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Entrevista | “É um filme sobre como um país chegou a transformar uma crise sanitária em uma tragédia política”: Dandara Ferreira fala sobre “Anatomia do Caos”

  • Foto do escritor: Giulia Meneses
    Giulia Meneses
  • há 8 horas
  • 7 min de leitura

Documentário que expõe os bastidores da CPI da Covid-19 chegou aos cinemas brasileiros no dia 2 de julho.

Divulgação


Estreia nesta quinta-feira (2) nos cinemas brasileiros, o documentário Anatomia do Caos, dirigido pela baiana Dandara Ferreira. A trama acompanha os bastidores e desdobramentos da CPI da Covid, realizada entre abril e outubro de 2021, com o objetivo de investigar ações e omissões do Governo Federal no combate à crise sanitária que resultou na morte de mais de 700 mil brasileiros. 


Inserida no contexto interno da comissão, a diretora teve acesso privilegiado aos bastidores da CPI e entrevistou parlamentares e personagens centrais para a investigação. A partir desse material, o documentário se aprofunda em temas como o negacionismo, os impactos da pandemia nas famílias brasileiras, negligências do governo federal durante a pandemia e as consequências políticas e sociais de uma das maiores tragédias da história recente do país. 


A cineasta baiana, conhecida por obras como Meu Nome é Gal (2023) e Vou Tirar Você Desse Lugar, conversou com o Oxente Pipoca sobre a organização do conteúdo adquirido, a importância de revelar ao público os bastidores da comissão, as dimensões políticas e sociais que atravessaram a CPI da Covid-19 e o papel do documentário na preservação da memória recente do país.


Confira a entrevista completa: 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Dandara, vi filme ontem e confesso que estou um pouco anestesiada ainda. Então, primeiro, vindo do menor estado do país. Falo aqui com vocês de Sergipe. Antes de 2020, eu não conseguiria pensar numa tragédia que tem envolvido diretamente todas as partes do país. Mas, infelizmente, isso mudou. Gostaria de saber em qual momento você entendeu que essa história deveria ser contada pelo momento da CPI.

 

Dandara Ferreira: Boa. Eu, na verdade, fui descobrir que essa história deveria ser contada através da CPI no momento que eu estava filmando, assim. Porque eu queria fazer alguma coisa sobre a pandemia. Eu tinha esse desejo. Porque foi um momento muito expressivo do que a gente viveu nessa atualidade.

 

Eu queria documentar alguma coisa sobre isso sem saber ainda o que seria. Lá atrás, cheguei a cogitar fazer um documentário sobre os entregadores, e a importância desses trabalhadores naquela época. Mas, enfim, não foi pra frente.

 

E aí, quando o Congresso aprova a comissão, eu senti que ali seria importante, que seriam tomadas decisões importantes, e que talvez ali, eu devesse estar presente e documentar aquilo. Então, eu fui descobrindo esse filme ao mesmo tempo em que eu estava filmando, mas principalmente depois que eu já tinha filmado tudo.

 

Eu costumo dizer que esse filme não é apenas um filme sobre a pandemia. Eu acho que é um filme sobre memória e justiça. É um filme sobre como um país chegou a um ponto de transformar uma crise sanitária em uma tragédia política.

 

Porque eu acho que a história ali é contada a partir do bastidor da CPI da Covid, que foi o momento que o Brasil começou a investigar as decisões tomadas durante a pandemia. Mas o filme não é só sobre a CPI em si. Eu acho que ela é a porta de entrada para a gente entender os mecanismos que produziram aquele caos, daquele momento que estávamos vivendo. 

 

Então, ao longo do filme, a gente acompanha ali personagens, bastidores...Enfim, imagens que marcaram a nossa memória coletiva, para reconstruir esse período que mudou a vida de todo mundo. E o que me interessava, eu acho que não era apenas lembrar o que aconteceu, mas entender como aquilo aconteceu.

 

Acho que, no fundo, é um filme sobre memória, responsabilidade e democracia também. Porque eu acredito que uma sociedade que acaba esquecendo rapidamente as suas tragédias, corre o risco de repeti-las. Então, acho que o filme não tenta explicar a pandemia, ele tenta explicar como um país chegou a naturalizar uma tragédia daquela magnitude. Na verdade, a CPI é a porta de entrada do filme, mas acho que o filme é sobre o Brasil, sabe? É sobre a gente entender nosso país. 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): É interessante ver esse outro lado da pandemia e de uma catástrofe sanitária. Mas para você, o que essas imagens da CPI revelam que talvez o público não tenha percebido acompanhando a transmissão em tempo real? 


Dandara Ferreira: Eu acho que ela acaba revelando um pouco disso que eu falei, um pouco do retrato do nosso país. Como que a gente viveu naquele período, daquela forma. Como que a gente pôde vivenciar um governo daquela magnitude, né? Um governo negligente e negacionista, um governo que debochava das pessoas com falta de ar. E eu acho que tem uma coisa também da gente se acomodar, às vezes, sabe? 


Eu não trouxe nenhuma imagem que a gente nunca tenha visto. São todas imagens que a gente já viu, mas tem uma construção, tem um pensamento ali. Eu acho que quando a gente vê aquilo, é muito chocante, sabe? Não só para a gente que vivenciou aquilo, mas para também quem não estava aqui, quem não viu. É muito chocante como a gente chegou naquele estado político. O fato de eu estar ali como essa câmara de bastidor, é uma lupa maior ainda do que a gente estava vivendo. Eu acho que ali o Congresso é um reflexo da gente, um reflexo do nosso país. 


