Crítica | O Mez da Gripe (15º Olhar de Cinema)
- Vinicius Oliveira

- há 4 dias
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William Biagioli tensiona e borra os limites entre documentário e ficção ao por em cheque a fidelidade das imagens de arquivo.

Nos primeiros minutos de O Mez da Grippe, letreiros informam que o material de arquivo apresentado no filme foi encontrado em 2021 na Casa da Memória de Curitiba e era pertencente a Ivo Nalce Jr., professor da UFPR. O intuito da obra seria, portanto, apresentar tais materiais com o máximo possível de fidedignidade, mas não demora para que ocorra um certo estranhamento e que o espectador ponha em xeque a veracidade dessas imagens.
Afinal de contas, Ivo Nalce Jr. realmente existiu? Essa é só uma das muitas perguntas que o diretor William Biagioli nos força a fazer nos primeiros minutos do filme, adaptado do livro homônimo de Valêncio Xavier (criador da Cinemateca de Curitiba) e que se concentra no período em que a capital paranaense foi afetada pela gripe espanhola em 1918. A figura, real ou fictícia de Ivo, é apenas o ponto de partida para Biagioli explorar uma linha aparentemente bem tênue entre realidade e ficção a partir justamente dessas imagens de arquivo, comumente tidas como uma “prova do real” no cinema documental.
Em termos gerais, Biagioli não busca esconder esse tensionamento. Se as imagens de arquivo em geral da Curitiba do início do século passado parecem verídicas, as intervenções através da voz de Ivo e seus colegas, bem como os breves instantes em que suas imagens são vistas, certamente não o são, no sentido de que está clara a encenação e ficcionalização destes momentos. A entrega do elenco em seus trabalhos de voz alude a uma evidente teatralidade (sobretudo nas articulações das palavras), além da nítida textura nas vozes que indica se tratarem de gravações certamente mais contemporâneas do que as imagens que vemos em tela.
Não só isso, mas o suposto “respeito” ao material prometido nos letreiros iniciais não tarda a ser deixado de lado, conforme Biagioli experimenta e manipula estas imagens e vídeos. Nesse sentido, me fez lembrar outro filme feito no festival, Gato na Cabeça, ao retrabalhar essa “prova do real” que se assume a partir das imagens de arquivo, mas aqui há um sentido de provocação e confusão deliberadas, já que gradativamente o filme vai borrando mais e mais essas linhas. Tal manipulação faz com que em sua reta final a obra até assuma contornos de terror, conforme as imagens, combinadas às trilhas musicais, se revelam mais macabras, e as imagens de leitos de hospitais, pessoas doentes e casas vazias fazem com que seja impossível não traçar paralelos com a pandemia da COVID-19.
Apesar de toda essa “brincadeira” se configurar numa experimentação deveras interessante, é inegável que em diversos instantes, sobretudo por volta da sua metade, o formato de O Mez da Grippe satura. As narrações de Ivo perdem sua organicidade (e a declamação teatral se mostra cada vez mais deslocada), e no fim as imagens parecem mais se acumular sem valor ou sentido do que necessariamente comunicar a proposta intervencionista de seu realizador.
Apesar disso, o filme se configura numa experiência única, até mesmo divertida (seja isto deliberado ou não), conforme suas intervenções e manipulações nas imagens se sobrepõem com as narrações, as entrevistas com os “sobreviventes” da gripe ou seus “descendentes”, as supostas musiquinhas e propagandas da época, ou até com a textura destas imagens perdidas no tempo. O que é real e o que é fictício? Depois de um tempo, não importa mais. Mas ao final Bagioli reconstitui uma época de Curitiba que precisa ser lembrada, a seu próprio modo.
Nota: 3/5



















