Crítica | Um Zé Ninguém Contra Putin (Oscar 2026)
- Aianne Amado

- há 2 horas
- 4 min de leitura
O registro clandestino de um professor russo cria um documento histórico que não sabe o tamanho de si mesmo.

“Acho que o que você fez terá um grande impacto”.
Essa é uma das últimas frases de Um Zé Ninguém Contra Putin. Ela aparece em uma mensagem de voz enviada por um dos produtores a Pavel Talankin enquanto ele fugia da Rússia, após passar dois anos gravando secretamente uma denúncia explícita contra o país. Só que essas gravações não começaram clandestinamente – muito pelo contrário: eram, antes de tudo, resultado do trabalho cotidiano de Talankin, cujo apelido, Pasha, também lhe servia como uma espécie de persona alternativa.
É com Pasha que começamos o filme. Professor querido e cinegrafista de eventos escolares, ele trabalha na mesma escola onde ele próprio estudou na infância, que também é o local de trabalho de sua mãe. Para ele, aquelas salas de aula e corredores não representam apenas um emprego, constituem o microcosmo de toda a sua vida. Ela está situada numa pequena cidade no interior da Rússia, conhecida por ostentar o título nada invejável de cidade mais poluída do mundo. A expectativa de vida média de seus moradores é de impressionantes 40 anos. Pasha, no entanto, parece não se deixar abalar por esse cenário, e genuinamente ama o que faz e o lugar onde trabalha.
As diversidades que poderiam ser motivos de desânimo para muitos se tornam, para ele, uma missão. Ciente das dificuldades que seus alunos provavelmente enfrentarão na vida adulta, Pasha tenta oferecer leveza enquanto pode. Responsável pelas filmagens da escola, dedica-se a registrar momentos de alegria daquelas infâncias e adolescências. Oferece acolhimento em conversas informais pelos corredores ou recebendo grupos de alunos em sua pequena sala — um espaço decorado por ele próprio, que destoa tanto da arquitetura soviética desbotada dos prédios locais quanto da cinzenta névoa industrial que paira sobre a cidade. Ali, Pasha é feliz e faz seus alunks felizes.
Até que esse microcosmo começa a ruir.

A quilômetros dali, em seu gabinete em Moscou, Vladimir Putin declara guerra à Ucrânia e inicia uma ofensiva propagandística em toda Rússia. O patriotismo exacerbado e a demonização do “inimigo” tornam-se instrumentos centrais para convencer a população a apoiar o inaceitável. E, como frequentemente acontece em regimes autoritários, a doutrinação começa cedo.
É então que o trabalho de Pasha muda de natureza. Suas filmagens deixam de ser simples registros das atividades escolares e passam a funcionar como documentação oficial que comprova a implementação das novas diretrizes governamentais para a educação. Pouco a pouco, ferramentas de doutrinação vão sendo incorporadas ao currículo: professores passam a repetir discursos padronizados; cerimônias patrióticas e marchas se tornam obrigatórias; aulas de instrução militar são introduzidas; crianças empunham armas que quase equivalem com sua própria altura. Cada novo absurdo parece normalizar o absurdo anterior.
Nesse processo, Pasha começa a desaparecer – e dá lugar a Pavel Talankin.
Talankin é um defensor do retorno da democracia na Rússia e um dos raros cidadãos de sua cidade a expressar oposição à guerra. Idealista, sempre depositou suas esperanças na juventude. As transformações que testemunha, no entanto, abalam profundamente essa crença. Seus pupilos entram em conflito: não sabem se acreditam nos professores que repetem o discurso oficial ou na dor concreta de perder amigos e familiares nos campos de batalha. Com medo de serem associados a um “traidor da pátria”, os alunos deixam de frequentar sua salinha.
Frustrado, Talankin passa a gravar depoimentos próprios em casa. Ele envia essas gravações, junto com as imagens feitas na escola, para a Dinamarca, onde reside o cineasta David Borenstein, com quem viria a dividir a direção do documentário. Juntos, constroem a tese central do filme: mesmo em contextos de extrema impotência, é possível surgir a resistência.
Talankin, porém, parece dividido entre a modéstia e o orgulho diante da própria coragem. Em alguns momentos, engrandece (com todo mérito) seus feitos; mas em outros, procura suavizá-los. Essa indecisão transparece na própria linguagem do filme. A narração, a trilha e as inserções de arte assumem um tom frequentemente descontraído, que funciona nos primeiros momentos, mas logo passa a destoar da seriedade da história que se desenrola. Há ali um certo maniqueísmo ingênuo e um didatismo por vezes simplificador que acabam reduzindo a complexidade das questões sugeridas pelas próprias imagens. Cabe ao espectador captar as camadas mais densas do que está em jogo — entre elas, talvez a mais reveladora seja a percepção de que a guerra se manifesta também nas esferas aparentemente mais banais da vida social.
Ao alternar as imagens captadas por Talankin, que oferecem uma rara visão do cotidiano russo, com registros midiáticos sobre o conflito, Um Zé Ninguém Contra Putin constrói um contraste constante entre o macro e o micro. O resultado é a constatação de que até os espaços mais improváveis são atravessados pela guerra.
A trincheira não está apenas na linha de frente dos campos de batalha – ela também atravessa a sala de aula do ensino infantil. O soldado que morre no combate é também o irmão do aluno que, no dia seguinte, já não consegue se concentrar para a próxima prova. O aluno que hoje aprende como usar uma granada pode ser o “herói” da pátria no futuro, ou pelo menos o cidadão que apoiará a continuidade da chacina.
A coragem extraordinária dos diretores ao tornar públicas imagens que jamais deveriam deixar de ser confidenciais não encontra uma equivalência no engenho narrativo empregado para tratar essa história com toda a dimensão que ela merece. Isso compromete o ritmo e a densidade do longa enquanto obra artística — mas jamais enquanto documento histórico.
Concorrendo ao Oscar de Melhor Documentário e vencedor do BAFTA de Melhor Documentário, o filme inspira, choca, emociona e causa revolta. Como previsto antes do seu exílio, o que Pasha/Talankin fez, de fato, teve grande impacto.
Nota: 3,5/5






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