Crítica | Treta (2ª temporada)
- Filipe Chaves

- há 9 horas
- 4 min de leitura
Mais personagens com protagonismo não foi a melhor ideia para superar o brilhantismo do ano de estreia.

Quando estreou lá em 2023, Beef (ou Treta aqui no Brasil) me arrebatou de cara. Inicialmente, seria uma minissérie – o que já faria dela uma das melhores coisas que a Netflix já fez, mas dado o tremendo sucesso, a renovação aconteceu e a transformaram em uma série antológica, como acontece de vez em quando. Ainda é uma das melhores coisas do streaming? Definitivamente. A 2ª é tão boa quanto a 1ª? Definitivamente não, mas passa longe de ser ruim. Desta vez, a trama é focada em quatro personagens (ou cinco, quase). Um casal jovem e apaixonado que não consegue se desgrudar, feitos por Cailee Spaeny e Charles Melton, que acabam flagrando uma terrível briga entre um casal mais maduro, interpretado por Oscar Isaac e Carey Mulligan – em uma reunião nostálgica para os fãs do excelente Inside Llewyn Davis, como este que vos fala. E é daí que começa a treta do ano. O problema é que ela me soou menos orgânica do que a briga no trânsito da 1ª temporada, e portanto, quando tudo vai escalonando, há uma fragilidade mais aparente do roteiro.
Josh (Isaac) é gerente de um clube de alto escalão que acaba de ser comprado por uma bilionária sul-coreana, que é o papel da vencedora do Oscar Youn Yuh-jung. Josh é casado com Lindsay (Mulligan), mas a relação já não está das melhores, e com toda a aflição das possíveis mudanças, tudo piora. Ashley (Spaeny) tem um emprego pequeno no mesmo clube e seu noivo Austin (Melton) tem menos ainda, pois trabalha apenas meio-período. Já perceberam a pirâmide das classes sociais refletidas nos relacionamentos aqui? Pois é, é um dos temas basilares da temporada, sendo os debates sobre capitalismo um dos principais motores. Austin e Ashley querem mudar de vida, enquanto Josh e Lindsay querem mais do que têm, enquanto a Presidenta Park (Yuh-jung) quer manter o império que já possui. Tudo isso leva os personagens do ponto A ao ponto B, mas a devida substância em cada um deles, porque afinal, mesmo estando em relacionamentos – que é o maior debate – eles ainda são indivíduos.
Na primeira temporada, tínhamos dois protagonistas, tudo girava em torno deles e os eventos escalonavam com naturalidade, por mais absurdos que fossem. Agora nesta segunda, alguns me parecem um tanto forçados, devo dizer, e o absurdo não soa mais tão genuíno assim, bem como os personagens mostrando suas piores facetas, justamente por não ter este desenvolvimento mais aprofundado em cada um deles. Josh é um homem de 40 anos meio acomodado com a vida que leva, mas ainda assim com um sentimento de que não pertence aquele lugar, mas finge pertencer. Enquanto Lindsay, insatisfeita com o casamento e com a vida estagnada, clama por alguma mudança já que não pode voltar no tempo e fazer outras escolhas. Ashley é uma jovem louca para formar uma família e Austin é um bobão que faz tudo o que todo mundo quer. Claro, de início, até que as situações vão mostrando novas facetas, boas e ruins.

O elenco, claro, fantástico. Oscar Isaac divide seu Josh entre a amargura e o desconforto, enquanto tenta disfarçar suas verdadeiras emoções. Carey Mulligan tem o rosto mais doce do mundo e sempre parece ser boazinha, mas eu adoro ver quando ela não é. A atriz é versátil e tem um controle genial ao mostrar suas emoções. Cailee Spaeny tem uma personagem onde a juventude salta aos olhos, bem como a inquietude de meter os pés pelas mãos – o que todos fazem, na verdade. Charles Melton, para mim, o destaque principal. Justamente por seu Austin ser tão subdesenvolvido pelo texto, o ator mostra sua força que já surpreendeu em May December e consegue nos dar informações de suas inseguranças com uma sutileza impecável. Youn Yuh-jung tem um papel bem diferente dos que eu a vi, como em Minari ou Pachinko, e foi um deleite assisti-la em algo mais vilanesco, digamos assim. Todos eles e os mais diversos coadjuvantes – até participações de alguns famosos como eles mesmos – brilham no tom da série, passeando com facilidade entre o drama e o humor.
Formigas são sinônimo de persistência, força e união. Então não é à toa que aparecem em vários momentos dos oito episódios para nos lembrar de que aqueles personagens podem não se amar, e até se odiar às vezes, mas precisam um do outro para sobreviver, como casal, pelo menos. E ainda que este segundo ano não seja tão substanciado ou bem equilibrado como o primeiro, ele ainda é acima da média de tantas produções que temos hoje em dia.
A direção excelente é prova disso, não só por tirar o melhor dos atores, mas indo de belíssimos enquadramentos à insanos planos-sequências, ditando o tom da loucura que é a série. Outros aspectos como os figurinos, que realmente conversavam com os personagens, a trilha sonora espectacular e o design de produção tão cuidadoso mostrado principalmente nas desigualdades sociais. São detalhes que fazem o valor de uma produção. No entanto, Lee Sung Jin pecou pelo excesso de personagens centrais, não dando o desenvolvimento que eles mereciam. Ainda temos excelentes cenas e momentos pelos episódios, mas substancialmente faltou. O final, que não é ruim, reflete esta queda de uma temporada para outra. Enquanto o primeiro tem uma pegada mais filosófica que encerra um ciclo, nesta segunda vemos que a vida é cíclica e de uma maneira mais cínica e pouco surpreendente, não que seja isso seja um defeito, é apenas uma constatação. Treta ainda é uma das melhores coisas no ar, mas definitivamente a primeira a gente nunca esquece.
Nota: 3,5/5



















