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  • Foto do escritorAianne Amado

Crítica | The White Lotus (2ª temporada)

Enfim uma exceção à regra de continuações infelizes de séries limitadas

Divulgação: HBO


Minha mãe sempre diz: “se quer conhecer uma pessoa, viaje com ela”. Me pergunto se Mike White conheceu esse ditado antes de criar (e escrever e dirigir) The White Lotus, série da HBO que isola a elite estadunidense num resort de luxo e exige que o convívio lhes tire as máscaras. A essa premissa é adicionada a informação de que hóspedes (plural, nessa temporada) foram encontrados mortos, tornando a narrativa um delicioso jogo de detetive, no qual você nunca passa um episódio com a mesma impressão que tinha no anterior.


A primeira temporada surgiu como brilhante solução narrativa às imposições da pandemia: assim como os personagens, equipe e elenco se isolaram na locação havaiana para possibilitar as gravações. A crítica social escondida por trás de sacadas satíricas se tornou um sucesso de público e crítica – levando recentemente dez dos vinte Emmys que concorreu. Talvez por isso o anúncio da continuação do que seria, inicialmente, uma série limitada tenha recebido comentários mistos. E não é de se estranhar: apesar do inegável talento de Mike White merecer o voto de confiança, o histórico mostra que segundas temporadas descabidas para séries “limitadas”, encomendada apenas por fins lucrativos, tendem a prejudicar a obra por inteira (sim, estou falando de Big Little Lies e das antologias do Ryan Murphy).

Felizmente, mantendo a mesma fórmula onde necessário e modificando peças chaves para permitir um senso de novidade, The White Lotus consegue se provar uma excelente exceção a essa regra. Se na temporada anterior o tema era racismo estrutural sutilmente (ou nem tanto) enraizado no cotidiano do privilégio, agora estamos falando de problemáticas menos panfletárias mas igualmente frutíferas em termos narrativos: sexo e sexismo. Sempre vigiados por uma deusa lendária que, quase literalmente, está onipresente na ilha, os hóspedes enfrentam toda uma variedade de dilemas pessoais e morais relacionados aos seus mais primitivos desejos. Também muda o cenário, que agora traz as belíssimas praias e famosas arquiteturas da região italiana da Sicília para contrastar com a mediocridade da vida milionária.

Divulgação: HBO


No elenco, Jennifer Coolidge é o fio que liga as duas narrativas, revivendo a deplorável narcisista Tanya, que agora soma às suas inúmeras crises um casamento não tão bem sucedido. Ela chega ao resort acompanhada de Portia (Haley Lu Richardson), sua assistente pessoal/suporte emocional que tenta sobreviver às férias da sua chefe instável ao procurar por uma distração masculina – aparentemente encontrada em Albie, um jovem um pouco perfeito demais. Ele viaja acompanhado de seu pai Dominic (Michael Imperioli) e seu avô, Bert (F. Murray Abraham), três gerações em conflito com suas visões sobre o sexo oposto: Bert não entende de pudor nem se deixa limitar pela sua idade, flertando com toda jovem que vê em sua frente; Dominic culpa as atitudes de seu pai pelo seu vício sexual, que eventualmente pôs fim ao seu casamento; e Albie tenta fugir desses padrões e do patriarcado em geral, seguindo ao pé da letra todos os ensinamentos que o feminismo o ensinou.


Completando o núcleo dos turistas estão os milionários de berço Daphne (Meghann Fahy) e seu marido Cameron (Theo James), que, por sua vez, convidou os novos ricos Ethan (Will Sharpe), seu colega de quarto na universidade, e Harper (Aubrey Plaza), sua esposa. Os casais não poderiam ser mais diferentes, tão opostos quanto a política brasileira atual, o que leva aos melhores diálogos de toda a série. Harper não compra a vida a dois perfeita que Daphne e Cameron parecem levar e, ao tentar desvendar a verdade por trás dos sorrisos e falsas empatias, revela também sua personalidade egocêntrica e invejosa, a custo da sanidade do seu passivo marido.

Todas essas histórias são cruzadas pelas personagens italianas: Valentina (Sabrina Impacciatore), gerente do hotel amargurada com sua própria sexualidade; Lucia (Simona Tabasco), prostituta de luxo tentando tirar proveito da elite miserável; e sua melhor amiga Mia (Beatrice Grannò), aspirante a cantora que topa tudo, tudo, por uma chance a alavancar a carreira.

Divulgação: HBO


É necessário enfatizar a excelência das atuações (e, por consequência, da direção e do casting), com um elenco que, embora não desfrute de nomes ilustres (ainda), consegue oferecer falas e ações absurdas de forma tão natural que, para um espectador desatento, é fácil desconsiderar as muitas camadas de ironia e crítica do roteiro – como de fato ocorreu da temporada passada. Tudo bem, é justamente a falta de didatismo que abrilhanta The White Lotus. Jennifer Coolidge segue com sua atuação hipnotizante, que nos deixa em constante debate acerca de onde termina a atriz e começa a personagem, fazendo valer o esforço de acompanhar seu arco, ainda que este seja sem dúvidas o mais fora da curva. Todavia, deixo o devido destaque à dinâmica perfeita entre Meghann Fahy e Aubrey Plaza – esta última que, depois de tantos trabalhos excelentes, já passou da hora de se estabelecer em Hollywood como muito mais que apenas a April de Parks and Rec.


Tecnicamente, a série continua honrando o logo da HBO que exibe antes de sua abertura. A fotografia maravilhosa enquadra perfeitamente as belezas da locação sem nos tirar do foco de que estamos assistindo, na verdade, o que há de corrompido na burguesia, por mais que essa tente – e como tenta! – disfarçar. A montagem dá o ritmo perfeito entre os diversos núcleos, fazendo os episódios de uma hora passarem como uma boa sitcom. E a trilha sonora dá o timing perfeito entre a comédia e o suspense, nos trazendo de volta sempre que o roteiro nos distrai de que, na verdade, estamos diante de uma cena de crime.


Com apenas os cinco primeiros episódios disponibilizados à crítica, ainda é cedo para dizer que essa temporada é melhor que sua antecessora, que terminou de uma forma tão absurda quanto inesquecível. Alguns aspectos morais em aberto, como a percepção de Albie como “respeitoso demais” ou o entendimento de Lucia como alguém que merece punição, deixam um pé atrás sobre os rumos da narrativa – mas dessa vez já aprendi a confiar em White.


Nota: 5/5

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