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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Propriedade

A obviedade de um discurso político salva pela força do suspense

Foto: Divulgação


O conflito de classes tem ganhado notável espaço no cinema nacional e internacional dos últimos anos, impulsionado especialmente após a vitória de Parasita (2019) no Oscar. No nosso cinema, tal temática já é trabalhada há décadas nas mais diferentes perspectivas: da luta anticolonial e popular do Cinema Novo, passando pelas “figuras do ressentimento” individualistas do cinema de Retomada e pelas tensões político-ideológicas emergidas nos primeiros governos Lula e acentuadas pela ascensão da extrema-direita bolsonarista.


Propriedade, de Daniel Bandeira, se enquadra nesse último panorama, e seu mote político é potencializado pela sua espacialidade: a Zona da Mata pernambucana, com seu histórico de engenhos e usinas de açúcar, casas-grandes e senzalas e relações de classe que aparentemente pouco mudaram desde o período colonial. Nesse sentido, se aproxima tanto de O Som ao Redor (2013) e Açúcar (2017), para citar dois exemplos recentes: a diferença está na forma, em como Bandeira conduz a história pelo viés do suspense e da violência.


Na trama, Tereza (Malu Galli) é uma estilista que vive cada vez mais reclusa após sofrer um assalto e sequestro que terminou com a violenta morte do bandido. Para oferecer-lhe um pouco de paz e tranquilidade, seu marido Roberto (Tavinho Teixeira) a leva para a fazenda de sua família na Zona da Mata no seu luxuoso novo carro, que mandou blindar. Paralelamente, os empregados da fazenda recebem a notícia de que ela irá fechar para dar lugar a um hotel e por isso serão demitidos, com pouca ou nenhuma chance de ressarcimento, o que gera um sentimento de revolta coletivo que não tarda a atingir o casal de patrões.


Apesar da relativa curta duração de cerca de 100 minutos, Propriedade opera num ritmo cadenciado que vai aos poucos alavancando a tensão da história, especialmente ao nos apresentar primeiro o ponto de vista de Tereza e depois dos empregados. Se a revolta destes nos parece justa, pouco há para nos fazer empatizar pela protagonista além do seu trauma (que depois de certo ponto é convenientemente ignorado), cabendo à força da atuação de Malu Galli sustentá-la até o fim, especialmente nos momentos de maior desespero e terror. Além disso, o filme não deixa de cair no clichê de tratar as massas como, bem... massas, um amontoado de rostos pouco distinguíveis uns dos outros, salvo um ou outro personagem, como aqueles interpretados por Zuleika Ferreira e Edilson Silva.

Foto: Divulgação


Se por um lado esse tratamento coletivo dado aos empregados dificulta uma certa conexão com suas motivações, por outro lado cai bem a um filme que evita o potencial maniqueísmo do seu discurso, como ocorre a tantas outras obras nacionais e estrangeiras, especialmente no contexto sociopolítico dos últimos anos. Bandeira está mais interessado na ambiguidade, em seguir o caminho menos fácil e cômodo, de modo que ele tampouco pinta Tereza como a “sinhazinha” vilanesca ou transforma os empregados numa unidade, permitindo que aflorem conflitos internos entre eles que impulsionam a trama.


Nesse sentido, o suspense é a arma ideal para nos levar a esse caminho ambíguo e tortuoso, seja no visível ou no sugerido. Bandeira muitas vezes evita exibir frontalmente a violência para focar nas reações de Tereza, como na cena em que um personagem atira contra o carro blindado, e sabe que as consequências dessa violência podem ser ainda mais aterradoras, como no plano que exibe uma mão presa à porta do carro.


A mixagem sonora do filme é outro grande acerto nesse aspecto, especialmente a partir do momento em que Tereza se vê presa no carro para sobreviver. A incapacidade dela de ouvir os empregados do lado de fora, mesmo quando esses tentam negociar para que a situação não piore, é simbólica de uma elite que jamais se prestou a ouvir seus subalternos e representa uma irreconciliável relação de classes (e também de raça, visto que a maior parte dos empregados é negra), culminando num final que, sem dar maiores spoilers, não poderia ser outro.


Propriedade, portanto, tem a proeza de se inscrever num lugar-comum do cinema contemporâneo sem se prender a certas armadilhas que a sua proposta poderia trazer. Nem sempre acerta no que propõe a respeito dos seus personagens e também dos espaços que trabalha (as situações envolvendo Tereza e o carro são muito menos exploradas do que o filme prometia), mas é um excelente exemplar do audiovisual brasileiro na medida em que relaciona as tensões e conflitos de classe com o cinema de gênero.


Nota: 3,5/5


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