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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Análise | Missão: Impossível (1996 - )

Como a franquia capitaneada por Tom Cruise se consolidou como uma das melhores da história de Hollywood

Foto: Missão: Impossível/Paramount


Começo esse texto fazendo um pequeno exercício com você, leitor(a). Se, assim como eu, sua infância e adolescência foram marcadas pelos filmes que viu na TV aberta, então consegue imaginar um filme que tivesse a cara de Sessão da Tarde, de Tela Quente, Temperatura Máxima, Sessão de Sábado e outros. Particularmente, posso listar vários que se enquadrem em cada uma dessas programações, e entre eles estão os dois primeiros Missão Impossível. O primeiro tem cara e cheiro de Sessão de Sábado, enquanto o segundo me remete imediatamente à Temperatura Máxima.


Por que estou falando disso? Para ilustrar como essa franquia está presente em minha vida há muito, muito tempo. Para ilustrar o meu amor por ela, ainda tão forte quanto naqueles dias da minha infância — talvez ainda mais forte do que antigamente, visto que Missão Impossível seguiu na contramão do habitual das franquias hollywoodianas e envelheceu como um bom vinho, melhorando com o tempo.


O segredo para esse sucesso vem de três pilares: 1) a busca por uma consistência, mesmo com as diferentes identidades que a franquia assumiu através dos anos nas mãos de cada diretor que trabalhou nela; 2) um senso de seriedade e comprometimento com o que se faz, mas sem perder de vista o entretenimento e o espetáculo; e 3) o compromisso de Tom Cruise em tornar esse espetáculo possível. O ator vem se firmando nos últimos anos como talvez a Última Grande Estrela do Cinema, aquele que é capaz de mover público e milhões de dólares apenas para vê-lo em tela, em meio a tempos onde o padrão são franquias baseadas em propriedade intelectual. Suas façanhas para arriscar a própria vida em nome do entretenimento são cada vez mais notórias, mas elas não são apenas manifestações do ego gigantesco do ator: elas os tornam maior que a própria vida, e por extensão fazem o mesmo por esses filmes, justificando que há quase 30 anos sigamos os assistindo com o mesmo deslumbre vez após vez.


Chega ser curioso olhar para o primeiro filme, datado de 1996, e ver o quanto a franquia se tornou cada vez mais grandiosa e ambiciosa com o passar dos anos. Porém, ao contrário de outras sagas de ação como Velozes e Furiosos, que inchou e cresceu de tal forma que se tornou uma paródia de si mesma, Missão Impossível sempre soube reter o melhor de cada um de seus longas mesmo a cada direção nova que tomasse. Essa percepção ficou ainda mais evidente ao rever os seis filmes anteriores antes da estreia do novo, Acerto de Contas pt. 1, lançado na última semana.


É possível dividir a franquia em dois momentos diferentes: o primeiro compreende os três primeiros filmes, lançados entre 1996 e 2006 e cada um dirigido por um diretor diferente; e o segundo compreendendo os quatro filmes restantes lançados a partir de 2011 e que foram conduzidos por apenas dois diretores, sendo que um deles, Christopher McQuarrie, é o único diretor desde o quinto filme, Nação Secreta. Alguns até poderão reformular essa divisão para por o quarto filme, Protocolo Fantasma, como uma “transição” entre essas duas fases, mas isso pouco importa, pois essa revisão da franquia me fez ver como, mesmo que os primeiros filmes se constituam experiências individuais bastante distintas entre si, carregam consigo elementos fundamentais para as demais sequências, que obtiveram ainda mais sucesso ao apostarem em uma maior coesão de identidade e ideias.


O primeiro filme, capitaneado por ninguém menos que Brian DePalma, foi um produto do seu tempo (e à frente dele), usando as bases da série de TV original para subvertê-la, visto que passados eram os dias maniqueístas da Guerra Fria e uma nova ordem mundial, mais amoral, cínica e dúbia, estava em voga. Por isso o filme leva a dança de lealdades, o jogo dos disfarces e as traições ao último limite, tudo sob o olhar voyeurístico e psicossexual tão próprio de DePalma. E, embora seja uma obra muito mais calcada na espionagem do que os posteriores, ainda prenuncia o foco na ação que as sequências adotariam com seu icônico terceiro ato situado num trem sob o Canal da Mancha.


Se o Ethan Hunt de Tom Cruise neste primeiro filme é um espião à frente de tudo e de todos, no segundo filme ele se converte numa figura quase semidivina, um herói de ação acima de nós, meros mortais. Talvez o filme mais destoante de todos — ainda que o tempo lhe tenha feito justiça — Missão Impossível 2 deixa o foco na espionagem de lado para se render à ação, e que nome melhor para promover essa mudança do que John Woo, um dos maiores diretores do gênero de todos os tempos? E ainda assim, embora foque na simplicidade e objetividade narrativa em contraste com seu antecessor, também há a boa e velha duplicidade, seja no uso deliberadamente exagerado das máscaras (uma das marcas da franquia) ou nas alusões à Interlúdio, de Hitchcock — uma referência que me saltou aos olhos, especialmente levando em conta que tivemos DePalma, o seu grande sucessor, no filme anterior.


