Crítica | Yellow Cake (15º Olhar de Cinema)
- Vinicius Oliveira

- há 3 horas
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Misticismo sertanejo enfrenta a racionalidade ocidental em um filme de boas aspirações, mas irregular.

Filme de abertura da 15ª edição do Olhar de Cinema, Yellow Cake é um daqueles filmes que operam na chave de referências certamente conhecidas para criar algo seu dentro do panorama de cinema de gênero. Alguns dos nomes que vão surgindo nos créditos de abertura (Tânia Maria, Valmir do Côco, Ali Willow, a produção executiva de Emilie Lasclaux e Kleber Mendonça Filho), aliados à ambientação sertaneja neste Brasil distópico, imediatamente remetem a Bacurau, enquanto o motor narrativo – a busca por urânio na cidadezinha de Picuí, enquanto cientistas estadunidenseses ligam essa busca a pesquisas envolvendo o mosquito da dengue, com resultados catastróficos e transcendentais – ligam o filme a obras como Stalker e Chernobyl, mas com um sabor decididamente regional.
Neste sentido, a figura da cientista Rúbia (Rejane Faria) representa nossos olhos e ouvidos em meio a este cenário complexo que se desenrola em Picuí. A atriz mineira faz da sua protagonista uma figura pragmática e imponente, ela mesma complexa e repleta de nuances: ora lidando friamente com o grupo dos cientistas estadunidenses capitaneados pelo arrogante Bill (Spencer Callahan) ou com os mineiros locais liderados pelo intempestivo Catita (Valmir do Côco), ora se portando com mais sensibilidade e afeto com sua amante Nazaré (Rosa Malagueta), dona da pousada local. A relação das duas se configura, inclusive, um acerto, trabalhada com graduais revelações a respeito do seu verdadeiro status de uma maneira orgânica e sem proselitismos.
Ao longo da sua primeira metade, Yellow Cake vai se revelando um thriller onde os interesses locais e estrangeiros se digladiam, e a figura de Rúbia emerge como uma mediadora, mas de um caráter certamente ambíguo. Funciona, apesar da montagem um tanto desconjuntada ou de alguns diálogos rasos – estes evidentes sobretudo nas cenas com os cientistas estadunidenses, que sofrem do mesmo mal dos mercenários estrangeiros Bacurau no sentido de serem reduzidos a meras caricaturas nesta posição de antagonistas. O filme sabe trabalhar melhor o seu conjunto de personagens locais, com Valmir se revelando inclusive a minha atuação favorita aqui. Por outro lado, as aparições pontuais de Tânia Maria sempre encantam, mas não deixam de carregar aquela sensação de que é a mesma variação da personagem que vimos dela brevemente em Bacurau e depois mais ampliada como a icônica Dona Sebastiana de O Agente Secreto. Talvez por ser ela interpretando a si mesma, e isso em si não é um demérito, mas aqui soa deslocado.

Os problemas de fato se dão na segunda metade do filme. Sem dar maiores spoilers, há uma virada de chave (que já podia ser antecipada devido à tensão gradual na primeira metade) e o filme então mergulha em um caminho mais experimental, com toques até sobrenaturais, que demandam respostas que praticamente não são dadas. Isso não é um problema – é possível ver nessa mudança tonal uma boa ideia a respeito da incompreensibilidade e da força do misticismo sertanejo frente à racionalidade ocidental e sua arrogância –, mas a despeito do que isso significa enquanto ameaça para as vidas dos habitantes em Picuí, tal ameaça nunca é sentida.
É louvável que a câmera de Tiago Melo busque novas ideias e experimentações, ou que o filme abrace mais elementos do cinema de gênero (inclusive sendo esse o momento em que ele se distancia de Bacurau para ir até algo mais próximo do reino de Stalker), mas estas boas ideias não se convertem numa boa execução. Tem-se um filme esvaziado de tensão, que gasta metade da sua curta duração dando tantas voltas em si mesmo que esta duração parece muito maior. É até interessante o peso que a figura do misterioso Nozinho (Severino de Dadá) assume aqui – junto a Valmir, ele é talvez meu favorito do elenco –, mas por si só não sustenta a apatia que acomete essa segunda metade do filme acarreta, talvez um tanto embebido (e ao mesmo tempo limitado) por suas ambições.
No fim, Yellow Cake busca ser um exercício dinâmico, embora em algumas partes derivativo, do cinema de gênero, olhando para o lugar do sertanejo frente às forças estrangeiras que tentam domesticá-lo. Sempre defenderei que filmes assim existam e encontrem espaço no cinema brasileiro, mas isso não significa eximir o filme de falhas flagrantes que vão se acumulando ao longo da sua duração. De tudo que ele poderia fazer seu público sentir diante da sua proposta, referências e ambientação, é uma pena que ao final o sentimento dominante seja o do tédio.
Nota: 2.5/5



















