top of page

Início > Críticas

​

Crítica | Silvio Santos Vem Aí

Ávila Oliveira

10 de nov de 2025 · 2 min de leitura

Tom emulado de narrativa artificial consolida resultado com aparência barata e amadora
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Em 1989, Silvio Santos (Leandro Hassum) surpreendeu o Brasil ao entrar na corrida presidencial. Sua equipe de campanha envia então a jornalista Marília (Manu Gavassi) para acompanhar e entrevistar Silvio, com o objetivo de entender o seu passado e prever o que os adversários podem vir a usar contra ele nos debates. Apesar de ser figura onipresente nos domingos das famílias de todo o Brasil, a vida particular de Silvio é um mistério e a jovem jornalista precisa encarar o desafio de descobrir quem é o homem por trás da lenda. Quanto mais Marília convive com Silvio, mais ela sente a necessidade de entender o que o motiva a concorrer à presidência. O relacionamento dos dois se constrói como uma espécie de duelo – enquanto Silvio tenta resguardar sua vida privada, Marília precisa esmiuçá-la nos mínimos detalhes. Desse encontro, ambos sairão mudados.


Dar vida a uma personalidade tão distinta em seus maneirismos como foi Silvio Santos sempre será uma missão arriscada. Se a proposta não for trazer uma interpretação que assumidamente tente fugir do real, como pastiche, por exemplo, ela eventualmente vai cair num espaço caricato involuntariamente. E então tem-se um rosto bem conhecido pela sua maneira de fazer comédia, como Leandro Hassum, e não teria outra possibilidade a não ser o confronto dessas personalidade em cena, que, em vez de convergirem para o meio-termo, acabam por competir pelo mesmo lugar impossível de ser alcançado por dois corpos diferentes. Hassum, apesar do esforço evidente, nunca encontra o ponto de equilíbrio entre a imitação e a interpretação, tornando o Silvio que vemos em tela uma figura híbrida, distante tanto do homem quanto do mito (dualidade clichê que toda obra abordando a figura parecem querer tratar).


O roteiro busca humanizar a figura de Senor Abravanel, mas encerra por mistificar ainda mais a figura idolatrada do grande comunicador, do azarão seguidor da teologia do progresso, do Midas midiático. A estrutura narrativa de colocar a personagem Marília imaginando as etapas propositais da vida de Silvio Santos enquanto ele apresenta seus diversos programas, num tipo de Fellini desastrado, resulta em momentos bagunçados e um tanto vexatórios por nunca conseguir encontrar o mesmo tom entre real, imaginário, fictício, comédia, drama, romance, paródia e referência.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

As atuações imprimem artificialidade, presas a gestos engessados e expressões previsíveis. Existem, inclusive, vários personagens coadjuvantes que em nada somam ao todo. Falta organicidade às performances e um olhar mais sensível da direção de atores para extrair verdade das cenas. A dinâmica com Marília, que deveria sustentar o arco emocional do filme, se dissolve em trocas mecânicas e sem tensão dramática.


Os diálogos, a cenografia e o ritmo seguem a mesma lógica apressada. Tudo parece ter sido feito com o mínimo de cuidado estético, sem a pesquisa ou o requinte visual que uma produção de época naturalmente exige. Há uma falta de textura, de identidade e de vida nas composições de cena, como se a pressa em concluir o projeto tivesse suprimido o desejo de refiná-lo. É um longa que, em vez de iluminar a complexidade hipotética da persona Silvio Santos, apenas endossa o vazio de uma encenação que nunca cativa ou mesmo convence.


Nota: 1/5


LEIA TAMBÉM

CRÍTICAS

Crítica | Tudo Pode Ser Visto (Mostra de SP 2026)

CRÍTICAS

Crítica | NAZA

CRÍTICAS

Crítica | O Bosque Selvagem

MAIS RECENTES

NOTÍCIAS

Lista | Os melhores filmes vistos na 50ª Mostra de SP

NOTÍCIAS

Criadores de 'Delegado' revelam que série chegou a ter arcos para...

NOTÍCIAS

Lázaro Ramos diz que Feito Pipa propõe uma "pedagogia do afeto" ao...

