Crítica | Timidez
- Vinicius Oliveira

- há 2 horas
- 3 min de leitura
Teatro e cinema se cruzam (e se chocam) em narrativa que aposta na desestabilização psicológica.

Desde os seus primórdios, o cinema sempre bebeu de outras artes, em especial o teatro, de onde incorporou ideias como a encenação ou as performances atorais. Mesmo eventualmente desenvolvendo sua própria linguagem, o intercâmbio entre as duas artes permaneceu firme e forte, como visto em obras cinematográficas que adaptam peças teatrais ambientadas em um único espaço.
É o caso do longa-metragem baiano Timidez, codirigido por Thiago Gomes Rosa e Susan Kalik. Adaptado da peça O Cego e o Louco, o filme acompanha Jonas (Dan Ferreira) um jovem artista negro que vive à sombra do irmão cego Nestor (Antônio Marcelo), uma presença sufocante com quem divide a casa. Mas quando Lúcia (Evana Jeyssan), a vizinha do andar de cima, aceita um convite para jantar, Jonas precisará enfrentar seus próprios fantasmas, e começa a duvidar de si mesmo.
Sendo quase todo ambientado dentro do apartamento de Jonas e Nestor, Timidez ancora-se sobretudo num trabalho de direção de arte que representa a familiaridade do lugar para os irmãos, mas também a claustrofobia à medida que os conflitos entre eles crescem. Elementos como as luzes acesas e apagadas, os quadros tortos e tanto mais evocam aquela que pode ser entendida como a palavra-chave do filme: “desestabilização”. A direção de Rosa e Kalik aposta em planos-detalhes que, associados a este trabalho de direção de arte e também de som, evocam a dimensão psicológica dos personagens, sobretudo Jonas, e sua gradativa deterioração. São os tiques nervosos, o bater constante da bengala de Nestor, a câmera trêmula em determinados instantes ou até a lente desfocada nos planos gerais de Salvador e dos flashbacks, tudo isso corroborando para a compreensão de que há algo de errado com estes personagens e o ambiente que os cerca.
Neste sentido, é fundamental para o filme ter êxito no seu par de atuações principais. Dan Ferreira tem certamente o papel mais difícil, já que fica evidente desde o começo que seu personagem tem questões mentais que só entenderemos mais ao fundo no final do filme. Entretanto, falta certa sutileza na composição deste personagem, o que acaba incorrendo em uma abordagem um tanto estereotipada do que é o “louco” no audiovisual. Antônio Marcelo se sobressai com uma atuação mais sutil e carismática (e que também demanda certa fisicalidade em razão da cegueira de Nestor), mas em alguns momentos é comprometido pela ênfase do filme em resguardar mais da linguagem teatral da peça original, que acaba sendo seu principal problema.

São instantes em que os monólogos soam engessados, pouco orgânicos dentro da lógica que o filme impõe a si mesmo. Ainda que herde da peça a ideia de se passar majoritariamente em um único cenário, não deixa de ser um filme, e nisto reside toda a diferença: até a maneira pela qual encontra para nos revelar seu grande mistério (o qual, sinceramente, já podia ser antecipado lá pela metade da obra) só ganha força justamente por ancorar na estética e na linguagem cinematográfica, à medida que salta entre passado e presente para revelar a verdadeira natureza da relação de Jonas e Nestor. Há também um monólogo deste perto do final do filme que se sobressai muito a outros mais “teatrais”, quase como se a direção conseguisse capturar uma performance mais próxima do que se esperaria de um filme do que de uma peça.
Justamente por operar nessa instabilidade entre o que advém do teatro e do cinema (uma instabilidade que não parece intencional), Timidez acaba minando certa parte do seu potencial. Os melhores momentos se dão na interação entre os irmãos e a dinâmica oscilante entre eles – não à toa o ponto alto do filme é a cena da dança ao som de A Gente Precisa Ver o Luar, de Gil. Se o filme consegue sustentar o interesse do público por suas 1h20 de duração, é muito pelos momentos em que sabe transcender as limitações que suas origens teatrais poderiam impor para abraçar a riqueza da linguagem cinematográfica para contar sua história.
Nota: 3/5



















