Crítica | DTF St. Louis (Minissérie)
- Filipe Chaves

- há 3 horas
- 4 min de leitura
A estranheza é um dos principais trunfos na nova produção da HBO, que é a cara do canal.

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A HBO é conhecida por ser pioneira em tantos aspectos da televisão, ousar e não impor limites quando se quer contar uma boa história, principalmente no fator humano da coisa. Sua minissérie mais recente pode não ser exatamente revolucionária, mas consegue se diferenciar bem na maneira de construir sua narrativa e é através das bizarrices habituais das séries do canal que ela encontra o melhor jeito de nos apresentar uma espécie de triângulo amoroso na crise da meia idade composto por Jason Bateman, Linda Cardellini e David Harbour, e que acaba em tragédia. Criada por Steven Conrad (Patriot), a minissérie de sete episódios soube equilibrar bem o drama, o mistério e o humor ácido, o que me trouxe conforto depois de ficar receoso com as primeiras horas, de que o “quem matou?” se sobressaísse à dinâmica do trio, que na minha visão, era bem mais interessante de se assistir. Felizmente, foram complementares.
Jason Bateman é Clark Forrest, o homem do tempo no telejornal local, enquanto David Forrest é Floyd, o intérprete de libras. Os dois formam uma amizade, mas isso não impede que Clark e Carol (Linda Cardellini), esposa de Floyd, tenham um caso. O casamento de Carol e Floyd está em apuros, principalmente no âmbito sexual, o que deixa a brecha para que Clark adentre ali. Floyd tem diversos problemas de autoestima, enquanto Clark é mais confiante, o que desperta em Carol um interesse maior e é o começo dessa dinâmica que tem contornos surpreendentes e inusitados, para dizer o mínimo. E eu não falarei muito para não dar spoilers, mas é importante ressaltar que há um amor genuíno entre Carol e Floyd e uma amizade real entre Floyd e Clark, mas não há mais do que desejo entre Carol e Clark.

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É complexo assim mesmo e foi uma delícia acompanhar semanalmente, não só pelo texto de Conrad ser tão afiado, mas pelos atores estarem espetaculares. Particularmente não sou muito fã de Jason Bateman fazendo drama e acho que ele nunca consegue sair do lugar comum, seja em Ozark ou, mais recentemente, em Black Rabbit. Não que ele seja ruim, mas não dá para exaltar. Aqui, com a direção correta, ele consegue explorar mais camadas de seu personagem, o que o faz um excelente parceiro de cena para David Harbour, que expõe as fragilidades de seu Floyd de uma forma sutil ao mesmo tempo que trágica, que é difícil não se comover com sua trama. Linda Cardellini faz de Carol uma mulher com semblante cansado, que acha um refúgio, mas que talvez não seja exatamente o que ela quer. Entre erros e acertos, esses personagens são construídos e se desenvolvidos como humanos, e em meio a absurdos, percebemos que a normalidade pode ser superestimada. Há de se falar também, claro, em Richard Jenkins e Joy Sunday, que são os detetives que investigam o caso – a tragédia que eu falei acima. Ambos ótimos e Jenkins tem um timing cômico fantástico, reagindo às descobertas na investigação. Com menos tempo de tela, mas sempre roubando a cena quando aparece, temos o sempre genial Peter Sarsgaard, com um personagem um tanto, digamos, curioso, mas que reflete bem a essência da minissérie.
E acho que essa essência pode ser resumida na pergunta “afinal, o que é ser normal?”. Sem dúvidas, Steven Conrad decide questionar a normalidade e os padrões aqui, nos convidando a refletir sobre a vida, a solidão, a vulnerabilidade, principalmente de uma perspectiva masculina. Sabemos que não é comum homens se abrirem e falarem sobre o que estão sentindo, mas o roteiro de Conrad é muito eficaz em descascar estas camadas e expor o que se esconde por trás das cercas brancas de vidas aparentemente perfeitas, seja nos excelentes diálogos ou em cenas silenciosas, que aprofundam ainda mais aqueles personagens, principalmente Floyd e Clark.
No início do texto, eu falei como um “quem matou?” poderia tirar o foco do que realmente importava: a dinâmica entre o trio. Felizmente, este receio ficou para trás no decorrer dos episódios e no último, com a resposta do mistério, ficou claro que a intenção de Conrad não era somente fisgar a audiência, mas sim encerrar aquele ciclo, e isso foi extremamente comovente para fechar esta história. Foi trágico, mas fez todo sentido com o que foi construído até aqui. O título do episódio final é No One’s Normal. It Just Looks That Way From Across the Street, o que em português quer dizer Ninguém é Normal. Mas de Longe Todo Mundo Parece Ser. DTF St. Louis nos convidou a chegar mais perto e a enxergar aquelas pessoas despidas – literalmente ou não – e nos convidando a refletir que não existe normalidade e muito menos perfeição quando se trata de seres humanos na melhor minissérie do ano, até então. Que a HBO continue permitindo seus criadores a mostrarem as feiuras e belezas da intensa jornada que é viver, com toda estranheza disfarçada de normalidade.
Nota: 4,5/5



















