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Crítica | Dia D

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • há 12 horas
  • 4 min de leitura

Steven Spielberg volta ao gênero que o consagrou com filme que se recusa a se sujeitar ao cinismo dos nossos tempos


Divulgação


Ao longo de uma carreira de mais de meio século, são poucos os gêneros que Steven Spielberg trabalhou ou ao menos tangenciou, mas poucos são tão associados a ele quanto a ficção científica, sobretudo aquela que envolve extraterrestres. Não só dois dos filmes mais emblemáticos do gênero são seus – Contatos Imediatos de Terceiro Grau e E.T.: O Extraterrestre – como ele soube como poucos explorar a paranoia do 11 de Setembro em Guerra dos Mundos. Nesse sentido, Dia D foi vendido como seu retorno triunfal ao gênero, e ainda que os filmes acima citados explorem facetas distintas cada um, seria fácil para o diretor apostar no seguro e se contentar em entregar suas habituais marcas estilísticas e temáticas. Felizmente, não é o caso.


Sim, é um filme genuinamente spielberguiano, com suas movimentações de câmera criativas e um trabalho sempre primoroso de mise-en-scène, a trilha marcante de John Williams e um certo senso de otimismo que ainda é visto pelos seus detratores como uma fraqueza e não uma força. Mas o veterano diretor, prestes a fazer 80 anos, faz à sua maneira algo próximo do que seu amigo Martin Scorsese fez com O Irlandês, ao revisitar o gênero que o consagrou com um olhar mais reflexivo, sensível e maduro.


Assim, Dia D pode ter algo dos seus outros filmes sobre ETs e até de outras produções suas, mas também marca algo novo em sua carreira. O foco é muito menos na presença alienígena em si e mais na reação humana a algo tão grandioso e disruptivo; em particular, sobre se estamos preparados enquanto humanidade a reavaliar nossas crenças frente a um evento que mudaria para sempre nossa história. Pense no Dr. Alan Grant vendo os dinossauros pela primeira vez em Jurassic Park: e se 8 bilhões de pessoas tivessem aquela reação ao mesmo tempo?


Para chegar a tamanha reação coletiva, Spielberg inscreve seu filme muito mais no terreno do thriller de espionagem, ou daqueles corporativos dos anos 1970 como A Trama ou Três Dias de Condor. Neste universo, Daniel Kellner (Josh O’Connor) é uma espécie de Edward Snowden que tem sobre si a responsabilidade de vazar os segredos acumulados por décadas que os poderosos, representados na figura da corporação Wardex e seu sombrio líder Neal Scanlon (Colin Firth), tentam esconder a respeito da existência de vida alienígena. Os caminhos de Daniel eventualmente se conectarão com o da repórter Margareth Fairchild (Emily Blunt), que vê desabrochar habilidades há muito tempo escondidas e que serão fundamentais para revelarem estes segredos ao mundo.



O filme não demora a revelar seu foco na questão da vida alienígena, mas, apesar de todo o marketing ter escondido uma boa porção dele (sobretudo o terceiro ato), o interesse de Spielberg se dá mais nessa luta entre duas forças antagônicas a respeito do controle sobre tamanha narrativa. É até emblemático que não só Margareth seja uma jornalista, como que, em tempos de desinformação e IAs, o jornalismo seja escolhido como este campo pelo qual a verdade pode ser revelada. Considerando a presença de Blunt num outro blockbuster recente a tratar da profissão (O Diabo Veste Prada 2), é uma coincidência tão notável quanto curiosa.


Com este enfoque muito mais no campo do thriller, Dia D se revela um blockbuster de aspirações mais modestas do que seu marketing dava a entender, o que certamente pode frustrar uma parcela do público acostumada ao escopo operático de obras do gênero, inclusive algumas do próprio Spielberg. Mas que satisfatório é ver um filme que sabe construir momentos de construção de personagens, sabe ter respiros na hora certa à medida que desenvolve tanto Daniel e Margareth quanto seus parceiros (Eve Hewson e Wyatt Russell). Isso não significa que se trate de um longa arrastado, pelo contrário: os personagens estão constantemente em movimento e fuga, a tensão abunda diversas das cenas (Spielberg sempre foi um mestre subestimado do suspense), e há pelo menos duas ou três setpieces de ação que estão entre as melhores da sua carreira.


Tudo isso culmina num final que, sem dar maiores spoilers (embora seja perceptível para onde o filme vai), talvez se consagre como um dos melhores da filmografia do diretor. É também o público pode mais se dividir, pois aqui ele nos pede o que parece tão difícil: que acreditemos. A questão da fé permeia toda a obra, seja de maneira mais direta (sobretudo com a personagem de Hewson, que é talvez um dos maiores destaques do filme) ou alegórica, no sentido de aceitar a grandiosidade de tal evento. Mas Spielberg, esse herdeiro do cinema clássico que sabe que a magia dos filmes reside em olhar – e acreditar no que estamos vendo –, explora esse olhar ao máximo, nas suas mais diversas reações: incredulidade, pânico, choque, deslumbramento, aceitação.


Assim, em tempos tão cínicos e desesperançosos (e onde o audiovisual precisa corresponder a esse sentimento ou será desprezado pelo público), em que até mesmo ETs podem ser usados como cortina de fumaça para governos de extrema-direita, Spielberg nos convida a um salto de fé. E o faz por intermédio da sua maior força: o cinema, essa fonte de fantasia e maravilhamento, que nos fez acreditar que houvessem outros mundos além do nosso e que houvesse vidas neles. Por que não se permitir acreditar mais uma vez, afinal de contas? 


Nota: 4/5


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