é sobre a paixão pelo futebol, mas sim sobre a mentira de Russ e praticamente todo episódio gira em torno do “quem sou eu?”, e onde isso vai dar é exatamente onde se espera. Powell consegue transitar bem entre o timing cômico e os conflitos dramáticos internos de Russ/Chad, interpretando, obviamente, duas personalidades bem diferentes. Ele merece todos os elogios, porque é quem mais tenta dar vida a um texto tão superficial. Tem uma boa química com Mattfeld, já que o protagonista tem uma quedinha por Perry. As dinâmicas com Jake - Steve Zahn sempre ótimo - e com Danny são bacanas de se acompanhar, mas por mais que passemos tempo com eles, tudo é subdesenvolvido e ao invés de avançar, se torna repetitivo. Usar todos os clichês possíveis, não é o problema, porém não ir além deles, é o que impede a série de se sobressair. Imagem: Divulgação Criada pelo próprio Powell e por Michael Waldron, eu tinha confiança em um trabalho melhor por conta de Powell ser co-roteirista (com Richard Linklater) de Assassino por Acaso, um dos meus filmes favoritos dos últimos anos e que também aborda disfarces, dualidade, personalidade e etc. Aqui, ele só escreveu o primeiro dos seis episódios e se começa somente simpática, não há evolução no que vem depois. É uma tortura de se assistir? Não. De vez em quando alguma piada funcionava e eu esboçava um riso, o fato de ter meia hora de duração também, definitivamente ajudou. No final, quando Russ tem sua previsível percepção de que ele pode ser uma boa pessoa igual Chad – até porque ele é Chad, dã –, o roteiro tenta ter alguma profundidade, mas é tudo tão óbvio que não consegue gerar qualquer comoção. O que mostra exatamente o calcanhar de Aquiles da série: é assistível, mas superficial demais para não ser esquecível. Pelo gancho deixado, há um desejo para que exista uma 2ª temporada. Ela é necessária? A 1ª mal conseguiu dizer a que veio, então uma eventual 2ª não me deixa animado. Nota: 2,5/5
- Filmes sergipanos são destaque em mostra competitiva do Curta-Se 24
Programação leva cinema, rodas de conversa, congresso, shows e masterclass com entrada gratuita e voltada para todas as idades Imagem: Divulgação Entre os dias 3 e 9 de novembro, Ministério da Cultura e Petrobras apresentam o Festival Ibero-americano de Cinema de Sergipe (Curta-Se 24). Uma realização AVBR Produções, o evento promete transformar Aracaju e região em uma verdadeira referência do cinema independente, da diversidade cultural e da produção audiovisual nacional e internacional. O evento, que há mais de duas décadas se consolida como um dos mais importantes do audiovisual independente no Nordeste, apresenta uma mostra especial dedicada às produções sergipanas, reforçando o compromisso do festival com o fortalecimento da cena local. Com o tema “Amor Fati - território do querer”, a abertura do evento, realizada na próxima segunda-feira (3), no Teatro Tobias Barreto, terá a exibição do longa "O Agente Secreto", novo filme de Kléber Mendonça Filho, e contará com a presença das atrizes cearenses Suzy Lopes e Geane Albuquerque. Conhecido por seus papéis em filmes como ‘O Auto da Compadecida’, dirigido pelo pernambucano Guel Arraes, o ator, diretor e roteirista Matheus Nachtergaele será o grande homenageado do festival. Já a carioca Alice Caymmi comanda o show de abertura. A entrada será garantida mediante doação de 2 Kg de alimentos não perecíveis, com a troca feita neste sábado, 1º, a partir das 10h, na lateral do Teatro Tobias Barreto. A Mostra Sergipana acontece na terça-feira (4) no Memorial de Sergipe, e reúne oito curtas-metragens que dialogam com questões sociais, culturais e identitárias, apresentando ao público narrativas marcadas por afeto, resistência e criatividade. Entre os filmes selecionados estão Aracaju – Uma Viagem no Tempo, de Fábio Jaciuk; Cancioneiras – Embarcações Poéticas, de Elaine Regina Bomfim Gomes; Coisa de Preto, de Pâmela Peregrino; Donas da Cultura Popular – Madá, de Jonta Oliveira; O Armário de Gisélia, de Eudaldo Monção; Sergipe Way, de Gessica da Silva Lima; Sobre Plantas, Mãos e Fé, de Danielle Azevedo e Gabriela Alcântara; e Sonata Beladona, de Antônio Rafael