Crítica | Scarpetta
- Aianne Amado

- há 2 horas
- 3 min de leitura
Com Nicole Kidman fazendo mais do mesmo, o thriller chega à televisão com pelo menos dez anos de atraso.

Uma das belezas de ter vivido a ascensão da chamada “cultura das séries” é poder acompanhar em primeira mão a evolução artística do formato. É verdade que o surgimento de obras-primas como Twin Peaks (1990), Família Soprano (1999) e Breaking Bad (2008) continua sendo um evento raro na televisão contemporânea. Ainda assim, séries de excelência como Succession (2018), Fleabag (2016), Veep (2012), Atlanta (2016) e Ruptura (2022) tornaram-se cada vez mais frequentes — resultado direto da corrida competitiva entre as plataformas de streaming (ainda que essa disputa venha acompanhada da crescente precarização do trabalho de artistas da indústria, mas esse é papo para outra análise).
Um dos gêneros que mais tem se beneficiado dessa escalada é o thriller investigativo. De True Detective (2014) a Bad Sisters (2022), passando por Sharp Objects (2018), Mare of Easttown (2021) e Big Little Lies (2017) (e aqui estou conscientemente fingindo que a segunda temporada desta última jamais existiu), a narrativa seriada baseada no mistério do “who dunnit” amadureceu consideravelmente ao longo desse período. Como consequência, séries que outrora poderiam ser consideradas excelentes hoje soam apenas satisfatórias, quando não simplesmente… medíocres.
É o caso de Scarpetta (2026), novo thriller do Amazon Prime Video, inspirado na popular série de romances policiais da escritora Patricia Cornwell. Nicole Kidman interpreta a personagem-título, uma médica legista que retorna ao cargo de chefia do departamento estatal e se vê diante de um assassinato que pode reabrir – e possivelmente reescrever – um caso de décadas atrás, o mesmo caso que lhe trouxe prestígio profissional.
A premissa abre espaço para duas linhas narrativas principais: a investigação do crime atual e a reconstrução do caso ocorrido nos anos 1990. Em ambas, a atuação profissional de Scarpetta é constantemente atravessada por sua turbulenta dinâmica familiar, sobretudo pela presença de sua irmã expansiva e imprevisível (vivida por Jamie Lee Curtis) e da sobrinha emocionalmente fragilizada e obcecada por tecnologia digital (Ariana DeBose).
A série parece presa a um constante impasse tonal. De um lado, trata o mistério com excesso de imponência, apostando em fotografia sombria, interpretações intensas, direção de arte hiper-realista e até imagens demasiadamente gráficas de cadáveres. De outro, recorre a um humor truncado e banal, sobretudo a partir da fastidiosa personagem de Curtis. Cria-se, então, uma oscilação que raramente encontra equilíbrio, embalada por uma galeria de personagens unidimensionais mas que juram ser psicologicamente densos. Ainda mais grave é a ambição estética da série, que contrasta com a recorrência de clichês do gênero.

Costuma-se falar em obras “à frente de seu tempo”, mas parece que estamos diante de um fenômeno diretamente oposto: fosse lançada dez ou quinze anos atrás, talvez Scarpetta pudesse ser vista como uma produção inventiva e ousada. No panorama atual, porém, soa como uma colcha de retalho de elementos já explorados – e melhor desenvolvidos – por outras séries.
Parte disso talvez se explique pela longa gestação do projeto. A adaptação das histórias de Scarpetta circula por Hollywood há mais de duas décadas. Ao longo desse período, nomes como Angelina Jolie, Demi Moore, Jodie Foster e Helen Mirren chegaram a ser associados à produção. Quando finalmente se consolidou a escolha de Nicole Kidman para o papel principal, sua imagem já esta saturada, excessivamente atrelada a esse arquétipo de “bela mulher madura, socialmente respeitada, mas que esconde um segredo perigoso”, como já a vimos em Nine Perfect Strangers (2021), The Perfect Couple (2024), The Undoing (2020) e Big Little Lies (2017).
Não me entendam mal – a série está longe de ser desastrosa. É um entretenimento competente. Porém, carece irremediavelmente de uma identidade própria. Diante da ambição de se construir um thriller sofisticado, construiu-se uma fórmula que parece diluída em si mesma.
Nota: 2,5/5






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