Mas o que também me salta aos olhos nesse segundo filme é como ele planta a semente de um Ethan que, mesmo desafiando a morte, se importa com a vida daqueles ao seu redor. Essa ideia será melhor desenvolvida em Missão Impossível 3, um filme que apresenta a pior direção da franquia (sair do cinema de autor de DePalma e Woo para a falta de identidade de JJ Abrams é de fato um choque), claramente tentando emular a marca que a franquia Bourne deixou na época, sem o mesmo nível de sucesso. Entretanto, essa falha é compensada com um olhar mais humano para seu protagonista e suas relações, seja com a esposa Julia (Michelle Monaghan) — que será um importante mote futuro, mesmo na sua ausência — ou seus colegas, plantando também as sementes da valorização da equipe que acompanha Ethan em suas aventuras. Além disso, o filme supre quase sozinho uma das grandes faltas da franquia: um vilão marcante, aqui interpretado pelo saudoso Philip Seymour Hoffman, o qual aparece pouco, mas deixa uma marca indelével.


Assim, percebem-se ao menos três elementos basilares para a franquia, cada um extraído de um dos filmes: a dubiedade e os elementos característicos da espionagem do primeiro; a ação muscular e frenética do segundo; e o foco na humanidade e moral dos personagens do terceiro. Todos esses elementos serão observados nos filmes seguintes, começando com Protocolo Fantasma, que, sob a batuta de Brad Bird, representa uma espécie de recomeço, e que recomeço! Além de unificar esses elementos em uma aventura sólida e redondinha, ainda consegue imprimir a marca de um equilíbrio entre ação, drama e humor, ao mesmo tempo em que se interessa pelos outros personagens além de Ethan e demonstra os primeiros sinais de uma coesão interna na franquia, não apenas estrutural como narrativamente. Além disso, as aventuras de Cruise sem dublê atingem um novo nível aqui, com a sequência do Burj Khalifa se firmando como uma das melhores do gênero.


Se Bird elevou a franquia a um novo patamar, McQuarrie a aprimora, se provando o aliado ideal de Cruise nessa empreitada. Nação Secreta poderia ser um filme medíocre e já nos bastaria só pela introdução de Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), talvez a melhor personagem da franquia junto com o próprio Ethan. Felizmente, esse filme é tudo, menos medíocre: entre setpieces fascinantes como as sequências da ópera e de Casablanca, passando pelo melhor uso de duplicidades e surpresas na trama desde o primeiro filme, ou às insanidades de Tom Cruise se pendurando num avião ou nadando por minutos enquanto prende a respiração, aqui se elevou o patamar de tudo que foi feito antes. E nem é o melhor da franquia...


... porque esse título pertence a Efeito Fallout. Quantas sagas cinematográficas podem se gabar de terem seu sexto filme como o melhor? Não apenas isso, mas uma obra-prima do gênero de ação, que entrega as setpieces mais épicas da franquia (aquele salto de avião! Aquela perseguição de helicópteros!) e também examina como nenhum outro a compaixão e a moral de Ethan, pondo-a em xeque conforme ele se vê forçado a salvar os seus ou o mundo. É essa humanidade de Ethan, o fato de sacrificar tudo por aqueles que o ama, que o diferencia de outros protagonistas contemporâneos do gênero, e um dos fatores que torna Fallout tão grandioso e memorável.


Seria compreensível que Acerto de Contas pt. 1 não atingisse o mesmo nível do seu antecessor, e de fato isso não acontece. O filme tem alguns problemas mais flagrantes em relação aos seus antecessores — o excesso de exposição nos diálogos e a forma como uma de suas personagens mais importantes é tratada —, mas ainda preserva a atenção ao espetáculo, ao discurso de Cruise que filmes como esses são para serem vistos no cinema. Junte a isso a introdução de uma nova personagem favorita, Grace (ah Hayley Atwell, estou fascinado por você), e uma discussão acurada sobre os perigos do uso discriminado da IA e temos um filme que consegue fazer algo que talvez não víssemos desde o primeiro: entregar o cinema-espetáculo enquanto se mantém relevante e consonante com a sociopolítica global.


Ainda é difícil definir qual será o futuro de Missão Impossível. Sabemos que a parte 2 de Acerto de Contas virá no ano que vem e tudo aponta para uma passagem de manto de Cruise para Atwell. Se o próximo filme for de fato o último da era Cruise, então tem tudo para fechar com chave de ouro uma franquia que contrariou todas as possibilidades, justificando o “Impossível” do seu título. Sete filmes e quase 30 anos depois, não resta dúvidas de que Missão Impossível não apenas se consolidou como a melhor do seu gênero em Hollywood, mas como uma das melhores e mais sólidas do cinema hollywoodiano em sua história.


Notas individuais dos filmes:

1) Missão: Impossível – 4/5

2) Missão: Impossível 2 – 4/5

3) Missão: Impossível 3 – 4/5

4) Missão: Impossível - Protocolo Fantasma – 4.5/5

5) Missão: Impossível - Nação Secreta – 4.5/5

6) Missão: Impossível - Efeito Fallout – 5/5

7) Missão: Impossível - Acerto de Contas pt. 1 – 4/5

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