Gomes Maia. Imagem: Divulgação Além do júri oficial, a Mostra Sergipana também contará com júri popular, onde o Festival permite a participação popular ativa no processo de avaliação das obras, votando em seu curta-metragem favorito ao fim da sessão. Durante a programação, o público poderá contemplar 48 produções nas mostras competitivas, entre 20 curtas ibero-americanos - com destaque para o longa-metragem "Morte e Vida Madalena", de Guto Parente - 8 curtas sergipanos, 5 longas-metragens, 4 trailers, 5 vídeos de bolso, 4 videoclipes e 3 webséries. Além das sessões, o Festival promove masterclass com especialistas em pitching, curadoria cinematográfica e mercado audiovisual, com nomes como Kênia Freitas, Izabel Cruz, Marcelo Ikeda e Rafael Sampaio. Outro destaque do Curta-Se são as sessões voltadas para o público infantil com a Mostra Festivalzinho e também a Mostra Acessibilidade, promovendo a inclusão por meio do audiovisual. Os vencedores serão revelados na cerimônia de encerramento e premiação, que acontece no domingo (9) no Cine Walmir Almeida, no Centro Cultural de Aracaju. Além do tradicional troféu aos vencedores, o Curta-Se 24 também oferecerá uma premiação financeira especial para o melhor curta sergipano, escolhido pelo júri popular, uma iniciativa que reconhece e incentiva a produção audiovisual do estado. Segundo Rosângela Rocha, diretora do festival que conta com o patrocínio da Petrobras, por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, o destaque dado às produções locais reafirma a vocação do Curta-Se como um espaço de valorização do audiovisual sergipano. “Desde a sua criação, o festival tem sido uma vitrine para o cinema feito em Sergipe. É uma alegria ver novas vozes surgindo, com trabalhos potentes e representativos da nossa identidade cultural”, afirma. O Festival conta com patrocínio da Petrobras, Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, através da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet); apoio cultural do Cine Walmir Almeida, da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap) e do Governo do Estado de Sergipe, por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), e do Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa; além do apoio institucional do Ibero Fest, Avanca Film Festival, VIII Congresso das Coalizões pela Diversidade Cultural e do Fórum dos Festivais. Confira a programação completa: Sábado (01/10/2025): Local: Teatro Tobias Barreto: Horário: 10H ÀS 17H (OU ATÉ ESGOTAR) Retirada de ingressos para a cerimônia de abertura. Cada ingresso será trocado por 2kg de alimentos não perecíveis. Cada CPF dá direito à troca de 2 ingressos. Segunda-Feira (03/10/2025): Local: Teatro Tobias Barreto (Sala Petrobras de Cinema) Online - Mostra Vídeo de Bolso (Curtase.Com.Br) - Disponível para Votação Popular até 08/11. 18h30 – Cerimônia de Abertura 19h - homenagem especial - Matheus Nachtergaele 19h15 – Sessão especial: ‘ O Agente Secreto' (dir. Kléber Mendonça Filho) 22h30 – Atrações Artísticas - Show de abertura – Alice Caymmi Terça-Feira (04/10/2025): Local: Cine Walmir Almeida | Sala Petrobras De Cinema – Entrada Franca 9h – Sessão – Festivalzinho (43’12”) Al - Mediante Agendamento 10h – Mostra Acessibilidade - Nacional e Infantil (39’46”) Al- Mediante Agendamento 15h – roda de conversa – Jean-Claude Bernardet (online) Local: Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa – Coroa do Meio – entrada franca – Sala Petrobras de Cinema 15h – sessão especial Curtas 1 (49’10”) A1416h – mostra sessão especial – Curtas 2 (67’55”) AL18h15 – mostra competitiva de Curtas Sergipanos 1 (108’35”) A1420h30 – mostra competitiva de Longa Iberoamericano 1 (85”) A1422h – atrações artísticas | música – Palco Petrobras - Descidão dos Quilombolas Quarta-Feira (05/10/2025): Local: Cine Walmir Almeida | Sala Petrobras De Cinema 10h – roda de conversa com os diretores dos filmes da noite anterior Local: Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa – Coroa do Meio – Sala Petrobras de Cinema 14h – mostra competitiva de Trailer (3’22”) AL 14h10 – mostra competitiva Websérie (23’38”) AL 14h40 – mostra competitiva Videoclipe (14’) AL 16h – sessão especial – Curtas 3 | homenagem Jean-Claude Bernardet (42’) A18 17h – atrações artísticas | teatro – Palco Petrobras Grupo Imbuaça 18h30 – mostra competitiva de Longa Iberoamericano 2 – A18 20h – mostra competitiva de Longa Iberoamericano 3 – A14 Quinta-Feira (06/10/2025): Local: Cine Walmir Almeida | Sala Petrobras De Cinema 10h – roda de conversa com os diretores dos filmes da noite anterior Local: Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa – Coroa do Meio – Sala Petrobras de Cinema 14h30 – sessão especial Avanca Film Festival – PT (57’) A12 16h – sessão especial – Curtas 4 (54’02”) AL 17h30 – mostra competitiva Curtas Iberoamericanos 1 (79’12”) A12 19h15 – mostra competitiva de Longa Iberoamericano 4 – A14 Local: Complexo Cultural Gonzagão – Palco Petrobras 21h – Pedro Lua / Forró Tocaia Sexta-Feira (07/10/2025): Local: Cine Walmir Almeida | Sala Petrobras De Cinema 10h – roda de conversa com os diretores dos filmes da noite anterior Online | mediante inscrição 14h30 – masterclass – Pitching para Rodadas de Negócios de Conteúdo Audiovisual – Rafael Sampaio – BRLab – SP Local: Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa – Coroa do Meio – Sala Petrobras de Cinema 14h30 – sessão especial – Curtas 5 (74’59”) A12 16h – sessão especial – Curtas 6 (51’51”) AL 18h30 – mostra competitiva Curtas Iberoamericanos 2 (83’43”) A14 20h15 – mostra competitiva de Longa Iberoamericano 5 (90”) A14 Sábado (08/10/2025): Local: Cine Walmir Almeida | Sala Petrobras De Cinema Local: Cine Walmir Almeida | Sala Petrobras De Cinema 10h – roda de conversa com os diretores dos filmes da noite anterior Local: Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa – Coroa do Meio – Sala Petrobras de Cinema 14h – roda de conversa – curadoria em cinema e perspectivas para mostras e festivais na atualidade 15h30 – mesa – mercado audiovisual em Sergipe: desafios e perspectivas 16h30 – sessão especial – Curtas 7 | Cinema UFS (78’44”) A12 18h30 – mostra competitiva Curtas Iberoamericanos 3 (93’19”) A12 20h20 – roda de conversa com os diretores dos filmes desta tarde e noite 22h – Lucas Campelo- Palco Petrobras Domingo (09/10/2025): Local: Cine Walmir Almeida | Sala Petrobras De Cinema 18h30 – encerramento – cerimônia de premiação20h – atrações artísticas | música – Palco Petrobras - Zé Ibarra / Patrícia Polayne
- Crítica | Jay Kelly (Mostra de SP 2025)
A simpática ode de Noah Baumbach a George Clooney Foto: Reprodução Se tem uma coisa que Hollywood adora fazer é filmes sobre si mesma. Desde pelo menos a década de 1950, com produções como Crepúsculo dos Deuses e Cantando na Chuva, diversos são os filmes que usam de artifícios metalinguísticos – com atores e atrizes interpretando versões de si mesmo ou de outras estrelas – para refletir (ou criticar, ou satirizar) as engrenagens internas dessa indústria bilionária e seus efeitos sobre aqueles que a fazem funcionar. Não raramente vê-se algumas dessas produções girando em torno de um ator/atriz que assume um caráter reflexivo quanto à sua própria carreira. Desde os primeiros minutos, Jay Kelly se enquadra nesse tipo de caso, existindo antes de tudo como uma vitrine para que George Clooney atue como o protagonista homônimo, mas também projete a si mesmo – ou melhor dizendo, sua persona pública e sua carreira – sobre o personagem. Às vezes isso se dá por caminhos óbvios – como a cena em que ele repete os nomes dos seus ídolos, como Gary Cooper e Cary Grant (esse para mim sendo o grande equivalente à figura de Clooney em seu tempo, até mesmo fisicamente) – ou a minutagem final que extrai trechos da própria filmografia do ator para representar a do seu personagem. Mesmo a discussão sobre se há uma alma por trás desse belo e envelhecido rosto é muito sintomática da maneira como Clooney foi reduzido à figura de galã por décadas, ainda que alguns dos seus papéis mais celebrados tenham vindo das suas atuações mais desafiadoras, incluindo o seu Oscar por Syriana. Foto: Reprodução Apesar disso, é perceptível que Noah Baumbach, diretor e corroteirista do longa, está muito consciente de que o público sabe que Clooney é Kelly e vice-versa, oferecendo