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Crítica | A Holandesinha (15º Olhar de Cinema)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

As dores e alegrias do fazer fílmico aliados a uma sensível e calorosa representação de pessoas com síndrome de Down.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

O cinema existe em múltiplas formas, com variados modos de se fazê-lo. Raramente, porém, ele existe como uma arte solitária; claro, muitos filmes foram feitos quase que única e exclusivamente por seu realizador(a), mas é mais frequente que ele seja feito em coletivo, independentemente do tamanho da equipe responsável por dar-lhe vida.


Em A Holandesinha, de João Gabriel Kowalski e Luiza Godoi, o coletivo importa e muito. É ele quem torna o sonho de Luiza de tornar seu primeiro filme, Lágrimas de um Pierrot, possível. Ela aspira, tem grandes sonhos e ambições, sabe o que quer para seu filme, tem suas referências bem delineadas e cada uma das cenas em sua cabeça. Ela também é uma jovem com síndrome de Down.


Contudo, em nenhum momento a síndrome é tratada como uma anomalia ou limitação para que a visão de Luiza seja posta em tela. A jovem é respeitada pela equipe que a cerca – formada de pessoas muito mais experientes que ela no ramo cinematográfico –, mas essa mesma equipe nunca a trata com condescendência ou paternalismo, subestimando-a pela sua condição ou tomando dela as rédeas da realização da sua obra.


Claro, a inexperiência de Luiza no ramo salta aos olhos desde os primeiros minutos, quando está claro que suas ambições são muito maiores do que as condições reais para a realização de Lágrimas de um Pierrot. Mas o que poderia ser fonte de desgaste ou tensão se revela num dos pontos altos do filme, que é encharcado de um humor muito natural nas interações de Luiza com João Gabriel e os demais membros da equipe. À medida que as gravações avançam, vemos a jovem aprender mais e mais como exercer seu ofício cinematográfico, sem sacrificar sua integridade, sensibilidade e visão.


Nesse sentido, é nítido em cada minuto de A Holandesinha como Luiza encanta todos ao seu redor, e o mesmo acontece com o público. Revelam-se genuínos o carinho e amor que ela emana pelas pessoas à volta, como seu amigo João Vitor Paiva, protagonista de Lágrimas de um Pierrot (e, assim como ela, também portador da síndrome de Down), assim como é impossível não rir dos seus comentários, observações, de como busca expressar o que tem em mente para que os demais membros da equipe compreendam, ou também sua postura de ouvir e aprender. Quando a vemos chorando de emoção diante de uma gravação que deu certo, nos emocionamos juntos, porque é fácil torcer por ela e sua visão criativa.


A Holandesinha funciona, portanto, como um curioso registro reverso do fazer fílmico, onde acompanhamos primeiramente os bastidores e depois o resultado final. E mesmo em seus curtos minutos, Lágrimas de um Pierrot nos deixa com aquele gostinho de “quero mais”: mais daquele universo oitentista, caricato, divertido e de alguma forma muito sincero. Tal sinceridade se estende a tudo que vemos por trás das câmeras no restante deste documentário, que preza pela sensibilidade e doçura sem diminuir sua protagonista, mas alçando-a ao lugar que ela deve assumir: a de uma futura grande realizadora.


Nota: 4/5


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