Crítica | Cabo do Medo (Minissérie)
- Filipe Chaves

- há 11 horas
- 4 min de leitura
Javier Bardem e Amy Adams brilham em um instigante jogo de gato e rato que não é perfeito, mas consegue ser quando quer.

A história é baseada no livro Os Violentos (1957), de John D. McDonald, e nas adaptações cinematográficas que foram intituladas Cabo do Medo, a de 1962 dirigida por J. Lee Thompson e a de 1991, de Martin Scorsese. Tudo gira em torno de Max Cady (desta vez interpretado por Javier Bardem), um assassino condenado que sai da prisão em busca de vingança de um advogado que ajudou a condená-lo. Nas versões anteriores, o advogado era Sam Bowden, mas agora Amy Adams é quem toma as rédeas como Anna Bowden que, junto com seu marido Tom (Bowden), foram os responsáveis pela condenação de Max. Então, adaptar um livro de 200 páginas e dois filmes que têm duas horas em uma minissérie de 10 episódios me trouxe algumas preocupações quanto ao inchaço da produção. E mesmo com o saldo sendo positivo, nem tudo funciona, devo dizer.
Os dois primeiros episódios já foram exibidos e a Apple disponibilizou oito dos dez para a crítica. Desde o início é notório como a série tem personalidade. Ela não está interessada em ser uma cópia de outra adaptação, mas sem desonrar o que veio antes. A premissa já tem uma grande mudança e não é minha intenção comparar ‘fidelidade’ às obras prévias ou ao material fonte, mas apenas falar da versão atual.
A atmosfera de suspense é latente e não há medo de mostrar a violência naquele mundo, que jamais soa gratuita por ser intrínseca a uma narrativa tão forte. A trilha sonora é outro ponto crucial que dita o tom da tensão. Há um exagero controlado, porém intencional. A fotografia é um grande destaque e uma vez que a história se passa no sul dos Estados Unidos, a saturação é gritante para deixar a experiência mais imersiva e dar aquela sensação de calor, ainda que use bastante de cores frias como azul e, principalmente, verde, causando este bem vindo contraste em uma história sombria e ensolarada. A direção engloba tudo isso que pode até parecer cafona, mas funciona muito bem em tela, com tudo elevado à máxima potência, beirando o folhetinesco.
E é dançando conforme a música que Javier Bardem se sobressai tanto com seu Max Cady. Ele consegue ser assustador e carismático ao mesmo tempo, dizendo atrocidades com um sorriso no rosto. Não quer dizer que alguém apoie suas atitudes, mas é bom acompanhar e ficar ansioso para o que ele vai fazer em seguida. E como isso se contrapõe à Anna, que Amy Adams faz de uma forma sutil, dócil, mas com segurança e que consegue surpreender quando ela mostra outras camadas. Patrick Wilson faz o que tem que fazer como Tom e é uma performance automática, o que faz o personagem ser ofuscado por Cady e Anna. O trio é o ponto principal e está ligado por segredos e mistérios que vão sendo desvendados conforme os episódios avançam, o que é comum para uma história que precisa se estender. O que é comum também é que mais personagens ganhem destaque, com os filhos dos Bowden, um casal de adolescentes bem menos interessantes que seus pais e por mais que eles estejam bem inseridos na narrativa, não conseguem fugir muito dos clichês dos jovens perturbados, deixando seus arcos um tanto cansativos, ainda que conectados com a trama principal. É uma pena que a sempre excelente CCH Pounder seja quase uma figurante de luxo.

Há muito que não pode ser revelado sobre os diversos enredos que permeiam os oito episódios que eu assisti, mas se as coisas já estão fervendo nos dois primeiros, é natural elas escalonarem e se desdobrarem. No entanto, o roteiro não consegue fazer um uso tão bom da mídia para a qual estão adaptando esta história no sentido de aprofundar e desenvolver mais a trama ou os personagens e essa é uma das principais falhas porque é justamente onde uma minissérie, que pode usar o benefício do tempo, pode brilhar. Mas se não souber usar isso direito, é onde os problemas tendem a aparecer. Nick Antosca é o showrunner desta nova versão da Apple TV – também produzida pelo próprio Scorsese e por Steven Spielberg – e é evidente como ele pensa mais no clímax do que na construção para chegar até ele e é aí que diversas conveniências um tanto ilógicas surgem, através de reviravoltas que nem sempre dão o impacto necessário.
Algumas são previsíveis, outras surpreendem, mas o entretenimento quase sempre prevalece, ainda que nem tudo faça sentido. É justo falar das coisas que me incomodaram, mas como eu disse anteriormente, o saldo é positivo. Muito se deve a Bardem e a Adams, que são de fato os protagonistas da minissérie, quem em sua maioria, consegue assustar com a perversão e te fazer refletir sobre quão ruim um ser humano é capaz de ser, com coragem de mostrar o nosso lado mais feio sem pena para contar essa história. É instigante e te prende, sempre deixando querendo o próximo episódio e eu sei que eu estou bem ansioso para os dois últimos e descobrir como a jornada de Max e Anna termina… quanto aos outros personagens, nem tanto.
Nota: 3,5/5



