também diferenças substanciais (como a relação do personagem com suas filhas, vividas por Grace Edwards e Riley Keough). Mas na maior parte do tempo, saber ou perceber esse fato não se revela um problema em si, já que personagem e intérprete são usados também para expressar comentários gerais sobre a fama e a natureza existencial do ofício de atuar, como na ótima cena em que Kelly encontra um ex-colega ou em alguns dos seus flashbacks. É claro que, sendo essa produção hollywoodiana sobre a própria Hollywood, Jay Kelly não se furta a trazer um elenco estelar desde os papéis maiores até aparições especiais. Adam Sandler assume quase o posto de coprotagonista da obra como o empresário e melhor amigo de Kelly, Ron, e a amizade dos dois personagens (bem como as tensões decorrentes) é um dos grandes motores do filme. Mas também vemos Laura Dern, Greta Gerwig (esposa e parceira de Baumbach), Billy Crudup, Emily Mortiner (corroteirista do longa junto com Baumbach), Jim Broadbent, Patrick Wilson, Alba Rohrwacher, Stacy Keach, Isla Fisher e tantos mais. Mas apesar desse desfile de estrelas, o filme parece muito mais interessado na jornada de desconstrução e reconstrução do seu protagonista – e provavelmente também do seu intérprete. Jay Kelly não quer reinventar a roda; sabe que não vai agregar a este subgênero dizendo nada que já não tenha sido dito antes (inclusive por filmes muito melhores). Na verdade, o texto de Mortimer e a direção de Baumbach são muito mais dispostos a expressar simpatia por Kelly, mesmo que o personagem nem sempre seja merecedor dessa simpatia. É um olhar terno, quase nostálgico e, se nem sempre acerta em conferir a devida humanidade ao seu protagonista, permite que demos uma espiadinha para além da sua persona e ver partes da sua alma. Quando Clooney quebra a quarta parede na última cena, isso significa que também estamos vendo sua alma? Difícil saber e talvez não importe tanto, porque é nessa tênue linha entre realidade e ficção que o filme se ancora e consegue oferecer seu diferencial em meio ao mar de produções semelhantes. Nota: 3/5
- Crítica | Foi Apenas um Acidente (Mostra de SP 2025)
Jafar Panahi explora sua complicada relação com seu país natal num dos filmes mais importantes do ano Foto: Reprodução Grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes neste ano, Foi Apenas um Acidente é o tipo de obra que já nasceu emblemática antes mesmo de se assisti-la. Feito após a última detenção de seu diretor, Jafar Panahi – apenas a mais recente de uma série de prisões que marcam sua complexa relação com o governo iraniano –, o filme foi gravado em segredo, sem a permissão do governo. A natureza subversiva da sua produção se estende para a sua narrativa, que aborda um grupo de ex-prisioneiros políticos que se veem às voltas com a decisão de se vingarem ou não de seu torturador quando o reencontram. É difícil não traçar paralelos entre a situação vivida pelos personagens e o(s) próprio(s) período(s) que Panahi passou na prisão. Um dos grandes debates trazidos no filme é até que ponto se deve responsabilizar o indivíduo ou todo um sistema que forja esses indivíduos. O grupo de protagonistas é unido a partir do trauma comum, revelado em poderosos e contundentes monólogos, mesmo quando mais didáticos. Panahi não tem intenção de ser sutil e, ao passo em que essa falta de sutileza faz do longa desavergonhadamente agressivo em sua crítica, também dilui um tanto do impacto da narrativa, quando os sentimentos e debates são reduzidos apenas ao que sai da boca dos personagens. Foto: Reprodução O diretor é muito mais eficaz na construção de uma atmosfera crua e também um bocado imprevisível, saltando entre essa espécie de thriller “neorrealista” e uma comédia de erros, como quando os personagens acabam se vendo forçados a ajudar a esposa e filha do torturador. Os instantes de humor, mesmo que não tão frequentes dentro da obra, servem de respiro quando o clima se revela pesado demais, mas Panahi também não se acanha de nos acertar com socos no estômago quando necessário. O melhor exemplo disso é a sequência final, mais de 10 minutos de um plano-sequência onde