Crítica | Futuro Futuro
- Vinicius Oliveira

- há 51 minutos
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Em longa tão instigante quanto irregular, Davi Pretto usa a ascensão das IAs para tratar de deslocamento, divisão de classes e (muito) mais.

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Em uma metrópole brasileira explicitamente dividida de acordo com suas classes, um homem (Zé Maria Pescador) acorda sem memória na parte pobre da cidade. Acolhido por um homem mais velho (João Carlos Castanha) que trabalha como clickworker, ele é renomeado K em decorrência de uma estranha cicatriz no ombro, e enquanto tenta resgatar suas memórias é assolado por sonhos e visões que o fazem crer que veio da parte rica da cidade.
O cinema de Davi Pretto tem sido marcado por um passeio por uma variedade de gêneros – seja o faroeste em Rifle ou o terror em Continente –, sempre com um pé numa discussão social. Não é diferente aqui em Futuro Futuro, mas embora haja essa divisão explícita na própria arquitetura da cidade sem nome em que o filme se passa (e essa divisão ecoe no trabalho de direção de arte e na própria estrutura narrativa), o que Pretto faz aqui é compilar diversas questões e inquietações tanto contemporâneas quanto atemporais, atravessadas pelo papel crescente das IAs nas sociedades contemporâneas e, mais importante, no próprio uso delas no cinema.
Particularmente, passo muito longe de ser um entusiasta das IAs, muito pelo contrário: desprezo a grande maioria das ocasiões em que elas vêm sendo utilizadas, a relação quase psicótica que muitas pessoas têm desenvolvido com elas e as ameaças socioambientais que representam. Mas o uso de IA aqui para que visualizemos os sonhos e visões que K tem com a parte rica da cidade, mesmo que causem um bocado de estranhamento em suas primeiras incursões, não tardam a fazer sentido. É como se Pretto usasse a ideia do “vale da estranheza” que essas imagens carregam para ilustrar o deslocamento do personagem e tirá-lo da estética ligeiramente realista que o filme impõe. Há algo de surrealista e kafkaniano na jornada de K (seu nome, afinal de contas, pode ser uma referência ao protagonista de O Processo), então mais do que apropriado compor uma imagem distorcida e uncanny daquilo que ele acha que o aguarda do outro lado dos muros.

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Assim, o que se tem em Futuro Futuro é uma narrativa muito mais intimista e existencialista do que sua sinopse pode dar a entender, a qual toca em temas universais como identidade e singularidade. K é tratado como uma folha em branco, o que se reflete na atuação contida e meio impassível de Zé Maria, cujo deslocamento se reflete na sua postura contida, nas suas falas reservadas ou até no sotaque do ator, quase um estranho no ninho em meio à abundância de sotaques sulistas e sudestinos. Ainda que tenha a oportunidade de se reinventar e se descobrir – até em termos da sua sexualidade –, o personagem se vê preso às suas lacunas e às visões que possui.
Contudo, é quando o filme caminha para a outra parte dessa cidade que suas fragilidades aparecem ou se evidenciam. A cadência, ainda que lenta, com a qual Pretto organizava os acontecimentos da primeira metade é substituída por uma cadeia de eventos cada vez mais desconexa e conveniente, o que torna o longa ao mesmo tempo apressado e enfadonho. Além disso, se o uso de imagens geradas por IA se mostrava pontual e coeso com a narrativa labiríntica e existencialista de K, nessa segunda metade acaba caindo numa saturação que logo cansa, mesmo com o impacto que estas imagens apocalípticas possam gerar.
A despeito das suas inconstâncias e irregularidades, Futuro Futuro talvez oferece um dos poucos usos realmente toleráveis que já vi de IAs no cinema até o momento. Embora esteja menos interessado em tecer uma determinada crítica social e ao uso desenfreado da tecnologia do que na busca do seu protagonista por sua identidade e por sentido à sua existência, Davi Pretto não deixa de nos lembrar aquela máxima de Mark Fisher: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.
Nota: 3/5



















