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Entrevista | Natália Maia fala sobre seu primeiro longa, “A Estranha Familiar”

  • Foto do escritor: Ávila Oliveira
    Ávila Oliveira
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

Em entrevista ao portal Oxente Pipoca, a diretora e roteirista cearense Natália Maia falou sobre o processo de criação e produção de seu primeiro longa-metragem como diretora solo

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Em entrevista ao portal Oxente Pipoca, a diretora e roteirista cearense Natália Maia falou sobre o processo de criação e produção de seu primeiro longa-metragem como diretora solo, A Estranha Familiar. O filme mistura elementos de thriller político e faroeste contemporâneo, tendo uma juíza como protagonista em uma trama ambientada no interior do Ceará. A cineasta também comentou sobre a formação no audiovisual, políticas públicas e o espaço das mulheres no cinema brasileiro. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

Ávila (Oxente Pipoca): Prazer em falar com você. Queria começar dizendo o que eu já falei incontáveis vezes para o Allan [Deberton] e para o Marcelo [Pinheiro] e que também tive a oportunidade de dizer para a Marcélia Cartaxo, que Pacarrete é um dos filmes favoritos da equipe do Oxente Pipoca. É praticamente unanimidade entre nós. Então, antes de tudo, parabéns pelo trabalho, é um filme muito sensível, bonito e acessível. Agora falando sobre A Estranha Familiar: queria te perguntar de onde surgiu a ideia do filme. Como nasceu essa história de um thriller político com uma personagem feminina no centro? Foi algo inspirado em vivências pessoais ou em histórias que você observou?

Natália Maia: Essa ideia surgiu de uma experiência da época em que eu ainda trabalhava como repórter institucional da Prefeitura de Fortaleza. Isso foi há alguns anos, entre 2013 e 2015, mais ou menos.

Como repórter, eu cobria diversas pautas. Uma delas foi a posse de um grupo de juízes substitutos que seriam enviados para cidades que não tinham acesso direto ao Poder Judiciário. Eu fiz a cobertura da cerimônia, escrevi a matéria e depois fiquei olhando a foto que acompanhava o texto, com todos aqueles juízes reunidos.

Aquilo me fez pensar muito sobre o ofício dessas pessoas. Na época eu trabalhava como repórter e tinha contato com muitas histórias, muitas situações diferentes. Mas, por algum motivo, aquela imagem me marcou bastante.

Comecei a pensar no que significa ocupar esse lugar de representação da justiça. São pessoas que chegam a cidades onde muitas vezes não existe um acesso estruturado ao Judiciário e, de certa forma, passam a representar esse acesso.

Isso me fez refletir sobre a subjetividade que existe nesse processo. Existe uma expectativa de imparcialidade na figura do juiz, mas, ao mesmo tempo, as decisões passam pelo olhar e pelo filtro de quem está ali julgando. Então existe essa tensão entre a ideia de objetividade da lei e a subjetividade humana. Foi a partir dessa reflexão que comecei a imaginar uma personagem.

Alguns anos depois, em 2018, abriu uma nova turma do laboratório do Porto Iracema das Artes, que é uma instituição muito importante para a formação audiovisual no Ceará.

Eu enviei um argumento inicial para o laboratório. Já era a ideia de uma juíza que iria para uma cidade pequena para assumir uma posição inédita ali. Naquele momento, a personagem não tinha relação anterior com a cidade, depois isso mudou no roteiro, mas ela seria a primeira juíza daquele lugar.

Também já existia a personagem da radialista, que era uma figura muito presente na política local e que representava quase o oposto da postura de imparcialidade que a juíza queria manter. Então já havia um conflito forte entre essas duas figuras.

Ao mesmo tempo, eu tinha um interesse grande em trabalhar com referências do faroeste em diálogo com o thriller político. Entre as influências que eu mencionava naquele momento estavam Minha Terra, África (2009), da Claire Denis e O Homem que Matou o Facínora (1962), de John Ford. Eu pensava muito nesses personagens arquetípicos do faroeste clássico: o juiz, o delegado, o prefeito, e em como essas figuras poderiam funcionar dentro de uma dramaturgia contemporânea. 

Nesse laboratório eu convidei a roteirista Camila Chaves para desenvolver o projeto comigo, porque os trabalhos lá são feitos em dupla. A Camila vinha mais da literatura, mas também tinha experiência com política e comunicação institucional. Isso acabou dialogando muito com o projeto.

Eu também já tinha trabalhado em rádio e tenho um carinho muito grande por esse universo. Fiz estágio na rádio universitária aqui de Fortaleza e sempre gostei muito desse ambiente. Então a personagem da radialista também vinha um pouco dessa relação afetiva com a rádio popular.

O laboratório do Porto Iracema dura cerca de sete meses, o que é bastante tempo para esse tipo de processo. Tivemos consultorias e tutorias de profissionais como Karim Aïnouz, Marcelo Gomes e Sérgio Machado.

Esse tempo foi fundamental para amadurecer o projeto. Quando você está muito mergulhado na história, às vezes não consegue enxergar certos problemas. As leituras externas e as discussões ajudam muito a ajustar o roteiro.