CATEGORIAS

Notícias
Críticas
Análises
Awards Season
Crias do Brasil
Listas
Entrevistas
Festivais

NEWSLETTER

image.png

Cinema brasileiro, festivais e temporada de premiações direto no seu e-mail

MAIS LIDAS NO MÊS

01

NOTÍCIAS

Lázaro Ramos diz que Feito Pipa propõe uma "pedagogia do afeto" ao...

02

NOTÍCIAS

Uma adaptação de Os Imortais, de Paulliny Tort, está em...

03

NOTÍCIAS

Lista | Os melhores filmes vistos na 50ª Mostra de SP

Crítica | Silvio Santos Vem Aí

10 de nov. de 2025
2 min de leitura

Atualizado: 8 de out.

Tom emulado de narrativa artificial consolida resultado com aparência barata e amadora
Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Em 1989, Silvio Santos (Leandro Hassum) surpreendeu o Brasil ao entrar na corrida presidencial. Sua equipe de campanha envia então a jornalista Marília (Manu Gavassi) para acompanhar e entrevistar Silvio, com o objetivo de entender o seu passado e prever o que os adversários podem vir a usar contra ele nos debates. Apesar de ser figura onipresente nos domingos das famílias de todo o Brasil, a vida particular de Silvio é um mistério e a jovem jornalista precisa encarar o desafio de descobrir quem é o homem por trás da lenda. Quanto mais Marília convive com Silvio, mais ela sente a necessidade de entender o que o motiva a concorrer à presidência. O relacionamento dos dois se constrói como uma espécie de duelo – enquanto Silvio tenta resguardar sua vida privada, Marília precisa esmiuçá-la nos mínimos detalhes. Desse encontro, ambos sairão mudados.


Dar vida a uma personalidade tão distinta em seus maneirismos como foi Silvio Santos sempre será uma missão arriscada. Se a proposta não for trazer uma interpretação que assumidamente tente fugir do real, como pastiche, por exemplo, ela eventualmente vai cair num espaço caricato involuntariamente. E então tem-se um rosto bem conhecido pela sua maneira de fazer comédia, como Leandro Hassum, e não teria outra possibilidade a não ser o confronto dessas personalidade em cena, que, em vez de convergirem para o meio-termo, acabam por competir pelo mesmo lugar impossível de ser alcançado por dois corpos diferentes. Hassum, apesar do esforço evidente, nunca encontra o ponto de equilíbrio entre a imitação e a interpretação, tornando o Silvio que vemos em tela uma figura híbrida, distante tanto do homem quanto do mito (dualidade clichê que toda obra abordando a figura parecem querer tratar).


O roteiro busca humanizar a figura de Senor Abravanel, mas encerra por mistificar ainda mais a figura idolatrada do grande comunicador, do azarão seguidor da teologia do progresso, do Midas midiático. A estrutura narrativa de colocar a personagem Marília imaginando as etapas propositais da vida de Silvio Santos enquanto ele apresenta seus diversos programas, num tipo de Fellini desastrado, resulta em momentos bagunçados e um tanto vexatórios por nunca conseguir encontrar o mesmo tom entre real, imaginário, fictício, comédia, drama, romance, paródia e referência.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

As atuações imprimem artificialidade, presas a gestos engessados e expressões previsíveis. Existem, inclusive, vários personagens coadjuvantes que em nada somam ao todo. Falta organicidade às performances e um olhar mais sensível da direção de atores para extrair verdade das cenas. A dinâmica com Marília, que deveria sustentar o arco emocional do filme, se dissolve em trocas mecânicas e sem tensão dramática.


Os diálogos, a cenografia e o ritmo seguem a mesma lógica apressada. Tudo parece ter sido feito com o mínimo de cuidado estético, sem a pesquisa ou o requinte visual que uma produção de época naturalmente exige. Há uma falta de textura, de identidade e de vida nas composições de cena, como se a pressa em concluir o projeto tivesse suprimido o desejo de refiná-lo. É um longa que, em vez de iluminar a complexidade hipotética da persona Silvio Santos, apenas endossa o vazio de uma encenação que nunca cativa ou mesmo convence.


Nota: 1/5


CONTINUE LENDO

CRÍTICAS

Crítica | Quero Ser Como Você (Mostra de SP 2026)

CRÍTICAS

Crítica | Amadeo e o Hipotético Mundo Novo (Mostra de SP 2026)

CRÍTICAS

Crítica | A História Mais Triste do Mundo (Mostra de SP 2026)

bottom of page