Crítica | Homem-Aranha: Um Novo Dia
- Gabriella Ferreira

- há 1 dia
- 3 min de leitura
Depois de anos preso ao universo compartilhado da Marvel, o herói finalmente volta a ser protagonista da própria história.

Durante boa parte da última década, a Marvel pareceu perder justamente aquilo que a transformou no maior fenômeno do cinema de entretenimento. Depois do sucesso estrondoso da Saga do Infinito, o estúdio passou a apostar em um volume quase industrial de filmes e séries, transformando o que antes era um universo compartilhado em um verdadeiro esquema de pirâmide de consumo: para entender um lançamento, era preciso assistir a dezenas de produções anteriores, acompanhar séries do Disney+ e, de preferência, ainda conhecer os quadrinhos.
O resultado foi um desgaste evidente. Enquanto Marvel e DC acumulavam fracassos de bilheteria e séries cada vez menos comentadas, o público demonstrava um cansaço natural com o gênero. Ainda assim, alguns acertos recentes mostraram que ainda existe espaço para boas histórias de super-heróis. Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, por exemplo, já indicava uma tentativa de voltar ao básico: personagens fortes, conflitos claros e menos dependência de um universo gigantesco. Agora, essa missão chega às mãos do personagem mais popular da Marvel.
Após o mundo esquecer sua identidade, Peter Parker inicia uma nova fase da vida, dividindo seu tempo entre a faculdade, um emprego de meio período e a responsabilidade de continuar protegendo Nova York como Homem-Aranha. Mas quando uma força misteriosa começa a destruir a cidade de dentro para fora, Peter se vê cercado por novos inimigos, antigos legados e aliados inesperados.
Depois de três filmes que funcionavam muito mais pelo carisma do elenco e pela presença constante de figuras como Homem de Ferro, Doutor Estranho ou até dos outros Homens-Aranha do multiverso, Homem-Aranha: Um Novo Dia finalmente entrega aquilo que parecia tão óbvio, mas que a Marvel insistia em evitar: um filme que realmente é sobre o Homem-Aranha.
Grande parte desse mérito passa pela direção de Destin Daniel Cretton, muito mais segura e inspirada do que o trabalho realizado por Jon Watts na trilogia anterior. O diretor entende que o maior superpoder de Peter Parker nunca foi lançar teias, mas continuar sendo um garoto comum tentando sobreviver a uma vida impossível.
O filme recupera elementos que fizeram o personagem conquistar gerações: a solidão, a culpa, a nerdice, e, principalmente, a relação quase simbiótica com Nova York. A cidade volta a ter personalidade própria, deixando de ser apenas um cenário para explosões e batalhas gigantescas.
Se em A Odisseia eu havia comentado que Tom Holland parecia deslocado, aqui acontece exatamente o contrário. Em Homem-Aranha: Um Novo Dia, o ator parece ocupar o lugar para o qual sempre foi escalado. Sua interpretação entrega um Peter Parker cheio de nuances, carregando o peso do luto pela Tia May, convivendo com o vazio provocado pelo esquecimento de seus amigos e tentando equilibrar o desejo de ter uma vida normal com a responsabilidade de proteger toda uma cidade. É um desempenho mais maduro e emocionalmente convincente, permitindo que Holland finalmente encontre sua própria identidade dentro do personagem.
Obviamente, estamos falando de um filme da Marvel, então as conexões com o restante do universo compartilhado continuam existindo. A diferença é que, desta vez, elas funcionam a favor da narrativa.

A presença do Justiceiro cria um interessante contraponto moral ao Homem-Aranha, enquanto as participações da Viúva Negra, Hulk e da misteriosa personagem vivida por Sadie Sink surgem de maneira orgânica dentro da história. Sink, aliás, rouba diversas cenas e desperta curiosidade desde sua primeira aparição.
O roteiro finalmente entende algo que parecia esquecido pelo estúdio: os personagens convidados devem servir à história do protagonista, e não transformar o protagonista em coadjuvante do próprio filme.
Outro acerto importante está na melancolia que atravessa toda a narrativa. O fato de Peter ser um completo desconhecido para aqueles que ama devolve ao personagem um sentimento constante de perda, algo muito presente tanto nos quadrinhos quanto nas melhores adaptações do herói. Nesse contexto, as cenas entre Tom Holland e Zendaya funcionam especialmente bem. Mesmo limitadas pelas circunstâncias da trama, elas preservam a química entre os atores e mostram um amadurecimento necessário para ambos os personagens.
Homem-Aranha: Um Novo Dia está longe de ser perfeito. O terceiro ato ainda cai em alguns excessos típicos da Marvel, certas resoluções são rápidas demais e o estúdio continua incapaz de abandonar completamente a necessidade de preparar o terreno para futuras produções. Mas, pela primeira vez em muito tempo, essas amarras não sufocam a história principal.
Mais do que um bom filme da Marvel, Homem-Aranha: Um Novo Dia é um ótimo filme do Homem-Aranha. Depois de anos servindo como peça de um quebra-cabeça maior, Peter Parker finalmente volta a ser o centro da própria narrativa. E talvez esse seja justamente o maior acerto do longa: lembrar que, antes de salvar o multiverso, o Homem-Aranha sempre foi mais interessante quando estava apenas tentando salvar sua cidade.
Nota: 4/5



