Com o tempo, a história mudou bastante. Uma das mudanças mais importantes foi a relação entre a juíza e a radialista. No começo elas não eram irmãs. Essa ligação familiar surgiu durante o desenvolvimento e acabou trazendo uma camada emocional muito mais forte para a narrativa. Antes disso, o filme era muito centrado na trama, nos acontecimentos externos. Aos poucos fomos percebendo que precisávamos aprofundar a jornada emocional da protagonista.

Também decidimos criar uma cidade fictícia para a história. Durante a pesquisa percebemos que casos de violência relacionados a denúncias políticas acontecem com frequência em muitas regiões do Brasil. Radialistas e jornalistas, por exemplo, muitas vezes estão em posições muito vulneráveis quando fazem denúncias. Então preferimos não vincular a narrativa a um caso específico ou a uma cidade real.

Ávila (Oxente Pipoca):Quando recebi as primeiras informações sobre o filme, fiquei impressionado com o tamanho do elenco, e eu amo filmes com elencão. Natália Maia:Eu também [Risos].


Ávila (Oxente Pipoca):Tem muitos nomes fortes e eu queria citar especialmente o elenco feminino, nomes como Georgina Castro, Geane Albuquerque, Nataly Rocha, Loreta Dialla, Isabela Catão, Fátima Macêdo, Jupyra Carvalho, Ana Luiza Rios. Como foi dirigir tanta gente no seu primeiro longa?

Natália Maia: Foi uma aventura. Esse é o primeiro longa que eu dirijo sozinha. Antes disso eu tinha dirigido projetos em parceria, principalmente com o cineasta Samuel Brasileiro, com quem também escrevi o roteiro de Pacarrete. Assumir a direção solo foi um desafio grande, mas também muito transformador.

Ao mesmo tempo, eu nunca estive sozinha nesse processo. Tive uma equipe muito comprometida e muito unida. A produtora executiva Carol Louise, a diretora de fotografia Linga Acácio, a diretora de arte Thaís de Campos, a assistente de direção Michelline Helena, entre muitas outras pessoas, foram fundamentais para que o projeto acontecesse.

O filme foi realizado com recursos do Edital Ruth de Souza, que destinou cerca de dois milhões de reais para a produção. Para um filme com muitas locações externas e um elenco grande, tivemos que adaptar várias coisas para caber dentro do orçamento.

Também tivemos um trabalho muito intenso de preparação de elenco com Andreia Pires. Fizemos ensaios, conversas e leituras antes das filmagens. Eu valorizo muito o trabalho dos atores, acho a função deles muito generosa, eles estão emprestando seus rostos, suas vozes, suas presenças e seus corpos.

Uma coisa importante para mim era manter o roteiro vivo. Como eu também sou roteirista do filme, eu podia ajustar cenas, diálogos e situações conforme o processo de ensaio e as descobertas que surgiam. Agora estamos entrando na fase de montagem do filme. A montagem será feita pela Lis Paim e a trilha sonora ficará a cargo de Uirá dos Reis.

Estou muito ansiosa para rever as imagens e continuar esse processo.

O cinema é um trabalho coletivo e também um processo contínuo de aprendizado. Cada projeto abre portas para novos caminhos.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Ávila (Oxente Pipoca): Estamos no mês da mulher e parece que cada vez vocês têm menos motivos para comemorar em vista à tanta desgraça que vem a público constantemente. Mas focando no cinema, queria aproveitar para perguntar sobre o papel das mulheres no cinema cearense e brasileiro. Lembro que em 2024 quando o cinema cearense completou 100 anos, Amanda Pontes e Michelline Helena estavam lançando Quando Eu Me Encontrar. E numa entrevista elas me falaram da disparidade entre a quantidade de longas-metragens dirigidos por homens de de longas dirigido por mulheres. Como você vê esse cenário hoje não só em relação à direção, mas em relação a oportunidades, convites e plataformas?

Natália Maia: Eu acho que ainda temos um longo caminho pela frente. Por isso considero muito importantes as políticas públicas e as ações afirmativas dentro do audiovisual. Editais específicos, programas de formação, laboratórios e residências ajudam muito a criar oportunidades mais equilibradas.

O desenvolvimento de projetos é uma etapa fundamental. Quando um filme passa por processos de desenvolvimento bem estruturados, ele chega mais forte aos editais de produção. Também precisamos pensar diversidade de forma mais ampla: gênero, raça, regionalidade, sexualidade. Quanto mais vozes diferentes estiverem contando histórias, mais rico será o cinema.

No caso de A Estranha Familiar, por exemplo, desde o desenvolvimento nós pensamos muito na composição da equipe. Muitas das chefias de departamento são ocupadas por mulheres.

Ávila (Oxente Pipoca): Muito obrigado pelo seu tempo e pela conversa. Estou ainda mais curioso para assistir ao filme depois dessa entrevista e ver tudo mais que vem pela frente na sua carreira.

Natália Maia: Eu que agradeço. Como falei, o cinema e coletivo e abre portas para outros projetos. No meu caso, esse processo também me levou a novos trabalhos como roteirista, inclusive no desenvolvimento da adaptação de A Cabeça do Santo, livro da escritora Socorro Acioli. 

Fiquei muito feliz com o convite e com a conversa. Acompanho o trabalho de vocês há bastante tempo e acho muito importante o papel que vocês desempenham na difusão e na formação de público para o cinema brasileiro. Espero que a gente se encontre em breve.


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