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  • Foto do escritorMatheus Gomes

Crítica | Argentina, 1985

Atualizado: 23 de out. de 2022

Santiago Mitre retrata a luta pela democracia nos tribunais argentinos.

Divulgação: Tulip Pictures / Prime Video


Durante quase 8 anos, a Argentina foi marcada por uma ditadura instaurada em 1976, logo após um golpe militar contra o governo de Isabel Perón. Nesse período, o país viveu momentos sombrios marcados pela repressão, censura e um número alarmante de vítimas torturadas em escabrosas violências institucionais. “Argentina, 1985”, do diretor Santiago Mitre (A Cordilheira), revisita os momentos posteriores a esse período e aborda a luta judicial travada para punir as atrocidades cometidas pelos militares contra a sociedade argentina durante a vigência do governo ditatorial.


O longa acompanha Julio Strassera (Ricardo Darín), um simples promotor de justiça, e Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani), seu jovem parceiro advogado, convocados a impugnar os militares que estavam no poder à época, acusados da morte, tortura e desaparecimento de mais de 30 mil pessoas. A tarefa era árdua: Strassera era um funcionário público de pouca expressão e seus aliados eram escassos. Além disso, o sistema ainda era marcado por forte influência militar, que também acometia muitos setores da sociedade civil.


Divulgação: Tulip Pictures / Prime Video


Nesse ponto, Mitre, que também é responsável pelo roteiro, trabalha de maneira genial na apreciação dos acontecimentos que se sucederam na epoca. A história, por si só, não necessita da romantização hollywoodiana comum aos dramas judiciais; trata-se de um dos momentos mais importantes da democracia latino-americana, e o diretor conduz a grandeza do momento com muita sobriedade e eficiência.


Por isso, é preciso dizer que um dos grandes diferenciais do filme, que foi vencedor do Prêmio da Crítica no Festival de Veneza, é justamente a verossimilhança da humanidade retratada. Não à toa, o longa constrói desde seu início um discurso desmistificador de heroísmos. Strassera, apesar de ter sido uma figura importante na política argentina até 2015, ano de sua morte, foi bastante criticado pela sua falta de ação como funcionário público durante a vigência da ditadura. Isso também é explicado; o promotor era um homem comum, passível de falhas e, acima de tudo, temeroso em relação à segurança de sua família. Por isso, o longa é sagaz na representação do caminho de inseguranças do promotor até a efetiva aceitação do caso. Ver homens comuns lutando contra o sistema é grandioso, mas ao mesmo tempo assustador.


Essa linha narrativa é amplificada, ainda, pelas competentes interpretações que o filme traz. Ricardo Darín é ótimo como Strassera, e sua semelhança física com o jurista só contribui para que o ator entregue ótimas sequências que parecem tiradas de registros. No seu encalço, temos Peter Lanzani, ator que divide com Darín o mérito da qualidade interpretativa que o longa possui. A química da dupla é muito boa e materializa-se de maneira eficaz naquela velha dinâmica do mentor-aprendiz que, aqui, funciona perfeitamente. Em conjunto a isso, também temos coadjuvantes muito competentes, em especial o ator mirim que interpreta o filho de Strassera em uma atuação divertida e bastante eloquente.


Divulgação: Tulip Pictures / Prime Video


Em termos técnicos, o filme também mostra porque é digno de expectativa quanto à sua representação no Oscar. A câmera de Mitre é dinâmica e traz grande densidade dramática para o longa, que conta com close-ups e jogos de perspectiva que vão escalando a transmissão da angústia dos personagens. Além disso, a fotografia de Javier Juliá cria uma atmosfera extremamente bela e palpável, tornando o filme não só visualmente bonito, como também adequado à história que está ali sendo retratada. No mais, a ambientação e trilha sonora também estão no ponto.


Voltando à premissa, é impensável falar de 'Argentina, 1985' sem abordar os relatos trazidos no corpo do filme. As memórias evocadas no decorrer da produção são cruas e bastante dolorosas, as quais recheam o enredo com histórias indignantes de um cenário cruel e, até hoje, tristemente defendido por muitos. Nessa parte, cabe destacar a participação de Laura Paredes no papel de Adriana Calvo de Laborde, testemunha que conta sua triste experiência enquanto vítima da ditadura, tendo que dar a luz a sua filha em um camburão policial, algemada. Sem dúvidas, o depoimento de Laborde no Tribunal das Juntas é um dos pontos altos do longa, não só pelo seu peso dramático, mas também pela mensagem passada através das tristes e dolorosas palavras proferidas.


Divulgação: Tulip Pictures / Prime Video


Assim, ‘Argentina 1985’ é, sem dúvida, um dos filmes mais importantes deste ano. Isso não se mostra verdade somente pela revisita que faz a essa importante página da história argentina, mas também pela forma como seu enredo conversa com a atualidade. O longa mostra o exemplo a ser seguido para os filmes históricos no tear de suas visões sobre determinados fatos. Aqui, o diretor soube retratar, sem exageradas dramatizações, as peculiaridades de uma época em correspondência fiel com os relatos que tinha disponíveis.


Por fim, é preciso pontuar que, em meio a insurgência cada vez mais recorrente de movimentos fascistas ao redor do globo, o longa traz para as grandes telas as consequências dos terrores de um governo pautado pela violência e repressão das liberdades individuais. Nessa oportunidade, surge a reflexão: é razoável pedir a intervenção de governos que, em sua forma mais pura, matem a democracia como conhecemos?


Nota: 5/5


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