vítimas e algoz enfim se digladiam. É nesse momento que o texto de Panahi alcança o brilhantismo, justamente pela maneira como é articulado com sua direção (a ausência de cortes, o banho de luz vermelha promovido pela fotografia, as performances dos atores), rendendo um daqueles finais que ficam na sua cabeça por muito tempo. Como se não bastasse, ainda temos um epílogo onde a estaticidade do plano mais um trabalho simples de som rendem uma última cena ambígua e poderosa, que eleva ainda mais o filme. É assim que Foi Apenas um Acidente expõe toda a sua força, constituindo-se como um exemplar do cinema inegavelmente político de Panahi e um testemunho da habilidade do diretor de meter o dedo nas feridas do seu país – e até de si próprio. Que as condições adversas que o Irã impôs a ele e vários de seus colegas tenham feito florescer um dos cinemas mais importantes e criativos do mundo é prova de como a arte, em sua essência política, pode impactar e desnudar a nossa realidade. Nota: 4/5
- Crítica | Virtuosas (Mostra de SP 2025)
Filme faz acanhada mescla de gêneros para satirizar o conservadorismo feminino Foto: Reprodução Na esteira de produções que miram na sátira para debater e problematizar os maiores absurdos vividos na nossa realidade contemporânea, Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar, mira no movimento do conservadorismo feminino através das lentes da sátira e do horror. Na história, um retiro VIP para mulheres em busca de sua melhor versão se transforma em uma jornada absurda e perigosa. É difícil não associar a premissa da obra a algumas mais recentes que apostam no desconforto de um personagem inserido em um ambiente no qual está claramente deslocado, seja Corra! ou Pisque Duas Vezes. Aqui, a protagonista Germina (Maria Galant) é inicialmente apresentada como uma personagem disposta a tudo para estar nesse retiro VIP organizado por Virginia (Bruna Linzmeyer), mas aqui e ali se veem gradativas fissuras que sugerem que ela talvez não seja quem diga ser. Mas talvez ninguém ali seja, a começar pela própria Virginia. A performance de Linzmeyer é um dos pontos fortes do filme, construída em cima de uma ambiguidade e frieza que escondem as suas reais motivações, as quais certamente estão longe de serem nobres ou cristãs. Quem também rouba a cena é Juliana Lourenção na pele de uma mãe e esposa de deputado que se torna o alvo principal de Virginia, e ver a maneira como a atriz transmite progressivamente o descontrole da sua personagem é um dos fatores que sustentam a obra. Foto: Reprodução A direção de Cíntia Domit Bittar é eficaz em usar de elementos da iconografia do horror (o extracampo, o trabalho de som, as sombras) para causar um desconforto crescente na maneira como estas mulheres interagem entre si. É curioso perceber, porém, como esse desconforto se dá muito mais pela encenação do que pelo texto de Bittar, que não se furta a cair em certos lugares-comuns no que tange esse universo, seja nos chavões bíblicos ou nos discursos coach. Rende algumas boas risadas, mas volta ao problema que citei nas minhas críticas de Eddington e Bugonia, como obras situadas nessa leva de sátiras que se contentam apenas em trazer de maneira quase ipsis litteris o absurdo da realidade para as telas. Diferentemente destes filmes, porém, onde se via as amarras serem soltas nas suas retas finais, aqui Bittar acaba segurando as rédeas por tempo demais. Embora na apresentação do filme ela o tenha classificado como horror, é justo dizer que ele é em torno de 80% sátira e 20% horror, apenas abraçando plenamente este último nos minutos finais, com um encerramento um tanto abrupto que nos faz desejar uma resolução mais desenvolvida. Apesar disso, Virtuosas está longe de ser um desastre na maneira com a qual retrata mulheres conservadoras e as maneiras pelas quais foram cooptadas e estão enredadas em um projeto de poder (inclusive por outras mulheres). Não fosse a obviedade com a qual muitas vezes elabora seu discurso e a certa timidez com a qual abraça o horror, poderia ser uma sátira mais memorável, mas acaba sendo mais uma obra de uma safra cada vez mais saturada. Nota: 2.5/5












