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Crítica | Cinco da Tarde

Giulia Meneses

19 de jun de 2026 · 3 min de leitura

No novo longa de Eduardo Nunes, a melancolia da hora dourada se mistura ao luto e a descoberta

Imagem: Divulgação


Na maioria das vezes, quando nos deparamos com o fim da tarde, aquele momento ao mesmo tempo calmo e caótico, em que tudo parece precisar se encaixar antes que o dia termine de vez —, a sensação de nostalgia ou uma tristeza difícil de explicar surge com mais intensidade do que nunca. Seja observando o pôr do sol da varanda de casa ou apreciando o céu arroxeado pela janela do ônibus, aquela vontade de revisitar toda a sua vida até então é quase inevitável, como se cada tom do entardecer despertasse memórias, reflexões e sentimentos guardados ao longo da vida.


Em Cinco da Tarde, do diretor Eduardo Nunes, esse é o sentimento recorrente. Mesmo com uma fotografia predominantemente em preto e branco, o filme funciona como uma majestosa representação de como a troca de experiências, memórias e dores pode se tornar um elo capaz de aproximar duas pessoas, transformando encontros cotidianos em conexões profundas e significativas, mas não necessariamente românticas.


Na trama, Anabel, uma jovem de 17 anos que acabou de perder a avó com quem vivia, acaba se aproximando de Meiko, uma tímida vizinha que trabalha em uma floricultura local. Com o passar do tempo, essa aproximação revela sentimentos escondidos e semelhanças improváveis. Voltando ao apartamento da avó, Anabel encontra uma estranha presença, que a faz compreender melhor o momento em que está vivendo.


Depois de se encontrarem de uma forma meio apressada mas intensa, as protagonistas passam a construir uma relação de apoio mútuo, de forma que a “luz” que faltava na vida de ambas é preenchida de forma sutil e gradual. A química entre as atrizes Bárbara Luz (Ainda Estou Aqui) e Sharon Cho é, sem dúvida, um dos grandes destaques da trama. Enquanto Anabel compartilha fragmentos de suas memórias com a falecida avó, Meiko encontra, aos poucos, espaço para se libertar das dores e dos sentimentos que a mantinham presa ao passado.


Gravado em um Rio de Janeiro frio e, mais uma vez, melancólico, o tom sobrenatural do filme se concentra em locações que a avó de Anabel costumava frequentar ou saudar, à exemplo do Cine São Bento e a Igreja Porciúncula de Sant’Ana. O apartamento compartilhado entre Anabel e sua avó também funciona como um personagem na trama, representando uma redoma para os sentimentos da protagonista. A presença espiritual da falecida naquele ambiente, também serve como um impulso para que a protagonista deixe de lado os seus traumas.


Ambientado em um Rio de Janeiro frio e, mais uma vez, melancólico, o tom sobrenatural do filme se constrói a partir de espaços carregados de memória e significado, como o Cine São Bento e a Igreja Porciúncula de Sant’Ana, locais que a avó de Anabel costumava frequentar ou reverenciar. O apartamento compartilhado entre neta e avó também assume um papel fundamental na narrativa, funcionando quase como um personagem.


Mais do que um cenário, o espaço se torna uma redoma que abriga os sentimentos, lembranças e angústias da protagonista. A presença espiritual da falecida naquele ambiente atua como um constante lembrete do passado, mas também como um impulso para que Anabel enfrente a solidão e encontre em Meiko o seu ponto de equilíbrio.


Ao transformar o luto, a solidão e a memória em elementos centrais de sua narrativa, Cinco da Tarde encontra beleza justamente nos momentos mais silenciosos da existência. Apesar de monótono em alguns momentos, o filme demonstra que algumas feridas não desaparecem por completo, mas podem se tornar mais leves quando compartilhadas.


Nota: 4/5

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No novo longa de Eduardo Nunes, a melancolia da hora dourada se mistura ao luto e a descoberta

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Na maioria das vezes, quando nos deparamos com o fim da tarde, aquele momento ao mesmo tempo calmo e caótico, em que tudo parece precisar se encaixar antes que o dia termine de vez —, a sensação de nostalgia ou uma tristeza difícil de explicar surge com mais intensidade do que nunca. Seja observando o pôr do sol da varanda de casa ou apreciando o céu arroxeado pela janela do ônibus, aquela vontade de revisitar toda a sua vida até então é quase inevitável, como se cada tom do entardecer despertasse memórias, reflexões e sentimentos guardados ao longo da vida.


Em Cinco da Tarde, do diretor Eduardo Nunes, esse é o sentimento recorrente. Mesmo com uma fotografia predominantemente em preto e branco, o filme funciona como uma majestosa representação de como a troca de experiências, memórias e dores pode se tornar um elo capaz de aproximar duas pessoas, transformando encontros cotidianos em conexões profundas e significativas, mas não necessariamente românticas.


Na trama, Anabel, uma jovem de 17 anos que acabou de perder a avó com quem vivia, acaba se aproximando de Meiko, uma tímida vizinha que trabalha em uma floricultura local. Com o passar do tempo, essa aproximação revela sentimentos escondidos e semelhanças improváveis. Voltando ao apartamento da avó, Anabel encontra uma estranha presença, que a faz compreender melhor o momento em que está vivendo.


Depois de se encontrarem de uma forma meio apressada mas intensa, as protagonistas passam a construir uma relação de apoio mútuo, de forma que a “luz” que faltava na vida de ambas é preenchida de forma sutil e gradual. A química entre as atrizes Bárbara Luz (Ainda Estou Aqui) e Sharon Cho é, sem dúvida, um dos grandes destaques da trama. Enquanto Anabel compartilha fragmentos de suas memórias com a falecida avó, Meiko encontra, aos poucos, espaço para se libertar das dores e dos sentimentos que a mantinham presa ao passado.


Gravado em um Rio de Janeiro frio e, mais uma vez, melancólico, o tom sobrenatural do filme se concentra em locações que a avó de Anabel costumava frequentar ou saudar, à exemplo do Cine São Bento e a Igreja Porciúncula de Sant’Ana. O apartamento compartilhado entre Anabel e sua avó também funciona como um personagem na trama, representando uma redoma para os sentimentos da protagonista. A presença espiritual da falecida naquele ambiente, também serve como um impulso para que a protagonista deixe de lado os seus traumas.


Ambientado em um Rio de Janeiro frio e, mais uma vez, melancólico, o tom sobrenatural do filme se constrói a partir de espaços carregados de memória e significado, como o Cine São Bento e a Igreja Porciúncula de Sant’Ana, locais que a avó de Anabel costumava frequentar ou reverenciar. O apartamento compartilhado entre neta e avó também assume um papel fundamental na narrativa, funcionando quase como um personagem.


Mais do que um cenário, o espaço se torna uma redoma que abriga os sentimentos, lembranças e angústias da protagonista. A presença espiritual da falecida naquele ambiente atua como um constante lembrete do passado, mas também como um impulso para que Anabel enfrente a solidão e encontre em Meiko o seu ponto de equilíbrio.


Ao transformar o luto, a solidão e a memória em elementos centrais de sua narrativa, Cinco da Tarde encontra beleza justamente nos momentos mais silenciosos da existência. Apesar de monótono em alguns momentos, o filme demonstra que algumas feridas não desaparecem por completo, mas podem se tornar mais leves quando compartilhadas.


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