Ao mesmo tempo, eu tenho dito o que me chocou muito, foi ver ali também um teatro. Porque quando eu estava ali, foi a minha primeira vez realmente próxima do Congresso, do Parlamento. Tinha uma coisa que me chamava a atenção, que quando a câmara da TV Senado, a câmara oficial ligava, cada um ali vestia uma máscara do seu personagem. Mas quando essa câmara é desligada, ali no bastidor, há um entrosamento entre as pessoas. Para quem está ali, eu que estava ali não só como documentarista, mas como uma pessoa da sociedade civil também, isso era um pouco chocante, sabe? O nosso país está num momento tão polarizado. As pessoas estão se matando lá fora, mas entre eles não é assim, entendeu?. A gente fica se matando aqui fora, e eles têm um tratamento cordial entre eles mesmos. 

 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O documentário aborda bastante essa questão da pandemia e a atuação do Governo Federal. Que é um governo muito emblemático até hoje. Como jornalista, eu tenho essa dúvida: Como vocês trabalharam para que essa narrativa fosse sustentada pelos registros disponíveis. Principalmente sabendo que não tivemos uma responsabilização majoritária daquele coletivo?  


Dandara Ferreira: Eu acho que, assim, principalmente a pandemia, não acabou simbolicamente no Brasil. A gente saiu de uma emergência sanitária, mas não elaborou coletivamente o trauma. Foram centenas de milhares de mortes, famílias destruídas, várias pessoas que ficaram com reflexos de saúde do que aconteceu. Ninguém foi punido, e acho que a importância seja da necessidade de lembrar. 


O filme acaba dialogando com o presente, com diversas temáticas. Quando eu fui pensar sobre que filme seria esse, não teria como eu fugir de ter o Bolsonaro alí. O filme não é sobre o Bolsonaro, mas ele era uma figura central ali, porque ocupava a presidência durante a crise sanitária. Como inclusive é dito no filme, ele foi o grande responsável pelo que a gente viveu. Mas, ao mesmo tempo, é um filme que eu trago esses personagens, porque eles estavam exercendo aquelas posições naquele momento. Não estou falando só do Bolsonaro, mas também das pessoas que estavam representando ele naquele espaço. Porque o filme é sobre um país, sobre uma estrutura de poder, sobre vulnerabilidade coletiva, sobre como a política atravessa os corpos. 


Então, eu acho que o filme é sobre isso, sobre essa questão da responsabilidade histórica. Então, ao contar isso através do cinema, não tinha como fugir de trazer os responsáveis. As escolhas foram justamente quem são os autores do que a gente estava vivendo. Porque esse filme, como falei lá atrás, é sobre memória, sobre justiça, então para pensar sobre justiça, temos que também entender quem foram os responsáveis por isso. 


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Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Algo marcante para mim foi a eleição de 2022, que foi a minha primeira eleição votando de fato. Como diretora, nesse ano de eleições presidenciais, qual a lição que você espera que as pessoas levem do documentário? E pra você, qual o papel do documentário em não deixar que essa história recente se apague? 


Dandara Ferreira: Então, o filme está ficando pronto nesse ano, mas a minha intenção, na verdade, era que ele ficasse pronto na eleição passada. Enfim, eu demorei quase quatro anos pra poder fazer esse filme, mas lança-lo nesse momento tem uma importância enorme. Porque vivemos um período em que memória é constantemente disputada. Acho que existe uma tendência da gente seguir em frente muito rapidamente, sem elaborar o que aconteceu, e acho que um país não consegue progredir se não trabalharmos as nossas memórias. 


Precisamos trabalhar nossas memórias para progredir como projeto de país. E, ao mesmo tempo, acho que o cinema pode ajudar nisso de interromper esse esquecimento também, e devolver a complexidade de um período que marcou o nosso país. Então, eu espero que o filme seja visto agora. Porque eu acho que ele traz um papel importante de repensarmos a nossa democracia. Repensarmos nossas escolhas, e ao mesmo tempo refletir sobre o que aconteceu e o que não aconteceu. Porque ninguém foi punido, ninguém foi preso pelo que aconteceu durante a pandemia. Mas eu também não quero que seja um filme datado do presente, espero realmente que ele seja visto no futuro. 


Se a gente quiser compreender o nosso país, o que aconteceu durante a pandemia, acho que ele serve como retrato disso. Até porque, como eu falei, não é um filme sobre a pandemia inteira, mas serve como retrato do momento que a gente viveu. E acho que é um filme que fala sobre democracia, sobre responsabilidade de instituições, sobre o valor da vida humana. Então, acho que é importante, nesse momento, esse filme vir agora. 

 

Giulia Meneses (Oxente Pipoca): E, por último, temos a tradição de pedir para nossos entrevistados indicarem um filme, ou, no seu caso, um documentário, para o pessoal que acompanha o Oxente Pipoca. 


Dandara Ferreira: Já aproveitando que acabamos de falar dessa pergunta sobre eleições, sobre esse momento atual, gostaria de indicar um filme que eu gosto muito, que se chama Entre Atos, do João Moreira Salles. Porque acho que dá para fazer uma dobradinha do meu filme e com o dele. 


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