Crítica | Maxita (15º Olhar de Cinema)
- Vinicius Oliveira

- há 2 dias
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Décadas de luta sintetizadas num filme que se contenta em ser didático.

O cinema-denúncia brasileiro já carrega uma tradição de décadas, nos mais diversos formatos. Pode se pensá-lo num esquema formal bastante clássico, com uma narração em off denunciando tal tema, entrevistas que o corroboram, imagens (sejam elas gravadas para o filme ou de arquivo) que ilustram aquilo que as palavras expressam, tudo apresentado de uma maneira esquemática e didática, condizente com o ativismo proposto, no intuito de gerar comoção e reflexão no público.
Em certa medida, Maxita observa a muitos elementos desse esquema, ao mesmo tempo em que quebra alguns dos seus paradigmas, sobretudo pela escolha do seu personagem não só como protagonista, mas sobretudo como voz narrativa. As diretoras Mariana Machado e Ana Maria Machado centram-se em Davi Kopenawa e sua trajetória de luta contra as invasões de mineiros às terras Yanomami, construindo o filme em torno da sua narração e das suas reflexões, e a partir dela estruturarem a imagem cinematográfica.
Há momentos inspirados dentro do filme, como a sequência inicial onde imagens de arquivo (inclusive oficiais) denunciam os constantes esforços de garimpo e invasão de terras indígenas do século passado até hoje, enquanto a voz de Kopenawa preenche os espaços. Destaca-se também as conversas do protagonista com Ailton Krenak, outra importante liderança indígena atual, enquanto as gravações em Boa Vista e Belo Horizonte, mostrando os locais e indivíduos que vendem peças de ouro, ou o monumento aos garimpeiros, são outro momento poderoso que dão a tônica da denúncia sem, no entanto, cair numa certa abordagem por demais didática ou verborrágica.
O problema é que são instantes esparsos num filme que, a despeito da declaração das diretoras de ser fruto de 7 anos de gravação, não parece ter muito o que dizer para além do básico. Fica evidente que o projeto busca trazer visibilidade a Kopenawa e a luta do seu povo, mas também fica evidente que há um público-alvo muito específico (os brancos), que precisam ser educados e conscientizados. Por isso, há pouco interesse em sair dessa camada superficial, em mergulhar mais nas crenças e práticas Yanomami. Para um filme que fala tanto da vontade de sonhar, é tudo pé-no-chão demais, sem que se arrisque explorar a materialidade do sonho na imagem cinematográfica; a única exceção se dá pelos minutos finais, onde a celebração de Kopenawa pelo seu próprio povo, dentro do seu próprio espaço e por intermédio dos seus próprios rituais.
Talvez em tempos de tanto retrocesso, em que as pessoas se sentem mais e mais confortáveis para desumanizar certos grupos, Maxita se mostre um projeto “necessário”, para empregar uma palavra muito presente em discussões sobre a arte nos rescaldos dos governos Temer e Bolsonaro. Mas seu caráter utilitarista, ainda que possa alcançar certas mentes e corações, também é sua maior limitação. Que bom saber que homens como Kopenawa existem e resistem, mas ele também merecia um filme mais à altura da sua grandeza.
Nota: 2.5/5



















