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  • Foto do escritorDavid Shelter

Crítica | O Menino e a Garça

Uma viagem à mente de Miyazaki sem direito a paraquedas

Foto: Divulgação


A parceria entre Estúdio Ghibli e Hayao Miyazaki é uma das mais duradouras e bem sucedidas do cinema, afinal, se você citar os nomes de seus filmes, será difícil alguém não reconhecer. A lista, que conta com títulos como Nausicaä do Vale do Vento, Meu Amigo Totoro, O Serviço de Entregas da Kiki, Ponyo, e o vencedor do Oscar A Viagem de Chihiro, ganha mais uma companhia, com o lançamento de O Menino e a Garça, que finalmente chegou ao Brasil.


O longa inicialmente chegou carregado de mistério, sem sinopse, trailer e um poster que revelasse coisa alguma. Posteriormente, após o seu lançamento no Japão, as coisas começaram a mudar e o mundo teve um vislumbre dessa nova história que Miyazaki. E, para quem se interessa, nela acompanhamos Mahito, um menino de 12 anos, que após a morte de sua mãe na guerra é levado para uma nova cidade onde tenta se estabelecer e fazer parte, mas surge então uma garça extremamente esquisita e envolta em enigmas que o diz que sua mãe ainda está viva, e é aí que nossa aventura tem início.


Assim como as obras mais famosas do diretor, essa também vem carregada de nuances e viagens imersivas que levam a uma reflexão e possivelmente crises existenciais. O dom de Hayao em escrutinar a psique de forma tão fácil é algo que sempre deixa o espectador em suspense, não dá para saber o que esperar, e há uma quebra constante de previsibilidade, que, enquanto você assiste examinando aquilo e pensando que vai tomar um caminho que parece estar claro, ele dá uma virada de 360º para colocar o público quietinho em seus pensamentos. Eu não consigo mensurar a quantidade de vezes em que fiquei estático olhando para a tela com o que se desenrolava, e em certo momento do filme decidi que eu só tinha que entrar naquela viagem e aguardar o segundo seguinte.

Foto: Divulgação


Um dos detalhes mais positivos em relação às produções do estúdio, é a decisão de se manter no 2D, (com exceção de Aya e a Bruxa, que, sendo bastante sincero, espero que não se repita). Não que eu não goste do modelo em 3D, mas há um charme e uma combinação tão bem casadas, que fazem disso uma assinatura do Ghibli. É nesse traço, com um toque de nostalgia, que as aventuras que vemos nos transmitem uma sensação que não se nota em outras produções. Há um ‘Q’ de inexplicável no sentimento que é passado quando junta essas histórias com esses traços característicos, e eles tornam toda a experiência um conjunto de prazer.


A razão de eu dizer isso? Não consigo imaginar esse enredo funcionando da mesma maneira com uma escolha diferente. Ele transporta o espectador a um espaço-tempo que parece pairar sobre a inexistência do real. Não sei como explicar de outra forma além dessa e queria externar esse sentimento. Esse filme em específico parece um delírio, no melhor sentido possível da palavra. Ao contrário de obras anteriores do Miyazaki, em que temos protagonistas que já vêm prontos para o mundo, nesse temos um garoto que nos leva a crescer junto a ele, com uma trama que se desloca numa velocidade que inicialmente parece não se ater ao tempo, mesmo que, para mim, haja uma rápida finalização e gere um certo desconforto próximo ao fim.


A direção e o roteiro são bem executados, uma trilha que eleva ainda mais a história e ajuda o espectador a se envolver com o que está assistindo, cores vivas que hipnotizam e personagens cativantes. Não que eu não me importe com a parte do “que mensagem ele quer passar?”, mas acho que isso acaba sendo subjetivo, já que as compreensões são diferentes, mas é um mérito gigantesco que ele deixe uma semente de pensamentos que ficam germinando dia após dia, pois, desde que o assisti penso nele com frequência, e a cada vez me vem algum novo insight, uma nova crise existencial. É gratificante que o cinema nos permite absorver temas de maneiras diferentes, e eu, que sempre fui um entusiasta da morte e da solidão, fiquei satisfeito com o resultado, e com o que ele proporcionou.


Nota: 4/5


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